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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mutirão de doações para o Coletivo da Cidade








O Coletivo da Cidade é uma ONG que atua na cidade Estrutural/DF e tem como objetivo o acompanhamento de crianças e adolescentes e o fortalecimento de vínculos.

O Coletivo é um espaço que precisa da sua ajuda, doe, roupas, sapatos, brinquedos, ou o que acharem pertinente, é muito importante para todos nós.

SERVIÇO
Data: 03/10 - Sábado
Hora: a partir das 10hrs
Quadra 03 Conjunto 11 Área Especial 02 Setor Norte, Estrutural/DF.


O pobre está passando dos limites da cozinha: a grande mensagem do filme “Que Horas Ela Volta”.


O ano de 2015 nos devolveu a esperança de um cinema nacional de qualidade e comprometido com questões sociais que precisam ser discutidas. Estamos falando do filme “Que Horas Ela Volta”, de Anna Muylaert, narra a história de uma empregada doméstica pernambucana vivida por Regina Casé e de sua filha, interpretada por Camila Márdila, e sua relação com seus patrões – uma família paulista de classe média alta.

Por Nathali Macedo*,
A dupla, retratada com verossimilhança e naturalidade – sem a costumeira roupagem caricatural que se tem visto no cinema brasileiro em se tratando de representação do povo nordestino – é um retrato da história de mães de classe baixa que se veem obrigadas a abandonar os próprios filhos para cuidarem dos filhos de seus patrões.
Val – interpretada por Regina Casé – deixa sua filha Jéssica (Camila Nárdila) em Recife e passa a trabalhar como babá na casa de seus patrões, onde permanece por longos anos até reencontrar a menina, já adulta, que vai a São Paulo prestar vestibular – o mesmo vestibular que o filho de seus patrões, não por acaso.

Estamos tratando de uma obra-prima – que sem dúvida entrará para a história do cinema nacional – rica em questões contemporâneas que urgem em serem discutidas. Apesar disso, o Fantástico do último domingo – desprezando qualquer resquício de inteligência e senso crítico de seus telespectadores – preferiu classificar o filme como um retrato da relação de “amor, carinho e respeito” entre empregados e patrões.

Todo esse amor e respeito pode ser visto já nas primeiras cenas, quando Val se reporta a sua patroa para lhe fazer um pedido: “Você sabe que é como se fosse da família, querida. A lasanha está no forno?”

E recoloca seus fones de ouvido sem escutar aquela que criou o seu filho e é claro que é quase parte da família, desde que se limite a pôr a lasanha no forno e se calar. Os pobres são adoráveis e queridos desde que não se atrevam a saírem do lugar que lhes foi socialmente imposto.

A personagem interpretada – brilhantemente, diga-se de passagem – por Camila Nárdila, é um retrato de um pobre que não se contenta com esse lugar: senta-se à mesa dos patrões, refresca-se na piscina dos patrões e é aprovada num vestibular em que o filho dos patrões é reprovado. E é a partir daí que todo amor, carinho e respeito que só o Fantástico enxergou nessa história começa a se revelar tal qual ele é: uma exploração impiedosa travestida de bondade.

O filme é, antes de tudo, uma amostra do preconceito de classes velado e do lugar que está e sempre esteve reservado às classes sociais desfavorecidas – e do qual a elite resiste em abrir mão: um lugar de inferioridade e subserviência.

O amor de migalhas oferecido pelos patrões aos empregados que se dedicam a eles por uma vida inteira começa a se revelar quando a filha da empregada passa a ocupar os espaços reservados aos patrões – desde a piscina da casa grande à vaga na Universidade – exatamente como a face medonha da elite brasileira passa a ser desenhada quando parcelas pobres da população atrevem-se a ascender socialmente e passam a não precisar se submeter a relações de trabalho abusivas e às desigualdades socialmente construídas.

Como todo bom filme, este conta com uma cena marcante, arrematadora, daquelas que fazem com que caia a nossa ficha e compreendamos com clareza solar toda a lógica da história: Val, depois de notar a postura combativa de sua filha ao não se contentar com um lugar de inferioridade na presença dos patrões, usa a piscina da casa pela primeira vez em todos os anos de trabalho. A emocionante expressão de Regina Casé nos diz silenciosamente: “Eu cuidei do filho deles, da casa deles, da vida deles. Eu também mereço isso.”

O recado que só quem não deu ouvidos à Fantástica revista semanal global pôde captar é que as classes desfavorecidas estão, pouco a pouco, apossando-se daquilo que sempre lhes pertenceu e ocupando lugares que nunca antes se atreveram – e é a isso que se pode chamar de um tímido esboço da igualdade social que passa a se desenhar no Brasil.

