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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

"A saída para o negro é a luta"


A cor da pele marca as distâncias e a forma como o Estado lida com seus cidadãos e estabelece uma hierarquia racial. Mesmo que ascenda e ocupe espaços de privilégio e poder, como o Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte de Justiça do País, o negro é visto como exceção à regra e ponto fora da curva. Não é muito pensar que, na desigual sociedade brasileira, aos negros é dado o papel subalterno. “Isso precisa ser desconstruído”, defende Thula de Oliveira Pires, professora de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Com mestrado e doutorado na área, e estudando a interface entre direito e racismo, Thula é mulher negra, criada em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, onde mora até hoje, mãe de Dandara, como assim se definiu em conversa com a reportagem da Radis, em junho. Para a pesquisadora, o racismo histórico brasileiro é uma questão de direitos humanos, e, enquanto esses não contemplarem as demandas e especificidades da população negra, servirão somente para poucos. Thula acredita que, para mudar esse quadro, é preciso pensar sobre como os códigos do racismo operam — e buscar estratégias eficazes para lidar com ele.

Em sua tese de doutorado você tratou da criminalização do racismo na Justiça. O que concluiu?

Temos dificuldade em pensar racismo institucional no Brasil dentro de uma perspectiva estrutural. Junto com alunos, levantei, de 1989 a 2011, todos os casos que envolviam questões raciais julgadas pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O que vimos é uma vergonha. Os juízes não interpretam fatos explícitos de racismo como racismo. Algumas decisões são bizarras. Em um caso o juiz estava tão mal informado que não viu racismo no black face [maquiagem teatral na qual pessoas brancas são pintadas de negras para imitá-las de forma caricata], que marcou um dos maiores episódios de racismo dos Estados Unidos. Isso é ignorância e cinismo. Na decisão que condenou Rafael Braga [preso nas manifestações de junho de 2013 por portar uma garrafa de desinfetante e condenado a 11 anos e três meses de prisão], o juiz diz que próprio réu deu provas significativas de que estava envolvido e que apresentava “marcas” de crime. A imagem é evidente: o corpo do Rafael era a prova gritante do tráfico. Mas, no depoimento, Rafael negou o cometimento do crime. Então, como ele mesmo pode ser a prova cabal de que o crime aconteceu?

A marca é seu corpo negro?

Só dá para entender essa sentença usando um marca-texto na expressãozinha que fala dessa marca. É o corpo que está sendo usado como prova mais bem-acabada de tráfico de drogas. A pesquisa investigou a questão do racismo institucional e mostrou as entrelinhas dos processos. Um dos grandes problemas é que os juízes sequer se dão ao trabalho de argumentar, de explicitar ou não o racismo — o que não ocorre em casos envolvendo judeus, quando boa parte dos casos são considerados racismo e há uma argumentação tratando o caso. Não peço que um juiz faça uma tese sobre a questão racial, mas apenas que ele dê conta do que está no processo

Como você encara as acusações de que há “vitimismo” e “racismo reverso” nas ações do movimento negro?

A inserção do negro nos espaços sempre é vista como a conquista de alguém que honra por ser a exceção, por ser de primeira linha, por ter estudado em Paris. Mas o racismo nem sempre é explícito, então há um esforço para tentar demonstrá-lo. É daí que surgem as acusações de “vitimismo” ou “mimimi”. Quando a pessoa assume o discurso do racismo reverso, eu uso um raciocínio lógico dedutivo que desmonta seu argumento. Se alguém disser “me chamou de branquela e fui discriminada”, pergunto: no que chamar de “branquela” inviabilizou sua trajetória numa sociedade como a brasileira? Qual é o seu prejuízo por ser “branquelo”? Você perdeu a oportunidade de emprego ou de acesso a algo? Conotação de respeito? Não! Então fica mais fácil para a gente discutir.

Recentemente, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, se referiu ao ex-colega Joaquim Barbosa como “negro de primeira linha”. O episódio ilustra esta situação?

O episódio explicita a maneira pela qual o racismo também opera nos lugares privilegiados. A possibilidade de o negro estar num local de poder está condicionada a sua aproximação com o padrão branco e masculino. A fala do ministro denuncia muita coisa, mas nada traz de novo. E o pedido de desculpas também. É sempre “uma piada”, um “mal- -entendido”, um “eu não quis fazer assim” ou “eu queria ter aprendido a falar em outros termos, mas é o inconsciente”. Eu prefiro tratar a questão racial a partir das estruturas: não personalizo os episódios ou busco intenções particulares. Se há efeitos desproporcionais de violência, de não acesso e desrespeito em relação à população negra, há racismo. Pelas repercussões desse episódio, há caminho para alguma repactuação. O ministro não é algoz, apenas verbalizou a maneira pela qual os códigos do racismo operam no Brasil. É por isso que a intenção não importa. Nós temos que pensar como esses códigos operam para entender o mundo que herdamos e buscar ferramentas que sejam eficazes contra eles.

Há uma naturalização deste “mal-entendido”?

Não é confortável para ninguém se defrontar com imagens construídas a vida inteira. Uma pessoa comprometida com os direitos humanos só se dá conta do seu nível de racismo quando discute branquitude. E é natural que a primeira reação seja de resistência: “não é nada disso, eu sempre me coloquei ao lado de vocês”. É por isso que prefiro quando botam o capuz. E também entendo que num determinado momento não ter conversa é do jogo. Mas se existe alguma potência nesse estado de absoluto retrocesso que vivemos, é a de instaurar um conflito real. Acho que a população negra tem recursos escassos e vai continuar disputando permanentemente, porque sempre vai ter gente de fora. E enquanto tiver gente de fora, tem que ter disputa.

De que modo o racismo afeta a saúde da população negra?

O povo negro está adoecendo de tudo e o genocídio é a chave para entender essa situação. Genocídio não é só extermínio. Ele também se manifesta nas estruturas do Estado, no cárcere, na escola e no sistema público de saúde. O racismo acontece no sistema de saúde quando a pessoa não tem acesso, não é reconhecida como sujeito ou demora a receber atendimento — o que nem sempre está relacionado à enfermidade que carrega. Há um arquétipo sobre o corpo negro de que ele aguenta dor e é mais forte, e que pode ser atendido num segundo momento. A precarização do SUS também afeta a saúde. Ainda que os profissionais de saúde queiram oferecer o melhor tratamento possível, ele é inviabilizado devido às condições, medicamentos, falta de materiais e acesso às cirurgias que são necessárias.





