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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Bolsonaro fez o que prometeu: prejudicou a vida de negros e pobres


Avaliação do primeiro ano do atual presidente da república é de derrotas e momentos de vitória e resistência


Texto / Pedro Borges I Imagem / Antonio Cruz - Agência Brasil,

Jair Bolsonaro não pode ser acusado de estelionato eleitoral. Enquanto chefe de Estado, fez aquilo que prometeu durante a campanha e ao longo da carreira: ameaçou jornalistas, apresentou projetos políticos punitivistas, formulou propostas econômicas que reforçam o lugar de subserviência do Brasil na dinâmica internacional do capitalismo e se ofereceu como algoz do meio ambiente.

A reforma da previdência e a proposta de acordo entre o Mercosul e a União Europeia são os pontos mais danosos no plano econômico. No primeiro caso, trata-se de uma grave retirada de direitos da população, que perderá o direito de se aposentar, em especial a negra. Com a aposentadoria prevista para 65 anos para homens e 62 para mulheres e a expectativa de vida em bairros com a maior presença de negros, como o Grajaú, em São Paulo, é de 58,6 anos. Temos uma matemática simples que anuncia a restrição desse grupo para se aposentar.

O acordo entre Mercosul e União Europeia reforça o lugar do Brasil como vendedor de commodities e importador de produtos com valor agregado. Sem barreiras protecionistas, o Brasil intensificará a produção de materiais agrícolas para a Europa e importará em maior quantidade produtos industriais e tecnológicos. Sem investimento na indústria nacional, seguiremos vendendo laranja e cana de açúcar e comprando tecnologia.

Os impactos desse acordo para o meio ambiente também são gravíssimos. Com maior demanda para a exportação de soja, o Brasil verá uma dinâmica mais forte para o desmatamento e a ampliação da monocultura no país.

O meio ambiente, aliás, foi um dos principais alvos de Jair Bolsonaro. Com a liberação de maior uso de agrotóxicos, o crescimento do desmatamento, Bolsonaro não apenas atinge o planeta, como principalmente os grupos sociais que habitam esses ambientes. Entre os mais atingidos estão as comunidades quilombolas e indígenas.

Somente em 2019, houve o assassinato de diversas lideranças indígenas e quilombolas, como Seu Vermelho, morto a machadadas no Quilombo Rio dos Macacos. O aumento da tensão no campo repercute de maneira direta sobre o número de pessoas vítimas de homicídio, na medida em que há um avanço sobre as disputas de terra.

A principal bandeira do atual presidente, o aumento da repressão e o combate ao crime foram seguidas a risca, mas tiveram de se deparar com uma forte resistência da luta antirracista. O pacote de segurança pública de Sérgio Moro foi a principal bandeira do então governo.

No projeto, Moro apresentou a ampliação do excludente de licitude. Previsto no Código Penal, o excludente de ilicitude define a possibilidade de redução da pena quando atos ilegais, como tirar a vida de alguém, são cometidos. O dispositivo se aplica, por exemplo, se o autor do crime alegar legítima defesa. O texto proposto por Sérgio Moro estipulava que a pena poderia ser reduzida pela metade ou até não aplicada se o crime praticado por agente público, como policial, ocorresse por “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

Nessa área, porém, Bolsonaro sofreu derrotas. Os principais pontos do pacote de Sérgio Moro, como a ampliação do excludente de licitude, foram derrubados. A vitória é a soma de uma série de fatores, como a denúncia da Vaza Jato feita pelo The Intercept, mas também da ação política do movimento negro, que foi à ONU, OEA, União Europeia e todos os mecanismos possíveis de direitos humanos para denunciar o projeto de Sérgio Moro.

Todo o cenário do primeiro ano indica de que o mandato de Jair Bolsonaro será como foi anunciado ao longo da campanha: retirada de direitos e fortalecimento dos setores privilegiados da sociedade. Ou seja, nada mais, nada menos do que uma tragédia, mas dessa vez, completamente anunciada.

A experiência de resistência dos movimentos sociais, sobretudo o negro, indígena e outros segmentos marginalizados, mostra de que a luta não está perdida. A resistência é sim fator fundamental para que se garanta ao menos parte dos direitos conquistados em outros períodos históricos.

É necessário que se mobilize cada vez mais o povo, com a formação de trabalho de base, para enfrentar esse cenário de retrocesso. O que foi retirado em apenas um ano talvez precise de décadas de governos progressistas para que haja uma total recuperação. Isso porque ainda há mais 3 anos de gestão. A luta continua.
 
