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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Angela Davis: 'Quando as mulheres negras forem finalmente livres, o mundo será livre'

Angela Davis, 75 anos, ativista e filósofa feminista norte-americana. 
Imagem: Rerodução - Huffpost

por Andréa Martinelli,
Em coletiva de imprensa, a lendária filósofa norte-americana falou sobre eleições nos Estados Unidos, o combate ao racismo e exaltou feminismo negro brasileiro.

Angela Davis, 75, filósofa e ativista norte-americana, acredita ser impossível escolher apenas uma categoria de luta ? entre feminismo, antirracismo, anticapitalismo ou abolicionista ? que defina seu ativismo. “Não acredito que seja saudável escolher uma luta e dizer que é mais importante do que outra, mas sim, em reconhecer como as diferentes lutas se conectam”, afirmou a jornalistas na manhã desta segunda-feira (21), em coletiva de imprensa no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

A convite da editora Boitempo, a ativista está no Brasil para lançar o livro Uma Autobiografia, publicado originalmente em 1974 e que, em 2019, foi finalmente traduzido para o português. Davis também participou do evento “Democracia em Colapso?”, promovido pela mesma editora e pelo Sesc São Paulo, em que ministrou a conferência sob o título “A liberdade é uma luta constante”.

“Eu não posso ser uma militante antirracista sem pensar na dimensão heteropatriarcal do racismo. Eu não posso ser feminista sem reconhecer o papel que o capitalismo e o racismo tiveram em moldar o patriarcado”, completou. Em seguida, exaltou a feminista brasileira Lélia Gonzalez, morta em 1994 que, segundo ela, já pensava o conceito de interseccionalidade em seus estudos e teorias muito antes do termo aparecer e ganhar popularidade.

Esta é a primeira vez que Angela Davis vem à capital paulista. Das oito vezes em que veio o Brasil, visitou apenas Salvador (BA), Goiânia (GO), São Luiz (MA) e Brasília (DF). Assim como nas outras oportunidades, ela escolheu não dar entrevistas individuais a jornalistas, mas sim, proporcionar uma coletiva de imprensa e palestras gratuitas.

Na noite desta segunda-feira (21), “Ms. Davis” ? apelido dado carinhosamente a ela ? repetirá a conferência ministrada no último sábado (19), desta vez no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, com capacidade de 15 mil pessoas. O evento é gratuito, aberto ao público e está previsto para começar às 19h.

Davis encerrará sua vinda ao Brasil no Rio de Janeiro, na próxima quinta-feira (23). A escritora receberá a Medalha Tiradentes, uma homenagem da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por sua trajetória. A iniciativa é da deputada Renata Souza (PSol-RJ), 1ª mulher negra no comando da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Nesta data, a ativista também fará conferência aberta ao público no Cine Odeon, durante abertura do encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas, considerado o maior evento audiovisual destinado para negros da América Latina. Haverá um telão voltado para a Cinelândia e a palestra será transmitida nas redes sociais.

“Estou extremamente impressionada com a profundidade do trabalho realizado no Brasil. Para muitos de nós [ativistas norte-americanos], o Brasil era um uma esperança, até que vieram as eleições, e nós prometemos não pronunciar o nome de quem foi eleito. Porque na tradição das religiões africanas nomear é atribuir energia de poder”, completou. Na palestra de sábado (19), ela não mencionou os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump nominalmente.

“Mas continuo me impressionando e sentindo muita esperança sempre que venho ao Brasil. Sinto um impulso coletivo aqui, principalmente entre os jovens, entre as jovens mulheres negras”, adicionou, em tom otimista. No último domingo (20), Angela Davis visitou acampamento das mulheres do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) e conheceu a ativista Preta Ferreira, que estava presa até o último dia 10 de outubro, após denúncia do Ministério Público que acusava ativistas por moradia de associação criminosa e extorsão.

