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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Projeto “Africanidade nas escolas” chega a Escola Classe 19 Gama/DF


Na próxima sexta-feira dia (30/08), os alunos da Escola Classe 19 do Gama – EC 19 receberão a segunda temporada do projeto “Africanidade nas escolas”. As apresentações teatrais e oficinas aconteceram no período matutino e vespertino.

Dentre as atividades, o espetáculo Tributo Africanidade – MADEB, com homenagem a heróis e heroínas negros e negras, seguido de oficinas de turbante e maquiagem com Agatha Mikaely; de Rap com Neemias; de samba com Erasmo; Breakdance e de Dança contemporânea com o Grupo Cultural Azulim e Capoeira e Percussão com Contramestre Biliu do Grupo Candeias.

Oficinas:
Turbante e maquiagem - Agatha Mikaely
Rap – Neemias MC
Samba – Erasmo
Breakdance - Grupo Azulim
Dança contemporânea - Grupo Azulim
Capoeira – Grupo Candeias
Oficina de abayomi – Neide
Percussão - Grupo Candeias

Teatro:
Diretor: Marcos Augusto
Diretor: Iranildo Gonçalves
Dançarinos: Grupo Azulim
Capoeiristas: Grupo Candeias
Ator: Neemias Silva (Neemias MC)
Atriz: Agatha Mikaely
Músico: Erasmo Magalhães

Mais infos: Projeto "Africanidade nas Escolas"

AFROAFETO E AQUILOMBAMENTO (24/08)



PROGRAMAÇÃO 
Vivência Afroafeto e Aquilombamento 24 de agosto de 2019 
Local: CONAQ - Guará 2 
10h - Chegada e acolhimento 
11h - Boas Vindas CONAQ COLETIVA PRETINHAS Apresentação das participantes 
12h30 às 13h30 - Almoço 
14h - Atividade de autocuidado 
15h - Roda de conversa "Mulheres Quilombolas e Urbanas: a resistência feminina com afroafeto e aquilombamento" com Sandra Braga, Quilombo Mesquita Convidadas: Joice Marques Joseanes Lima Kamali Bantu 
18h - Harmonização do grupo e Encerramento com Júlia Nara (poetisa, compositora e cantora)
 VAGAS LIMITADAS!!! 

Racismo existe sim! | Papo Rápido







Ainda hoje algumas pessoas acreditam que racismo é algo raro no Brasil. O ex-árbitro e atual comentarista esportivo da RBS, Márcio Chagas da Silva, relata histórias de racismo que sofreu no futebol e na vida. Emicida, Fabio Porchat, João Vicente e Francisco Bosco comentam a história da escravidão no Brasil e como isso reflete no racismo nos dias de hoje. Assista:
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O amor como a prática da liberdade — bell hooks

Nesta sociedade, não há um discurso poderoso sobre o amor emergindo nem dos radicais progressistas nem da esquerda. A ausência de um foco continuado sobre o amor em círculos progressistas surge de uma falha coletiva em reconhecer as necessidades do espírito e de uma ênfase sobredeterminada nas preocupações materiais. Sem amor, nossos esforços para libertar a nós mesmas/os e nossa comunidade mundial da opressão e exploração estão condenados. Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação.

Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo. Sempre me intrigou que mulheres e homens que passam uma vida trabalhando para resistir e se opor a uma forma de dominação possam apoiar sistematicamente outras. Fiquei intrigada com poderosos líderes negros visionários que podem falar e agir apaixonadamente em resistência à dominação racial e aceitar e abraçar a dominação sexista das mulheres; com feministas brancas que trabalham diariamente para erradicar o sexismo, mas que têm grandes pontos cegos quando se trata de reconhecer e resistir ao racismo e à dominação por parte da supremacia branca do planeta. Examinando criticamente esses pontos cegos, concluo que muitas/os de nós estão motivadas/os a mover-se contra a dominação unicamente quando sentimos nossos interesses próprios diretamente ameaçados. Muitas vezes, então, o anseio não é para uma transformação coletiva de sociedade, para um fim da política de dominações; mas simplesmente para o fim do que sentimos que nos machuca. É por isso que precisamos desesperadamente de uma ética do amor para intervir em nosso desejo autocentrado por mudança. Fundamentalmente, se estamos comprometidas/os apenas com a melhoria daquela política de dominação que sentimos conduzir diretamente para nossa exploração ou opressão individual, não apenas permanecemos ligados ao status quo, mas agimos em cumplicidade com ele, nutrindo e conservando esses mesmos sistemas de dominação. Até todas/os nós sermos capazes de aceitar a natureza interconectada e interdependente dos sistemas de dominação e reconhecermos as formas específicas de manutenção de cada sistema, continuaremos a agir de forma a minar nossa busca individual por liberdade e nossa luta por libertação coletiva.

