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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Nelson Inocencio tem a trajetória marcada pela luta contra o preconceito

O professor da UnB é um dos expoentes que ajudaram a dar forma ao movimento negro na capital

 
''A arte pode ser transformadora, se ela tem intenção. Eu me comprometi com a arte de modo que o meu trabalho fosse engajado'', aponta (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press) “Ser e tornar-se negro é ter a dimensão política do que é ser uma pessoa negra no mundo. Não é só a diferença de melanina.” Essa é a visão de Nelson Fernando Inocencio da Silva, 58 anos, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Filho de pais cariocas que vieram para o centro do país transferidos, Inocencio é um dos brasilienses que ajudaram a dar forma ao movimento negro na capital.

Com 17 anos, começou a participar de grupos que buscavam construir uma identidade negra no Distrito Federal. Por meio da arte, encontrou seu jeito de contribuir. “Eu entrei na universidade já com uma formação política, que o ativismo me deu”, relata. Como calouro, em 1980, Inocencio lamentava o fato de ser uma das poucas pessoas negras do ambiente.

“Era tão rara a presença de estudantes afrobrasileiros que, às vezes, vinham falar comigo em inglês ou francês, achando que eu era aluno do convênio do Brasil com os países africanos”, lembra. Para ele, ser o único negro em um local não era motivo de orgulho — como ouviu de muitas pessoas. “Isso não era algo para ser celebrado”, diz.

Esse cenário mudou, quando comparado com 40 anos atrás. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela primeira vez, a população que se declara preta ou parda passou a representar mais da metade (50,3%) dos alunos de ensino superior da rede pública. “A paisagem do câmpus tem sofrido uma mudança. Ainda não é radical, mas é importante”, opina.

Como professor da UnB desde 1995, ele duvida da estatística. “É uma presença mais significativa do que no passado, mas não é majoritária.” E chama a atenção para o baixo número de professores negros. “É ainda mais diminuto na carreira docente. Nós não chegamos a 5% do total, talvez nem a 3%”, calcula.
 
Tabu
 
Uma das principais vitórias da luta contra o preconceito no Brasil, segundo Inocencio, é poder colocar o racismo em pauta como um dos temas de importância nacional. Para ele, houve um “adensamento” do debate, mas ainda é um tabu. “Sou de uma época em que o mito da democracia racial era algo muito forte no Brasil. Com muita dificuldade, se admitia o preconceito racial”, comenta.

No fim da década de 1970, em pleno regime militar, ele ingressou na vida ativista. “Nós ousamos falar de racismo quando o assunto era tratado como subversão. Fizemos um trabalho corajoso.” Na época, a questão racial não era preocupação das organizações. “Mesmo as mais avançadas não tinham convicção de que o racismo era um fenômeno extremamente danoso. Era quase um monólogo, poucas ouviam”, ressalta.

De lá para cá, a luta das entidades ganhou maior espaço. Mas Inocencio alerta: “Lutar contra o racismo não pode ser um compromisso só do movimento negro. Não fomos nós que inventamos o problema. O compromisso é da sociedade”. Na avaliação do educador, autor de três livros sobre o tema, a conjuntura política e social não é favorável para os movimentos sociais. “Estamos vivendo um retrocesso intenso, mas não vamos esmorecer. É um absurdo que um país como o Brasil, com a segunda maior população negra do mundo, a trate da forma como vem tratando”, critica.
 
“Artivismo”
 
Publicitário por formação, Nelson Inocencio sempre teve aptidão pelas artes. Foi o medo do curso de educação artística acabar que o fez pedir transferência para comunicação social, área em que também fez mestrado. Segundo ele, a parte midiática da luta é fundamental, porque há um vício histórico da sociedade brasileira de “sobrerrepresentação de brancos e uma subrepresentação de negros e indígenas”. É equivocado, contudo, na opinião do doutor em artes, dizer que o negro nunca foi representado. “A representação sempre existiu, mas sempre tendeu para o lado negativo: como caricatura, exótica e risível. Era a desumanização e não o reconhecimento”, argumenta.