“Cuide para que sua filha fique da cozinha para fora” é a frase-chave do filme: empregados são quase da família, desde que da cozinha para fora. É triste admitir, mas esta é também a terrível lógica do pensamento burguês: pessoas de classe baixa merecem uma vida digna, desde que da cozinha para fora. É exatamente isto que tem incomodado às elites nos tempos modernos (e que o Fantástico se recusou a enxergar): o pobre está passando dos limites da cozinha – e é este o país que nós queremos.

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Sobre a Autora
*Atriz por vocação, escritora por amor e feminista em tempo integral. Adora rir de si mesma e costuma se dar ao luxo de passar os domingos de pijama vendo desenho animado. Apesar de tirar fotos olhando por cima do ombro, garante que é a simplicidade em pessoa. No mais, nunca foi santa. Escreve sobre tudo em: facebook.com/escritosnathalimacedo

1 mulher e 11 transformação para seu cabelo afro


Tutorial bem interessante e irreverente apresenta uma 1 mulher e 11 transformação para seu cabelo afro. Assista:


Fonte: Geledés.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ato contra a intolerância - parem de queimar nossos terreiros!




Dizem que no Brasil existe tolerância religiosa e que as pessoas se respeitam. Mas o que vemos em nossa realidade não é isso. As religiões de matrizes africanas são constantemente perseguidas e ameaçadas. Esse ano mesmo rodou em todos o jornais o caso de uma mina que foi acertada por uma pedra na cabeça enquanto saía de um terreiro, recentemente tivemos mais um triste notícia: incendiaram 2 terreiros no entorno do DF, Santo Antônio do Descoberto (GO) e Águas Lindas. Nós não podemos seguir quietos, precisamos ir pra ruas exigir respeito a nossa cultura e religião!

Nos dois casos, ninguém se feriu, mas também ninguém acabou preso. Ocorrências foram registradas nas delegacias das cidades. Mas, como não há delegados em ambas, os ataques só devem começar a serem investigados na segunda-feira (14/9) - Thiago Soares(correio brasiliense)

"Quanto mais se nega a existência do racismo no Brasil, mais esse racismo se propaga", destacou a ministra da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), Nilma Lino Gomes.

Não podemos conviver com o preconceito, precisamos de respeito a cima de tudo e de todos, nenhum Deus é maior que o outro, somos um!

PERCURSO 
17h30: Concentração na praça Praça Zumbi (na frente do Conic)
18h00: Marcha em direção a rodoviária do plano piloto, seguindo para o bloco A da esplanada onde fica a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial(SEPPIR)

OBJETIVO
Chamar atenção e conscientizar a população sobre o assunto

SERVIÇO
Ato contra a intolerância - parem de queimar nossos terreiros!
Data: 01/10
Hora: a partir das 17h30
Local: Praça Praça Zumbi (na frente do Conic) - Brasília/DF

CONTATO
Telefone: +55 (61)81074465

O menino do morro virou Deus


por Leonardo Ortegal*,
O laranja fluorescente de seu uniforme ganhava ainda mais cor quando vestia a sua pele escura. Preto como um legítimo africano, Ele parecia descender de um quilombo, mas vinha daquela linhagem de negros do alto do morro que se instalou ali desde a falsa abolição. Que morro? Não importa que morro. Misteriosa como a origem de Deus, ninguém quer saber se Ele habita aquela favela que contrasta desfocada no cartão postal com a praia do Leblon, ou se Ele pega duas ou três conduções para chegar na areia. O que importa, mas não muito, é que ele esta lá. Gritando “olha o Mate!”, para ser ignorado pelos banhistas de um dia qualquer em Copacabana. Em Copacabana, Ipanema e Leblon. Sim. Ele era onipresente naquelas manhãs e tardes de sol, naquela versão privativa de Jardim do Éden praiano. Olha, olha, era o verbo que não fazia matéria, dinheiro. Exceto por vez ou outra, em que fazia jorrar dos galões que carregava em seus ombros, mate e suco de limão, para a moçoila galega que sequer o olhava no rosto, assim como Deus, que esconde sua face, mas nesse caso era o contrário. Outras vezes, não. Sempre que servia àquele surfista bronzeado de barba por fazer, era até bem tratado como Deus. Um Deus que salva, e fornece ilegalmente o fruto proibido dos prazeres. Proibido no trajeto do morro até a praia. Na praia, é santificado pelas mãos dignas que tragam a sua fumaça impunemente a qualquer hora do dia. E o preço da salvação era dez reais.