A capacidade de reconhecer pontos cegos só pode surgir à medida em que expandimos nossa preocupação sobre a política de dominação e nossa capacidade de nos preocuparmos com a opressão e exploração de outrem. Uma ética de amor torna possível essa expansão. O movimento de direitos civis transformaram a sociedade nos Estados Unidos porque era fundamentalmente enraizada em uma ética do amor. Nenhum líder enfatizou mais essa ética que Martin Luther King Jr. Ele tinha a percepção profética de reconhecer que uma revolução construída sobre qualquer outra fundação falharia. Repetidas vezes, Luther King afirmou que ele “havia decidido amar”, porque acreditava profundamente que, se estamos “buscando o bem supremo”, nós “o encontramos por meio do amor”, porque esta é “a chave que abre a porta para o significado da realidade última”. E o ponto de estar em contato com uma realidade transcendente é que lutamos por justiça, ao mesmo tempo percebendo que somos sempre mais do que nossa raça, classe ou sexo. Quando olho para trás, para o movimento pelos direitos civis que era, em muitos aspectos, limitado porque era um esforço reformista, vejo que tinha o poder de movimentar coletivos de pessoas para atuarem no interesse da justiça racial — e porque estava profundamente enraizado em uma ética do amor.

O movimento Black Power dos anos sessenta se afastou dessa ética do amor. A ênfase agora estava mais no poder. E não é de surpreender que o sexismo que sempre intensificou a luta de libertação negra, que uma abordagem misógina em relação às mulheres se tornassem centrais como a equação entre liberdade e a masculinidade patriarcal entre dirigentes políticos negros/as, quase todos homens. Na verdade, a nova militância do poder negro masculinista equiparou amor com fraqueza, anunciando que a expressão essencial da liberdade seria a vontade de coagir, fazer violência, aterrorizar; de fato utilizar as armas de dominação. Esta era a mais crua encarnação do credo corajoso de Malcolm X “por qualquer meio necessário”.

Como um lado positivo, o movimento Black Power deslocou o foco da luta pela libertação negra da reforma para a revolução. Este foi um importante desenvolvimento político, trazendo consigo uma perspectiva global anti-imperialista mais forte. No entanto, viéses sexistas machistas na liderança levaram à supressão da ética do amor. Assim, o progresso foi feito mesmo com algo valioso sendo perdido. Enquanto Luther King tinha se concentrado em amar os inimigos, Malcolm chamou-nos de volta a nós mesmos, reconhecendo que cuidar da negritude era nossa responsabilidade central. Embora Luther King tenha frisado a importância do amor próprio negro, ele falou mais sobre amar nossos inimigos. Em última análise, nem ele nem Malcolm viveram o suficiente para integrar plenamente a ética do amor numa visão de descolonização que fornecesse um plano para a erradicação do auto-ódio negro.

Os povos negros que entraram no domínio racialmente integrado da vida americana por causa do sucesso dos direitos civis e do movimento Black Power, de repente descobrimos que lutávamos com uma intensificação do racismo internalizado. As mortes desses importantes líderes (bem como as de líderes brancos liberais que eram aliados importantes na luta pela igualdade racial) trouxeram intensos sentimentos de desesperança, impotência e desespero. Feridas/os naquele espaço onde conheceríamos o amor, as/os negras/os coletivamente experimentaram uma dor viva e angústia sobre o nosso futuro. A ausência de espaços públicos onde essa dor pudesse ser articulada, expressa, compartilhada, significou que ela foi mantida infiltrada, suprimindo a possibilidade de que esse sofrimento coletivo fosse reconciliado em comunidade, até mesmo como maneira de ir além de tal sofrimento e continuar vislumbrando a luta de resistência. Sentindo como se “o mundo tivesse realmente chegado ao fim”, no sentido de que uma esperança de que a justiça racial se tornasse a norma, havia morrido, um risco de morte desesperador se apoderou da vida negra. Nunca saberemos até que ponto o foco do machismo negro sobre a dureza e a tenacidade serviu como barreira, continuamente impedindo o reconhecimento público do enorme sofrimento e dor na vida negra. Em World as Lover, World as Self Joanna Macy, no capítulo “Despair Work”, enfatiza que
“a recusa em sentir tem um preço alto. Não só há um empobrecimento da nossa vida emocional e sensorial… Mas esse entorpecimento psíquico também impede nossa capacidade de processar e responder às informações. A energia gasta em empurrar para baixo o desespero é desviada de usos mais criativos, esgotando a resiliência e a imaginação necessárias para novas visões e estratégias”.
Se as pessoas negras têm avançado em nossa luta por libertação, temos de confrontar o legado desse sofrimento irreconciliado, pois este tem sido um terreno fértil para o desespero niilista. Devemos voltar coletivamente para uma visão política radical da mudança, enraizada em uma ética do amor e buscar, mais uma vez, transformar coletivos de pessoas, negras e não negras.