Ainda na conversa com jornalistas na manhã desta segunda, Davis falou sobre sua aproximação com a luta LGBT e citou que, recentemente, esteve com a deputada estadual Erica Malunguinho (PSol-SP) e se emocionou com o trabalho dela. Em 2020, a editora Boitempo pleneja lançar o O significado da liberdade, novo livro de Davis, que traz artigos dentro desta temática.

“Eu acho que nenhum outro país já elegeu uma mulher negra e trans como deputada oficialmente. Eu fiquei muito comovida ao ouvir sobre o trabalho que ela tem feito (...). Aqueles de nós que vêm trabalhando contra a violência do Estado, a violência policial, a violência carcerária, temos que reconhecer que as mulheres negras trans são os alvos mais consistentes de violência”, pontuou.

Para a filósofa, o combate à violência de gênero precisa focar nas mulheres negras trans porque “quando [todas] as mulheres negras forem finalmente livres, isso significará que o mundo será livre”, disse. “Quando falamos ‘vidas negras importam’ não estamos falando de um grupo específico, estamos falando de humanidade. E o mesmo argumento se aplica à comunidade trans.”

“Esta é uma das mais importantes dimensões do feminismo. Nós não falamos somente sobre interconexões e interseccionalidade. Nós reconhecemos que ao falarmos sobre uma questão aparentemente pequena, afetamos o todo. E isso faz parte do entendimento de lutar por liberdade e justiça para todos.”

A professora da Universidade da Califórnia ainda confessou estar entusiasmada com o crescimento da popularidade de políticos socialistas nos Estados Unidos, principalmente entre jovens, como o senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.


Davis, que concorreu à vice-presidência dos EUA pelo Partido Comunista em 1980 e 1984 afirmou que “é muito empolgante ver um número tão grande de jovens indo em direção ao anticapitalismo”, mas que é preciso um movimento radical de transformação. “Precisamos fazer mais do que eleger um presidente. Queremos tirar Trump, mas isso não vai resolver os problemas mais profundos”, disse na segunda-feira.

E como combater o racismo que se manifesta atualmente em novas formas e roupagens? “O racismo nunca permanece o mesmo. Mas as estruturas [sociais] permitem que o racismo do passado tenha ressonância ainda hoje”, disse a ativista, ao pontuar que os efeitos da escravidão não desapareceram. “Vamos começar agora o que deveria ter sido feito um século e meio atrás. Este é só o começo. É muito empolgante. E antes de tudo, não podemos parar.”

O ativismo de Angela Davis
  
Documento policial com os dados de Angela Davis quando de sua prisão, em 1970. "Considere possivelmente armada e perigosa", dizia ficha policial./Imagem: Rerodução - Boitempo

Desde os anos 1980 Angela Davis faz constantes visitas ao Brasil. “As pessoas me perguntam: ‘Você já esteve no Rio?’ Não. ‘Você já esteve em São Paulo?’ Não. Mas estive em Salvador e de novo e de novo”, disse, ao iniciar palestra na UFBA (Universidade Federal da Bahia), em 2017, sua última visita ao País. Em 2019 é a primeira vez que Davis visita São Paulo e, também, Rio de Janeiro.

Na ocasião, em 2017, a presença da ativista, que é referência mundial no enfrentamento antirracista e do pensamento feminista, fez parte do evento “Julho das Pretas”, que promoveu atividades organizadas por coletivos.

A filósofa e ex-presa política ministrou a conferência “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”. Com mais de 400 alunos e convidados, o salão nobre da reitoria da UFBA atingiu sua capacidade máxima.

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se isso, muda-se a base do capitalismo”, disse no evento na reitoria da UFBA.

Na década de 70, Angela Davis integrou um braço do grupo Panteras Negras nos Estados Unidos e foi membro do Partido Comunista. Ela foi presa injustamente e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”, que deu nome ao documentário, dirigido por Shola Lynch, que traz um retrato do ativismo de Davis até os dias atuais.

Atualmente, Davis é professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos e desenvolve trabalho intenso sobre o sistema prisional norte-americano. 
 