Fonte: O Quilombo

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Exposição Fotografica Além das Algemas no Complexo Cultural de Samambaia/DF (17/01)


Para Além das Algemas é uma exposição que revela parte das sensibilidades, afetos e angústias em imagens e poesias feitas por adolescentes e jovens que cumprem medida socioeducativa nas unidades de internação de Planaltina, Recanto das Emas, São Sebastião e Santa Maria.

É compreensão que vidas são poesias, ao mesmo tempo em que enfrentam as dores do racismo, da desigualdade e da violência - que insistem em colocar um ponto final em vidas e sonhos. É ampliar as vozes destas juventudes que gritam: a real é que somos reticências, continuaremos a cantar, a escrever, a sonhar.

Cidadão tem o direito de filmar abordagem policial



Por Henrique Hoffmann e Eduardo Fontes,
Sabe-se que a segurança é direito fundamental de todos os cidadãos (artigo 5º, caput da CF) e que a segurança pública consubstancia a um só tempo dever do Estado e direito e responsabilidade de todos (artigo 144 da CF). Daí ter o constituinte originário outorgado aos órgãos policiais as tarefas de prevenir (polícia administrativa) e reprimir (polícia judiciária) infrações penais.

No desempenho de suas funções, uma das principais atividades das forças de segurança é a abordagem policial, também denominada de busca pessoal.

Consubstancia-se na inspeção do corpo do indivíduo e sua esfera de custódia (vestimenta, pertence ou veículo não utilizado como habitação), com a finalidade de evitar a prática de infrações penais ou encontrar objeto de interesse à investigação.

Diferentemente da busca e apreensão domiciliar, a busca pessoal independe de mandado judicial e pode ser realizada a qualquer tempo. Deve ser feita em diferentes níveis conforme o grau de ameaça, seguindo o uso proporcional da força (desincentivando o uso de expressões pejorativas como dura e baculejo).

Em razão da natureza de sua atividade (polícia administrativa) e da disponibilidade numérica (maior efetivo dentre as forças policiais), os policiais militares são os que mais fazem revistas diuturnamente nas vias públicas, na modalidade preventiva.

A abordagem policial é concretizada por um ato administrativo imperativo, autoexecutório e presumidamente legítimo. Traduz materialização do poder de polícia estatal (discricionário, autoexecutório e coercitivo) na limitação da liberdade ou propriedade em nome do interesse público. Acarreta inegavelmente certo grau de constrangimento, que deve ser suportado pelo cidadão em nome da pacífica convivência em sociedade.

Evidentemente isso não significa que o policial possa agir com arbitrariedade. O poder de polícia do Estado é marcado pela proporcionalidade. Nesse contexto, salta aos olhos a importância da fiscalização. O controle é fundamental para dar legitimidade à atuação do poder público (inclusive das polícias), garantindo a adequação das condutas dos agentes públicos à franquia constitucional de liberdades.

Uma das principais formas de fiscalização é o chamado controle externo popular, por meio da qual qualquer pessoa pode, na qualidade de cidadão, questionar a legalidade de determinado ato e pugnar pela sua validade. Assim se evita que o uso do poder se convole em abuso do poder, seja por excesso de poder ou desvio de finalidade (artigo 2º da Lei 4.717/65).

Nesse sentido, a abordagem policial deve seguir o propósito definido em lei (prevenção ou investigação), com uso da força estritamente necessária (artigo 284 do CPP, artigo 2º da Lei 13.060/14 e artigo 3º do Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei – Resolução 34/169 da ONU).

Muitas vezes o cidadão (que por vezes é um repórter), ao presenciar uma abordagem policial, resolve registrar a atuação fotografando ou filmando (com câmera profissional ou um simples smartphone), como forma de fiscalizar a ação estatal, especialmente quanto ao uso da força.

Ocorre que em algumas situações o policial militar, sentindo-se incomodado com a fiscalização sobre o seu trabalho, arrecada o aparelho do indivíduo e o conduz para a delegacia de polícia, seja pela alegada prática dos crimes de desobediência e desacato, ou por supostamente ser uma testemunha obrigatória dos fatos. Trata-se de atuação equivocada do miliciano.

O cidadão pode perfeitamente fiscalizar a ação dos agentes públicos sem atrapalhar o desempenho da missão pública e sem alterar a cena do crime. Registrar à distância a busca pessoal em nada prejudica a abordagem policial. Evidentemente deve se identificar quando solicitado (artigo 68 da LCP), e eventual divulgação do material deve ser desacompanhada de ofensas aos envolvidos ou desacato aos policiais.