Uma cultura de dominação é anti-amor. Exige violência para se sustentar. Escolher o amor é ir contra os valores predominantes dessa cultura. Muitas pessoas sentem-se incapazes de amar a si mesmas ou a outras porque não sabem o que é o amor. Músicas contemporâneas como “What’s Love Got To Do With It” de Tina Turner defendem um sistema de trocas em torno do desejo, refletindo a economia do capitalismo: a ideia de que o amor é importante é zombada. Em seu ensaio “Love and Need: Is Love a Package or a Message?” Thomas Merton argumenta que somos ensinadas/os, dentro da estrutura de consumo capitalista competitivo, a ver o amor como um negócio: “Esse conceito de amor assume que a maquinaria de compra e venda de necessidades é o que faz tudo acontecer. Considera a vida como um mercado e o amor como uma variação na livre iniciativa”. Embora muitas pessoas reconheçam e critiquem a comercialização do amor, elas não veem alternativa. Não sabendo amar, ou mesmo o que é o amor, muitas pessoas se sentem emocionalmente perdidas; outras buscam definições, formas de sustentar uma ética do amor em uma cultura que nega valores humanos e valorizam o material.

As vendas de livros que se concentram na recuperação, livros que procuram maneiras de melhorar a autoestima, amor-próprio e nossa capacidade de ser íntima/o nos relacionamentos, demonstram que há consciência pública de uma falta na vida da maioria das pessoas. O livro de autoajuda de M. Scott Peck The Road Less Traveled é enormemente popular porque aborda essa falta.

Peck oferece uma definição operacional para o amor que é útil para aquelas/es de nós que gostariam de fazer de uma ética do amor o núcleo de toda interação humana. Ele define o amor como “a vontade de estender-se para o propósito de nutrir o crescimento espiritual de si mesmo ou de outrem”. Comentando sobre as atitudes culturais predominantes sobre o amor, Peck escreve:
“Todo mundo na nossa cultura deseja, até certo ponto, ser amoroso, mas muitas/os não são de fato amorosas/os. Concluo, portanto, que o desejo de amar não é, em si mesmo, amor. O amor é o que o amor faz. O amor é um ato de vontade — ou seja, uma intenção e uma ação. Também implica uma escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar”.
Suas palavras ecoam a declaração de Martin Luther King: “Eu decidi amar”, que também enfatiza a escolha. Luther King acreditava que o amor é, “em última análise, a única resposta” para os problemas enfrentados por esta nação e por todo o planeta. Compartilho essa crença e a convicção de que é na escolha do amor, e começando com o amor como fundamento ético para a política, que estamos mais bem posicionadas/os para transformar a sociedade de forma a melhorar o bem coletivo.

É realmente surpreendente que Luther King tivesse a coragem de falar, tanto quanto ele fez, sobre o poder transformador do amor, em uma cultura na qual esse discurso é muitas vezes visto como meramente sentimental. Nos círculos políticos progressistas, falar de amor é garantir que alguém seja dispensado ou considerado ingênuo. Mas, fora desses círculos, há muitas pessoas que reconhecem abertamente que são consumidas por sentimentos de auto-ódio, que se sentem sem valor, querendo uma saída. Muitas vezes, elas estão presas demais por um desespero paralisante para serem capazes de se engajar efetivamente em qualquer movimento de mudança social. No entanto, se líderes de tais movimentos se recusam a enfrentar a angústia e a dor de suas vidas, nunca estarão motivadas/os a considerar a recuperação pessoal e política. Qualquer movimento político que possa atender eficazmente a estas necessidades do espírito, no contexto da luta pela libertação, terá sucesso.