Fonte: ceert

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Angela Davis encontra Carmen Silva e Preta Ferreira


Em casa, Carmen Silva e Preta Ferreira receberam a Pantera Negra Angela Davis. A visita em casa aconteceu por que Carmen e Preta cumprem medida cautelar e estão proibidas pela Justiça de sair nos finais de semana. 
 
A filósofa Angela Davis visitou, neste domingo (20), a casa de Carmen Silva e sua filha, Preta Ferreira, em São Paulo. Ao chegar à residência, Davis anunciou: “Vim com uma questão, que é saber como posso ajudar", em solidariedade contra a injustiça sofrida pelas ativistas nos últimos meses. 
 
Desde junho de 2019, cinco integrantes do Movimento Sem Teto do Centro (MTSC) e outras 14 pessoas sofrem processo instaurado pelo Ministério Público que associa distintos movimentos sociais por moradia ao crime organizado, e os acusa de extorsão. A cantora e produtora cultural Preta Ferreira e seu irmão, Sidney Ferreira, passaram 109 dias encarcerados em razão da denúncia. Carmen Silva, coordenadora do MSTC, Liliane Ferreira, pastora evangélica e filha de Carmen, e Adriana Ferreira, nora de Carmen, também tiveram prisões decretadas no processo. Após intensa diligência dos advogados, os cinco obtiveram Habeas Corpus e irão responder ao processo em liberdade. A luta agora é para provar sua inocência. 
 
Angela Davis está no Brasil para três conferências intituladas “A liberdade é uma luta constante”, e tem se pronunciado publicamente sobre o encarceramento de Preta. A prisão política da cantora evidencia uma crescente perseguição contra movimentos sociais, e a luta pela liberdade de Preta e Carmen tornou-se símbolo da resistência em favor de trabalhadores de baixa renda que, à margem de políticas públicas, se organizam e, juntos, dedicam suas vidas à luta por direitos civis no Brasil. 
 
Davis tornou-se um dos nomes mais expressivos na luta por direitos humanos e ganhou projeção internacional naquele que seria considerado um dos mais importantes julgamentos do século XX e que a colocaria, ao mesmo tempo, na condição de ícone dos movimentos negro e feminista e na lista das dez pessoas mais procuradas pelo FBI. Em sua primeira passagem por São Paulo, fez questão de ir ao encontro de Preta e Carmen, proibidas de sair de casa aos finais de semana por medida cautelar, para ouvi-las e somar-se à sua luta por inocência. 
 
“Angela é da mesma época de luta que eu. Enquanto eu resistia aqui no Brasil, ela resistia nos EUA”, lembrou Carmem Ferreira. “No presídio, li 'Uma Autobiografia'. Pensava que se Angela passou por tudo isso, resistiu e tornou-se o que é, eu também tenho que resistir”, disse Preta, emocionada. Davis reforçou a importância de dar projeção ao caso. Participaram da visita as deputadas Erika Malunguinho e Isa Penna e também a cantora Maria Gadu, amiga pessoal da família. 
 
Aqui um pouquinho do que foi esse encontro incrivel e emocionante. Mais tarde publicaremos na íntegra. Assista:
 
 
Angela Davis fará conferência gratuita e aberta ao público na plateia externa do Auditório Ibirapuera, que tem capacidade para 15 mil pessoas. No dia 23, falará em mais uma conferência gratuita e aberta ao público no Cine Odeon, às 19 horas, na abertura do "Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas”, o maior evento audiovisual destinado para obras e realizadores negros da América Latina. 
 
Sobre o Movimento Sem-Teto do Centro [MSTC] Fundado em 2000, reúne, hoje, mais de 300 famílias em cinco ocupações [Casarão, José Bonifácio, Nove de Julho, Rio Branco e São Francisco]. Em 2016, o Movimento foi selecionado pelo programa Minha Casa Minha Vida Entidades e o antigo Hotel Cambrige, uma de suas ocupações, foi transformado em prédio residencial para 120 famílias. É reconhecido nacional e internacionalmente como um importante polo de reivindicação cidadã e de promoção de direitos negados a uma parcela da população.