Quanto ao cidadão em geral, vale lembrar que o princípio da legalidade (artigo 5º da CF) preconiza que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei", e inexiste vedação legal para que uma pessoa registre fatos em vias públicas. Importante destacar que o postulado da legalidade surgiu com o Estado de Direito, opondo-se a toda e qualquer forma de poder autoritário e antidemocrático, sendo previsto na própria Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Caso o fiscalizador seja repórter, acrescente-se que a liberdade de imprensa (artigo 220 da CF) é importante direito fundamental que permite à população ter acesso amplo à informação e a melhor controlar os atos do Estado. Cuida-se de patrimônio imaterial, sendo irmã siamesa da democracia, devendo desfrutar de uma liberdade de atuação extremamente ampla.

Logo, não pratica qualquer delito aquele que registra fatos acobertados pela publicidade; o miliciano que restringe a liberdade do cidadão indevidamente é que pode incorrer em abuso de autoridade.

Além disso, o indivíduo não necessariamente deve figurar como testemunha pelo simples fato de ter registrado a abordagem policial. Isso só deve acontecer se inexistir outro indivíduo que tenha presenciado os fatos. De toda sorte, a decisão sobre sua oitiva e sobre a utilização do registro será tomada pelo delegado de polícia, e não pelo policial militar, que é um agente da autoridade policial. E mesmo que o cidadão seja chamado a narrar o acontecimento, inexiste motivo para apreensão do equipamento quando cópia do vídeo ou imagem puder ser extraída instantaneamente na delegacia. Essa observação ganha especial relevância quando se tratar de jornalista, que tem na sua câmera um instrumento de trabalho.

Não custa pontuar que a regra de proibição de depor como testemunha (artigo 207 do CPP) não se aplica a jornalista, pois o segredo que deve ser mantido por esse profissional é o da origem da informação (sigilo da fonte, ou seja, identidade do informante), e não da informação em si. Entretanto, repita-se, só deve o repórter atuar como testemunha em casos estritamente necessários e nunca como forma de intimidação ou de cerceamento da profissão.

Portanto, o uso de câmeras não é proibido, pelo contrário, deve ser estimulado tanto pela população, pelos jornalistas e pelos próprios policiais, seguindo tendência mundial. Esse proceder melhora a atuação dos agentes da lei e também dos próprios suspeitos, que se sentem desestimulados a levar adiante reclamações improcedentes, como demonstra estudo. É dizer, a filmagem não serve apenas para incriminar, mas também para demonstrar que a atuação firme da polícia seguiu os parâmetros legais.
Fonte: nacaojuridica

“Eu não quero ser a sua amiga”: A Precariedade do Afeto na Vida de Mulheres Pretas

A violência e estereótipos que minam nossa afetividade.
 
Ilustração por: Ojo Agi Shop

“Tenho a impressão de que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo. ”
– Carolina Maria de Jesus

Amor. Respeito. Afeto. Companheirismo.

Tais palavras lhe soam familiar? Obviamente, sim. E se eu lhe contasse que, apesar da extrema familiaridade, muitas mulheres jamais conheceram e vivenciaram seu real significado?

Infelizmente, não trata-se de um eufemismo, mas sim, uma afirmação real e confirmada através de dados estatísticos:


“No último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, dados sobre a mulher preta brasileira chamaram a atenção. O levantamento apontava que, à época, mais da metade delas — 52,52% — não vivia em união, independentemente do estado civil. ”

– Fonte: Revista Fórum

“As mulheres pretas chefes de famílias com até um salário mínimo de

rendimento são de 60%, revelando uma escolaridade mais baixa. Já as famílias

chefiadas por mulheres que recebem três salários ou mais, a presença das

mulheres pretas reduz para 29%. ”
– Fonte: Mulher Negra, Dados Estatísticos

“Dados da Central de Atendimento à Mulher relativos ao ano de 2013 apontam que 59,4% dos registros de violência doméstica no serviço referem-se a mulheres pretas. ”
– Fonte: Agência Patrícia Galvão (Violência e Racismo)

“O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014, eram pretas. E 62,2% dos homicídios de mulheres, vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%).”

– Fonte: Agência Patrícia Galvão (Violência e Racismo)

Torno a fazer outro questionamento:

Há algo em comum entre as mulheres catalogadas nas estatísticas, afora as condições inferiores as quais são submetidas?

