Páginas

Mostrando postagens com marcador #MulherNegra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #MulherNegra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Roda de Conversa de Homens Negros | Tema: "Combate a objetificação da Mulher Negra"


Desde que os povos africanos foram traficados para o Brasil, as mulheres negras tiveram um papel de extrema importância na resistência negra.
No papel de mães, trabalhadoras, escritoras, espiãs, generais e líderes de comunidade elas foram parte indispensável na luta por direitos e por liberdade.

Durante a história do negro no Brasil a mulher negra fez de tudo um pouco. Mesmo assim, o racismo e o machismo tentam reduzir a mulher negra a objeto sexual e ferramenta de trabalho. Toda vez que um homem negro coopera com isso, ele está cooperando com a objetificação das suas mães, suas irmãs, suas filhas, suas companheiras e suas amigas.

Se precisamos combater o racismo em todas as frentes, o homem negro precisa refletir sobre o que oprime a mulher negra para que ambos se fortaleçam.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Conceição Evaristo para Marie Claire: "A questão do negro não é para o negro resolver, é para a nação brasileira" - Mundo Negro


Prestes a ser homenageada como Personalidade Literária do Ano no Prêmio Jabuti, a escritora Conceição Evaristo deu uma entrevista exclusiva para edição de novembro da revista Marie Claire.

Evaristo é autora de obras que retratam a sua “condição de mulher negra”, entre elas, o Beco das Memórias, Insubmissas Lágrimas de Mulheres e Ponciá Vicêncio, ela é um dos nomes mais reverenciados da literatura.

Na publicação, a autora confirma que vai escrever um livro sobre sua candidatura na Academia Brasileira de Letras, que mobilizou uma inédita campanha popular e faz fortes críticas à “Intelectualidade Branca”.

A negritude se faz presente em vários momentos da entrevista.

“Nós nunca tivemos tanta fertilidade no campo das artes. Cinema negro, teatro negro, autoria negra e, é impressionante, tudo cheio”, diz ela, citando, entre outros, a cineasta Yasmin Thayná, a slammer e atriz-MC Roberta Estrela D’Alva e a escritora e filósofa Djamila Ribeiro.

Enfática, Conceição transfere para o país a responsabilidade em discutir temas raciais. “A questão do negro não é para o negro resolver, é para a nação brasileira.”

Sobre sua importância enquanto representante das mulheres negras, ela elucida:

“Me perguntam se falo pelas mulheres negras. Não falo pelas mulheres negras, falo como mulher negra, com as mulheres negras”. 
 
Fonte: mundonegro

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Raízes do Samba: Qual foi a importância histórica das mulheres negras no samba?

O samba é o ritmo símbolo de resistência da cultura negra. E as mulheres negras foram essenciais para que ele pudesse seguir existindo no período pós-escravidão. Se não fosse por elas, o samba não existiria hoje.
 
 

A origem do samba no Brasil é incerta. Mas todas as possíveis explicações apontam que as raízes do gênero estão na África e foram trazidas pelos negros escravos no período colonial brasileiro.

No entanto, pouco tempo após seu surgimento, o ritmo esteve ameaçado de extinção. Não muito depois da abolição da escravatura, foi sancionada a Lei da Vadiagem (1941), que considerava ociosidade como crime e permitia a prisão de pessoas que andassem nas ruas sem documentos.

Isso afetava diretamente os homens negros que estavam desempregados, muitas vezes sem teto e sem nenhuma possibilidade de serem contratados devido ao forte preconceito racial da época.

“O período pós-abolicionista marcou a forte perseguição de quaisquer sonoridades, sotaques, danças e religiosidades afro-brasileiras, que visavam manter tradições que a sociedade brasileira queria tanto apagar. Nesse contexto, a importância das mulheres negras foi fundamental, porque além de manterem economicamente suas famílias -- já que continuaram a trabalhar como empregadas domésticas nas casas grandes --, foram essenciais para a resistência do samba. No Rio de Janeiro, a Tia Ciata, que hoje seria o que é comumente conhecido como mãe de santo, se destaca como memória coletiva. Na sua casa acontecia o samba que era proibido, onde nomes como Pixinguinha, Sinhô e tantos outros se conheceram e puderam compor.”

Kelly Adriano de Oliveira, doutora em ciências sociais pela Unicamp, afirma que tanto as mulheres quanto a religiosidade afro-brasileira tiveram um grande papel para que o samba conseguisse resistir, porque era dentro dos terreiros das casas das tias baianas -- cujo símbolo ficou marcado em Tia Ciata --, no espaço privado e escondido, que o samba podia acontecer.

Não à toa, a valorização da ala das baianas nas escolas de samba é uma forma de homenagear não apenas Tia Ciata, mas a memória de todas as tias baianas do samba.

Mulheres pioneiras na história do samba

A antropóloga conta que apenas depois da década de 30 o samba passou a ser aceito como cultura popular, reforçado por Getúlio Vargas “com o movimento de valorização do que era brasileiro, o que faz o Brasil o Brasil, e a tentativa de incorporar uma falsa democracia racial, de um país que supostamente aceita sua negritude e suas raízes”.

“Assim que saiu do privado onde se mantinha como resistência e foi para o âmbito público como símbolo nacional, as mulheres passaram a ter menos participação nesse processo, por causa de todo aparato machista da época, em que rua não era lugar de mulher, dentro outras questões... Daí começa a predominância masculina nos espaços de samba”

Um marco feminino dentro na história do samba, em meio toda essa imensa dificuldade, é a Madrinha Eunice, uma mulher cuja memória de luta é imensurável. “Ela foi a primeira mulher a presidir uma escola de samba, a Lavapés de São Paulo, que surgiu na verdade mais como um cordão carnavalesco”, contextualiza Kelly.
Porém, só mesmo depois da década de 60 que mulheres puderam ter alguma visibilidade dentro do espectro musical do samba e aí começam a surgir nomes vindos do Rio de Janeiro, como Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara – a segunda que é, na opinião de Kelly, o principal símbolo desse contexto. 
 


Dona Ivone Lara se apresenta

“Ela foi a primeira mulher a participar da ala de compositores de uma escola de samba, a Império Serrano, no Rio de Janeiro, ao final de 1960. Sua importância extrapola os 'locais de samba', e ela alcança respeito enquanto compositora e instrumentista na chamada MPB.”