Apesar de reconhecer a importância estratégica da comunicação para ampliar o debate racial, é pela arte que Inocencio mais manifesta seu ativismo — o qual resume como “artivismo”. “A arte pode ser transformadora, se ela tem intenção. Eu me comprometi com a arte de modo que o meu trabalho fosse engajado”, explica.

A arte tem a capacidade de sensibilizar, e essa é uma das funções da militância negra, de acordo com Inocencio. “Quando eu digo sensibilizar, falo de agir. O sentimento tem que se transformar em alguma coisa”, esclarece. Ele acrescenta que a sensibilização para transformar é tanto do negro em relação à sua consciência quanto dos outros membros da sociedade quanto à questão racial. “Todos nós precisamos nos responsabilizar, se a gente quer uma sociedade verdadeiramente democrática.”

Especial
Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site: www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia

terça-feira, 5 de novembro de 2019

UBUNTU




“Um antropólogo fez uma brincadeira com crianças de uma tribo africana. Ele colocou um cesto cheio de frutas junto a uma árvore e disse para as crianças que o primeiro que chegasse junto a árvore ganharia todas as frutas. Dado o sinal, todas as crianças saíram ao mesmo tempo e de mãos dadas! Então sentaram-se juntas para aproveitar da recompensa. Quando o antropólogo perguntou porquê elas haviam agido dessa forma, sabendo que um entre eles poderia ter todos os frutos para si, eles responderam: Ubuntu, como um de nós pode ser feliz se todos os outros estiverem tristes?
 
UBUNTU na cultura Xhosa significa: “Eu sou porque nós somos”

(Leide Sardeiro, 24 de abril - 2013)

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Raízes do Samba: Qual foi a importância histórica das mulheres negras no samba?

O samba é o ritmo símbolo de resistência da cultura negra. E as mulheres negras foram essenciais para que ele pudesse seguir existindo no período pós-escravidão. Se não fosse por elas, o samba não existiria hoje.
 
 

A origem do samba no Brasil é incerta. Mas todas as possíveis explicações apontam que as raízes do gênero estão na África e foram trazidas pelos negros escravos no período colonial brasileiro.

No entanto, pouco tempo após seu surgimento, o ritmo esteve ameaçado de extinção. Não muito depois da abolição da escravatura, foi sancionada a Lei da Vadiagem (1941), que considerava ociosidade como crime e permitia a prisão de pessoas que andassem nas ruas sem documentos.

Isso afetava diretamente os homens negros que estavam desempregados, muitas vezes sem teto e sem nenhuma possibilidade de serem contratados devido ao forte preconceito racial da época.

“O período pós-abolicionista marcou a forte perseguição de quaisquer sonoridades, sotaques, danças e religiosidades afro-brasileiras, que visavam manter tradições que a sociedade brasileira queria tanto apagar. Nesse contexto, a importância das mulheres negras foi fundamental, porque além de manterem economicamente suas famílias -- já que continuaram a trabalhar como empregadas domésticas nas casas grandes --, foram essenciais para a resistência do samba. No Rio de Janeiro, a Tia Ciata, que hoje seria o que é comumente conhecido como mãe de santo, se destaca como memória coletiva. Na sua casa acontecia o samba que era proibido, onde nomes como Pixinguinha, Sinhô e tantos outros se conheceram e puderam compor.”

Kelly Adriano de Oliveira, doutora em ciências sociais pela Unicamp, afirma que tanto as mulheres quanto a religiosidade afro-brasileira tiveram um grande papel para que o samba conseguisse resistir, porque era dentro dos terreiros das casas das tias baianas -- cujo símbolo ficou marcado em Tia Ciata --, no espaço privado e escondido, que o samba podia acontecer.

