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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Instalada a barbárie, não há saída que não parta dos silenciados

 

Mulheres ativistas antirracista escreveram sobre a importância do protagonismo negro nos espaços de decisão para a construção de uma sociedade mais justa

Texto / Julian Souza, Danielle Godoi e Ester Rufino | Imagem / Elza Fiuza/Agência Brasil,
Estamos chegando! O que há tempos dizemos... mas sempre estivemos? De que tempos falamos? Irreversível, irrefreável e inegociável. Corpos ditos pretos, periféricos, marginais e abjetos reivindicam seu lugar na retomada de todos os bens por si construídos sob sangue e suor em terras brasílicas.

Nos convidam a sentar à mesa da casa grande, nós os povos das senzalas, vítimas do tráfico transatlântico, quiçá a maior tragédia da humanidade, vez que seus reflexos se perpetuam no tempo!

Convite esse que denuncia a negociação do nosso pertencimento num país que crê no mito da democracia racial, na igualdade de gênero e na meritocracia.

Chegamos, mas não nos reconhecemos em rostos brancos, velhos, cisnormativos e heterossexuais. Trejeitos e costumes que desqualificam e deslegitimam nossa forma de ser e existir no mundo. Saberes cooptados e ressignificados que não consideram nossos acúmulos ancestrais como ciência.

A nós nos cabe nos utilizarmos de instrumentos capazes de dar conta da construção de um novo marco civilizatório. Isso significa dizer que grupos privilegiados deverão desocupar as cadeiras dos espaços de tomadas de decisão para que os mal-ditos assumam o protagonismo das narrativas sobre si, como já bradava uma certa malunga.

Estado, Direito, Política e Justiça são termos que carecem de efetividade e materialidade na vida de alguns sujeitos. Não por acaso, o Judiciário, o Executivo e o Legislativo, espaços de formulação de regras e mandamentos comportamentais e éticos são majoritariamente ocupados por corpos não negros, ao passo que o Brasil, vergonhosamente, é o país que ocupa o terceiro lugar no aprisionamento de pessoas. Realidade naturalizada pela maioria da população que entende que mais pena é igual a menos crime.

A Carta Maior de 1988 conferiu o gozo e fruição de Direitos Fundamentais. No entanto, o que se observa na prática é que, passados mais de 30 anos de sua existência, tais direitos não se efetivaram homogeneamente e não se construíram políticas públicas que alcancem a todas as pessoas conforme suas especificidades.

Propriedade e Moradia, Meio Ambiente e Povos Tradicionais, Especulação Imobiliária e Gentrificação, Agronegócio e Agricultura Familiar, Agrotóxico e Segurança Alimentar: dicotomias de um povo que performa compartilhar dos mesmos ideais de vida e sociedade.

Retrocesso, recrudescimento, censura, tortura: realidades presentes e (in)visíveis, frutos de um simulacro de democracia que não alçou voos maiores que não promover a manutenção do alijamento coletivo e seletivo da dignidade humana. 
 
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Juliana Souza é advogada pela PUC/SP, mestranda em Humanidades Direitos e Outras Legitimidades pela USP, coordenadora chefe do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM, Vice-Presidente da Comissão Estadual da Jovem Advocacia da OAB/SP, militante antirracista e Coordenadora de Diversidade e Ações Antidiscriminatórias do Grupo Prerrogativas.
Danielle Godoi é advogada, feminista-antirracista, promotora legal popular e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Ester Rufino é militante antirracista, mobilizadora social, articuladora política e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Fonte: almapreta

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Toni Morrison, escritora negra americana e ganhadora do prêmio nobel de literatura, morre aos 88 anos

Foto: Timothy Greenfield-Sanders
 
AquilombandoDFE lamenta profundamente a morte de Toni Morrison, aos 88 anos.

A escritora nasceu em 1931, em Ohio, nos Estados Unidos. Formada em letras pela Howard University, estreou como romancista em 1970, com "O olho mais azul". Em 1975, foi indicada para o National Book Award com "Sula", e dois anos depois venceu o National Book Critics Circle com "Song of Solomon". "Amada" lhe valeu o prêmio Pulitzer. Foi a primeira escritora negra a receber o prêmio Nobel de literatura, em 1993. Aposentou-se em 2006 como professora de humanidades na Universidade de Princeton. Seu romance mais recente, "Deus ajude essa criança", foi publicado no Brasil em 2018.

No discurso que proferiu ao receber o Nobel, Morrison disse: "Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas."