O papel das intérpretes para a difusão e popularização do samba, principalmente Clara Nunes -- com pele clara, mas ascendência negra --, Alcione, Leci Brandão e Beth Carvalho, que amadrinhou muitos sambistas, também foi essencial para a cultura musical brasileira.

Cenário atual do samba para as mulheres

O samba continua sendo hoje um gênero musical no qual há a predominância de homens, tanto dentro da indústria, como nos espaços onde ele é tocado popularmente.

“A abertura do samba para a participação das mulheres, principalmente negras, continua difícil e, embora sempre haja nomes em destaque, como Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Teresa Cristina, ainda temos muito pouco”, lamenta Kelly.

Como forma de seguir resistindo – e existindo – nesse cenário, algumas sambistas independentes vêm se organizando em grupos e rodas de samba só para mulheres. O grupo paulista Sambadas é um exemplo disso.

“Não é preciso conhecer tudo de samba pra saber que à sombra de sua 'amistosidade' se escondem muitos conflitos. O preconceito de gênero é um deles. Mesmo protagonizando a história dessa manifestação popular, muitas cantoras, compositoras, líderes de escola de samba etc , foram, e são, caladas”, afirma Carolina Nascimento, compositora e violonista do grupo.

Carol, que mora no Jardim Icaraí em São Paulo, região do Grajaú, tem 25 anos e conta que o Sambadas começou a se organizar em março de 2015 e desde então as oito mulheres que compõem o grupo se reúnem semanalmente para conversar, ensaiar e fazer samba. “Ainda não temos local fixo de apresentação, os eventos e as respectivas informações são publicadas em nossa página do Facebook”, conta.
 
 


Grupo Sambadas se reúne toda semana


Ao ser questionada sobre a importância do samba para a mulher negra e a sua representatividade dentro do gênero, Carolina Nascimento reforça o machismo e racismo ainda muito vivos na nossa sociedade.

Ela afirma já ter tocado em diversas rodas onde a presença de homens era majoritária, e, por isso, pôde presenciar o desprezo com o qual a mulher é tratada nesses espaços ― seja na letra da música, na ausência de mulheres tocando ou no tratamento despendido àquelas que ousam tocar, cantar ou compor.

“Levantar a questão racial torna essa discussão ainda mais necessária. A mesma iniciativa midiática que pretendeu colocar no esquecimento os sambistas negros da cidade de São Paulo ― Geraldo Filme, Madrinha Eunice, Zeca da Casa Verde, Talismã, Toniquinho Batuqueiro, entre outros ― evidenciando figuras que condiziam com o perfil de paulistano “de bem”, vende hoje uma ideia de mulher do samba que não representa a mim, minhas amigas e familiares. A nossa sorte, e também azar deles, é que quando se fala em resistência não há exemplo de mais força do que a luta do povo negro, sobretudo das mulheres.”

Outra integrante do grupo, Kelly Buarque de Hollanda, de 38 anos, moradora de Osasco, que toca cavaquinho e canta no Sambadas, também contou que uma das maiores dificuldades enquanto mulher sambista é o preconceito machista ao tocar em rodas de sambas masculinas:


“Quando chegava em rodas de samba com homens, senti muita hostilidade por parte deles. Não gostavam da minha presença, não era bem recebida, me olhavam feio e recusavam-se a aceitar meu dom. Demorou muito tempo para que eu fosse respeitada nesse meio. E só depois que percebi que esse incômodo era fruto de puro machismo, porque eu tocava melhor que eles e porque lugar de mulher dentro do samba não é tocando, mas sambando, né?!”
Durante toda nossa conversa, ficou perceptível como o histórico de resistência do samba para a cultura negra sobrevive fortemente dentro da força dessas sambistas mulheres e negras.

“Os negros fizeram do samba uma forma de contar suas histórias, questionar a realidade, amenizar as dores e festejar as alegrias, e o fizeram contrariando interesses de uma elite poderosa. O verdadeiro samba, aquele que valoriza a tradição e não a moeda, sempre foi resistência”, afirma Carol.

O que falta – e muito – na visão de ambas, porém, é a representação da mulher negra na indústria musical e na mídia. Para finalizar Carol lamenta: “Enquanto a nossa visibilidade não for meio de enriquecer os mais ricos, continuaremos nos deparando com globelezas e outros padrões que com certeza não são os nossos”.
 
__________________________________________________________
Ana Júlia Gennari  
  Journalist, writer, fellow at HuffPost Brazil 
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Angela Davis: 'Quando as mulheres negras forem finalmente livres, o mundo será livre'

Angela Davis, 75 anos, ativista e filósofa feminista norte-americana. 
Imagem: Rerodução - Huffpost

por Andréa Martinelli,
Em coletiva de imprensa, a lendária filósofa norte-americana falou sobre eleições nos Estados Unidos, o combate ao racismo e exaltou feminismo negro brasileiro.

Angela Davis, 75, filósofa e ativista norte-americana, acredita ser impossível escolher apenas uma categoria de luta ? entre feminismo, antirracismo, anticapitalismo ou abolicionista ? que defina seu ativismo. “Não acredito que seja saudável escolher uma luta e dizer que é mais importante do que outra, mas sim, em reconhecer como as diferentes lutas se conectam”, afirmou a jornalistas na manhã desta segunda-feira (21), em coletiva de imprensa no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

A convite da editora Boitempo, a ativista está no Brasil para lançar o livro Uma Autobiografia, publicado originalmente em 1974 e que, em 2019, foi finalmente traduzido para o português. Davis também participou do evento “Democracia em Colapso?”, promovido pela mesma editora e pelo Sesc São Paulo, em que ministrou a conferência sob o título “A liberdade é uma luta constante”.

“Eu não posso ser uma militante antirracista sem pensar na dimensão heteropatriarcal do racismo. Eu não posso ser feminista sem reconhecer o papel que o capitalismo e o racismo tiveram em moldar o patriarcado”, completou. Em seguida, exaltou a feminista brasileira Lélia Gonzalez, morta em 1994 que, segundo ela, já pensava o conceito de interseccionalidade em seus estudos e teorias muito antes do termo aparecer e ganhar popularidade.

Esta é a primeira vez que Angela Davis vem à capital paulista. Das oito vezes em que veio o Brasil, visitou apenas Salvador (BA), Goiânia (GO), São Luiz (MA) e Brasília (DF). Assim como nas outras oportunidades, ela escolheu não dar entrevistas individuais a jornalistas, mas sim, proporcionar uma coletiva de imprensa e palestras gratuitas.