Não à toa, a valorização da ala das baianas nas escolas de samba é uma forma de homenagear não apenas Tia Ciata, mas a memória de todas as tias baianas do samba.

Mulheres pioneiras na história do samba

A antropóloga conta que apenas depois da década de 30 o samba passou a ser aceito como cultura popular, reforçado por Getúlio Vargas “com o movimento de valorização do que era brasileiro, o que faz o Brasil o Brasil, e a tentativa de incorporar uma falsa democracia racial, de um país que supostamente aceita sua negritude e suas raízes”.

“Assim que saiu do privado onde se mantinha como resistência e foi para o âmbito público como símbolo nacional, as mulheres passaram a ter menos participação nesse processo, por causa de todo aparato machista da época, em que rua não era lugar de mulher, dentro outras questões... Daí começa a predominância masculina nos espaços de samba”

Um marco feminino dentro na história do samba, em meio toda essa imensa dificuldade, é a Madrinha Eunice, uma mulher cuja memória de luta é imensurável. “Ela foi a primeira mulher a presidir uma escola de samba, a Lavapés de São Paulo, que surgiu na verdade mais como um cordão carnavalesco”, contextualiza Kelly.
Porém, só mesmo depois da década de 60 que mulheres puderam ter alguma visibilidade dentro do espectro musical do samba e aí começam a surgir nomes vindos do Rio de Janeiro, como Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara – a segunda que é, na opinião de Kelly, o principal símbolo desse contexto. 
 


Dona Ivone Lara se apresenta

“Ela foi a primeira mulher a participar da ala de compositores de uma escola de samba, a Império Serrano, no Rio de Janeiro, ao final de 1960. Sua importância extrapola os 'locais de samba', e ela alcança respeito enquanto compositora e instrumentista na chamada MPB.”

O papel das intérpretes para a difusão e popularização do samba, principalmente Clara Nunes -- com pele clara, mas ascendência negra --, Alcione, Leci Brandão e Beth Carvalho, que amadrinhou muitos sambistas, também foi essencial para a cultura musical brasileira.

Cenário atual do samba para as mulheres

O samba continua sendo hoje um gênero musical no qual há a predominância de homens, tanto dentro da indústria, como nos espaços onde ele é tocado popularmente.

“A abertura do samba para a participação das mulheres, principalmente negras, continua difícil e, embora sempre haja nomes em destaque, como Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Teresa Cristina, ainda temos muito pouco”, lamenta Kelly.

Como forma de seguir resistindo – e existindo – nesse cenário, algumas sambistas independentes vêm se organizando em grupos e rodas de samba só para mulheres. O grupo paulista Sambadas é um exemplo disso.

“Não é preciso conhecer tudo de samba pra saber que à sombra de sua 'amistosidade' se escondem muitos conflitos. O preconceito de gênero é um deles. Mesmo protagonizando a história dessa manifestação popular, muitas cantoras, compositoras, líderes de escola de samba etc , foram, e são, caladas”, afirma Carolina Nascimento, compositora e violonista do grupo.

Carol, que mora no Jardim Icaraí em São Paulo, região do Grajaú, tem 25 anos e conta que o Sambadas começou a se organizar em março de 2015 e desde então as oito mulheres que compõem o grupo se reúnem semanalmente para conversar, ensaiar e fazer samba. “Ainda não temos local fixo de apresentação, os eventos e as respectivas informações são publicadas em nossa página do Facebook”, conta.
 
 


Grupo Sambadas se reúne toda semana


Ao ser questionada sobre a importância do samba para a mulher negra e a sua representatividade dentro do gênero, Carolina Nascimento reforça o machismo e racismo ainda muito vivos na nossa sociedade.

Ela afirma já ter tocado em diversas rodas onde a presença de homens era majoritária, e, por isso, pôde presenciar o desprezo com o qual a mulher é tratada nesses espaços ― seja na letra da música, na ausência de mulheres tocando ou no tratamento despendido àquelas que ousam tocar, cantar ou compor.