No passado, a maioria das pessoas aprendia e cuidava das necessidades do espírito no contexto da experiência religiosa. A institucionalização e comercialização da igreja têm minado o poder da comunidade religiosa em transformar almas, intervir politicamente. Comentando o sentido coletivo da perda espiritual na sociedade moderna, Cornel West afirma:
“Há um perverso empobrecimento do espírito na sociedade estadunidense e, especialmente, entre negros. Historicamente, houve forças e tradições culturais, como a igreja, que mantinha a frieza e a mesquinharia à distância. No entanto, o empobrecimento do espírito significa que esta frieza e mesquinhez se tornam cada vez mais e mais infiltradas. A igreja manteve estas forças à distância promovendo um sentido do respeito para com outrem, um sentimento de solidariedade, um senso de propósito e valor que encaminharia a batalha contra o mal”.
As comunidades políticas que sustentam a vida podem proporcionar um espaço semelhante para a renovação do espírito. Isso só pode acontecer se abordarmos as necessidades do espírito na teoria e na prática política progressistas.

Muitas vezes, quando Cornel West e eu falamos com grandes grupos de pessoas negras sobre o empobrecimento do espírito na vida negra, a falta de amor, a partilha de que podemos coletivamente recuperar-nos no amor, a resposta é esmagadora. As pessoas querem saber como começar a prática de amar. Para mim, é onde a educação para a consciência crítica deve entrar. Quando eu olho para a minha vida, procurando por um plano que me ajudou no processo de descolonização, de auto recuperação pessoal e política, sei que foi aprendendo a verdade sobre como os sistemas de dominação operam que ajudou, aprendendo a olhar para dentro e para fora, com um olhar crítico. A consciência é central para o processo de amor como a prática da liberdade. Sempre que aquelas/es de nós que são membros de grupos oprimidos se atrevem a interrogar criticamente nossas posições, as identidades e lealdades que informam como vivemos nossas vidas, iniciamos o processo de descolonização. Se descobrimos em nós mesmas/os auto-ódio, baixa autoestima ou um pensamento branco supremacista interiorizado e os enfrentamos, podemos começar a curar. Reconhecer a verdade de nossa realidade, tanto individual como coletiva, é uma etapa necessária para o crescimento pessoal e político. Este é geralmente o estágio mais doloroso no processo de aprender a amar — o que muitas/os de nós procuram evitar. Novamente, uma vez que escolhemos o amor, instintivamente possuímos os recursos interiores para enfrentar essa dor. Movendo inteiramente a dor para o outro lado, encontramos a alegria, a liberdade de espírito trazidas por uma ética do amor.

Escolhendo o amor, também escolhemos viver em comunidade, e isso significa que não temos que mudar apenas por nós mesmas/os. Podemos contar com a afirmação crítica e diálogo com companheiras/os andando por um caminho semelhante. O teólogo afro-americano Howard Thurman acreditava que aprendemos melhor o amor como a prática da liberdade no contexto da comunidade. Comentando este aspecto de seu trabalho no ensaio “Spirituality out on The Deep”, Luther Smith nos lembra que Thurman sentiu que os Estados Unidos foram dados a diversos grupos de pessoas pela força da vida universal, como um local para a construção da comunidade. Parafraseando Thurman, ele escreve: “A verdade se torna verdadeira na comunidade. A ordem social anseia por um centro (isto é, espírito, alma) que lhe conferira identidade, poder e propósito. Os Estados Unidos, e todas as entidades culturais, estão em busca de uma alma”. Trabalhando dentro da comunidade, seja compartilhando um projeto com outra pessoa, ou com um grupo maior, somos capazes experimentar alegria na luta. Essa alegria precisa ser documentada. Porque se nos concentrarmos apenas na dor, as dificuldades, que certamente são reais em qualquer processo de transformação, somente mostraremos uma imagem parcial.

A ética do amor enfatiza a importância do serviço para outrem. Dentro do sistema de valores dos Estados Unidos, qualquer tarefa ou trabalho relacionado com o “serviço” é desvalorizada. O serviço fortalece nossa capacidade de conhecer a compaixão e aprofunda nossa percepção. Ao servir a outrem, não posso vê-las/os como um objeto: devo ver sua subjetividade. Compartilhando o ensino dos guerreiros Shambala, a budista Joanna Macy escreve que precisamos de armas de compaixão e discernimento.
“Você precisa ter compaixão porque ela lhe dá o combustível, o poder, a paixão para mover. Quando você se abre para a dor do mundo, você se move, você age. Mas essa arma não é suficiente. Ela pode te queimar; então você precisa de outrem — você precisa entender a radical interdependência de todos os fenômenos. Com essa sabedoria, você percebe que não é uma batalha entre os bons e maus, mas que a linha entre o bem e o mal passa pela paisagem de cada coração humano. Com a percepção de nossa profunda inter-relação, você sabe que as ações empreendidas com intenção pura têm repercussões em toda a rede da vida, além do que você pode mensurar ou discernir”.
Macy ensina que a compaixão e a percepção podem “sustentar-nos como agentes de mudança saudável”, pois eles são “dons que nós requeremos agora na cura de nosso mundo”. Em parte, aprendemos a amar doando serviço. Esta é, novamente, uma dimensão do que Peck significa quando fala de estender-se para outrem.