Na noite desta segunda-feira (21), “Ms. Davis” ? apelido dado carinhosamente a ela ? repetirá a conferência ministrada no último sábado (19), desta vez no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, com capacidade de 15 mil pessoas. O evento é gratuito, aberto ao público e está previsto para começar às 19h.

Davis encerrará sua vinda ao Brasil no Rio de Janeiro, na próxima quinta-feira (23). A escritora receberá a Medalha Tiradentes, uma homenagem da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por sua trajetória. A iniciativa é da deputada Renata Souza (PSol-RJ), 1ª mulher negra no comando da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Nesta data, a ativista também fará conferência aberta ao público no Cine Odeon, durante abertura do encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas, considerado o maior evento audiovisual destinado para negros da América Latina. Haverá um telão voltado para a Cinelândia e a palestra será transmitida nas redes sociais.

“Estou extremamente impressionada com a profundidade do trabalho realizado no Brasil. Para muitos de nós [ativistas norte-americanos], o Brasil era um uma esperança, até que vieram as eleições, e nós prometemos não pronunciar o nome de quem foi eleito. Porque na tradição das religiões africanas nomear é atribuir energia de poder”, completou. Na palestra de sábado (19), ela não mencionou os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump nominalmente.

“Mas continuo me impressionando e sentindo muita esperança sempre que venho ao Brasil. Sinto um impulso coletivo aqui, principalmente entre os jovens, entre as jovens mulheres negras”, adicionou, em tom otimista. No último domingo (20), Angela Davis visitou acampamento das mulheres do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) e conheceu a ativista Preta Ferreira, que estava presa até o último dia 10 de outubro, após denúncia do Ministério Público que acusava ativistas por moradia de associação criminosa e extorsão.

Ainda na conversa com jornalistas na manhã desta segunda, Davis falou sobre sua aproximação com a luta LGBT e citou que, recentemente, esteve com a deputada estadual Erica Malunguinho (PSol-SP) e se emocionou com o trabalho dela. Em 2020, a editora Boitempo pleneja lançar o O significado da liberdade, novo livro de Davis, que traz artigos dentro desta temática.

“Eu acho que nenhum outro país já elegeu uma mulher negra e trans como deputada oficialmente. Eu fiquei muito comovida ao ouvir sobre o trabalho que ela tem feito (...). Aqueles de nós que vêm trabalhando contra a violência do Estado, a violência policial, a violência carcerária, temos que reconhecer que as mulheres negras trans são os alvos mais consistentes de violência”, pontuou.

Para a filósofa, o combate à violência de gênero precisa focar nas mulheres negras trans porque “quando [todas] as mulheres negras forem finalmente livres, isso significará que o mundo será livre”, disse. “Quando falamos ‘vidas negras importam’ não estamos falando de um grupo específico, estamos falando de humanidade. E o mesmo argumento se aplica à comunidade trans.”

“Esta é uma das mais importantes dimensões do feminismo. Nós não falamos somente sobre interconexões e interseccionalidade. Nós reconhecemos que ao falarmos sobre uma questão aparentemente pequena, afetamos o todo. E isso faz parte do entendimento de lutar por liberdade e justiça para todos.”

A professora da Universidade da Califórnia ainda confessou estar entusiasmada com o crescimento da popularidade de políticos socialistas nos Estados Unidos, principalmente entre jovens, como o senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.


Davis, que concorreu à vice-presidência dos EUA pelo Partido Comunista em 1980 e 1984 afirmou que “é muito empolgante ver um número tão grande de jovens indo em direção ao anticapitalismo”, mas que é preciso um movimento radical de transformação. “Precisamos fazer mais do que eleger um presidente. Queremos tirar Trump, mas isso não vai resolver os problemas mais profundos”, disse na segunda-feira.

E como combater o racismo que se manifesta atualmente em novas formas e roupagens? “O racismo nunca permanece o mesmo. Mas as estruturas [sociais] permitem que o racismo do passado tenha ressonância ainda hoje”, disse a ativista, ao pontuar que os efeitos da escravidão não desapareceram. “Vamos começar agora o que deveria ter sido feito um século e meio atrás. Este é só o começo. É muito empolgante. E antes de tudo, não podemos parar.”

O ativismo de Angela Davis
  
Documento policial com os dados de Angela Davis quando de sua prisão, em 1970. "Considere possivelmente armada e perigosa", dizia ficha policial./Imagem: Rerodução - Boitempo

Desde os anos 1980 Angela Davis faz constantes visitas ao Brasil. “As pessoas me perguntam: ‘Você já esteve no Rio?’ Não. ‘Você já esteve em São Paulo?’ Não. Mas estive em Salvador e de novo e de novo”, disse, ao iniciar palestra na UFBA (Universidade Federal da Bahia), em 2017, sua última visita ao País. Em 2019 é a primeira vez que Davis visita São Paulo e, também, Rio de Janeiro.

Na ocasião, em 2017, a presença da ativista, que é referência mundial no enfrentamento antirracista e do pensamento feminista, fez parte do evento “Julho das Pretas”, que promoveu atividades organizadas por coletivos.

A filósofa e ex-presa política ministrou a conferência “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”. Com mais de 400 alunos e convidados, o salão nobre da reitoria da UFBA atingiu sua capacidade máxima.

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se isso, muda-se a base do capitalismo”, disse no evento na reitoria da UFBA.

Na década de 70, Angela Davis integrou um braço do grupo Panteras Negras nos Estados Unidos e foi membro do Partido Comunista. Ela foi presa injustamente e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”, que deu nome ao documentário, dirigido por Shola Lynch, que traz um retrato do ativismo de Davis até os dias atuais.

Atualmente, Davis é professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos e desenvolve trabalho intenso sobre o sistema prisional norte-americano. 
 
Fonte: ceert

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Instalada a barbárie, não há saída que não parta dos silenciados

 

Mulheres ativistas antirracista escreveram sobre a importância do protagonismo negro nos espaços de decisão para a construção de uma sociedade mais justa

Texto / Julian Souza, Danielle Godoi e Ester Rufino | Imagem / Elza Fiuza/Agência Brasil,
Estamos chegando! O que há tempos dizemos... mas sempre estivemos? De que tempos falamos? Irreversível, irrefreável e inegociável. Corpos ditos pretos, periféricos, marginais e abjetos reivindicam seu lugar na retomada de todos os bens por si construídos sob sangue e suor em terras brasílicas.

