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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Crianças e adolescentes importam!

O impacto do desmonte do CONANDA nas políticas para crianças e adolescentes negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas

No DOCS
Em um contexto em que a principal política do atual governo federal é impor retrocessos, destruir programas, políticas públicas e Conselhos essenciais para a defesa e garantia de direitos fundamentais da população, é de grande relevância destacar que crianças e adolescentes são mais atingidos e vulneráveis. Contudo, sabemos que no Brasil, crianças e adolescentes mais vulneráveis têm endereço, cor de pele e etnia certa.
 
Imagem: Reprodução/CONANDA

Na última quinta-feira, 5 de setembro, numa ação violenta, autoritária e, portanto, antidemocrática, Jair Bolsonaro, oficializou o desmonte do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) por meio do Decreto Presidencial nº 10.003 de 2019. O Conanda é a instância máxima de deliberação, formulação e controle das políticas públicas destinadas à infância e à adolescência, criado pela Lei n. 8.242, de 12 de outubro de 1991, e é o órgão responsável por tornar efetivo os direitos, princípios e diretrizes contidos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Dentre as principais competências do Conanda destacam-se:

1. Fiscalizar as ações de promoção dos direitos da infância e adolescência executadas por organismos governamentais e não-governamentais;
2. Definir as diretrizes para a criação e o funcionamento dos Conselhos Estaduais, Distrital e Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e dos Conselhos Tutelares;
3. Estimular, apoiar e promover a manutenção de bancos de dados com informações sobre a infância e a adolescência, assim como construir indicadores e monitorar a política de atendimento à criança e ao adolescente;
4. Acompanhar a elaboração e a execução do Orçamento da União, verificando se estão assegurados os recursos necessários para a execução das políticas de promoção e defesa dos direitos da população infanto-juvenil;
5. Convocar a Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente;
6. Gerir o Fundo Nacional para a Criança e o Adolescente (FNCA).

Dentre as principais mudanças do Conanda destacam-se:


1. Redução da participação da sociedade civil de 14 para 9 representantes
2. Destituição das/os atuais conselheiras/os eleitos democraticamente há menos de um ano.
3. Processo seletivo da sociedade civil ao invés de eleições
4. Substituição das reuniões mensais e presenciais por reuniões trimestrais e por videoconferência.
5. Nomeação do presidente do Conanda pela presidência da república e não deliberação interna

Com a edição do Decreto supracitado o Conanda deixa de existir como está hoje e passa a ter uma nova configuração que diminui a participação da sociedade civil colocando em risco a proteção, defesa e garantia dos direitos de crianças e adolescentes, sobretudo negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas, população que já se encontra em um contexto de extrema vulnerabilidade e ficará ainda mais com as mudanças realizadas.

É fundamental destacar que toda criança e adolescente deve ter seu direito assegurado com absoluta prioridade como determina o artigo 227 da Constituição Federal. Da mesma forma, o artigo 4º do ECA determina que os atendimentos, serviços, políticas e orçamentos devem priorizar as ações voltadas para infância e adolescência. Contudo, no campo da universalidade, a especificidade acaba por invisibilizar o público prioritário das políticas públicas do país, qual seja, crianças e adolescentes mais vulneráveis.

As instituições brasileiras devem ser respeitadas e a legalidade, bem como a democracia são bens supremos e devem ser assegurados. Assim, não pode um decreto presidencial, ou qualquer outra ordem que ocorra de maneira autoritária e antidemocrática, retroceder nas conquistas e direitos humanos fundamentais.

Somos um país que chicoteia crianças e adolescentes negros, que perpetua o sistema racista e excludente que afeta profundamente a população negra, quilombola, indígena e periférica, que possui tímidas e insuficientes políticas públicas para alterar esse quadro e, ainda assim, o Sr. Presidente da República escolhe desmontar o principal Conselho de proteção dos seus direitos.

Não iremos deixar que haja qualquer espaço para o racismo, machismo, xenofobia, retrocessos e ameaças de direitos, especialmente quando se tratar da proteção da infância e adolescência.

Os Movimentos Negros, por meio de suas Associações, Organizações e Especialistas se posicionam pela defesa, proteção e promoção dos direitos de crianças e adolescentes, e contra os retrocessos na formação e estrutura do Conanda, do qual cobram uma postura séria e responsável diante das vulnerabilidades social e cultural impostas as crianças e adolescentes negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas deste país.