Como é possível mudar esse cenário?

O racismo se reinventa e se readequa. Eu acho que a formação profissional é um momento em que é possível perceber como operam as estruturas do racismo. Não creio que ela consiga alterar o racismo nesses grupos, mas pode indicar que o exercício da função pública exige algumas condutas. Ainda que seja racista, o agente do Estado é obrigado, pelo menos, a obedecer à impessoalidade e à moralidade administrativa. Mas eu não tenho a esperança de que é possível sensibilizar essas pessoas para que um dia venham a olhar o outro de maneira não hierárquica. Por isso acho necessário investir na formação permanente como um todo, nas faculdades de Medicina e Enfermagem, nos cursos de técnico de Enfermagem, dos profissionais que atuam dentro do hospital.

A formação mais humanista daria conta de mudar essa concepção?

Esse humanismo hegemônico não nos humaniza. Só um outro humanismo que atribua humanidade a todos os corpos humanos. O pensamento pós-colonial e decolonial ajuda a entender esse novo humanismo. Entendo que a formação vai além do caminho instrumental do direito. Uma saída é fomentar modelos distintos de atuação do direito com modelos alternativos de justiça restaurativa, modelos autônomos de mediação de conflito, longe de um direito técnico-formal, institucional.

Você tem usado em artigos e palestras o conceito de “amefricanidade”. Você poderia explicar do que se trata?

Essa categoria político-cultural foi cunhada pela historiadora Lélia Gonzalez [1935/1994], uma das principais articuladoras do movimento negro. Ela quis pensar os reflexos do projeto colonial escravista sobre a vida de uma mulher negra no Brasil. Lélia entendia que, apesar das especificidades e de contextos que forjam diferenças entre populações afrodescendentes na América Latina, existe uma unidade marcada pela experiência da escravidão e que permite pensá-la em termos diaspóricos [deslocamento normalmente forçado ou incentivado]. É uma categoria que inclui a experiência ameríndia, mas que não pretende determinar tudo aconteceu com esta população. Lélia falava em primeira pessoa e não tinha a pretensão de falar em nome da mulher afroboliviana ou afroperuana, por exemplo. Eu vejo o pensamento de Lélia reverberando nos processos recentes de articulação e de ação política das mulheres.

Qual a contribuição que este conceito traz para o momento atual?

A de que temos que pensar em ferramentas que deem conta do que nós, mulheres negras brasileiras ou latinoamericanas, herdamos desse legado. Não temos que tentar adaptar uma solução pensada para outra realidade. Não dá para achar que na rubrica dos direitos humanos, por exemplo, será produzido algum resultado mais interessante. Se vamos falar sobre a violência obstétrica, temos de observar nossas especificidades. Não dá para ficar discutindo se a anestesia dificulta ou não o parto natural, se a nossa principal demanda talvez seja o acesso à anestesia. Não dá para continuar a sermos vistas como aquelas que aguentam dor. Temos que disputar e repactuar nos nossos termos.

Por que falar de direitos humanos em um contexto de desmonte de tantos direitos?

Esse momento é uma oportunidade política para a gente disputar um lugar. Nós sempre estivemos excluídos do acesso aos direitos. Agora, que a ameaça de corte é para muitos, é possível colocar os nossos termos à mesa para dar conta da nossa realidade. Creio que tem que haver uma repactuação ou os direitos humanos vão continuar disponíveis para poucos. No Brasil, os direitos humanos sempre foram tratados de maneira não racializada. Quando a realidade de pessoas negras emerge, somos obrigados a disputar categorias que determinam sua subalternização ou sua precariedade. Não creio que teremos uma organização política de massa se não permitirmos que a articulação pelos direitos envolva todos os que são diretamente afetados.

Qual o papel da comunicação na mudança deste cenário? Você vê algum impacto positivo no uso das novas tecnologias pelos movimentos sociais?

Acho esses movimentos impactam nos lugares onde se constituem. O corpo negro esteve sempre muito isolado. Sempre foi visto como um que fura o funil, e é difícil produzir uma articulação de fôlego sozinho, ou com poucos. Quando juntos, eles se fortalecem, conseguem se articular e se capacitar. A conversa fica maior. Em boa parte desses coletivos há um compromisso histórico das articulações negras no Brasil de unir teoria e prática. Mas não dá para saber o que podem atingir e até onde podem ir. Eu vejo que há uma geração em que alguns têm se articulado por vias tradicionais, e outros optam por formas mais alternativas, digo, autônomas. É essa pluralidade de articulação que vai produzir uma disputa política nova. A luta dos negros sempre foi imbricada e geralmente tem um compromisso que vai além da questão racial e de gênero. Há sempre uma luta contra o legado colonial escravista. São movimentos decoloniais, pós-coloniais. A comunicação pode reverberar outras possibilidades. Nessas experiências alternativas as próprias pessoas produzem e reproduzem suas narrativas. Só que essas experiências não aparecem ou aparecem de maneira deturpada e hierarquizada na mídia. É importante informar e trazer à luz essas experiências nos termos daqueles que as experimentam.

O que você prevê para o futuro?

Luta. Luta. Eu não tenho otimismo nas lutas internas do direito. Mas se eu não tivesse otimismo, eu estaria deprimida. Tem que ter algum grau de otimismo para manter a chama da luta acessa. A população preta não tem outra alternativa: ou luta ou sucumbe. O otimismo serve para levantar e botar a armadura antes de sair de casa. A saída é a luta, o conflito, a disputa. Não vejo outro caminho ou perspectiva.
 
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Fotografia: Eduardo de Oliveira.