Ao final das tardes, durante os dias de semana, assim como Deus, o menino andava pelas areias vazias, invisível, como o Espírito andava por sobre as águas antes da grande criação. Sem matéria dinheiro, mas muito poder criador.

Não se sabe dizer se o que criou o universo foi o verbo ou foi o som. Mas um festival internacional que reunia verbos e sons acontecia ali perto, e aquilo foi como a fagulha criadora. Como um Deus infinito, o menino, agora multiplicado por mil, percorreu veloz pelo Éden de Sua criação. Sim, Sua criação, pois aquelas praias só eram possíveis porque Ele era onipresente e alugava gurda-sóis, servia comida e bebida e, antes ainda, era ele que montava, consertava e abastecia os carros que levavam Adão e Eva até a areia da praia. Foi o menino infinito e atemporal que construiu aqueles edifícios da orla, pichou na terra o asfalto, e pregou no meio do nada o calçadão que hoje é arte no mundo, mas que não lhe rende tributo nenhum.

O menino percorreu pela praia e proferiu, dessa vez o verbo mágico, o verbo criador. Que chama do nada a existência. E do barro moderno, o plástico, Ele fez criar cartões de crédito, celulares e câmeras fotográficas. O menino gritou “haja luz!”, e o universo o obedeceu. Em questão de minutos, o menino-legião, que morreria anônimo de câncer de pele, no alto do morro, queimado de sol, chamou para si os holofotes de todas as mídias e redes sociais. Aquele era o sexto dia, e no sétimo ele contemplou, ou seria ostentou, sua criação.

A bíblia do planeta capitalismo não prega “Ame”. Prega “tenha”. E o menino foi fiel a esta máxima, e mesmo que o Ter parecesse impossível em sua vida de alto de morro, Ele fez o milagre impossível na areia. Mas o fazedor de milagres no novo evangelho não viveu os seus trinta e três anos como lhe era direito. Morreu aos vinte e um mesmo, ao transitar pelas ruas de Sua criação, e ser capturado por justiceiros por ser um homem negro, jovem, cabeça raspada, e estar portando um Iphone de última geração, vestindo como uma luva a descrição do vilão. Sem Judas para o trair, ali mesmo o menino foi indiciado, investigado, julgado, sentenciado e executado no tribunal das mãos do povo. Como Cristo, Deus-Filho, para os chamados defensores de bandido; ou então como Jesus, João, Cleidenilson de São Luís¹, ou o pedreiro sem nome em Natal².

Mas enquanto as multidões vociferavam em volta do poste com cabos de aço, dizendo “Crucifica-o! Crucifica-o!”, o surfista bronzeado da praia, que ali fazia coro, cruzou os olhos com o garoto. Aquele olhar profundo em meio à dor pareceu lhe dizer de maneira irrefutável “sou inocente!”, e fez o surfista gelar ao perceber que aquele era o garoto do mate, o trabalhador que lhe servia maconha na praia. Será que era mesmo inocente? Seria culpado? Em qual das três cruzes aquele jovem negrinho era crucificado? Era tarde demais pra saber. Bronzeado, permaneceu em silêncio, deu alguns passos para trás, e lavou suas mãos, como Pôncio Pilatos, para que seguisse em curso a bíblia dos tempos de hoje. O garoto que gritava mate não vertia mais chá gelado e limonada. Escorreu, sem derramar, por seu rosto e por entre suas vísceras, o sangue quente que não redime a ninguém. Mas eis que vos digo, antes mesmo do terceiro dia, o menino está vivo de novo. Ele ressuscitou.

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*Leonardo Ortegal é assistente social e doutorando em Política Social pela UnB.


Fonte: Geledés.

Matrizes Africana e Indígena contradizem o Espírito do Capital


Por Ivan da Silva Poli*,
Uma das principais motivações que me levaram a escrever a obra “Antropologia dos Orixás” foi justamente o fato de a maior parte das obras sobre os mitos africanos tratá-los somente no aspecto religioso, sendo que segundo o mitólogo Joseph Campbell o mito tem mais três funções além da mística (religiosa) que são a cosmológica (explica uma ordem universal), a sociológica (cria corpos sociais ) e a pedagógica (cria arquétipos que imitamos e legitima comportamentos).

Atualmente as tradições de matriz africana sofrem ataques e agressões em vários níveis e a principal razão disso não se enquadra exatamente em razões religiosas em si mas sim em conflitos de valores civilizatórios entre a cultura do capital ocidental e as culturas tradicionais tanto de matriz africana quanto indígena.