Nos convidam a sentar à mesa da casa grande, nós os povos das senzalas, vítimas do tráfico transatlântico, quiçá a maior tragédia da humanidade, vez que seus reflexos se perpetuam no tempo!

Convite esse que denuncia a negociação do nosso pertencimento num país que crê no mito da democracia racial, na igualdade de gênero e na meritocracia.

Chegamos, mas não nos reconhecemos em rostos brancos, velhos, cisnormativos e heterossexuais. Trejeitos e costumes que desqualificam e deslegitimam nossa forma de ser e existir no mundo. Saberes cooptados e ressignificados que não consideram nossos acúmulos ancestrais como ciência.

A nós nos cabe nos utilizarmos de instrumentos capazes de dar conta da construção de um novo marco civilizatório. Isso significa dizer que grupos privilegiados deverão desocupar as cadeiras dos espaços de tomadas de decisão para que os mal-ditos assumam o protagonismo das narrativas sobre si, como já bradava uma certa malunga.

Estado, Direito, Política e Justiça são termos que carecem de efetividade e materialidade na vida de alguns sujeitos. Não por acaso, o Judiciário, o Executivo e o Legislativo, espaços de formulação de regras e mandamentos comportamentais e éticos são majoritariamente ocupados por corpos não negros, ao passo que o Brasil, vergonhosamente, é o país que ocupa o terceiro lugar no aprisionamento de pessoas. Realidade naturalizada pela maioria da população que entende que mais pena é igual a menos crime.

A Carta Maior de 1988 conferiu o gozo e fruição de Direitos Fundamentais. No entanto, o que se observa na prática é que, passados mais de 30 anos de sua existência, tais direitos não se efetivaram homogeneamente e não se construíram políticas públicas que alcancem a todas as pessoas conforme suas especificidades.

Propriedade e Moradia, Meio Ambiente e Povos Tradicionais, Especulação Imobiliária e Gentrificação, Agronegócio e Agricultura Familiar, Agrotóxico e Segurança Alimentar: dicotomias de um povo que performa compartilhar dos mesmos ideais de vida e sociedade.

Retrocesso, recrudescimento, censura, tortura: realidades presentes e (in)visíveis, frutos de um simulacro de democracia que não alçou voos maiores que não promover a manutenção do alijamento coletivo e seletivo da dignidade humana. 
 
____________________________________________________________________

Juliana Souza é advogada pela PUC/SP, mestranda em Humanidades Direitos e Outras Legitimidades pela USP, coordenadora chefe do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM, Vice-Presidente da Comissão Estadual da Jovem Advocacia da OAB/SP, militante antirracista e Coordenadora de Diversidade e Ações Antidiscriminatórias do Grupo Prerrogativas.
Danielle Godoi é advogada, feminista-antirracista, promotora legal popular e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Ester Rufino é militante antirracista, mobilizadora social, articuladora política e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Fonte: almapreta

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Nem feminismo branco nem negro: o que querem as mulheristas?


por Nathália Geraldo,
Uma pesquisa da expressão "Mulherismo africana" no Google é sintomática: são apenas 8 mil resultados em português, direcionados principalmente para artigos em blogs e acadêmicos. Nunca ouviu falar desse termo? É que a teoria do Womanism, em inglês, criada em 1987 pela intelectual norte-americana Clenora Hudson-Weems ainda é pouco comentada no Brasil. Ela fala sobre a experiência de ser uma mulher negra e lutar contra o patriarcado e a opressão de raça e de classe.


O Mulherismo não tem a amplitude que o movimento feminista, por exemplo, tem por aqui: jogar "feminismo" no buscador gera mais de 35 milhões de links para o tema. Mas, é assunto em coletivos, nas universidades e até em vídeos no Youtube sobre o que é ser uma mulher negra em lugares distantes do continente africano.

Clenora é professora de inglês na Universidade de Missouri, nos Estados Unidos. Em um vídeo de um programa de TV publicado na página da faculdade, de 1993, ela define sua teoria frente ao feminismo negro -- outro movimento que também se preocupa com as opressões de raça, classe e gênero enfrentadas pelas mulheres negras, mas de um jeito diferente.

"Ser uma mulherista africana significa que temos controle de nossa nomeação e nossa definição. É lidar com a tripla dificuldade das mulheres negras: raça, classe e sexo, mas com sua própria ordem. E, para mim, vem a noção de priorizar a raça, porque é isso que nos ameaça mais do que tudo, eu acredito", explica. "Mesmo depois de vencer a luta pelas 'fêmeas', vamos continuar sendo negras".

Para a filósofa e mulherista Katiúscia Ribeiro, que é mestra e doutoranda em filosofia africana na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o Mulherismo africana (é designado no feminino mesmo, em referência ao latim, que para acadêmias mulheristas deve ser visto como uma língua moura/negra) é uma nova narrativa para reunir e identificar reivindicações das mulheres negras a partir de suas próprias experiências de vida. Com isso, de cara, o feminismo branco se distancia da teoria.
Feminismo negro e mulherismo são diferentes?


 
Imagem: @dazzle_jam/nappy.co

O mulherismo é diferente do feminismo negro por dois motivos, de acordo com a pensadora: como o feminismo foi um movimento iniciado por mulheres brancas, o feminismo negro se tornou uma perspectiva cunhada a partir da experiência das mulheres brancas; ou seja, não dá conta de todas as violências em que a população negra está inserida.

É o que diz Clenora. "Eu discordo da ideia de que as mulheres negras foram as primeiras feministas ou pré-feministas, porque o conceito foi nomeado e definido por mulheres brancas. Elas [feministas brancas] tinham suas próprias agendas e não incluíam a gente."

Katiúscia afirma que quem se diz mulherista também não coloca o gênero como assunto central. O homem negro, portanto, também entra na roda. É com ele e com a comunidade negra em geral que mulheres negras se propõem a pensar a questão do racismo, do genocídio que dizima jovens e adultos.

De fato, como explica a filósofa, o feminismo negro também se preocupa com as questões do homem negro. "Mas, o mulherismo não está ancorado em discussões de gênero que, pensado assim, não dão conta de pensar o racismo como um todo."
Pé de guerra com o feminismo?