O movimento dos direitos civis tinha o poder de transformar a sociedade porque indivíduos que lutavam sozinhos e em comunidade por liberdade e justiça procuravam essas dádivas para todos, não apenas para as/os que sofrem e oprimidas/os. Líderes negras/os visionárias/os, como Septima Clark, Fannie Lou Hamer, Martin Luther King Jr. e Howard Thurman advertiram contra o isolacionismo. Incentivaram as pessoas negras a olharem para além de nossas próprias circunstâncias e assumirmos responsabilidade pelo planeta. Este apelo à comunhão com o mundo além do eu, da tribo, da raça, da nação, era um constante convite para expansão pessoal e crescimento. Quando massas de pessoas negras começam a pensar apenas em termos de “nós e eles”, internalizando o sistema de valores do patriarcado capitalista da supremacia branca, pontos cegos são desenvolvidos, a capacidade de empatia necessária para a construção da comunidade fora diminuída. Para curar nosso corpo político ferido, devemos reafirmar nosso compromisso com uma visão do que Luther King mencionou no ensaio “Facing the Challenge of a New Age” como um genuíno compromisso com “liberdade e justiça para todas/os”. Meu coração se eleva quando leio o ensaio de Luther King; lembro-me de onde nos leva a verdadeira libertação. Isso leva além da resistência à transformação. Luther King diz-nos que “o fim é a reconciliação, a fim é a redenção, o fim é a criação da comunidade amada”. Ao escolher amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover para a liberdade, a agir de maneiras que libertem a nós mesmas/os e a outrem. Essa ação é o testemunho do amor como a prática da liberdade.



hooks, bell. Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, 2006, p. 243–250. Tradução para uso didático por wanderson flor do nascimento.

Professor de Filosofia e Bioética da Universidade de Brasília. Pesquisador de Filosofias Africanas.

 

Fonte: medium

Pacote Moro e decreto de armamento são licenças para matar negras e negros


Integrantes da comitiva do movimento negro que foram à Brasília entre os dias 11 e 12 de Junho escreveram sobre a importância da incidência feita no Senado e as conquistas obtidas

Texto / Bianca Santana e Selma Dealdina I Foto / Matheus Alves,

Queremos a garantia de ir e vir sem o risco de tomar 80 tiros. Queremos parlamentares negras atuando em seus mandatos e não executadas com tiros no rosto. Queremos nossa juventude nas escolas, universidades, em bons empregos, não nas cadeias e nos cemitérios. Queremos nosso povo quilombola com o direito à vida e à terra. Queremos segurança. E por isso fomos a Brasília nos últimos 11 e 12 de junho: barrar o projeto genocida de Sergio Moro, falsamente chamado de “anticrime”, e derrubar o decreto de porte de armas de Bolsonaro.

Sessenta entidades, encarnadas em 45 corpos negros e sua diversidade de cores, cabelos e turbantes, entregaram um documento ao Congresso Nacional e à sociedade brasileira. Nele, exigimos uma política nacional pautada pela sociedade civil organizada e fundamentada na inteligência e inovação dos órgãos de segurança pública — com melhoria na eficiência, eficácia e efetividade, não com aumento da força bruta.

Para resolver, de fato, o grave problema de segurança pública do país, é necessário elaborar diagnósticos qualificados e incorporar mais fontes de informação. É preciso ir além das ocorrências criminais para compreender o cenário violento em que vivemos. Quem mais mata? Onde? Por que motivos? E se formos pensar em roubos e assaltos: em que ruas e regiões acontecem? Em que horários e situações? Como é a iluminação pública do local? Perguntas que permitem respostas objetivas — muitas vezes já conhecidas por todo mundo — mas que sejam, de fato, utilizadas para a prevenção de crimes.

A proposta de Sergio Moro não menciona prevenção. Sem base em qualquer estudo ou dado, propõe prender mais e matar mais. Ou seja, o Ministro da Justiça apresenta um projeto que vai na contramão das evidências científicas, das recomendações e acordos internacionais.