Segundo Max Weber o Espírito do Capital ( que muito a grosso modo é a disposição de acumular capital como uma finalidade em si mesma ) vem da ética das primeiras seitas protestantes assim como o conceito de vocação profissional dentre outras coisas do conceito de Vocação de Lutero, e este comportamento dentro do Espírito do Capital interessam sobremaneira aos detentores dos meios de produção, razão pela qual muitos deles financiam ( inclusive do capital estrangeiro ) a evangelização de comunidades tradicionais.

Segundo o Antropólogo Georges Balandier em seus estudos sobre as comunidades tradicionais na África Subsaariana , estas em geral tem a tendência de condenar a morte social aqueles que acumulam capital ou riquezas de forma a ameaçar a sustentabilidade de suas sociedades e no caso de nossas sociedades tradicionais tanto de matriz africana quanto indígena esta influência está presente o que contrasta com o que Weber define como o Espírito do Capital.

Outro valor civilizatório das tradições de matriz africana que vai contra o Espírito do Capital em si é o conceito de ancestralidade e senioridade, pois ancestralidade é memória e memória é resistência e este valor da ancestralidade vai contra a cultura de consumo.

Da mesma forma as comunidades tradicionais de matriz africana baseadas na ancestralidade e senioridade incitam a adoção das dinâmicas sociais africanas tradicionais que só aceitam o novo se ele for ressignificado a partir do tradicional e dificilmente aceita o novo pelo novo , o que se converte também em um valor civilizatório que contrasta com a cultura de consumo e o Espírito do Capital.

Neste sentido o próprio Max Weber afirmava que a o Espírito do Capital prevaleceria na América Latina quando esta fosse predominantemente Protestante ( e em conseqüência menos católica e exterminasse as religiões tradicionais de Matriz Africana e Indígena ).

Para entendermos melhor o que isso significa basta que nos atentemos ao que representaram os quilombos no período colonial no que se refere a resistência ao Capitalismo Mercantilista, e ainda hoje estas comunidades quilombolas e indígenas que mantém suas tradições representam a este atual Espírito do Capital , motivo pelo qual se faz grande prioridade evangelizá-las.

Desta forma fica bem claro que mais do que valores de dogmas ou religiosos o que faz com que as tradições de matriz africana sofram agressões é o conflito de valores civilizatórios e como única saída para que possam sobreviver a esta onda conservadora de agressões que passam é que nossas casas de Matriz Africana se tornem pontos de Cultura e propagadoras destes valores civilizatórios patrimônio Cultural de Todos Brasileiros e que assim possam gozar da proteção do Estado ( pois o Estado não pode defender valores religiosos ou dogmas , contudo tem o dever de defender valores civilizatórios que são nosso Patrimônio Cultural.

Neste sentido desenvolvi os livros Antropologia dos Orixás e Pedagogia dos Orixás , para defender estes valores civilizatórios tanto no meio acadêmico quanto para que sirvam de material de formação sobre estes valores civilizatórios em ambientes educacionais e comunidades tradicionais , para servir assim em sua defesa institucional.

O pai (muitas vezes protestante e negro) que não se importa que seu filho veja como herói os mitos nórdicos de suas comunidades tradicionais no passado como Thor (que na Escandinávia nenhum pai protestante contesta que seja um mito que traz importantes valores civilizatórios a suas identidades nacionais), tem que reconhecer nos mitos africanos como Ogum , Oxóssi , Yansã , Oxum e todos Orixás estes valores civilizatórios fundadores de nossa nação.

É necessário que independentemente das religiões se admita que o Reino do Ketu tem muito mais a ver com nosso processo civilizatório brasileiro que o Reino de Odin ou mesmo o Olimpo Grego em muitos aspectos.

Este processo descolonizador é um dos principais objetivos de minha obra como um todo e nestes específicos em relação aos valores civilizatórios que herdamos de nossos ancestrais africanos que muitas vezes são invisíveis em nossa educação mesmo em universidades de referência de nosso país assim como em nossa mídia hegemônica.

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*Ivan da Silva Poli é autor de um Mestrado sobre “A importância do estudo das mitologias e gêneros literários da oralidade africana e afro-brasileira no contexto educacional brasileiro: a relevância da Lei 10639/03″.

Seu ponto de vista é polêmico: coloca as tradições africanas e indígenas como frontalmente antípodas ao espírito do Capital. E aqui estamos invocando o “espírito” de Max Weber, um mestre da sociologia moderna, ocidental.