Katiúscia é mulherista e explica que a teoria política reflete a mulher negra com a perspectiva de África 
Imagem: Dani Villar/Arquivo Pessoal

Não, a narrativa não está em pé de guerra com o feminismo. Katiúscia comenta que a visão binária do Ocidente é que gera o desentendimento.

"Compreendemos a luta das mulheres pretas que nos antecederam. Mas, a mulher e o homem pretos precisam estar dentro da luta antirracista. Nós não morremos só por conta do gênero, mas pelo racismo estrutural que existe nesse país. Sempre vamos ser atingidos por um monstro com vários tentáculos e a cabeça dele é o racismo".

Um dos tentáculos que atingem as mulheres negras também é a violência apenas por ser mulher. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que entre 2017 e 2018, 61% das vítimas de feminicídio registradas no Brasil eram negras.

A filósofa pondera: "Por que com todas as ações de emancipação e de luta pelo gênero, o índice de feminicídio entre pretas aumenta? A agenda do feminismo não contempla isso. O feminismo é insuficiente pra dar conta, porque vivemos um genocídio físico e também espiritual, epistemológico. Não tem como a sororidade dar conta do racismo".
Falando de África

Nem mesmo o feminismo interseccional — expressão que reconhece as opressões de raça e de gênero sob as mulheres negras — dá "match" com o mulherismo.

Isso porque a teoria se define também por outro aspecto: a afrocentricidade. O termo não existe no dicionário, mas, como explica Katiúscia, "coloca a África como perspectiva, trazendo ancestralidade de um continente estritamente matriarcal, em que mulheres são as que gestam a potência do seu povo".

O resgate cultural e estético do que é afro, com a valorização dos cabelos crespos e cacheados e da identidade negra, por exemplo, também é bem-vindo.

"Eu tenho 39 anos e, na infância era impensável eu usar o cabelo que eu uso agora. Era a década de 80, em que piadas racistas eram comuns. Usar o cabelo natural, estampas coloridas em tecidos africanos, tudo isso, o mulherismo superapoia, porque estamos empretecendo a estética e a autoestima — e por que não empretecer também ideologicamente? No fim, a ideia é uma só: não estamos nos redefinindo a partir do que fizeram de nós, mas do que éramos", analisa a filósofa. 
 
Fonte: uol

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Dia Nacional da Visibilidade Lésbica: filme aborda afetividade entre mulheres negras


Curta-metragem protagonizado e produzido por profissionais negras será lançado entre outubro e novembro no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul

Texto / Nataly Simões | Edição / Pedro Borges | Imagem / Gabrielle Souza/Divulgação ,

“O amor entre mulheres negras é mais do que uma história de amor?”. Essa pergunta inspira o curta-metragem “Minha História é Outra”, filme protagonizado por mulheres negras que encontram novas formas de vivenciar a afetividade.

O curta-metragem traz duas histórias que mostram os limites e a potência do encontro entre as mulheres. A primeira é a da multiartista Niázia, uma moradora do Morro da Otto, quem abre a sua casa para compartilhar as partes mais importantes da sua vida na busca por autocuidado. Já a segunda é da estudante de direito Leilane, que enfrenta desafios para construir uma jornada de afeto.

Financiado pelo Edital de Fomento ao Audiovisual de Niterói 2018 e desenvolvido pelo Agô Yá – núcleo de criação e produção audiovisual composto por mulheres negras, “Minha História é Outra” ganhou uma página oficial no Instagram neste dia 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Ana Beatriz Silva, co-fundadora e produtora executiva do núcleo, destaca que a data é uma conquista histórica articulada por mulheres negras, que tiveram sua participação na causa invisibilizada.

“Visibilizar Heliana Hemetério, Neusa das Dores, Soraia Menezes, Rosangela Castro e Verônica Lourenço se torna imprescindível em tempos de um cenário político que insiste em censurar formas de amar e de produzir narrativas diversas no âmbito audiovisual”, afirma.

No dia 15 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro anunciou o fim do edital de financiamento de produções audiovisuais de diversidade de gênero e sexualidade. Em nota, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negrxs (APAN) considerou que a medida sugere censura a projetos que trazem narrativas sobre pessoas negras e LGBTs.

“Nos causa espanto que seja mais importante ao representante máximo da nação confundir a opinião pública com ‘bravatas’ e ‘factóides’, atacando pessoas negras, lésbicas, gays e trans, do que combater o genocídio das populações negras’, diz o comunicado.

Segundo Ana Beatriz Silva, o “Minha História é Outra” cumpre um papel social importante diante de um histórico de produções audiovisuais carregadas de estereótipos sobre a população negra.

“O filme é um convite de mulheres negras que entenderam a importância de enegrecer o debate sobre sexualidades, encruzilhadas políticas que acionam o encontro do debate racial, relações de gênero e sexualidade em experiências de subjetivação de corpos-afeto”, explica a co-fundadora e produtora executiva do Agô Yá.

O curta-metragem será lançado no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. A iniciativa de lançamento do cinema negro na América Latina ocorre de 23 de outubro a 3 de novembro.
 
Fonte: almapreta

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Cinco mulheres negras que transformam a realidade nas periferias

 
Atuantes em projetos sociais, mulheres negras lutam para melhorar as perspectivas de quem vive em regiões periféricas

Texto / Lucas Veloso e Nataly Simões | Edição / Pedro Borges | Imagem / Reprodução
Envolvidas em projetos que buscam superar as desigualdades sociais e raciais, as mulheres negras exercem um papel importante nas periferias de todo o Brasil. É o caso destas cinco mulheres que, de diferentes maneiras, lutam para melhorar a realidade das regiões onde vivem.

1. Eliete Paraguassu
Eliete Paraguassu(Foto: Reprodução)
 
Eliete é moradora da Ilha da Maré, uma comunidade negra e rural da Baía de Todos os Santos, em Salvador. Ela é uma das lideranças mais importantes contra a contaminação da água e os empreendimentos que poluem o meio ambiente, causando a morte de peixes e dos mariscos na região.

Defensora do patrimônio natural da Ilha, ela já se envolveu em diversos movimentos que denunciam a situação na região. Em maio deste ano, apresentou uma denúncia ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) que inclui atestado sobre a exposição química no local e o pedido de ações para a solução dos problemas.