“Levantar a questão racial torna essa discussão ainda mais necessária. A mesma iniciativa midiática que pretendeu colocar no esquecimento os sambistas negros da cidade de São Paulo ― Geraldo Filme, Madrinha Eunice, Zeca da Casa Verde, Talismã, Toniquinho Batuqueiro, entre outros ― evidenciando figuras que condiziam com o perfil de paulistano “de bem”, vende hoje uma ideia de mulher do samba que não representa a mim, minhas amigas e familiares. A nossa sorte, e também azar deles, é que quando se fala em resistência não há exemplo de mais força do que a luta do povo negro, sobretudo das mulheres.”

Outra integrante do grupo, Kelly Buarque de Hollanda, de 38 anos, moradora de Osasco, que toca cavaquinho e canta no Sambadas, também contou que uma das maiores dificuldades enquanto mulher sambista é o preconceito machista ao tocar em rodas de sambas masculinas:


“Quando chegava em rodas de samba com homens, senti muita hostilidade por parte deles. Não gostavam da minha presença, não era bem recebida, me olhavam feio e recusavam-se a aceitar meu dom. Demorou muito tempo para que eu fosse respeitada nesse meio. E só depois que percebi que esse incômodo era fruto de puro machismo, porque eu tocava melhor que eles e porque lugar de mulher dentro do samba não é tocando, mas sambando, né?!”
Durante toda nossa conversa, ficou perceptível como o histórico de resistência do samba para a cultura negra sobrevive fortemente dentro da força dessas sambistas mulheres e negras.

“Os negros fizeram do samba uma forma de contar suas histórias, questionar a realidade, amenizar as dores e festejar as alegrias, e o fizeram contrariando interesses de uma elite poderosa. O verdadeiro samba, aquele que valoriza a tradição e não a moeda, sempre foi resistência”, afirma Carol.

O que falta – e muito – na visão de ambas, porém, é a representação da mulher negra na indústria musical e na mídia. Para finalizar Carol lamenta: “Enquanto a nossa visibilidade não for meio de enriquecer os mais ricos, continuaremos nos deparando com globelezas e outros padrões que com certeza não são os nossos”.
 
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Ana Júlia Gennari  
  Journalist, writer, fellow at HuffPost Brazil 
 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

WORKSHOP – Fotografias de Família: Ancestralidade, Memória e História (21 e 22/10)



WORKSHOP – Fotografias de Família: Ancestralidade, Memória e História
Onde: Auditório da #BCE - #UnB
Quando: 21 e 22 de outubro de 2019, de 9h às 12h

Descrição: Neste workshop, o documentarista e professor Thomas Allen Harris apresenta um panorama de suas estratégias de diálogo interdisciplinar e práticas participativas voltadas à abordagem sobre trajetórias individuais e coletivas, com foco especial em fotografias de família. A atividade é aberta à comunidade acadêmica e a pessoas interessadas em reflexões sobre ancestralidade, memória e história. 
 
Para tanto, solicita-se às e aos participantes que levem para o workshop fotografias de suas famílias que incluam pessoas de diferentes gerações.

Convidado: Thomas Allen Harris é um premiado documentarista, fotógrafo, curador e escritor. Desde 1990, tem trabalhado com arquivos de várias origens, questionando hierarquias que orientam as narrativas históricas, por meio do uso de documentários e metodologias de pesquisa centradas na imagem e relatos de base oral. 
 
Em 2009, Harris e sua equipe lançaram o projeto transmídia de engajamento comunitário “Digital Diáspora Family Reunion Roadshow”, uma ação itinerante e virtual em que as pessoas são convidadas a explorar e compartilhar as narrativas ricas e reveladoras encontradas nos álbuns de fotos da família.
 
Atualmente, Thomas é professor do Departamento de Estudos Afro-Americanos e do Programa de Estudos de Filme e Mídia e desenvolve o programa de televisão “Family Pictures USA”, que analisa a formação de bairros e cidades dos Estados Unidos através das lentes de fotografias de família, performances colaborativas e testemunhos pessoais de suas comunidades.
 