Entrevista com Thula de Oliveira Pires 16 Agosto 2017 | por Adriano De Lavor e Liseane Morosini

Tempo de leitura: 6 - 12 minutos 
 
Fonte: fiocruz

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Do racismo ao antirracismo racista: desafios para a educação


Por Marcio André dos Santos*,
No Brasil de hoje é praticamente consenso considerar o racismo e adiscriminação racial como mecanismos combinados que estruturam as relações sociais, cujos resultados diretos se expressam em prejuízos econômicos e ocupacionais para os negros (pretos e pardos de acordo com a classificação oficial do IBGE). Análises estatísticas produzidas por agências de pesquisa do governo federal, como o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada — IPEA sustentam de forma concreta o abismo social existente entre brancos e negros ao longo do tempo. Apesar de verificadas melhorias nos índices sociais para praticamente todos os grupos sociais nas últimas décadas, as desigualdades raciais continuam a figurar como um dos principais desafios brasileiros. As distâncias sociais entre os dois grupos evidenciam-se especialmente no campo da trajetória escolar e da educação em todas as suas fases: ensino básico, fundamental, secundário e superior — incluindo a pós-graduação (mestrado, doutorado, pós-doutorado).

A desigualdade provocada nos primeiros anos de vida escolar tende a surtir efeitos permanentes ao longo da vida. Os sociólogos Carlos Hasenbalg e Nelson do Vale e Silva desenvolveram uma teoria que chamaram de “ciclo cumulativo de desvantagens” para explicar como esse fenômeno se manifesta na vida das pessoas a cada geração. O argumento é basicamente o seguinte: por causa das condições de pobreza geradas pelo racismo estrutural, famílias negras terminam por deixar como “herança” baixos índices de escolaridade aos seus filhos que, por sua vez, irão determinar o lugar de subalternidade social destes no mercado de trabalho. Consequentemente, os filhos de uma geração precedente terão muito mais dificuldades em deixar como herança condições adequadas a sua prole, reproduzindo a dinâmica cíclica de desvantagem ao mesmo tempo social e racial (na realidade a dimensão racialdas desigualdades está “colada” a lógica estrutural da reprodução social). Portanto, mesmo que se verifique mobilidade social individual, a imensa maioria dos negros continua a herdar as desvantagens geradas no passado e reproduzidas no presente por causa da continuidade (intencional) do racismo estrutural.





Esse é um dos motivos pelos quais o debate sobre a superação do racismo no campo da educação é tão importante atualmente. É necessário que haja transformação profunda neste campo para que se construa uma sociedade mais igualitária e para isso é preciso que um conjunto de políticas públicas específicas seja desenvolvido. Neste sentido, este texto tem como objetivo travar um breve diálogo com educadores(as) sobre o papel do racismo em nossa formação social e maneiras de enfrentá-lo no cotidiano escolar. Não existem respostas fáceis a estas questões. Inicio com uma breve contextualização de algumas características de nossa formação social ou, mais apropriadamente, da formação racial brasileira.

Formação Racial Brasileira: breves apontamentos

A formação social brasileira é caracterizada pelo conjunto de relações de variados grupos nacionais, étnicos e raciais constituidores de nosso país. Europeus, indígenas, africanos, asiáticos e povos árabes tiveram aqui uma gama de relações e conflitos, seja no campo político, comercial, religioso ou afetivo-sexual. Inicialmente os colonizadores portugueses, homens em sua maioria, tiveram seus primeiros transcursos sexuais com as mulheres indígenas e depois com as africanas e negras brasileiras, geralmente com base na violência sexual e no estupro. Este “(des)encontro colonial” resultou uma imensa população mestiça. Entre o final do século 19 até meados dos anos 30 do século 20, ideias de superioridade racial eram comuns entre os membros das elites brasileiras, considerando aqui elites intelectuais, políticas e econômicas. Devido à influência das teorias racistas vigentes na Europa, reinava entre nós a noção de que os brancos eram superiores aos negros. Aos brancos eram atribuídos a capacidade de constituir grandes civilizações, contrário do que se pensava sobre os negros, vistos como selvagens e bárbaros, incapazes de realizações civilizacionais.





A mestiçagem, largamente praticada no país, foi vista como empecilho ao progresso que se desejava. Os pensadores sociais e políticos das décadas finais do século 19, influenciados pelo racismo científico e pelas ideias evolucionistas e deterministas comuns nos círculos intelectuais da época, eram céticos quanto ao futuro racial brasileiro. Dessa forma, limpar o “sangue negro e mestiço” da população em prol do “sangue branco” europeu parecia a solução mais lógica a ser considerada.

O branqueamento por meio da promoção da mestiçagem transforma-se em novo projeto político de engenharia racial. Além do mais, o embranquecimento significava passaporte e condição necessária para transformar o Brasil em uma nação digna desse nome. Embranquecer tinha o mesmo significado que modernizar. Todo o aparato estatal da época foi mobilizado a fim de possibilitar a importação de imigrantes europeus, considerados racialmente superiores e mais aptos ao trabalho agrícola e ao desenvolvimento industrial. Era comum imaginar datas para que este processo tivesse fim. No final do século 19, João Batista de Lacerda acreditava que em cem anos a mestiçagem transformaria todos os brasileiros “de cor” em brancos adaptados as condições especiais dos trópicos.

Apesar do intenso influxo de “sangue europeu”, em especial para os estados do sul e sudeste, a população mestiça não diminuiu conforme o esperado. A mestiçagem e/ou o embranquecimento não pareciam mecanismos suficientes para frear o crescimento demográfico da população negra. Em meados dos anos 30 inicia-se um processo de reversão no pensamento racial brasileiro. A mestiçagem deixa de significar um problema para a identidade brasileira e passa a ser vista como o principal atributo da nacionalidade. Torna-se um valor. O mestiço e/ou mulato passam a ser vistos como o brasileiro por excelência. Tal transmutação, é claro, não se deu de forma imediata, tampouco tranquila. Uma série de fatores teriam influenciado essa guinada no pensamento racial brasileiro: o modernismo literário; o culturalismo antropológico; e as condenações às teorias racistas na Europa.

Um dos principais expoentes desta mudança de paradigma do “dilema racial brasileiro” foi o sociólogo pernambucano Gilberto Freire. Em sua principal obra, Casa Grande & Senzala, publicada em 1933, Freire desenvolveu uma complexa explicação da formação nacional brasileira e do papel dos diferentes povos em tal formação, especialmente portugueses, indígenas e africanos. Atribui-se a este autor a ideia segundo a qual o contato íntimo entre estes três “povos”, juntamente com as características típicas de uma sociedade patriarcal teria gerado uma espécie de “democracia étnica e social” singular. Na verdade, jamais tivemos algo semelhante a uma democracia racial. Pelo contrário, o consenso acadêmico, político e estatístico continua a reforçar a tese de que os padrões de desigualdades raciais entre brancos e negros resistem em ser revertidos. Desde pelo menos os anos de 1930 com a emergência da Frente Negra Brasileira e o surgimento dos movimentos negros organizados que a democracia racial é denunciada como estratégia ideológica que mantém os brancos na condição de dominantes em todas as dimensões sociais, políticas e econômicas no país.