2. Jéssica Moreira
Jessica
(Foto: Reprodução)

Natural de Perus, bairro na Zona Noroeste da cidade de São Paulo, Jéssica conheceu os movimentos sociais por ali mesmo. A Comunidade Cultural Quilombaque foi o primeiro movimento em que se envolveu, quando ainda estava na faculdade de Jornalismo.

Em 2012, escreveu um livro sobre a história local e criou um site para falar sobre o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus, espaço abandonado na região. Ela também faz parte do coletivo Nós, mulheres da periferia, criado para contar histórias de mulheres que vivem nas bordas da cidade.

3. Gleide Davis
Gleideee
(Foto: Reprodução)

Nascida em Salvador, na Bahia, Gleide teve seu primeiro contato com a militância em 2013, época em que foi convidada para adminstrar a página Feminismo Sem Demagogia no Facebook. Hoje, ela atua no coletivo Sarau do Cabrito, que promove atividades voltadas para arte, cultura e cidadania na região periférica da capital baiana.

Gleide também está no último período do curso de Serviço Social na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e constrói sua militância de forma independente nas redes sociais, especialmente em seu canal no YouTube, onde promove o debate sobre gênero, classe e raça, além de diversidade sexual.


4. Thamyra Thâmara

Thamyra
(Foto: Reprodução)

Moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Thamyra é responsável pela Casa Brota. Pensada com alguns amigos, o espaço é onde as pessoas do entorno encontram oportunidades para pensar negócios e ideias na favela.

Outra idealização de Thamyra é o projeto Favelados pelo Mundo. Na companhia do namorado Marcelo Magano, ela já viajou para países como Angola, Colômbia e México e usa a chance para dar dicas de como aproveitar os lugares gastando pouco dinheiro. Atualmente, os dois estão na Ilha de São Tomé e Príncipe, no continente africano.

5. Karen Oliveira
karen
(Foto: Reprodução)

Karen faz parte de movimentos voltados para a cultura hip hop nas periferias de Ilhéus e Salvador. Graduada em Comunicação Social, ela atua como poeta, MC, produtora cultural e é uma das articuladoras da Batalha das Bruxas, a única batalha de rima voltada para a população feminina na capital baiana.

Neste ano, Karen foi homenageada pelo Prêmio Mãe Ilza Mukalê devido à relevância do seu trabalho na região.

Fonte: almapreta

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Mulheres negras e violência: Decodificando os números


Geledés Instituto da Mulher Negra, com o apoio financeiro do Fundo Elas/Instituto Avon-Fundo Fale Sem Medo, desenvolve o projeto Mulheres Negras e Violência: decodificando os números, um projeto que visa ampliar a compreensão das particularidades que envolvem a questão da violência doméstica contra as mulheres negras.


Por Suelaine Carneiro,
O projeto se justifica em razão da expressiva participação das mulheres negras nos dados de homicídios, que segundo informações do Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil, no período 2003-2013, saltou de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos. As vítimas de crimes violentos são mulheres jovens, a maioria entre 18 e 30 anos, negras e pobres. O estudo mostra ainda que 50,3% das vítimas são assassinadas por familiares e 33,2% dos crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. A partir destes dados podemos induzir que mulheres negras são as principais vítimas da violência doméstica no Brasil.

Conversaremos com mulheres negras que vivenciam ou vivenciaram situações de violência doméstica de forma a compreender suas condições de vida, a dinâmica de violência, suas percepções sobre racismo e sexismo. Realizaremos também rodas de diálogos com profissionais que atuam em Centros de Atendimento para Mulheres Vítimas de Violências, para conhecermos suas práticas de acolhimento e atendimento, e se há especificidades na situação de vitimização das mulheres negras.

O projeto será finalizado com um seminário nacional para apresentação pública dos dados e informações sobre as especificidades da violência sofrida por mulheres negras, de forma a contribuir com novas ações no campo do enfrentamento das violências contra as mulheres.

Disponibilizaremos no Portal Geledés um espaço de informações sobre o tema, para tanto solicitamos o envio de artigos, pesquisas e dados sobre violência doméstica contra mulheres negras, para o endereço suelaine@geledes.org.br

REALIZAÇÃO
_____________________________________________________________________


Apoio:

quinta-feira, 25 de julho de 2019

25 de julho: A visibilidade da mulher negra e a luta para romper o silêncio

Por Fabiana Reinholz,
A data oportuniza a discussão sobre os meios para superar a opressão histórica sobre as mulheres negras

  
25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (Foto: Imagem retirada do site Brasil de Fato)

Mesmo pertencendo a maior parcela da população, uma vez que vivemos em um país no qual temos uma maioria de negros e mulheres, as mulheres negras permanecem sendo as mais exploradas e negligenciadas socialmente. Realidade que pode ser constatada nos dados que tratam do mercado de trabalho, no mapa da violência ou na representatividade política. A frente e por trás disso, o racismo e preconceito, cada vez mais arraigados. O dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Afro-Latina, Americana e Caribenha e também Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, é uma boa oportunidade para a reflexão sobre essa situação.

No país, elas são 55,6 milhões, chefiam 41,1% das famílias negras e recebem, em média, 58,2% da renda das mulheres brancas. Os dados foram extraídos do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, de 2015, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Já no Estado do Rio Grande do Sul, de acordo com o último Censo, em 2010, a população negra é de 22%. Sendo esse percentual baseado na autodeclaração, a estimativa variável é que haja 17% de mulheres negras. Cabe observar que ao falar de mulheres negras, estão as mulheres pretas, pardas (de diversas miscigenações).

Quando observamos os dados de homicídios, os dados não são nada animadores. De acordo com o Atlas da Violência 2019, foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres em 2017, sendo que 66% das vítimas é negra, morta por armas de fogo, tendo boa parte acontecido dentro de casa. Na política, dados da campanha Mulheres Negras Decidem apontam que, em 2018, dos 513 parlamentares, apenas 10 eram mulheres negras.

No mercado de trabalho, de acordo com Lucia Garcia, economista do Dieese e especialista em mercado de trabalho, em 2017, quando ultrapassávamos o período em que a crise brasileira e latina se tornou crônica, se observa que as mulheres negras voltam a enfrentar taxas de desemprego (21,1% da Força de Trabalho negra feminina) muito mais altas que as mulheres não negras (11,1%) e do que os homens não-negros (9,4%), tornando-se assim o grupo mais vulnerável ao desemprego.