Praticamente todas são: pretas.
O princípio da solidão

Desde os primórdios da sociedade brasileira, mulheres pretas têm constituído o elo mais fraco da corrente social. Trazidas da África para serem escravizadas; perderam direitos, família, amigos e boa parte de sua expressão cultural, religiosa e social. Tais acontecimentos não ocorreram somente em Brasil.

As escravizadas, em geral trabalhavam arduamente em lavouras e plantações, tal qual os homens. Entretanto, também serviam aos seus alvos senhores nas Casas Grandes. Havia divisão de trabalhos: algumas serviam aos cuidados domésticos, outras, aos cuidados das crianças e todas, sexualmente vinculadas, estavam sujeitas aos caprichos dos senhores e até mesmo, de outros escravizados. Creio eu, que neste ambiente caótico, torturante e repressivo, não havia o mínimo espaço para amor ou bons sentimentos. O menor deslize era o suficiente para suscitar castigos brutais. Afora afazeres domésticos e serviços como “amas de leite”, as mulheres pretas também eram o útero da servidão. Comumente estupradas, pariam os futuros trabalhadores de lavouras aos montes. Isso quando não provocavam abortos, para livrar suas futuras crianças de uma existência completamente miserável. As mais “bonitas” eram forçadas a tornarem-se concubinas de seus senhores, muitas vezes, parindo filhos mestiços que seriam renegados por seus “pais”.
 

Um dos pilares da violência sofrida por mulheres pretas em tal período, era o ódio que despertavam em suas senhoras. Eram intensamente punidas por motivos fúteis, baseados na frustração sentida pelas mesmas, ao saber que seus maridos preferiam as escravizadas em práticas sexuais, sem ao menos considerar o fato de que tratava-se de estupro. Não obstante, algumas serviam de acompanhantes para suas senhoras, o que não tornava-as imunes a maus tratos.

Mulheres pretas foram submetidas à uma existência de completa servidão física e mental ao patriarcado branco, durante 358 anos de nossa história. Certamente, haveria sequelas.
 
Os Dias Atuais

As consequências de tais abusos perduram em nossa sociedade até o tempo presente. Mulheres pretas ainda são o elo mais fraco da corrente social. Saímos das senzalas e migramos para as favelas. “A escravizada” torna-se “a pobre”, a experimentar mais uma vez hostilidade, crueldade e marginalidade. Pesquisas comprovam que no Brasil, a maior parcela de mães solteiras sustentando seus filhos com um salário mínimo, ou menos, é constituída por mulheres pretas. Somos aquelas que saem para trabalhar precocemente, muitas vezes, as que cresceram sem a presença masculina em suas casas. Não é preciso ir tão longe para deparar-se com tal realidade. Qual de nós não possui uma avó, tia, prima ou sobrinha de pele escura que, por alguma razão, sustenta ou sustentou os filhos sem a presença masculina em seu lar? E foram abandonadas por seus maridos, à própria sorte? Vivemos a precariedade do afeto, ainda em nossa infância e em nossos lares.

A opressão sofrida por mulheres pretas é estritamente maior, pois, além do machismo, somos oprimidas pelo racismo institucional instaurado na sociedade. Não afeta somente as oportunidades de ascensão social, mas também, nossa afetividade, constantemente. Remontando o período colonial, nossos corpos ainda são sinônimo de sexo fácil, animalidade e ausência de sentimentos. Somos cobiçadas por conta de nossas coxas, bundas voluptuosas, lábios carnudos e silhuetas. A carne fala mais alto do que nossa humanidade, nesta sociedade em que valemos praticamente: NADA.

Somos preteridas, pois, homens e mulheres aprendem desde a tenra infância a adorar a beleza eurocêntrica e detestar aquela que advém de origem africana. Os traços finos, a pele branca, cabelos lisos e olhos extremamente claros, são exaltados. Enquanto traços africanos tornam-se motivo de chacota, vergonha e humilhação. Nossos contornos são considerados indesejáveis, ao menos que estejam no corpo de uma mulher branca. O que constitui uma enorme contradição, afinal, apesar do desejo exacerbado sobre nossos corpos, há um ódio descomunal sobre nossas origens. Este ódio não cega somente brancos, mas também, os pretos que por questões socioculturais acabam por preferir relacionar-se com mulheres brancas, a fim de conseguir ascensão social e “embranquecer” suas famílias. Na maioria dos casos, muitos passam a vida sem jamais relacionar-se seriamente com uma mulher de mesma cor e jamais percebem.