Devido a estes aspectos que é fundamental entender as dinâmicas da formação racial brasileira como continuidade de padrões sociais e econômicos em benefício do grupo racial branco e, ao mesmo tempo, como fracasso de um processo de modernização que se revelou incapaz de romper e superar as assimetrias sociais do passado.

Do racismo ao antirracismo racista

O racismo anti-negro típico do final do século 19 e início do século 20 vai dando lugar a um tipo de antirracismo institucional ou no que passo a chamar de antirracismo racista. Em outros termos, após os anos 30 defender ideias abertamente racistas já não era mais tão politicamente correto quanto antes, ainda que muitos cientistas e intelectuais continuassem a defender princípios eugenistas, pregando a purificação racial dos não-brancos como, por exemplo, cientistas sociais como Renato Kehl, Oliveira Vianna e literatos como Monteiro Lobato. Estudiosos das relações raciais contemporâneos designam essa mudança como o surgimento do “mito da democracia racial”. A crença de que o pertencimento racial das pessoas não era razão suficiente para impedir os processos de mobilidade social influenciou vários estudiosos das relações raciais, como Donald Pierson e Arthur Ramos.

De construção intelectual da formação social brasileira o “mito da democracia racial” vai lentamente ser incorporado a um tipo bastante específico de ideologia estatal. Praticamente todas as instituições sociais passaram a sustentar e a defender o antirracismo como um valor nacional. No imaginário das elites políticas, racismo de verdade era o que se praticava nos Estados Unidos e África do Sul, já que nestes países havia leis rigorosas de proibição de casamentos interraciais, de separação física entre brancos e negros dentre inúmeras outras regras de restrição de contato e convívio. Aqui o que teríamos era no máximo um preconceito social. Se os negros eram os mais pobres dentre os pobres não era por causa de práticas racistas presentes nas relações sociais e sim devido a herança de desigualdades sociais geradas pelo arcaísmo de uma sociedade que durante séculos foi escravocrata, rural, logo, atrasada.

Do ponto de vista político-ideológico, o antirracismo racista brasileiro só veio a perder força na segunda metade dos anos 90 do século 20, ainda que seja comum representantes de instituições governamentais declararem que não temos um problema propriamente racial. A partir do reconhecimento estatal de que o racismo e a discriminação racial operam como mecanismos de manutenção de distâncias socioeconômicas entre brancos e negros é que ações de superação das desigualdades raciais começaram a ser desenhadas e postas em prática. Evidentemente que o reconhecimento oficial desses mecanismos não significou imediatamente mudanças de comportamento e mentalidades. O racismo institucional continua a ser largamente praticado em nosso país, ainda que ninguém goste de reconhecer-se racista ou preconceituoso.

Benefícios para uns, prejuízo para todos

O antirracismo racista brasileiro não tem nada de cordial e amistoso como muitos imaginam e sustentam. Pelo contrário. O antirracismo racista que impera entre nós é exatamente aquele que continua a impedir o avanço de iniciativas que tentam superá-lo. Apesar dos avanços verificados nas últimas décadas no campo das políticas em prol da igualdade racial, ainda temos muito o que fazer. A persistência de índices elevados de discriminação racial no acesso à educação em todos os níveis têm como resultado direto baixos níveis de qualificação profissional de negros em detrimento de brancos. Ainda que brancos também amarguem elevados índices de desigualdade social, a situação é bem pior para os negros em todos os campos da vida: acesso a saúde, exposição à violência urbana, desemprego, déficit de moradia, chances educacionais, etc.

Depois de dito isso tudo, como fazer para trabalhar com este tema em sala de aula? Não temos espaço suficiente aqui para propor metodologias e alternativas para trabalhar com esta temática. Entretanto, já temos disponíveis alguns instrumentos que podem auxiliar educadores(as) de todo o país neste sentido. A Lei n. 10.639/03, que estabelece o ensino de história da África e da cultura afro-brasileira, conta hoje com um conjunto de iniciativas desenvolvidas a fim de auxiliar os profissionais da educação nesta direção





Em suma, o combate ao racismo institucional e a todas as formas de preconceito associadas a cor da pele e ao pertencimento racial deve ser encarado por todos nós — educadores(as), formadores de opinião, acadêmicos, cidadãos comuns — como um dever coletivo em prol de um país melhor que valoriza e respeita as diferenças, sejam étnicas, raciais ou de gênero.

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*Marcio André dos Santos é cientista político e professor da UNILAB, campus dos Malês, Bahia.

Fonte: Medium

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Dois únicos técnicos negros do Brasileirão escancaram o racismo: “Negar e silenciar é confirmá-lo”


 
Roger Machado, treinador do Bahia, proferiu discurso antológico no Maracanã por igualdade de oportunidades para profissionais negros ascenderem na carreira e refuta a ideia de democracia racialRoger Machado e Marcão se cumprimentam no Maracanã.Thiago Ribeiro (AGIF)

Uma cena histórica no estádio mais icônico do Brasil. Na noite deste sábado, os técnicos Marcão, do Fluminense, e Roger Machado, do Bahia, deram as mãos antes do início da partida e comandaram suas equipes vestindo uma camisa estampada com a frase “Chega de preconceito”. Eles são os dois únicos treinadores negros da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O encontro foi proposto pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que monitora casos de ofensas raciais no ambiente esportivo, prontamente acatado pelos clubes e, sobretudo, pelos técnicos, com discursos combativos contra o racismo.

“Eu sei o que estou representando, como técnico do Fluminense, para as pessoas da nossa cor”, afirmou Marcão às vésperas do jogo no Maracanã. “Temos outros negros com capacidade para trabalhar no futebol, mas, muitas vezes, o que falta é oportunidade. Estou aqui porque eu me preparei e quero contribuir para que mais profissionais capacitados recebam essa chance de mostrar seu potencial.”

