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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Somos todos Maju?


por Danielle Anatólio,
Esta é a mais nova expressão afirmada por diversas pessoas em redes sociais e enfatizada pelo Jornalista, Editor Chefe do Jornal Nacional da Rede Globo, William Bonner, após crimes cometidos contra a Jornalista Maria Júlia Coutinho. Sim, cometer racismo no Brasil é crime desde 1989, através da lei 7716 que considera “a prática inafiançável e imprescritível”.

Não adianta reservar 2 minutos do Jornal Nacional para levantar a bandeira “Somos Todos Maju” e o racismo institucional imperar dentro da emissora mais influente da televisão brasileira.

Não adianta gritar Somos Todos Maju e ter um quadro de 15% de artistas negros nas novelas, quando temos uma realidade de tantos artistas (atores, atrizes, cantoras, produtoras, diretores, maquiadores, poetas, entre outros) negros no anonimato espalhados pelos quatro cantos do Brasil.

Desde a década de 40, quando o Teatro Experimental do Negro entrou goela abaixo e incomodou a arte brasileira exigindo espaço e reconhecimento, reivindicamos a necessidade de enegrecer o teatro e a televisão brasileira em todas as instâncias, inclusive no jornalismo.

Não adianta Serem Todos Maju e fazerem uma entre dez novelas ao ano, dando espaço mínimo para tratar algumas questões raciais de forma superficial. O racismo é recorrente, não é eventual, é uma tecla a ser tocada incansavelmente!

Não adianta Serem Todos Maju, considerarem como grandes referências da televisão apenas Fernanda Montenegro ou Nathália Timberg e permitir que artistas como a digníssima Ruth de Souza, com mais de 60 anos de profissão permaneça invisível no cenário artístico ou mesmo oferecer migalhas a Tony Tornado, num pequeno quadro do Zorra Total depois de 40 anos de trajetória na televisão e no cinema. Não adianta Ser Maju de noite e pelas manhãs ter desencontros no ‘Encontro’.

Não adianta Bonner Ser Maju e o Diretor Geral de Jornalismo, Ali Kamel, chefe também de Maria Júlia Coutinho, sustentar em seu livro “NÃO SOMOS RACISTAS” que o Brasil não necessita de cotas e que com a adoção das mesmas podemos nos tornar racistas.

Já que é para levantar bandeira, sejam Maju em tudo que for necessário. Primeiro, pronunciando corretamente as palavras. O que Maria Júlia Coutinho e mais da metade da população no país sofre é RACISMO.

Não é comentário inadequado ou duras críticas, estou falando de RA- CIS-MO! Isto é crime, não é “questão de opinião”. Segundo, identidade começa pelo nome, Maju tem.

Não precisa do Jornal Nacional, em crises constantes de audiência, rebatizá-la. Nunca assisti um jornalista branco sendo indagado se deseja ser Fatinha, Sandrinha ou Cidinho.

Negros tem nome e sobrenome e precisamos ser chamados por tais, ainda que dos nossos até isto foi tirado.

Existe uma doente euforia nas redes sociais quando se trata de assuntos caros à sociedade, como racismo, casamento entre pessoas do mesmo sexo ou questões relacionadas às mulheres, nos quais, de repente, todo mundo se torna a mesma coisa.

Pessoas viram macacos, perfis viram arco-íris. Depois que todo mundo se torna essa mesma coisa o que acontece e em qual condição fica aquele que já era/é a própria “coisa”?

Somos Todos Maju? Quem é Maju?

Maju é quem luta contra o GENOCÍDIO DOS JOVENS NEGROS nos bairros mais periféricos das grandes capitais; Maju são os que lutam com os INDÍGENAS, por um pedaço de chão e pelas vagas dentro das Universidades; são os QUILOMBOLAS que dormem sem a certeza de que acordarão em suas terras; Maju é minha MÃE NEGRA, solteira, que deu duro de dia para trazer às noites, o meu pão de cada dia; é Laudelina de Campos Melo, que na década de 20 regulamentou a profissão das empregadas domésticas; é Carolina Maria de Jesus, que mesmo completado seu centenário em 2014 ainda é invisibilizada pelas cortes acadêmicas-científicas; são as vozes que ecoam nos saraus periféricos com poesias e prosas negras; são os que pelejam CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL; são as feministas negras que dão a cara à tapa para conquistarem liberdade; Maju é Leci Brandão, Martinho da Vila, Jorge Aragão e Jovelina Pérola Negra nos morros isolados dos centros das cidades urbanizadas; é Luiz Gama, Abdias Nascimento e Carlos Moore que denunciou o racismo dentro da contraditória Revolução Cubana; Maju são as MATRIARCAS e as CRIANÇAS DE CANDOMBLÉ que tem suas cabeças apedrejadas pelos fanáticos neopentecostais; Maju é Léa Garcia, Ruth de Souza, Zózimo Bulbul e Joel Zito Araújo; é Zileide Silva, Heraldo Pereira e Glória Maria.

Maju não é quem empunha euforicamente uma bandeira, mas quem abre mão de seus privilégios e compactua da batalha travada desde a diáspora em terras brasilis. Maju é Maria Júlia Coutinho, mulher negra, casada e jornalista atuante na Rede Globo desde 2005 e que só após 10 anos o Brasil passa a conhecer seu trabalho.

Não São Todos Maju! Se São Todos Maju, teriam de ser Todos Amarildo, Rafael Vieira, Cláudia da Silva Ferreira, Joel Castro, Mães e Jovens do Cabula, entre tantos outros que o RACISMO mata todos os dias, seja nas bancadas do Planalto ou em outras esquinas.

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Danielle Anatólio
Atriz e Historiadora

Fonte: Geledés.

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