“Além disso, quando obtiveram ocupações, as negras estavam em maior proporção em inserções vulneráveis, como o assalariamento ilegal (sem a CTPS assinada), 6,6% das ocupadas negras, enquanto entre as não-negras essa proporção era de 3,8%. Enclaves produtivos associados ao trabalho pesado e pouco valorizado também tradicionalmente são os lugares da mulher negra, como o emprego doméstico, que absorvia 23,4% das negras ocupadas, ao passo que apenas 11,5% da não negras. Como resultante desse quadro, a remuneração das negras tem ficado muito aquém de outros segmentos populacionais (68% do rendimento médio dos homens não negros)”, aponta.

“No período recente, as mulheres negras conheceram melhoria em sua condição no mundo do trabalho, sobretudo entre 2005 e 2014, mas tão logo o esgotamento do modelo do governo democrático-popular se apresentou, sendo substituído pelo austericídio, a condição dessa população piorou rapidamente”, conclui.

Para além dos números

Além de confrontar os números, há a realidade subjetiva que precisa ser analisada quando falamos da luta e resistência das mulheres negras, subjetividade observada no silenciamento e abafamento de suas vozes. Para a doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Winnie Bueno, o pacto narcísico da branquitude e as novas formas de silenciamento da violência racial são duas características contemporâneas que aprofundam os desafios do combate ao racismo no Brasil. “Estamos sendo governados por um presidente que nega a existência do racismo. Isso é grave, isso é bastante sério e isso faz com que o governo possa se omitir de enfrentar o racismo enquanto problema social”, ressalta.
 
 Winnie Bueno: “Estamos sendo governados por um presidente que nega a existência do racismo. Isso é grave, isso é bastante sério” / Foto: Arquivo pessoal

Ela destaca que as mulheres negras vivem uma tensão dialética entre ativismo e opressão, o que faz com que os momentos de maior violência sejam também momentos de ampliação de formulações políticas, educacionais e estratégicas. “É um momento onde direitos dos grupos oprimidos estão sendo mais diretamente atacados, e isso impacta na vida de mulheres negras, mas é também nesses momentos que as formulações e estratégias políticas desenvolvidas por essa coletividade adquirem complexidade”.

No que diz respeito ao Sul do país, para além de todos os desafios relacionados ao racismo e ao sexismo, temos a questão da invisibilidade, frisa Winnie. “A narrativa que não existem pessoas negras no Sul faz com que a nossa atuação seja mais dificultada. A primeira organização de mulheres negras do Brasil nasceu aqui, a ONG Maria Mulher, da educadora Maria da Conceição Fontoura. Entretanto, não é nacionalmente reconhecida e celebrada como é Sueli Carneiro, por exemplo. Essas mulheres são contemporâneas, ativistas fundamentais para a luta de mulheres negras, mas a dinâmica de marginalização das mulheres negras no sul oculta trajetórias”, conclui.

Pioneira

A ONG Maria Mulher, foi a primeira organização a juntar feminismo e movimento negro no país. Ela foi construída 1987, momento da redemocratização do país. Na época, de acordo com Sandra Maciel, uma das coordenadoras da ONG juntamente com Maria Conceição Lopes Fontoura, o movimento negro tinha as suas pautas mas as mulheres negras estavam construindo as suas próprias formas de enfrentamento ao racismo e ao machismo. Ao se analisar a situação das mulheres negras no estado, afirma, “Estamos por nossa própria conta, fazendo os caminhos, criando oportunidades, porque ainda somos as últimas da pirâmide em uma sociedade racista e sexista”.

Em relação aos avanços, Sandra destaca a conquista em postos de trabalho, onde eram vistos somente pessoas não negras. “Colorimos as universidades do Brasil afora”. Em contrapartida os retrocessos, aponta, são os a sociedade está vivendo na questão da reforma da aposentadoria, nas mudanças das leis trabalhistas, nos ataques na educação. Ao abordar a questão dos números de violência às mulheres negras, Sandra, frisa que a precariedade das condições sociais, econômicas, psíquicas faz da mulher negra uma vítima potencial de quase todos os tipos de violência e nisso está incluso os homicídios e feminicídios.

Mídia (jornalismo), judiciário e mercado editorial

Esses três segmentos, assim como em tantos outros, refletem a imagem e presença da mulher negra na sociedade como um todo, onde a estética não é aceita, a história é invisibilizada e a voz abafada.
 
 Jeanine Ramos: “As novas jornalistas negras estão abrindo mais espaço. Os tempos são outros” / Foto: Fabiana Reinholz

Para a jornalista Jeanice Dias Ramos, as dificuldades não terminaram para as mulheres negras jornalistas, mas apesar de todos os percalços, ela acredita que a nova geração traz uma nova esperança e perspectiva. “Nós, jornalistas negras, com eu, a Vera Daisy, a Vera Cardozo, a Delcinara Nascimento, passamos por uma etapa muito difícil. Éramos muito solitárias nas redações, uma no meio de uma multidão. Isso está alterando, é um grãozinho de areia, mas está alterando. As novas jornalistas negras estão abrindo mais espaço, e não é um processo tão doloroso como foi o nosso. Os tempos são outros, as mentalidades não estão tão enraizadas”, acredita.

A também jornalista e repórter, Fernanda Carvalho, enfatiza que ainda se está muito aquém do ideal. “Temos que seguir caminhando e abrindo espaços”, afirma. Tratando da presença das mulheres na mídia e no jornalismo, Fernanda pontua que duas questões precisam ser vistas: a visibilidade e a representatividade. “Visibilidade é bacana, é bom vermos mais profissionais negras diante da tela, por exemplo, mas ainda precisamos estar nos outros espaços: redatores, editores, pauteiros.. Aí entra a representatividade. Temos que ter voz ativa nos espaços decisórios”, analisa.

De acordo com ela, na prática, infelizmente, depende-se de uma profissional negra em muitas redações para que as pautas ganhem espaço. “De uma maneira geral, quem pensa o jornalismo não é ainda sensível neste sentido. E quando é, parece que ainda não o suficiente. Ainda temos muito a avançar, mas também é importante vermos que já caminhamos neste sentido”, observa.