Filmografia:
Through a Lens Darkly: Black Photographers And the Emergence of a People (2014)
Twelve Disciples of Nelson Mandela (2005)
É Minha Cara/That's My Face (2001)
VINTAGE - Families of Value (1995)

Mais informações sobre Thomas Allen Harris em:
https://filmstudies.yale.edu/people/thomas-allen-harris
http://1world1family.me/thomas-allen-harris/

Confirmação de participação:
Enviar e-mail para fotografiasdefamiliaunb@gmail.com, informando: Nome Completo, Data de Nascimento, Área de Formação Acadêmica (Se houver).

Realização: Programa de Pós-Graduação em História - UnB

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Reintegração de Posse: Narrativas da Presença Negra no DF


::Reintegração de Posse: Narrativas da Presença Negra na História::

Museu Nacional recebe exposição que reconta a presença negra no DF

A exposição histórico-fotográfica Reintegração de Posse: Narrativas da Presença Negra na História do Distrito Federal foi construída coletivamente por estudantes da Universidade de Brasília (UnB), pesquisadoras/es e diferentes profissionais negras/os das áreas de História, Letras, Arquitetura e Urbanismo e Comunicação. É resultado de pesquisa desenvolvida sobretudo no acervo do Arquivo Público do DF.

Ressaltar a importância das pessoas negras como sujeitos históricos que têm deixado suas marcas no Distrito Federal. Esse é o objetivo da exposição histórico-fotográfica Reintegração de Posse: Narrativas da Presença Negra na História do Distrito Federal, que estará no Museu Nacional da República, de 12 a 29 de setembro de 2019. O material foi construído coletivamente por estudantes e pesquisadores da Universidade de Brasília e profissionais de diferente áreas, mobilizados pela professora Ana Flávia Magalhães Pinto, do Departamento de História. A maioria das imagens que a compõem foi selecionada por meio de análise profunda de fontes no acervo do Arquivo Público do DF. A entrada é gratuita.

Desenvolvida a partir de projetos de iniciação científica e extensão da universidade, a exposição encara o desafio de articular os conhecimentos acadêmicos nos campos da História, Comunicação, Arquitetura e Urbanismo aos saberes do ativismo social para a eliminação do racismo. Os registros fotográficos selecionados para a exposição datam de 1956 a 1998 e chamam atenção para o lugar da população negra como maioria dos habitantes do DF.
De acordo com Ana Flávia, a ação parte da perspectiva da História Pública, pensada a partir da multiplicidade dos sujeitos envolvidos e legitimados a contribuir para a construção das narrativas históricas. “Trabalhamos com a chave dos estudos históricos da liberdade e do pós-abolição, sobretudo no que toca o interesse pela reflexão sobre as trajetórias individuais e coletivas da gente negra e o enfrentamento ao racismo. A população do DF é formada por 57% negros/as é preciso refletir sobre a variedade e a complexidade dessas experiências ao longo do tempo”, explicou historiadora.
Reintegração de posse – A exposição histórico-fotográfica busca revelar a presença de pessoas negras em Brasília para além da figura do “candango”, personagem usual dos canteiros de obra e das narrativas sobre a capital. Para isso, apresenta esses e outros brasilienses em espaços sociais diversos, dando vida, cor e movimento à cidade. “Nossa proposta é falar da história negra no DF e lidar com os diversos aspectos da própria sociabilidade deste território”, revelou a historiadora.