Assinam essa manifestação:


Organizações e Associações
Associação Desportiva e Cultural Grupo Cativeiro Capoeira
Associação Nacional da Advocacia Negra
Coalizão Negra por Direitos
Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB/SP
Disciplina Jardim Miriam
Instituto Ayuelê
Movimento Negro
Projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula
Uneafro Brasil

Especialistas

Prof. Dr. Alexandre da Silva Simões – Unesp
Ana Potyara Tavares – Advogada
Ana Paula Cristina Oliveira Freitas – Advogada
Bruno Ramos – Representante Nacional do Movimento Funk e Conselheiro Nacional de Juventude
Douglas Belchior – Educador e Ex Conselheiro do Conanda
Francisco Morato – Advogado e Membro da Comissão de Igualdade Racial OAB/SP
Jéssica Barros dos Santos
Joana D’Arc de Almeida
Kimani – Produtora Cultural
Marco Antonio Fontes de Sá – Presidente da Malungos Desenvolvimento Humano
Mayara Silva de Souza – Advogada
Moacyr de Oliveira Júnior
Raphaella Reis – Advogada
Regiane Aparecida Gonçalves Queiroz
Ronaldo Matos – Jornalista
Rosana Rufino – Advogada
Sandra Cordeiro Molina – advogada e professora
Sheila de Carvalho – Advogada e Coordenadora da comissão de Direitos Humanos da OAB/SP
Tathiane de Paula – Advogada



Fonte: DOCS.

Para educador, conselho tutelar é ambiente para propor ações antirracistas


No Rio de Janeiro, Jota Marques defende que negros ocupem a posição de conselheiro tutelar

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Acervo pessoal,

No próximo dia 6 de outubro, os brasileiros escolhem seus novos conselheiros tutelares. Criados em 1990, os conselhos foram criados com a publicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) com o objetivo de assegurar o cumprimento dos direitos da criança e do adolescente.

No Rio de Janeiro, alguns jovens negros são candidatos ao cargo. Um deles é Jota Marques, de 27 anos, morador da Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro.

O jovem, educador popular e escritor periférico, acredita que ocupar uma cadeira como Conselheiro Tutelar é zelar pelos cuidados das crianças, sobretudo as negras. “Quando a gente vive esses números de violência, é importante repensar que ocupamos espaços para sobrevivência dos que vivem nas margens”, define. “A gente está falando do povo pobre e preto”, emenda.

Os conselheiros eleitos devem agir todas as vezes que os direitos de crianças e adolescentes forem ameaçados ou violados pela própria sociedade, pelo Estado, ou pelos pais e responsáveis.

De acordo com a legislação, a instituição é um órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. As definições estão na na Lei Federal 8.069 de 13 de julho de 1990, que entrou em vigor no dia 14 de outubro de l990.

Para Jota, a população negra ocupar os conselhos tutelares é algo legítimo frente a crescente violência sofrida por esse grupo social. “A gente tem de conter essa violência, que chega com carimbo dos nossos governos. Quando a gente está na favela, a gente vê que não concorda com essas violações”.

O educador também acredita que o conselho é a possibilidade das pessoas mais pobres reivindicarem espaço na política e lutar por demandas ignoradas historicamente. Um dos exemplos recordados por Jota são os crimes que atingem, em maior parcela, os adolescentes negros.

Jota também argumenta que nas periferias devem surgir lideranças para buscar soluções para os problemas sociais enfrentados no cotidiano. “Na favela, é sempre um igual o outro, afinal, são as mesmas dores sofridas pelo povo preto. Acredito que a gente tem qualidade técnica e experiência ancestral”, diz, otimista.

Violência contra menores

Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no começo de setembro, mais da metade das vítimas de estupro de vulnerável no Brasil são negras (50,9%). É considerado estupro de vulnerável o crime de violência sexual praticado contra menores de até 14 anos, faixa etária atendida pelo ECA.

Ainda, de acordo com o estudo, os crimes sexuais enfrentam um problema de subnotificação. Isso significa que os números levantados pelo FBSP não representam a totalidade dos delitos. Elaborada pelo Ministério da Justiça, em 2013. A última pesquisa nacional de vitimização estimou que somente 7,5% dos casos de violência sexual são denunciados.
 
Fonte: almapreta