Ao se falar de espaços de poder, a juíza Karen Luise Vilanova Batista de Souza Pinheiro, da 1ª Vara do Júri de Porto Alegre, relata que as mulheres negras não ocupam esses espaços, que a ausência é visível em todos eles: executivo, legislativo e judiciário. “Essa condição gera um saldo negativo de vocalização de demandas próprias, precarizando condições de sobrevivência. Quem melhor pode dizer sobre a escola, o saneamento básico, o sistema de saúde, a habitação, o salário para uma mulher negra do que ela própria? Ninguém. Portanto, vivemos um quadro dramático”, analisa.
 
 Juíza Karen: “Nosso Judiciário é branco e do gênero masculino. Não há pluralidade e diversidade” / Foto: Arquivo pessoal

No setor Judiciário, Karen aponta que a realidade é de um setor branco e do gênero masculino. “Realizamos a justiça com esse viés unidimensional sobre o mundo. Não há pluralidade e diversidade no Poder Judiciário. Represento menos de 1% da magistratura feminina preta brasileira”, afirma. A magistrada conta que na maioria das vezes, em encontros com estudantes, eles dizem nunca terem visto uma juíza negra.

“O que significa dizer que gerações não constituem sua identidade de forma positiva, compreendendo como possível estarem em determinados lugares e exercerem certas funções. Ao contrário, mulheres negras constituem-se de modo negativo, percebendo-se como incapazes de ocupação de espaços e de exercício de poder. Acaso as coisas permaneçam como estão, nada mudará”, reflete. Para ela, vive melhor a mulher negra e sua família quando lhe são garantidos direitos sociais e trabalhistas.

No mercado editorial a jornalista e editora literária Fernanda Bastos, da editora Figura de Linguagem, diz que o segmento é muito similar aos outros espaços. “O racismo é estrutural, e o mercado editorial reflete essas opressões de gênero, raça e classe. Avanços têm sido conquistados, especialmente a partir do século 21, por conta da organização das mulheres negras, mas os ganhos coletivos surgem lentamente”, observa. 
 
Fernanda Bastos: “O racismo é estrutural, e o mercado editorial reflete essas opressões de gênero, raça e classe” / Foto: Arquivo pessoal

Pode-se ter uma ideia das dificuldades enfrentadas, conforme Fernanda, ao pensar no fenômeno literário do século 20 que foi Carolina Maria de Jesus, em como foi difícil para ela se inserir e como, até hoje, tentam deslegitimar seus feitos e sua obra. “Mesmo sendo esse arrasa-quarteirão em vendas e trazendo a perspectiva dela, o lugar de fala, ainda assim houve estranhamento e rejeição do mercado”, pontua.

Na avaliação da editora, escritoras africanas que são sucesso de venda, como Chimamanda Ngozi Adichie, têm demonstrado que a experiência negra no mundo tem qualidade literária é vendável e contribui para uma nova perspectiva quando o assunto é literatura feita por mulheres negras. “Essas autoras mundialmente conhecidas alargam as possibilidades de consumo para outras mulheres negras, pois há um público que há muitos anos vinha sendo desprezado e que hoje começam a ser atendidos. Os êxitos de vendas e de projeto literário de Conceição Evaristo, Geni Guimarães e Ana Maria Gonçalves são exemplares do poder das narrativas de mulheres negras no Brasil”, afirma

Fernanda Carvalho sintetiza os desafios das mulheres negras em fazer com que suas pautas sejam vistas de maneira tão universal como outras pautas são. “Por exemplo, não vemos o genocídio da juventude negra ser tratado pela mídia – generalizando – como um problema do país. Parece que é um problema só nosso. Se é a mãe negra que chora, a gente que se resolva”, exemplifica. “Não há retrocesso maior do que voltarmos a dizer nos dias de hoje que somos todos iguais. Ou, pior ainda, que racismo nem existe. Não vamos deixar o mito da democracia racial, que só nos atrasou na luta por equidade, volte e ganhe força novamente. Vamos seguir em frente, honrando os passos daquelas que vieram antes de nós e pelas mulheres negras que darão continuidade a nossa luta”, finaliza.

Resistência e luta

“O 25 de julho nos lembra de nossos desafios, de nossas dores, mas também nos unifica. É um momento importante para debatermos os meios para superarmos a opressão histórica que opera em diversos níveis sobre as mulheres negras. Se o momento político é desfavorável para os ativismos, não é novidade para as mulheres negras, porque costumamos cavar nosso espaço sem contar com muita empatia”, conclui Fernanda Bastos.

Em 1992, na cidade de Santo Domingo, na República Dominicana no Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, criou-se a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, onde definiu-se o dia 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha. No Brasil, oficializou-se a data em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.987 determinando o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Tereza de Benguela, foi uma mulher quilombola, rainha e chefe de estado, que viveu no século XVIII no Vale do Guaporé. Ela liderou o Quilombo de Quariterê, no estado do Mato Grosso, que resistiu da década de 1730 até o final do século.

Atividades alusivas ao dia 25

Nesta quinta-feira, acontece uma aula pública, na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre, a partir das 17h. O debate vai contar com a participação de Claudenice Rodrigues (moradora da Ocupação Lanceiros Negros e integrante do Movimento de Mulheres Olga Benario); Carla Zanella (coordenadora da Emancipa Mulher – Escola Feminista e Antirracista, cientista social, graduanda em direito); Tainah Motta do Nascimento (Advogada lesbofeminista antirracista e mestranda em Educação pela Unisinos, pesquisadora da trajetórias de professoras negras lésbicas no ensino público); e Lucia Garcia (Economista e especializada em teoria econômica, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Economia/ UFRGS, técnica do DIEESE e rofessora da Escola Ciências do Trabalho do DIEESE, coordenadora dos estudos e informativos sobre a inserção da População Negra em mercados de trabalhos metropolitanos, bem como sobre a condição de inserção produtiva das Mulheres Negras).

No sábado (27), acontece o debate “Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e Lei 10.639/03”, no Bar da Carla, na Lobô da Costa, 24, Porto Alegre, a partir das 14h30. A roda de conversa terá a participação de Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (professora da rede municipal e criadora e coordenadora do Projeto Meninas Crespas); Perla Santos (professora da rede estadual, integrante do Coletivo Alicerce); e Karen Santos (vereadora de Porto Alegre pelo PSOL e Procuradora Especial da Mulher na Câmara de Vereadores).