Em 2017, morreram 65.602 pessoas no Brasil, 47.510 delas por tiros, um aumento de 6,8% em um ano. O número de pessoas presas também tem crescido enormemente, com quase 800 mil pessoas presas, o que torna o Brasil a terceira maior população carcerária do mundo. E a segurança pública não tem aumentado. Pelo contrário. Prender e matar têm nos deixado mais vulneráveis a criminosos, às facções, às milícias e também à ação de militares que atiram em inocentes, antes de fazer qualquer pergunta.

Movimento negro em audiência pública no Senado organizada por Paulo Paim 
(Foto: Matheus Alves / Alma Preta)

Na prática, de acordo com a proposta de Moro, qualquer policial que atirar para matar poderia alegar risco iminente ou impacto de forte emoção para não sofrer punição alguma. Legalizar aquilo que Bolsonaro e governadores como Dória e Witzel tem recomendado: atirar para matar. Mesmo que o alvo seja um trabalhador, acompanhando de sua família, a caminho de um chá de bebê. Mesmo que seja uma mulher quilombola, preservando o território recebido de seus ancestrais. No campo, 80% dos crimes praticados contra lideranças quilombolas são cometidos por arma de fogo. Negras e negros são alvos no Brasil. E a proposta de Moro, assim como o decreto de porte de arma de Bolsonaro, vai ampliar nossas mortes nas zonas rurais e urbanas.

Em Brasília, tivemos uma agenda intensa para denunciar a lógica racista que orienta tais propostas. Reuniões com deputadas, deputados, senadoras e senadores de diversos partidos: DEM, PCdoB, PDT, PP, PRB, PSDB, Psol, PT, Rede. É urgente o compromisso de todas as pessoas, parlamentares e partidos em barrar proposições que possam ampliar o genocídio do povo negro.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), se comprometeu a não aprovar o pacote Moro rapidamente, como gostaria o governo, e a realizar amplo debate do projeto no Senado, com participação de negras e negros. Na sala da presidência da casa, acompanhado do deputado Orlando Silva – PcdoB/SP, e dos senadores Paulo Rocha (PT-PA) e Randolfe Rodrigues - REDE (Líder), Alcolumbre se afirmou solidário às reivindicações do movimento negro e se colocou à disposição para articulações futuras.

No segundo dia de nossa atuação em Brasília, acompanhamos a votação da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, do projeto de lei proposto por Randolfe, que derruba o decreto de posse de armas de Bolsonaro. Quinze votos, contra nove, e a derrota do decreto foi aprovada na CCJ.

Primeira vitória, das muitas que testemunharemos em nossa coalizão. Estamos articuladas e articulados, em nosso próprio nome, para interromper as execuções e o genocídio de nosso povo, eliminar os padrões de desigualdade, discriminação e violência a que estamos submetidos, e exigir garantia e ampliação de nossos direitos. Logo estaremos de volta à nossa casa, à Casa do Povo, pela vida e por direitos.
 
Fonte: almapreta

Lançamento do documentário "Além do Espelho" [AMANHÃ]




No dia 23 de agosto de 2019, no auditório da Faculdade de Direito da UnB, ocorrerá o Lançamento do documentário "Além do Espelho", de Ana Luiza Pinheiro Flauzina. A diretora estará na atividade debatendo sobre a produção.

Trailer


Sinopse
"Nós temos uma poderosa arma, que é a memória, uma possibilidade de salvação não somente para nós, mas para o mundo.” Com essa percepção, o aclamado cineasta etíope Haile Gerima aponta os desafios impostos pelo racismo e as possibilidades de sua superação em ALÉM DO ESPELHO, documentário de estreia da diretora brasileira Ana Flauzina.

A obra promove o encontro das vozes de duas das mais importantes referências da resistência negra contemporânea: Edson Cardoso e Haile Gerima.

O jornalista Edson Cardoso dedicou sua vida à militância negra. Dentre as mais importantes contribuições deste controverso intelectual está a edição do Jornal Irohin (“notícia”, em Yorubá) publicado entre 1995-2000 e 2003-2009. O veículo cumpriu importante papel mobilizador da questão racial, pautando o racismo a partir de um ponto de vista primordialmente negro. Outra das realizações significativas de Cardoso foi sua liderança em duas grandes mobilizações políticas contra o racismo: as marchas “Zumbi” e “Zumbi + 10”, que aconteceram, respectivamente, em 1995 e 2005, e mobilizaram mais de três milhões de pessoas na capital do Brasil. Entre as demandas centrais da marchas estavam o fim do exetermínio da juventude negra e da intolerância religiosa.