Enquanto Marcão, 47, ex-auxiliar, foi efetivado no comando do Fluminense após a demissão de Oswaldo de Oliveira, Roger Machado, 44, já havia tido experiências como treinador de clube grande no Grêmio, Atlético Mineiro e Palmeiras antes de chegar ao Bahia, em abril. Apesar do prestígio no mercado, ele faz questão de se posicionar sobre a discriminação racial em postos privilegiados de trabalho.

“Negar e silenciar é confirmar o racismo”, disse o técnico durante uma contundente entrevista coletiva depois da derrota de seu time para o Fluminense. “Minha posição como negro na elite do futebol condiz com isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou ao restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui.”

Para Roger, a escassez de técnicos negros no futebol reflete o racismo estrutural da sociedade. Além dele e Marcão, apenas Hemerson Maria, do Botafogo-SP, figura como negro em função de comando entre 40 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro. “A gente tem mais de 50% da população negra e a proporcionalidade [entre treinadores] não é igual. Temos de refletir e questionar. Se não há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que 70% da população carcerária é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado.”

Desde que pendurou as chuteiras e começou a se preparar para virar técnico, Roger Machado nunca se omitiu de falar sobre racismo. No entanto, seus posicionamentos mais marcantes, como o discurso no Maracanã, coincidem com a chegada ao Bahia, clube pioneiro no país ao criar um núcleo de ações afirmativas e que levanta a bandeira, em diversas campanhas de responsabilidade social, contra a discriminação étnica, de raça e de gênero.
“Acreditamos por muito tempo no mito da democracia racial. Quando eu respondo para as pessoas dizendo que eu não sofri preconceito diretamente, a ofensa, a injúria, é só o sintoma dessa grande causa social que nós temos”, contou, cobrando do Governo para que as políticas de reparação em favor dos negros não amarguem retrocessos. “A responsabilidade é de todos nós, mas a culpa desse atraso, depois de 388 anos de escravidão, é do Estado, porque é através dele que as políticas públicas, que nos últimos 15 anos foram instituídas, que resgataram a autoestima dessas populações que ao longo de muitos anos tiveram negadas assistências básicas, estão sendo retiradas neste momento.”

Roger Machado ainda contextualizou a falta de negros no alto escalão do futebol com a história mal resolvida do país diante das consequências da escravatura e da colonização. “A bem da verdade é que 10 milhões de indivíduos foram escravizados. Mais de 25 gerações. Passou pelo Brasil Colônia, pelo Império e só mascarou no Brasil República. Esses casos que vêm aumentado agora, de feminicídio, homofobia e preconceito racial, mostram que a estrutura social é racista. Ela sempre foi racista.”

No desfecho de seu tocante relato, Roger criticou correntes que apontam para uma ideia de racismo às avessas, como se os negros fossem culpados por questionar os padrões racistas que os afligem. “Nós temos um sistema de crenças e regras que é estabelecido pelo poder: o poder do Estado, o poder da Igreja, o poder das comunicações. Quando esses poderes não enxergam ou não querem assumir que o racismo existiu e não querem fazer uma correção nesse curso, muitas vezes dizem que estamos nos vitimizando, ou que há um racismo reverso. É por isso que o futebol, diferentemente de outras áreas da nossa sociedade, nos torna um pouco mais brancos. E faz com que sejamos bem aceitos.”

Marcelo Carvalho, pesquisador e mentor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, se emocionou ao comentar a satisfação de ver o encontro entre os dois treinadores, vestindo a camisa da única organização que se dedica a estudar o preconceito no ambiente do esporte. “Não tenho palavras pelo que aconteceu. E a emoção foi completa pela entrevista coletiva do Roger. Que sigamos na luta e que outras vozes se levantem.”
 
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Fonte: brasil.elpais

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

“Eu me aquecia no vestiário para não ser xingado”: A fala histórica de Roger Machado e casos de racismo no esporte

 

Por Silvia Nascimento
A Internet parou para repercutir a fala do técnico do Esporte Clube Bahia nesse final de semana. O time de Roger Machado, foi derrotado pelo Fluminense, de Marcão. Os dois, são os únicos técnicos negros da série A do Campeonato Brasileiro.

Após a partida o técnico deu uma entrevista histórica, sendo o primeiro técnico a falar para imprensa sobre a questão racial no Brasil de forma tão elucidativa, sem cometer erros e ainda destacando questões como feminicídio, educação e até questões carcerárias.

https://www.instagram.com/p/B3j-DwfFMyR/

O Brasil é o país do futebol e também um dos países mais racistas do planeta. A presença de negros no esporte precisa ser discutida . Por que temos tantos atletas negros experientes sem trabalho e só dois, como líderes de times importantes nacionalmente?

Durante sua palestra no TEDxUnisinos, Márcio Chagas, considerado um dos melhores árbitros da história do futebol nacional, não economizou em detalhes para contar como o racismo esteve presente em todos os momentos de sua carreira, desde o início aos 10 anos de idade, onde sua inteligência era elogiada, e sua cor lamentada, até o momento que ele decidiu se aposentar e hoje é comentarista. 
 
Marcio Chagas (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele lembra durante a palestra, que os xingamentos quando era atleta eram tão intensos, que antes de começar o jogo, ele tinha que se aquecer sozinho no vestiário, longe dos colegas que se preparavam em campo.

“Negro sujo, volta para África, escória, macaco. Tem uma (ofensa racista) que me marcava muito: matar negro não é crime, é adubar a terra”, contou Chagas.


Conversei com o jornalista e lutador de Karatê Diego Moraes, repórter do Esporte Espetacular sobre o racismo e presença negra no esporte nacional.

“Dentro do esporte, o racismo estrutural é percebido tanto do lado da mídia quanto do lado das posições de comando dentro dos clubes e times. São poucos jornalistas negros nos principais veículos, poucos dirigentes de clubes de futebol, poucos dirigentes quando o assunto é delegação de Jogos Pan-americanos e Olímpicos. Quando falo poucos, significa algo fácil de contar…1,2,3,4…Com muito esforço encontramos 10”, detalha Moraes.

Para ele o lugar do negro ainda é em maior parte como atleta, mas mesmo assim, os brancos ainda têm vantagens quando falamos em investimentos, como patrocínios, por exemplo.