A morte “branca” da SEPPIR


A presidente Dilma acaba de decretar a morte “branca” da SEPPIR: rebaixou o seu status de ministério e a incorporou ao natimorto “Ministério da Cidadania”. Os militantes do movimento negro, dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais já estavam habituados a realpolitik dos governos petistas que sacrificam compromissos históricos com o povo negro e a classe trabalhadora em troca de “governabilidade” (que nada mais é que a formação de maiorias parlamentares construídas a base do toma lá dá cá). Porém no Governo Dilma esta política tornou o absurdo regra e a inteligência exceção. Seja do ponto de vista da política econômica como das políticas sociais, Dilma retroage a Era FHC com seus ajustes, superávits e concessões (novo nome para “privatização”). Tudo com o agrado dos bancos, dos milionários e das fortunas construídas a base do suor e o sangue da classe trabalhadora e do povo negro.

Mas a morte “branca” da SEPPIR tem um simbolismo ainda mais profundo: ela nos retira definitivamente de cena. Fomos tratados como uma espécie de mobília incomoda no meio da sala que na primeira oportunidade foi posta no quarto de despejo (Maria Carolina de Jesus que o diga). É este o lugar do povo negro? É este o lugar daqueles que representam mais de metade da população deste país e que durante séculos tiveram seus ancestrais escravizados para fazer a riqueza e prosperidade do Brasil?

De nada adiantou o manifesto assinado por centenas de entidades negras (“NENHUM DIREITO A MENOS, DEMOCRACIA SE FAZ COM DIÁLOGO E PARTICIPAÇÃO”). A SEPPIR foi criada em 2003, logo, tem 12 anos de existência e vivia na corda bamba seja pela ausência de um orçamento que estivesse à altura da pasta ou por seu esvaziamento político. Suas pautas foram secundarizadas em nome da governabilidade. Independente disso contribuiu para dar visibilidade à população negra e a luta contra o racismo e as desigualdades raciais. Quando estive em 2010 em Cuba, os afrocubanos apontavam a SEPPIR como modelo a ser seguido pelo Partido Comunista e várias referências neste sentido eu tive de ativistas negros da Venezuela, Colômbia e Equador. O impacto negativo da decisão de Dilma para o movimento negro da América Latina e do Caribe é enorme.

Estive entre aqueles que no segundo turno das eleições presidenciais votou em Dilma para derrotar Aécio Neves como fez, aliás, boa parte do PSOL. Não me arrependo pelo simples fato de que ainda identifico diferenças entre PT, PSDB e DEM. Entendo que o PT não está mais a serviço de transformações profundas na sociedade. Entrou no jogo da política tradicional e perdeu a capacidade de encantar e mudar as coisas pela raiz. Mas confesso que não estou entre aqueles que entendem o avanço conservador como um momento de surfar na onda do anti-petismo. Até porque no cotidiano do movimento negro me relaciono com militantes do PT, PCdoB e dos partidos do antigo campo democrático e popular que são referências de luta contra o racismo e a discriminação. Contudo, não posso deixar de dizer que ironicamente muitos desses companheiros e companheiras de luta e de sonhos justificavam o voto em Dilma sob o argumento de que em caso de vitória de Aécio a SEPPIR seria extinta!

Logo, a morte “branca” da SEPPIR indica não apenas o esgotamento deste governo (ainda que devamos manter a guarda alta a direita golpista que ainda ronda o Planalto), mas é uma dura lição para o movimento negro. O movimento negro é a principal escola política onde me formei e me sinto orgulhosamente representado. Ele é indispensável à democracia brasileira hoje tão ameaçada pelos detentores do poder econômico, o fundamentalismo religioso e o proselitismo conservador. O movimento negro deve fazer um profundo balanço sobre a atual política de luta de “baixa intensidade” que adotou (com exceções louváveis, certamente). O projeto histórico do movimento negro de combate ao racismo e a superação da desigualdade racial é a pedra angular da democracia social e política com igualdade para todos. Entendo isso de uma perspectiva de esquerda, de um socialismo libertário, que entende o protagonismo de sujeitos coletivos autônomos que radicalizem a democracia e a participação.

Independente da perspectiva que se adote é necessário reconhecer que a extinção da SEPPIR é um retrocesso. Diante deste fato é preciso redefinir as estratégias de luta e enfrentamento ao racismo e apostar na construção de um campo autônomo do movimento negro, independente de governos e partidos como, por exemplo, aponta o MTST com a Frente “Povo Sem Medo”. Como sujeito coletivo o movimento negro é cada vez mais necessário. E hoje cada vez mais contra a ordem. Com certeza, não cabemos no quarto de despejo e nem lá é o nosso lugar!

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*Fábio Nogueira, Professor da UNEB e militante do Círculo Palmarino.

Fonte: Negrobelchior