Haile Gerima, importante cineasta etíope, radicado nos Estados Unidos desde a década de 60, contribuiu para a formulação de uma estética independente de cinema negro no cenário norte-americano. Como um dos principais membros do movimento cinematográfico L.A. REBELLION, também conhecido como Los Angeles School of Black Filmmakers, o cineasta tem em sua internacionalmente reconhecida filmografia, obras de grande relevância para o enfrentamento do racismo. Seu mais aclamado filme, “Sankofa”, de 1993, apresenta a saga de africanos escravizados - um absoluto sucesso de público e crítica. Seu mais recente trabalho,“Teza”, um dos filmes africanos mais vistos da história do cinema, lançado em 2009, explora os dilemas de um intelectual negro diante dos conflitos raciais na Etiópia e na Alemanha. Gerima é ainda professor da Faculdade de Cinema da tradicional Howard University em Washington D.C.

O encontro dessas duas referências, suas ricas histórias de vida e seus comentários sobre o racismo e a resistência negra são a base da marcante narrativa construída por Ana Flauzina em ALÉM DO ESPELHO.

Ficha técnica

Direção ANA FLAUZINA
Entrevistados EDSON CARDOSO and HAILE GERIMA
Edição MATTHEW GOSSAGE, HUGO PACHIELLA e ANA FLAUZINA
Produção SARAH IHMOUND e ANA FLAUZINA
Câmera GEZAW TESFAYE, GUTO MARTINS e KRYSTIAN RAMLOGAN
Diretor de Fotografia GUTO MARTINS
Pesquisa de Imagens RAQUEL LISBOA e VIVIANE SANTIAGO
Créditos de Abertura MARCOS PINTO e TORI FINLAYSON
Trilha Sonora CORY LAFEVERS
Mixagem e Masterização DIEGO MARX
Cor ADRIANO BATISTA, KRYSTIAN RAMLOGAN e MARCOS PINTO

Referência
http://bradonegro.com/produtos.asp?TipoID=1

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Bruno Cândido relata racismo durante abordagem policial e explica o que deve ser feito nesses casos

Foto: Arquivo Pessoal
É comum vermos denúncias nas redes sociais sobre a maneira agressiva que a Polícia Militar (PM) aborda pessoas negras durante as blitz nas estradas. Infelizmente, não foi diferente com o advogado Bruno Cândido, que foi abordado na madrugada do dia 6 de agosto, na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, enquanto voltava para casa. Cinco policiais brancos foram responsáveis pela abordagem.

Nenhum documento do advogado e nem do veículo foi solicitado. Após todo o constrangimento com a ação dos policiais, que o fizeram colocar as mãos no capô do carro para revistá-lo de forma grosseira, Bruno foi fotografado pelo celular pessoal de um deles, na foto também apareceu a placa. Todo o carro foi revistado e, obviamente, nada ilegal foi encontrado. Em seguida, ele foi liberado.

Em seu twitter, Bruno relatou a situação em detalhes e pessoas de todo o país mostraram indignação, mas também, causas similares a dele. O relato teve uma proporção imensa na rede social e nos mostra como o racismo atinge pessoas negras em qualquer lugar, independente da condição social.

Na madrugada de hoje a PM me fotografou com as mãos sob o capô do meu carro, sendo revistado por um policial, o que eles chamam de fichamento. Conheço o sistema, em meses posso ser indicado por ser negro, sendo reconhecido em um álbum de fotografia no modos “todo preto é igual”.

Conversamos com ele sobre o ocorrido e como reagir em situações como esta. Confira!

O que fazer durante abordagens policiais desse tipo e o que não fazer? Você acredita que o racismo tem grande impacto sob essas ações policiais?

Abordagem Policial que seleciona e trata pessoas com perspectiva desumanizadora, dentro de uma atmosfera ambiental que favorece a gravidade da violência de emocional e mental para física, isto é, na periferia durante a madrugada, não deve, se possível, ser imediatamente combatida. Isto porque, a manifestação do agredido pode aumentar a violência para um espancamento e até homicídio, o que foi naturalizado e na atual conjuntura política legitimado.

De fato, a abordagem policial que coloca qualquer indivíduo que possui identificação e não apresenta qualquer comportamento ilícito é, não só ilegal, como inconstitucional. Ilegal porque o policial só pode fazer o que a lei autoriza, e é totalmente proibido fazer o que não tem previsão legal. Inconstitucional porque a condução do indivíduo que não esteja cometendo crime só é possível se ele não tiver um documento que o identifique, o que se chama de “Prisão para Averiguação”, um resquício do período escravocrata e ditatorial. Portanto, atribuir condições de suspeição sem justo motivo e ainda fotografar como se suspeito fosse viola frontalmente a dignidade humana do indivíduo que em verdade é vítima, o que é taxativamente proibido.