“Quando se exige recursos pra se tornar atleta de alto rendimento, o número de negros é escasso. Vimos um número significativo no futebol, basquete, no boxe, no atletismo. Mas no golfe, no tênis, na natação, na Fórmula 1, até mesmo no Karatê, esporte que eu pratico, só temos 1 negro atual campeão mundial de 12 categorias em disputa, o alemão John Horne. E aí, ainda é tranquilo falar que as oportunidades são para todos? Viver e sentir na pele ninguém quer, já que isso tudo é mimi”, finaliza o jornalista-atleta.

Casos históricos de racismo no esporte

Diego Moraes me ajudou a levantar alguns casos históricos de racismo no esporte brasileiro. Infelizmente, casos como Roger Machado, de pessoas do meio esportivo que se posicionam contra o racismo, são bem raros.

Negro não tem reflexo 
 
] 
Moacir Barbosa Nascimento
Imagem pertencente ao acervo do C.R. Vasco da Gama, autor não informado

“Negro não tem reflexo”, “Negro não pode ser goleiro”. Esses foram algum dos títulos usados para descrever a atuação de Moacir Barbosa do Nascimento, ex-goleiro da Seleção Brasileira.

No final da Copa do Mundo de 50, ao tomar um gol da seleção do Uruguai que resultou na derrota do Brasil, Barbosa foi vítima de um linchamento pela imprensa que além de o responsabilizar pelo resultado, associou sua “falha” a sua cor da pele. Não por acaso, a seleção teve poucos goleiros negros. Dida foi o primeiro negro a representar a seleção brasileira no gol após Barbosa, isso 56 depois.

Aranha chamado de macaco 
 
Aranha (Foto : Arquivo pessoal)

A Internet ajudou a aumentar a repercussão do emblemático caso do de Aranha, então goleiro do Santos, alvo de xingamentos racistas em massa vindos da torcida do Grêmio em uma partida em 2014, pela Copa do Brasil.

Ele além de ser xingado de macaco pela torcida adversária, também foi responsabilizado por alguns torcedores do Grêmio pela expulsão do time da Copa do Brasil.


“Já ouvi várias vezes que estava me aproveitando da situação para me colocar como vítima. Em alguns casos, quem sofre injúria racial no Brasil é visto como culpado”, disse o atleta à revista Veja, em uma entrevista de 2017.

O saco de supermercado é branco, o de lixo é preto

Nory diz que foi tudo brincadeira. Um vídeo divulgado antes do Pan-Americano em maio de 2015 mostrou Arthur Nory, Fellipe Arakawa e Henrique Flores, fazendo piadas de conotação racial contra o colega Ângelo Assumpção, campeão no salto sobre o cavalo na etapa da Copa do Mundo de Ginástica em São Paulo.

“- Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca… quando ele estraga é de que cor? (risos) … O saquinho do supermercado é branco … e o do lixo? É preto!” – dizem os demais atletas, em coro.”
  
“Os dirigente não me acompanharam no Japão” 
 
 
Aída dos Santos (Foto: Arquivo pessoal)

Aída dos Santos foi a única mulher na delegação que disputou os Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, no Japão.

Em uma entrevista ao jornalista Roberto Salim, ela revelou ter passado por um grande sufoco durante os jogos. Além de não falar japonês, Aída foi abandonada pela delegação.


“Eu ficava triste, mas não ligava. Ia à luta, como fui na Olimpíada de Tóquio, quando os dirigentes não me acompanharam ao estádio para a disputa do salto em altura”, detalhou a ex-atleta.

Perfis diferentes, épocas diferentes, mas que mostram como o Brasil trata os atletas de pele escura.

Roger Machado dá Aula sobre Racismo

 
Roger Machado deu uma longa resposta quando perguntado sobre a campanha contra o racismo após Fluminense x Bahia, na noite deste sábado. Ele e Marcão, treinador do Flu, usaram uma camisa estampada com a frase “chega de preconceito”. Assista:




terça-feira, 1 de outubro de 2019

Instalada a barbárie, não há saída que não parta dos silenciados

 

Mulheres ativistas antirracista escreveram sobre a importância do protagonismo negro nos espaços de decisão para a construção de uma sociedade mais justa

Texto / Julian Souza, Danielle Godoi e Ester Rufino | Imagem / Elza Fiuza/Agência Brasil,
Estamos chegando! O que há tempos dizemos... mas sempre estivemos? De que tempos falamos? Irreversível, irrefreável e inegociável. Corpos ditos pretos, periféricos, marginais e abjetos reivindicam seu lugar na retomada de todos os bens por si construídos sob sangue e suor em terras brasílicas.

Nos convidam a sentar à mesa da casa grande, nós os povos das senzalas, vítimas do tráfico transatlântico, quiçá a maior tragédia da humanidade, vez que seus reflexos se perpetuam no tempo!

Convite esse que denuncia a negociação do nosso pertencimento num país que crê no mito da democracia racial, na igualdade de gênero e na meritocracia.

Chegamos, mas não nos reconhecemos em rostos brancos, velhos, cisnormativos e heterossexuais. Trejeitos e costumes que desqualificam e deslegitimam nossa forma de ser e existir no mundo. Saberes cooptados e ressignificados que não consideram nossos acúmulos ancestrais como ciência.

A nós nos cabe nos utilizarmos de instrumentos capazes de dar conta da construção de um novo marco civilizatório. Isso significa dizer que grupos privilegiados deverão desocupar as cadeiras dos espaços de tomadas de decisão para que os mal-ditos assumam o protagonismo das narrativas sobre si, como já bradava uma certa malunga.

Estado, Direito, Política e Justiça são termos que carecem de efetividade e materialidade na vida de alguns sujeitos. Não por acaso, o Judiciário, o Executivo e o Legislativo, espaços de formulação de regras e mandamentos comportamentais e éticos são majoritariamente ocupados por corpos não negros, ao passo que o Brasil, vergonhosamente, é o país que ocupa o terceiro lugar no aprisionamento de pessoas. Realidade naturalizada pela maioria da população que entende que mais pena é igual a menos crime.

A Carta Maior de 1988 conferiu o gozo e fruição de Direitos Fundamentais. No entanto, o que se observa na prática é que, passados mais de 30 anos de sua existência, tais direitos não se efetivaram homogeneamente e não se construíram políticas públicas que alcancem a todas as pessoas conforme suas especificidades.