Ambientes interativos estimulam os visitantes a encontrar o caminho percorrido por seus familiares até Brasília e suas idas e vindas pelas 31 regiões administrativas do DF. O público é convidado a dialogar e colaborar com o que está nas imagens, registros escritos e relatos de pessoas em diferentes contextos. “Trata-se de um convite ao diálogo com as histórias que elas próprias trazem ao sair de suas casas”, concluiu Pinto.
História Pública - De acordo com Guilherme Lemos, historiador que compõe a equipe, serão realizadas oficinas e tour virtual pelos espaços de memória das histórias negras no DF e visita guiada por monitores à exposição que está no Museu Nacional, como parte da Semana de Extensão Universitária da UnB. “Apresentaremos à comunidade como o documentos foram selecionados para a mostra, quais as técnicas utilizadas e como articulamos isso com os conhecimentos históricos intersubjetivos da cidade através das entrevistas com pessoas negras que vivem em Brasília desde a construção”, indicou Lemos.

As atividades acontecerão em 26/09, das 19h às 21h no auditório Joaquim Nabuco, na UnB, e 27/9, das 14h às16h30, no Museu Nacional. As oficinas são aberta para toda a comunidade. As inscrições estão abertas em: http://www.dex.unb.br/a-semana-universitaria-2019.

Serviço - Reintegração de Posse: Narrativas da Presença Negra na História do Distrito Federal
Local: Museu Nacional da República, Conjunto Cultural da República
Data: de 12 a 29 de setembro de 2019 (Entrada gratuita).
Evento de abertura: 12/9, 19h.

Visitas guiadas:
Sexta e sábado (13 e 14/9), das 9h às 19h.
Domingo (15/9), das 09h às 15h.
Terça (17/9), 9h às 12h.
Quarta (18/9), das 9h às 19h.
Quinta (19/9), das 9h às 15h.
Sexta e sábado (20 e 21/9), das 9h às 19h.
Domingo (22/9), das 9h às 15h.
Terça (24/9), das 9h às 12h.
Quarta (25/9), das 9h às 19h.
Quinta (26/9), das 9h às 11h.

Informações para a imprensa
Mara Karina Silva - (61) 9 9296.9522 (Whatsapp)
marakarinasilva@gmail.com

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Quando um herói nacional é negro: Abdias do Nascimento e a História que não aprendemos

O palco virou espaço para os negros marginalizados terem voz e exercitarem seu dom. Abdias trabalhou a autoestima daqueles ex-escravos que quase não tinham deixado de ser ex, mais de 50 anos depois da Lei Áurea



ACERVO ABDIAS NASCIMENTO/ IPEAFRO
Abdias Nascimento em Nova York, 1997.

Você sabe o que aconteceu com os escravos a partir de 13 de maio de 1888? Ou o seu livro de História pulou esse capítulo do pós-abolição?

A liberdade foi assinada. Mas era só um papel a lei da princesa Isabel. Centenas de milhares de negros foram direto da senzala no campo para as senzalas do esquecimento. Formaram a massa de pobres e miseráveis do Brasil no fim do século 19.

Fosse áurea mesmo aquela canetada, teria vindo com políticas públicas de integração e emancipação. Fosse áurea mesmo, eu não estaria agora prestando minha homenagem aos 100 anos de um dos maiores heróis negros do século 20, Abdias do Nascimento.
A lacuna no nosso livro de História

Não, o negro não era mais propriedade do senhor de engenho após a abolição. Porém, o Império nada fez para garantir as mínimas condições da pretensa liberdade. Não houve incentivos à alfabetização e à formação profissional dos ex-escravos. Nem reforma agrária para que tivessem um pedaço de terra e pudessem produzir para si próprios. Tampouco leis que protegessem sua força de trabalho, que havia pouco deixara de ser gratuita e eterna.

O Estado deveria ter endereçado a esse grupo uma série de ações sociais e educativas. Só assim, poderíamos falar em liberdade e igualdade de condições e oportunidades. Mas os ex-escravos não sabiam nem por onde (re)começar. A República Velha também os esqueceu. E, sem um marco zero, sem uma fonte de conhecimento, de orientações e de renda, o caminho natural dos negros recém-libertos foi a marginalização.

