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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Nelson Inocencio tem a trajetória marcada pela luta contra o preconceito

O professor da UnB é um dos expoentes que ajudaram a dar forma ao movimento negro na capital

 
''A arte pode ser transformadora, se ela tem intenção. Eu me comprometi com a arte de modo que o meu trabalho fosse engajado'', aponta (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press) “Ser e tornar-se negro é ter a dimensão política do que é ser uma pessoa negra no mundo. Não é só a diferença de melanina.” Essa é a visão de Nelson Fernando Inocencio da Silva, 58 anos, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Filho de pais cariocas que vieram para o centro do país transferidos, Inocencio é um dos brasilienses que ajudaram a dar forma ao movimento negro na capital.

Com 17 anos, começou a participar de grupos que buscavam construir uma identidade negra no Distrito Federal. Por meio da arte, encontrou seu jeito de contribuir. “Eu entrei na universidade já com uma formação política, que o ativismo me deu”, relata. Como calouro, em 1980, Inocencio lamentava o fato de ser uma das poucas pessoas negras do ambiente.

“Era tão rara a presença de estudantes afrobrasileiros que, às vezes, vinham falar comigo em inglês ou francês, achando que eu era aluno do convênio do Brasil com os países africanos”, lembra. Para ele, ser o único negro em um local não era motivo de orgulho — como ouviu de muitas pessoas. “Isso não era algo para ser celebrado”, diz.

Esse cenário mudou, quando comparado com 40 anos atrás. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela primeira vez, a população que se declara preta ou parda passou a representar mais da metade (50,3%) dos alunos de ensino superior da rede pública. “A paisagem do câmpus tem sofrido uma mudança. Ainda não é radical, mas é importante”, opina.

Como professor da UnB desde 1995, ele duvida da estatística. “É uma presença mais significativa do que no passado, mas não é majoritária.” E chama a atenção para o baixo número de professores negros. “É ainda mais diminuto na carreira docente. Nós não chegamos a 5% do total, talvez nem a 3%”, calcula.
 
Tabu
 
Uma das principais vitórias da luta contra o preconceito no Brasil, segundo Inocencio, é poder colocar o racismo em pauta como um dos temas de importância nacional. Para ele, houve um “adensamento” do debate, mas ainda é um tabu. “Sou de uma época em que o mito da democracia racial era algo muito forte no Brasil. Com muita dificuldade, se admitia o preconceito racial”, comenta.

No fim da década de 1970, em pleno regime militar, ele ingressou na vida ativista. “Nós ousamos falar de racismo quando o assunto era tratado como subversão. Fizemos um trabalho corajoso.” Na época, a questão racial não era preocupação das organizações. “Mesmo as mais avançadas não tinham convicção de que o racismo era um fenômeno extremamente danoso. Era quase um monólogo, poucas ouviam”, ressalta.

De lá para cá, a luta das entidades ganhou maior espaço. Mas Inocencio alerta: “Lutar contra o racismo não pode ser um compromisso só do movimento negro. Não fomos nós que inventamos o problema. O compromisso é da sociedade”. Na avaliação do educador, autor de três livros sobre o tema, a conjuntura política e social não é favorável para os movimentos sociais. “Estamos vivendo um retrocesso intenso, mas não vamos esmorecer. É um absurdo que um país como o Brasil, com a segunda maior população negra do mundo, a trate da forma como vem tratando”, critica.
 
“Artivismo”
 
Publicitário por formação, Nelson Inocencio sempre teve aptidão pelas artes. Foi o medo do curso de educação artística acabar que o fez pedir transferência para comunicação social, área em que também fez mestrado. Segundo ele, a parte midiática da luta é fundamental, porque há um vício histórico da sociedade brasileira de “sobrerrepresentação de brancos e uma subrepresentação de negros e indígenas”. É equivocado, contudo, na opinião do doutor em artes, dizer que o negro nunca foi representado. “A representação sempre existiu, mas sempre tendeu para o lado negativo: como caricatura, exótica e risível. Era a desumanização e não o reconhecimento”, argumenta.

Apesar de reconhecer a importância estratégica da comunicação para ampliar o debate racial, é pela arte que Inocencio mais manifesta seu ativismo — o qual resume como “artivismo”. “A arte pode ser transformadora, se ela tem intenção. Eu me comprometi com a arte de modo que o meu trabalho fosse engajado”, explica.

A arte tem a capacidade de sensibilizar, e essa é uma das funções da militância negra, de acordo com Inocencio. “Quando eu digo sensibilizar, falo de agir. O sentimento tem que se transformar em alguma coisa”, esclarece. Ele acrescenta que a sensibilização para transformar é tanto do negro em relação à sua consciência quanto dos outros membros da sociedade quanto à questão racial. “Todos nós precisamos nos responsabilizar, se a gente quer uma sociedade verdadeiramente democrática.”

Especial
Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site: www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Crise de Representatividade


Por Nailah Neves Veleci,
Se pros brancos que são 44% da população brasileira está tendo crise de representatividade (segundo eles) nesse governo, imagina pros negros que são 55% da população e não são nem 10% dos Tribunais Superiores (chega nem a 20% levando o judiciário todo segundo o Censo do Poder Judiciário), nem 30% do Congresso e que em Assembleias Legislativas do Acre, Amazonas, Alagoas, Goiás, Sergipe não tem nenhum negro? No Executivo nós nem comentamos, a elite desse país sempre foi branca.