Propriedade e Moradia, Meio Ambiente e Povos Tradicionais, Especulação Imobiliária e Gentrificação, Agronegócio e Agricultura Familiar, Agrotóxico e Segurança Alimentar: dicotomias de um povo que performa compartilhar dos mesmos ideais de vida e sociedade.

Retrocesso, recrudescimento, censura, tortura: realidades presentes e (in)visíveis, frutos de um simulacro de democracia que não alçou voos maiores que não promover a manutenção do alijamento coletivo e seletivo da dignidade humana. 
 
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Juliana Souza é advogada pela PUC/SP, mestranda em Humanidades Direitos e Outras Legitimidades pela USP, coordenadora chefe do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM, Vice-Presidente da Comissão Estadual da Jovem Advocacia da OAB/SP, militante antirracista e Coordenadora de Diversidade e Ações Antidiscriminatórias do Grupo Prerrogativas.
Danielle Godoi é advogada, feminista-antirracista, promotora legal popular e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Ester Rufino é militante antirracista, mobilizadora social, articuladora política e coordenadora adjunta do Departamento de Concessão de Bolsas e Desenvolvimento Acadêmico do IBCCRIM.
Fonte: almapreta

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Racismo institucional leva polícia do Brasil e dos EUA a matar mais negros e pobres

Protesto em memória do músico Evaldo dos Santos, morto em uma ação do Exército na região da Vila Militar, na Zona Oeste do Rio, em 7 de abril de 2019 (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
 
Em 2018, o número de mortes cometidas por policiais na ativa no Brasil foi de 6.160, contra 992 nos EUA 
 
O que justifica a filtragem racial das intervenções policiais no Brasil e nos Estados Unidos? Os dados sobre agressões e mortes de jovens negros nos dois países são alarmantes e salientam a desigualdade e o preconceito que muitas vezes custam a vida dos cidadãos. A RFI entrevistou especialistas nesta questão.

O consórcio de jornalistas americanos Fatal Encounters divulgou recentemente o resultado de um novo estudo sobre violência policial nos Estados Unidos. Analisando dados do Sistema Nacional de Estatísticas sobre Mortalidade no país, pesquisadores descobriram que homens negros têm 2,5 mais probabilidade de serem mortos pela polícia do que brancos.

Os dados divulgados pela pesquisa são chocantes: a cada mil homens negros, um será morto pela polícia ao longo de sua vida, seja com arma de fogo, taser (arma de eletrochoque) ou sufocamento. O excesso de força policial lidera as causas de mortes de homens negros entre 25 e 29 anos, deixando para trás acidentes, suicídios, doenças cardíacas ou câncer.

Para o historiador francês François Durpaire, especialista em Estados Unidos, os dados divulgados no estudo da Fatal Encounters só reforçam o duro cotidiano de jovens negros no país. 
 
“Há o fator do racismo da polícia: isso está enraizado na história americana. Para o mesmo tipo de delito ou abordagem policial, se a pessoa é negra, maior é o risco que a situação saia de controle”, avalia.
 
Tratamento desigual da Justiça

Durpaire lembra que, embora a sociedade americana tenha evoluído nas últimas décadas, a comunidade negra continua enfrentando dois problemas principais: as desigualdades na relação com a polícia e com a Justiça. 
 
“Apesar das tentativas de integrar cidadãos negros aos júris, o tratamento da justiça é desigual com os negros. O próprio movimento Black Lives Matter não nasceu da revolta contra os policiais, mas da absolvição de George Zimmerman. Ou seja, o problema não é apenas com a polícia, mas também com a Justiça”, destaca.

De fato, o caso Zimmerman comoveu o país em 2012. O vigia matou a tiros o jovem Trayvon Martin, de 17 anos, alegando legítima defesa. O jovem estava desarmado e foi perseguido e alvejado em um condomínio na periferia de Orlando por ter sido considerado “suspeito” pelo segurança. Zimmerman foi inocentado, com a hipótese de um crime racista descartado, o que gerou uma onda de indignação nos Estados Unidos.

Essa banalização da violência contra negros também tem relação com a grande quantidade de armas de fogo nas mãos de civis nos Estados Unidos. 
 
“É preciso lembrar que existe uma taxa de 120 armas a cada 100 habitantes – a maior no mundo. Então, quando um policial faz uma abordagem, ele parte do princípio que há grande possibilidade de que o suspeito esteja armado. Por isso a polícia americana não hesita em atirar”, avalia Durpaire. 
 
Alvos preferenciais da polícia são negros e pobres

Para o professor Adalmir Leonídio, coordenador do Observatório da Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais da USP, há similaridades entre a situação nos Estados Unidos e no Brasil. “Nos dois países, o alvo preferencial da violência policial – que se traduz em tortura e assassinatos – são preferencialmente negros e pobres, moradores dos chamados ‘territórios da pobreza’. No entanto, precisamos considerar a desproporção numérica entre as duas realidades. O Brasil mata muito mais negros e pobres que os Estados Unidos”, ressalta.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dos 5.896 boletins de ocorrência de mortes devido a intervenções policiais entre 2015 e 2016, 76,1% das vítimas eram negros: 5.769 homens e 42 mulheres. Grande parte é jovem: 35,5% têm idades entre 18 e 29 anos. Em 2018, o número de mortes cometidas por policiais na ativa subiu para 6.160 pessoas.

Nos Estados Unidos, de fato, esse número é expressivamente inferior. Segundo o Sistema Nacional de Estatísticas sobre Mortalidade do país, cerca de três americanos são mortos por dia pela polícia, contra 16 no Brasil. Em 2018, 992 pessoas morreram em intervenções policiais nos Estados Unidos.

Mas o que justifica essa filtragem racial da polícia brasileira? Para Leonídio, não há dúvidas: no Brasil, existe um senso comum penal desde o início da desagregação do trabalho escravo no País que relaciona negros e pobres ao potencial criminoso. “Essa parcela da população está envolvida em um clima de permanente suspeição. Nesse novo governo em particular, esse senso comum penal não só foi exacerbado como tem sido explicitamente assumido, o que tem sido favorável à execução de pobres e pretos”, salienta.