As mulheres negras deram um jeito. Sabiam cozinhar, lavar, cuidar dos filhos da madame. De mucamas, tornaram-se domésticas nos idos de 1900. Já os homens negros eram vistos com desconfiança. Sabe como é, foram escravos, costumavam fugir dos brancos, organizar quilombos… Quem daria um emprego a vossuncê?! A criminalidade foi consequência dessa exclusão.

A cor da pobreza no Brasil acabou reforçada no início do século 20: os negros eram desempregados, sub-empregados, os primeiros favelados e criminosos.

O negro que ousou na vida e no palco
 
Por Desconhecido – Arquivo Nacional, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=68738216

Abdias do Nascimento, nascido em 1914, não se contentava com esse destino, reservado a ele e aos que tinham sua cor de pele. Pequeno, aprendeu a se queixar dos xingamentos que ouvia na escola por ser preto. E entendeu que afirmar a sua diferença – essa que faziam questão de cuspir-lhe com adjetivos ofensivos – era motivo de orgulho e de força.

Por isso, participou da Frente Negra Brasileira, movimento que buscava a ascensão social das pessoas “de cor” na década de 30. As lições da época, sobre a necessidade de destacar a própria identidade racial, foram decisivas na trajetória de Abdias.

Naquele período, “nos teatros municipais do Rio e de São Paulo, negros entravam apenas para limpar o chão que os brancos sujavam”, como disse Abdias em entrevista ao Portal Afro. O ativista decidiu transformar o cenário e as personagens do momento. Recrutou domésticas, analfabetos, operários e desempregados, todos negros, para estudar teatro e montar peças.

Em 1944, ele concebeu o que pode ser considerado um dos maiores laboratórios de diversidade e autoafirmação nas artes cênicas do Brasil. Foi o Teatro Experimental do Negro, que revolucionou a vida de centenas de pretos, pardos, pobres.

Abdias alfabetizava o elenco, preparava os atores e incentivava a conscientização deles como cidadãos. O palco virou espaço para os negros marginalizados terem voz e exercitarem seu talento. Eles aprendiam sobre as próprias origens, aceitavam as raízes africanas, orgulhavam-se de ser quem eram. Abdias trabalhou a autoestima daqueles ex-escravos que quase não tinham deixado de ser ex, mais de 50 anos depois da Lei Áurea.

Algumas das encenações badaladas foram: O Filho Pródigo (1947), de Lúcio Cardoso; Aruanda (1950), de Joaquim Ribeiro; e Sortilégio (1957), do próprio Abdias. Foram formados pelo Teatro Experimental do Negro artistas do calibre de Ruth de Souza e Milton Gonçalves.
A semente germinada por Abdias

Além da experiência bem-sucedida no teatro, o ativista dedicou parte da vida às atividades políticas. No exílio, durante a ditadura militar, aproximou-se de Leonel Brizola. Na volta ao Brasil, participou da criação do PDT (Partido Democrático Trabalhista). A igualdade racial tornou-se sua principal defesa e foi incorporada como bandeira pelo trabalhismo da sigla de Brizola.

Foi deputado federal nos anos 80 e senador ao longo da década de 90. Sempre que discursava, reivindicava políticas de integração dos negros na sociedade brasileira. Políticas nacionais que nunca haviam sequer sido pensadas por qualquer governo.

Em 2006, quando tive a honra de entrevistá-lo, Abdias festejou a adoção em massa de ações afirmativas pelas universidades públicas brasileiras.

“Essa realidade de hoje, com cotas para negros, foi uma briga minha, nossa, do movimento, lá de trás, de anos”, recordou, já um pouco combalido, na cadeira de rodas.

Com mais de um século de atraso, a igualdade começava a ser construída. E Abdias foi um dos responsáveis por tentar virar a página dos reflexos e do legado da escravidão.

Um herói nacional que merece ser conhecido, estudado e celebrado pelos brasileiros interessados em preencher as lacunas da nossa História.

Fonte: geledes