Cinco livros essenciais da escritora:

Autora americana, vencedora do Nobel de Literatura e do Prêmio Pulitzer, deixou romances intensos marcados pelo racismo e as feridas da escravidão

A escritora americana Toni Morrison, primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura
(Philippe Wojazer/Reuters)

Ganhadora de um Nobel de Literatura e de um Prêmio Pulitzer, a escritora Toni Morrison traçou com sua pena romances poéticos sobre temas duros — especialmente voltados para as feridas da escravidão e do racismo nos Estados Unidos. A autora, que influenciou diversos outros escritores e até roteiristas, como Shonda Rhimes, morreu na segunda-feira 5, aos 88 anos de idade, deixando onze romances publicados, além de ensaios e textos infantis. Confira abaixo cinco de suas principais obras:

O Olho Mais Azul (1970)




Primeiro romance de Toni, publicado quando ela tinha 39 anos, o livro conta a história de uma garota negra na década de 1940 em Ohio, que sonha ter olhos azuis. Para a menina, a brancura é sinônimo de beleza em um mundo assombrado pela escravidão e cercado de referências que associam garotas brancas ao que é “correto”.

Vívido, sensível, mas também duro e sem filtros, o livro foi descrito pelo jornal The New York Times como “uma prosa tão precisa, tão fiel ao discurso e tão carregada de dor e assombro que o romance se torna poesia”. À época, teve uma resposta ambivalente do público, com baixas vendas. Ganhou reconhecimento ao entrar para uma lista de leitura de uma universidade. Desde então, enfrentou desafios legais e chegou a ser banido em escolas de vários estados americanos por tratar de temas tabu como incesto e abuso sexual infantil.

Amada (1987)



Com seu quinto livro, Toni ganhou status de celebridade ao dramatizar a dolorosa história real de Margaret Garner, uma escrava que tem sua busca pela liberdade marcada pela complicada relação com a filha, que nasce durante sua fuga.

“É uma obra-prima americana, a qual repensa, de um jeito curioso, todos os grandes romances da época em que é escrito”, escreveu A.S. Byatt, no jornal The Guardian, por ocasião do lançamento.

Em decisões polêmicas, Amada foi preterido em dois dos principais prêmios americanos da área ao ser publicado, levando 48 escritores a assinarem uma carta aberta na New York Times Book Review denunciando o não reconhecimento de Morrison.

Em 1988, veio, então, o Prêmio Pulitzer, e o livro foi adaptado para o cinema dez anos depois como Bem-amada, filme estrelado por Oprah Winfrey como a mãe, Sethe.

Jazz (1992)



A aclamada e chocante trama se passa na década de 1920, no Harlem, bairro negro de Nova York, e narra a história de uma jovem baleada pelo amante e que ainda é alvo do ódio da esposa traída, mesmo após sua morte. A obsessão amorosa se mescla com os dramas e temores de uma época em que a cidade grande faz promessas além do que vai cumprir.

A genialidade da autora é percebida na construção do romance que flerta com o estilo musical do título, com notas em desarranjo, quase independentes, criando uma cacofonia harmoniosa. Diversos narradores parciais apresentam seu ponto de vista, mudando a perspectiva da trama. A música em si, claro, também permeia o romance, segundo da trilogia iniciada por Amada.

Paraíso (1998)



Paraíso completou a trilogia de romances de Toni iniciada com Amada e seguida por Jazz, desafiando a leitura dominante do passado, ao explorar, especificamente, a história afro-americana desde meados do século XIX até os dias atuais.

Na trama, uma cidade fictícia e utópica é habitada apenas por negros, que se refugiaram ali depois da escravidão. Rígidos seguidores de uma extrema lista de regras, os habitantes se chocam com a chegada de forasteiras, sendo uma delas branca. A crise culmina em um brutal assassinato.

Primeiro livro escrito depois de ser agraciada com o Nobel de Literatura, em 1993, Paraíso apresenta o típico estilo de múltiplas vozes narrativas com saltos temporais para falar sobre preconceito e identidade.

Voltar para Casa (2012)



“De quem é esta casa?” é a pergunta que abre o romance, que trata de um outro tema recorrente no trabalho de Toni: o que é um lar e como isso molda ou dilacera o ser humano.

Nele, a escritora conta a história de um rapaz nos seus 20 anos que volta para casa, em Seattle, depois de lutar na Guerra da Coreia. Um jovem que deixa “um exército integrado” para retornar para “um país segregado”, como escreveu o jornal The New York Times em uma resenha na época do lançamento. No retorno, ele encontra a irmã, oprimida por uma sociedade machista. Ambos terão, então, que encontrar novos significados para recomeçar.