Agora pense, os brancos ñ estão se sentindo representados mesmo tendo branco de direita, de esquerda, de centro. Branco pobre, branco rico, branco do norte ao sul, branco ambientalista, branco banqueiro, branco sindicalista, branco ruralista, branco evangélico, branco católico, branco professor, branco jovem, branco velho, branco LGBT.... Os brancos falam de crise de representatividade mesmo eles estando em tudo. E nós negros que somos maioria, que impomos órgãos, que impomos nossas candidaturas, que impomos cotas (nada foi dado por governo nenhum), que impomos políticas temos pouquíssimos representantes e esses representantes tem que dar conta da maioria da população brasileira, que é negra. Dar conta dos jovens, velhos, crianças, quilombolas, afro-religiosos, evangélicos, LGBT. Tem que discutir educação, saúde, trabalho, transporte, demarcação de terra, segurança. Discutir todas as questões que atingem negativamente a população negra (ou seja, discutir tudo).

Me perguntam qual o problema de um Presidente da Fundação Cultural Palmares, que é responsável pela demarcação dos quilombolas e pela promoção da "interação cultural, social, econômica e política do negro no contexto social do país", não acreditar que existe racismo no Brasil. Bem a resposta é simples: pra você presidir um órgão que representa 55% da população num país com essa estrutura, você precisa ser 30x melhor que os outros ministros pra compensar a ausência da questão negra na pasta deles. E se você não acredita nem no básico que é o racismo (comprovado e reconhecido nacional e internacionalmente, até em leis), você não tem competência técnica pra presidir um órgão cuja lei de criação exige que seja antirracista.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Por uma noção de imortalidade afrikana


A percepção da imortalidade é um conceito fundamental para pensarmos como se distingue a perspectiva cultural ocidental e a Yorubá. Cabe pensar em que ambas pensam no sentido de continuidade da vida, mas os termos diferenciam em absoluto.

Quando pensamos a busca pela imortalidade, baseada na perspectiva europeia, as histórias fazem alusão ao “fonte eterna da juventude”, ou ao “elixir da vida”, o que denota uma ideia de imutabilidade da condição material. O conceito de imortalidade está fixado a esta vivência, ao qual não sofrerá as intempéries do tempo. Ou seja, a imortalidade dessa vida só vale se ela for gozada na melhor etapa, que seria a juventude, na primazia do corpo e das sensações. O corpo, assim, é o elemento que permite amplificar as sensações, fazendo assim, dessa experiência algo rico e cheio, completo. Seria uma tentativa de ter a experiência divina a não finitude, da semelhança a experiência do que seria D’us. No entanto, nada evoca mais a morte do que a ausência de ciclos. A reflexão sobre a imortalidade em um único contexto de vida não concebe a perspectiva cíclica das emoções e situações, percebendo que não há situações infinitas, assim como inovações. Sendo assim, o que cabe aí a ideia de legado, de herança não-material? Qual a preocupação com o entorno se a finitude não é uma preocupação? Nessa questão cabe a tão propalada “vida eterna”.. O que é o mundo, senão apenas um ponto de passagem?


No fundo, é uma ideia que teme a morte, que teme o fim, mesmo esse baseado numa condição cristã inalterável. A perspectiva da imortalidade no conceito europeu, seja em vida ou na morte, parecem elementos estanques, apesar dos desdobramentos psicológicos que buscam mostrar.

Quando penso a imortalidade em termos afrikanos, do qual discorro com mais profundidade sobre a cultura Yorubá, a imortalidade é um conjunto de vidas e mortes, que se separam entre “inspiração e expiração”. A sua imortalidade contém a morte, porque ela é indissociável da vida. A morte, portanto, é uma outra etapa de um ciclo necessário para a vida, que se reifica em seus filhos. A imortalidade é o constante retorno por meio das novas vidas que nascem em sua família. Uma criança é sempre sagrada, porque é o retorno de uma avó, de um parente distante. É novo, mas é também velho pois já fazia parte. Neste sentido, pensar o amanhã, pensar a sua influência na sua família, nos seus filhos e no mundo, diz muito sobre o impacto que você quer ter pros ancestrais em retorno, mas também pra você ao voltar ao plano da vida. Como não pensar em melhorar as suas condições, em se tornar uma melhor pessoa ou não ter preocupação com as condições climáticas ou possibilidades alimentares do futuro?
 
O conceito do sagrado, do que seria o Divino, não está na vida eterna e jovial, mas no bom funcionamento do ciclo e no cumprimento do seu destino consigo e com os outros nesse plano. Como não são mundos estanques, sem contato, os ancestrais têm a função de aconselhar na melhor ação desse ciclo dos seus descendentes. Sendo assim, para que temer a morte? Se teme mais a falta de filhos, que é a quebra desse elo.

Envelhecer e ver as sementes que se tornaram árvores e permitiram que o elo não tivesse fim. Uma noção de equilíbrio e sob as regras naturais que se abatem tanto sobre a mosca, como sobre o elefante.

Foto retirada da comunidade “Black Family Reunion”, do facebook.

São apenas algumas reflexões baseadas em algumas poucas leituras, alguns princípios e os desejos culturais manifestos que se mostram nas falas, expressões e objetivos. Cada civilização aponta para aonde quer seguir. Certos desejos e objetivos irão apontar para as estrelas, para a Lua e planetas desconhecidos como opção de vivência, baseada na conjectura de Terra acabada. A Terra tem seu tempo, que no nosso, é imortal. As perspectivas de nossas imortalidades, enquanto povos, enquanto humanos, também evidenciam qual será o nosso destino. Espero que o Sagrado, em sua forma cíclica e natural, prevaleça pelo desejo do elixir e das sensações em desespero da eterna juventude. São dos retornos que estamos falando, e da qualidade dessas novas vidas que está em jogo.


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Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 08 de novembro de 2019.
  

papiroindomito "Uma espada que ao mesmo tempo tem o gume cortante e se enferruja". O dizer de si sempre é o rescaldo das nossas impressões nas outras pessoas. Ora tranquilo, ora gélido, ora paisagem nas suas diversas estações do ano...