 

Vale dizer que esse comportamento na atividade policial, que tecnicamente é um “fichamento” e antecede o inquérito, tem sido prática ilegal policial que também aderiu ao uso da tecnologia dos celulares. Fichamento policial pois é fotografado em regra o rosto, uma identificação para localização, e criado um cenário suspeito. No meu caso, a identificação foi a placa do meu carro, o cenário suspeito legitimador seria o registro do imediato momento em que havia um policial atrás de mim fazendo revista pessoal, o que remete o leitor da imagem aos clássicos filmes americanos de dura policial. Em um dos casos que atuei, caso da dançarina negra, Baby, ela foi fotografada algemada e as imagens foram cedidas a um programa de rede nacional policial e sensacionalista, absolvemos de um dos dois processos que respondeu, isto é, ainda segue presa por conta dentre outras coisa, do cenário suspeito em que foi inserida, mesmo que tenhamos comprovado que ela estava em outro lugar na hora do crime em que foi acusada.

Por essas razões, viola a alma dar essa orientação… mas, a autoproteção vem antes, de qualquer coisa. Quem é recrutado nessa circunstância, para não piorar a situação, deve se valer do “mal menor” e seguir o “protocolo negro de sobrevivência”. Na minha situação, por mais que eu soubesse da ilegalidade, por mais que eu conheça o sistema e conheça o circuito que faz uma foto em um aparelho de policial, o silêncio me valeu como a melhor estratégia de sobrevivência. Doeu e ainda dói, mas estou vivo para combater essa prática contra meus irmãos no futuro.

No caso da pessoa que se sente agredida, o que pode ser feito? Qual procedimento ela deve seguir para realizar uma denúncia?

A pessoa deve procurar imediatamente advogados especialistas ou representações de direitos humanos, com recorte do grupo que faz parte. Pois, assegurada sua proteção, deve requerer que a corregedoria da policial militar, comando geral da policia militar sejam provocados a uma resposta aquela prática ilegal, e ainda motivando Processo Administrativo Disciplinar e criminal contra o(s) agressor(es).
Com a resposta, ou sem ela, o agredido pode intentar no plano pessoal, ação de reparação civil e contra o policial agressor e contra o Estado. É importante que tenha consigo o local, hora e se possível a identificação dos policiais e seu batalhão. No caso de não ter, o Comando Militar deve informar, no caso de blitz legal, quem eram os policiais de serviço naquele período e horário. No caso de ilegal, a apuração torna-se mais frágil.

Como você enxerga o que ocorreu contigo?

Entendo como uma violência discriminatória. Clássico racismo institucional. A não exigência de identificação foi uma clara manifestação de que os policiais já tinham certeza de uma identidade atribuída a mim, através do imaginário de criminoso ideal ou inimigo público número um que tem dentro de outros elementos que se intersecciona cor como égide determinante. Ainda que eu tivesse pelo menos cinco documentos institucionais que pudessem me abonar de qualquer intervenção de atividade suspeita.

Inicialmente, por qual motivo decidiu não registrar a denúncia?

Na verdade, antes o receio era de retaliação, visto que, um mês antes também fui parado, também não foi pedido identificação e ao término da revista do veículo, ao ser liberado o policial disse: “vai lá Doutor”, mesmo não havendo nada que me identifique como advogado em qualquer lugar do meu carro. Pela possibilidade de estar na mira de policiais e com o aumento das blitz na vias expressas, sempre e apenas sentido periferia, onde moro, tive receio a minha integridade física. Em especial, pelo sentimento de pena de morte instaurado pelo Governador Witzel que, inclusive, além dos discursos de genocídio, concedeu veículos de última geração e armamento novo aos policiais de um Estado que não muito tempo, estava falido…

Com o apoio da Frente de Juristas Negros e Negras do Rio de Janeiro, Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ e ainda o interesse da ONU nas violações de advogados negros e negras no Brasil, converti medo e sentimento de vulnerabilidade em energia e decidi representar formalmente a denúncia a corregedoria, bem como ser representado juridicamente pelo Núcleo de Combate ao Racismo da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. Ainda acredito que vestes institucionais não protegem corpos pretos mas, realmente tenho medo da atual transição de violência racial no Rio de autorização velada nos governos de esquerda a legitimação e fomento no atual (des)governo.

Fonte: mundonegro