Para o especialista, a própria legislação criminal permite a predisposição ao combate arbitrário do “criminoso”, que, ressalta, é uma produção social. “O sistema penal não visa combater o crime, mas o criminoso: essa figura é envolta em todo um manto de estigmas e que obviamente não vai ser o rapaz branco, de classe média”, diz.

Por isso, segundo Leonídio, existe uma “produção criminológica” para o enquadramento desta população à margem da sociedade. “Essas pessoas não são absorvidas pelo mercado de trabalho, não fazem parte da lógica mercantil em evolução e é preciso fazer alguma coisa delas. Isso vai ser muito mais grave em países como o Brasil, onde há uma História de quatro séculos de escravidão. Existe um inimigo interno a ser combatido que, há cem anos, era o ex-escravo. Hoje é o morador da periferia pobre, que se configura como uma ameaça permanente ao patrimônio dos ricos”, reitera. 
 
Resistência sobre o racismo institucional

Para o sociólogo Danilo Morais, professor da Fundação Hermínio Ometto, a resistência das autoridades em reconhecer a existência do racismo institucional piora ainda mais a situação. “Um dos elementos das políticas públicas brasileiras menos tocado pela democratização foi a segurança. Por isso é tão difícil conseguir dialogar com os atores institucionais sobre racismo”, afirma.

O preconceito velado contra os não-brancos no Brasil fortalece esse fenômeno que data de décadas, segundo Morais. 
 
“O racismo brasileiro se constituiu, desde a década de 1930, com a noção de que o Brasil é uma democracia racial, ou seja, que as relações raciais no país seriam harmoniosas, sem conflito. Isso serviu como política de Estado na Era Vargas pra criar um mito de unidade nacional. Então constituiu-se um racismo que, ao mesmo tempo que hierarquiza e subalterniza os não-brancos, reiteradamente diz que não há distinção entre as pessoas”, afirma.

Por isso, segundo o sociólogo, o racismo brasileiro não é explícito. Ele se apresenta no âmbito institucional – com a produção de desigualdade racial no acesso a direitos – e também o racismo latitudinal, nas relações cotidianas.

A partir da promulgação da Constituição de 1988 é que se começou a discussão e a implementação de algumas ações afirmativas para se começar a superar as desigualdades sociais no Brasil. No entanto, Morais sublinha que os retrocessos que o país vive atualmente prejudicam as “tímidas, mas importantes mudanças de percepções sobre as relações raciais”.

“Infelizmente o atual presidente reforça os elementos mais retrógrados sobre o que são as relações étnicos-raciais no Brasil. No campo da segurança pública, uma das áreas mais impermeáveis para a evolução da questão racional, havia o início da discussão que agora retrocede de uma maneira brutal, com um governo com uma visão de mundo que se constitui como uma espécie de neofascismo”, avalia.

De acordo com o professor, se antes já havia uma aprovação tácita por parte das autoridades para a filtragem racial dentro da segurança pública, atualmente há uma autorização explícita por parte do governo nacional. As consequências, segundo Morais, serão o aumento de número de mortos nos próximos anos não apenas de civis, mas também de policiais.

“Essas políticas de segurança pública que privilegiam as situações de confronto também fragilizam o agente. Os policiais morrem muito em ação e, enquanto categoria profissional, a polícia é um dos setores onde mais se comete suicídio. Ou seja, essa situação não é adequada para ninguém. Até porque, se produzir encarceramento e morte fosse sinônimo de segurança, o Brasil seria um paraíso”, conclui.
Fonte: cartacapital

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Para educador, conselho tutelar é ambiente para propor ações antirracistas


No Rio de Janeiro, Jota Marques defende que negros ocupem a posição de conselheiro tutelar

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Acervo pessoal,

No próximo dia 6 de outubro, os brasileiros escolhem seus novos conselheiros tutelares. Criados em 1990, os conselhos foram criados com a publicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) com o objetivo de assegurar o cumprimento dos direitos da criança e do adolescente.

No Rio de Janeiro, alguns jovens negros são candidatos ao cargo. Um deles é Jota Marques, de 27 anos, morador da Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro.

O jovem, educador popular e escritor periférico, acredita que ocupar uma cadeira como Conselheiro Tutelar é zelar pelos cuidados das crianças, sobretudo as negras. “Quando a gente vive esses números de violência, é importante repensar que ocupamos espaços para sobrevivência dos que vivem nas margens”, define. “A gente está falando do povo pobre e preto”, emenda.

Os conselheiros eleitos devem agir todas as vezes que os direitos de crianças e adolescentes forem ameaçados ou violados pela própria sociedade, pelo Estado, ou pelos pais e responsáveis.

De acordo com a legislação, a instituição é um órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. As definições estão na na Lei Federal 8.069 de 13 de julho de 1990, que entrou em vigor no dia 14 de outubro de l990.

Para Jota, a população negra ocupar os conselhos tutelares é algo legítimo frente a crescente violência sofrida por esse grupo social. “A gente tem de conter essa violência, que chega com carimbo dos nossos governos. Quando a gente está na favela, a gente vê que não concorda com essas violações”.

O educador também acredita que o conselho é a possibilidade das pessoas mais pobres reivindicarem espaço na política e lutar por demandas ignoradas historicamente. Um dos exemplos recordados por Jota são os crimes que atingem, em maior parcela, os adolescentes negros.

Jota também argumenta que nas periferias devem surgir lideranças para buscar soluções para os problemas sociais enfrentados no cotidiano. “Na favela, é sempre um igual o outro, afinal, são as mesmas dores sofridas pelo povo preto. Acredito que a gente tem qualidade técnica e experiência ancestral”, diz, otimista.

Violência contra menores

Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no começo de setembro, mais da metade das vítimas de estupro de vulnerável no Brasil são negras (50,9%). É considerado estupro de vulnerável o crime de violência sexual praticado contra menores de até 14 anos, faixa etária atendida pelo ECA.

Ainda, de acordo com o estudo, os crimes sexuais enfrentam um problema de subnotificação. Isso significa que os números levantados pelo FBSP não representam a totalidade dos delitos. Elaborada pelo Ministério da Justiça, em 2013. A última pesquisa nacional de vitimização estimou que somente 7,5% dos casos de violência sexual são denunciados.
 
Fonte: almapreta