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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Jornada de ‘Rainha Crespa’ ilustra revolução contra ‘ditadura da chapinha’


Elaine Rosa, 26 anos, cresceu ao pé do Morro do Salgueiro, no Rio de Janeiro, filha de um funcionário público. Nas escolas particulares por onde passaram e no curso de inglês, Elaine e as irmãs, bolsistas, eram as únicas negras. A menina se sentia diferente das colegas, odiava o curso de inglês. A lembrança mais doída é a dos romances adolescentes que nunca vingavam. “Eu gostava de um menino, mas ele nunca olhava para mim. Não me achavam bonita, eu não me achava bonita”, lembra.

Por Fernanda da Escóssia Do BBC,
Para domar o cabelo, Elaine usava tranças e muito relaxamento à base de química.

Cansada de se sentir diferente, trocou a escola particular pela Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica), pública. “Comecei a andar com a turma do subúrbio, que curtia hip hop e valorizava o fato de eu ser negra”, lembra.

Entre trança e química, o cabelo começou a cair. Cada vez mais envolvida com a cultura negra e ainda com medo de ficar careca, mudou de vez o que passava pela sua cabeça – literalmente.

A moça da Pavuna é personagem de um fenômeno que agita as redes sociais e aos poucos se mostra nas ruas brasileiras: a valorização do cabelo crespo como forma de celebrar também a identidade negra.

Sites, blogs, editoriais de moda e comunidades virtuais (Meninas Black Power, Cabelo – Ruim é o seu preconceito, Manifesto Crespo) louvam a beleza do cabelo crespo, anelado, afro, trançado, cacheado, enrolado.

No país que canta “o teu cabelo não nega, mulata”, a marchinha de Lamartine Babo que diz “como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor”, cabelo crespo está em alta, cada vez mais, para pôr fim ao que muitos veem como “ditadura da chapinha e do alisamento”.


Agora Elaine aposta em turbantes, faixas e ativismo social para conter o preconceito.

Com amigos da Pavuna, criou uma microempresa (Rainha Crespa) e a Feira Crespa, um evento de valorização da beleza e da identidade negras, com venda de produtos de moda e beleza, oficinas e debates.

A Feira terá sua terceira edição neste sábado, 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

O projeto da Feira levou Elaine, que cursou Produção Cultural no IFRJ (Instituto Federal de Educação do Rio de Janeiro), a ser selecionada para a Agência de Redes para a Juventude, uma organização que estimula projetos inovadores de jovens de periferia.

Em abril, Elaine integrou a delegação que a Agência levou a um debate na Universidade de Stanford, na Califórnia. “O detestado curso de inglês afinal mostrou utilidade”, brinca ela.

A onda crespa chega forte ao mercado de cosméticos e também aos salões de beleza. Considerado um dos maiores especialistas do país em cabelos crespos, Wilson Eliodorio atende em seu salão, em São Paulo, as atrizes negras Thaís Araújo e Cris Vianna e a louríssima Fiorella Mattheis.

Diz que o movimento de aceitação dos crespos começou há alguns anos e percebe o estágio atual como um momento que aprofunda a valorização da identidade negra e do poder feminino.

Para Eliodorio, que é negro, muitos profissionais têm medo de cabelos crespos, do seu volume e do que aparece quando sai a química. “Com química, os cabelos vão ficando um lixo. Recebo aqui clientes que começaram a alisar aos oito anos de idade e agora querem se livrar da química”, conta.


No morro do Chapéu Mangueira, no Leme (zona sul do Rio), química não entra no salão Consciência Dreads, criado por Marilene Gonçalves, 34, terapeuta capilar e tranceira profissional.

Ela aprendeu o ofício no interior de Minas, com a mãe, também negra, que jamais permitiu alisar o cabelo da filha. No Rio, começou a trançar na praia e atraiu a atenção de quem passava. Aprendeu a massagear e a hidratar cabelos crespos, a trançar sem causar dor.

“Cansei de ouvir que meu cabelo era ruim, era duro. E aprendi a cuidar dele, a gostar de mim”, diz Marilene, que não trabalha com alisamento, mas não condena quem faz.

Cansada de procurar acessórios para os cabelos crespos das filhas Luiza e Elis, a artesã Renata Morais criou em 2012 a Lulu e Lili Acessórios, com faixas, turbantes e laços apropriados para o tipo de cabelo e a idade das meninas.

Hoje oferece produtos em feiras e eventos e criou acessórios para todas as idades, e está partindo também para uma linha de roupas.

Em abril, um editorial de moda de sua empresa, “Sete Meninas Crespas”, produzido pelo coletivo Quilombo dos Meninos Crespos, se espalhou pela internet. “Eu fui uma criança infeliz porque não me identificava com nada que vendiam nas lojas. Não era para mim, era para crianças de cabelo liso. Quero que as minhas filhas sejam mais felizes”, diz a empresária.


Mãe de Carolina Monteiro, de 8 anos, a empresária mineira Patrícia Santos postou na internet um vídeo em que a filha rebate o preconceito de uma amiga que perguntava por que seu cabelo era duro.

“Meu cabelo não é duro. Sabe o que é duro? Duro é ter que ficar aguentando pessoa ignorante falando que meu cabelo é duro”, rebate a menina de Divinópolis, interior mineiro, no vídeo que já teve mais de 200 mil visualizações só na página criada pela sua mãe.

Segundo Patrícia, mesmo depois do vídeo, a filha ainda recebe agressões.

“Esses dias mesmo ela chegou chorando, porque dois garotos disseram que o cabelo dela era duro”, conta a empresária, que cresceu ouvindo as mesmas agressões, mas prometeu a si mesma que sua filha, ao contrário dela, saberia reagir.

Casos como o de Carolina dão indícios de que, em meio à onda de felicidade cacheada e valorização do cabelo afro, preconceito e racismo ainda persistem.

Em vários lugares onde trabalhou, a analista de mídias sociais Priscila Barbosa, 28, já ouviu apelos para suavizar o penteado afro e cheio de tranças.


“Agora as pessoas entenderam que não vou mudar, porque meu cabelo tem a ver com minha identidade de mulher negra”, afirma.

O que Priscila ouve no escritório é o mesmo sentimento que aparece nas pesquisas de Maria Aparecida Silva Bento, coordenadora executiva do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), instituição sediada em São Paulo que desde 1990 estuda a questão racial no Brasil.

Doutora em Psicologia pela USP e integrante da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia, Cida Bento ressalta que o cabelo afro, admirado nas ruas, sofre preconceito no ambiente corporativo.

Lembra o caso de uma colega que ouviu de uma consultora de RH que, se quisesse o cargo, teria que mudar o penteado. “O território da grande empresa, do poder, é onde o cabelo afro, e da mulher negra, principalmente, sofre o maior preconceito. É como se dissessem: ‘na rua, tudo bem, mas aqui é lugar de trabalho, não queremos esse cabelo’. O mundo do trabalho ainda discrimina”, alerta a ativista.

Fonte: GeledésBBC.

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