Para este artigo, entrevistei algumas mulheres, explanando assim uma realidade material a qual todas nós estamos sujeitas. Esperei as mais variadas respostas, no entanto, surpreendi-me ao perceber que todas possuíam, praticamente, pontos que partiam do mesmo pressuposto:


“01 — Você já se sentiu rejeitada por ser uma mulher preta?
02 — Já sentiu que homens a buscavam para sexo, mas não para relacionamentos duradouros?
03 — Já se relacionou com homens pretos e/ou brancos?
04 — Quais diferenças notou entre ambos?
05 — Já se sentiu pressionada pela sociedade em relação a sua sexualidade? ”

Essas foram as respostas de algumas das moças entrevistadas:

“sim, a todo momento. Sempre fui a pessoa que servia pra ser amiga, enquanto as meninas brancas serviam pra ser namorada, mesmo não sendo parceiras.”

“Sim, eu era objetificada inclusive durante um relacionamento. Era a “puta”, enquanto ele se encantava pelo “charme e delicadeza” de outras mulheres brancas.”

“demorei a entrar em um relacionamento sério”

“era hipersexualizada por ambos, preterida por ambos, escondida por ambos, porém senti dos caras pretos a negação em se ver como pretos, onde automaticamente não assumiam sua cor, se embranquecendo a todo momento (nitidamente fruto do auto-ódio.)”

“homem branco é racista e cego pelo privilégio, homem preto é vítima do racismo e tenta se embranquecer o máximo por conta disso. inclusive já me relacionei com homem preto retinto que enxergava em mim uma oportunidade de clarear a família, isso claramente porque não conseguia uma branca então uma preta de pele clara é o que tinha.”
“Eu não quero ser a sua amiga”: O estereótipo da amiga preta

“Sempre fui a pessoa que servia pra ser amiga, enquanto as meninas brancas serviam pra ser namorada.”
– S. G. (Entrevistada)
Essa frase remete-nos a um dos estereótipos mais nocivos à afetividade de mulheres pretas. Como é de se notar, em diversos filmes, séries, animações e novelas com algum protagonismo feminino, este arquétipo sempre, ou quase sempre, faz-se presente: “a amiga preta”. Geralmente, trata-se de uma personagem que a todo momento fica à sombra da protagonista branca. Ela possui uma personalidade subdesenvolvida na trama, praticamente nenhuma autonomia, comportamento caricato, e geralmente acaba sozinha, enquanto a protagonista branca vive uma intensa história de amor.
 
Ritinha e sua amiga Marilda em “A Força do Querer”.
 
Charlotte, ( no centro), acompanhada de suas amigas Tai ( a esquerda) e Dionne ( a direita) para o filme: “Clueless”.

Na vida real, não é diferente.

A maioria das meninas pretas passam por tal situação em sua adolescência. Não importa o quão bonita, interessante, afetuosa ou inteligente você seja; nunca será páreo para aquela menina loira e branquinha pela qual todos os meninos pretos, brancos e não-brancos derretem os corações. Sentimos isso em nossa pele ainda nas primeiras paixões e esse estigma, infelizmente, acompanha-nos até o fim da vida. Tal situação transforma um período de descobertas essencial ao ser humano, em uma ferida aberta e visceral que, talvez, jamais feche-se. Sonhamos com um amor construído socialmente, que negam-nos a todo instante. Enquanto nossas amigas brancas ou de pele clara saem constantemente, namoram e são tratadas de maneira diferenciada pelos rapazes, somos preteridas e silenciadas.

Um exemplo real o qual podemos citar, é a atriz global Taís Araújo. Como sabemos, Taís é considerada uma mulher belíssima e nos dias atuais é extremamente aclamada por sua aparência. Porém, através de seus relatos ao site Gshow a respeito de sua relação com os demais durante a adolescência, percebemos que não trata-se do quão bonitas somos ou podemos ser, mas sim, da cor de nossas peles:
 
“Estudei a vida inteira em um lugar no qual a maioria das pessoas era branca. Só que eu era aquela que não namorava ninguém no colégio, nem no condomínio. Para dar meu primeiro beijo, tive que ir à Bahia. Eu até trabalhava como modelo, era considerada bonita, mas ninguém queria me namorar. Ou não tinha coragem. Sofria, né? ‘Eu gostava dos garotos, eles que não gostavam de mim’”
— Taís Araújo.

O preterimento intensifica-se quando vivemos em ambientes majoritariamente brancos. A todo momento, atitudes e posicionamentos teimam em recordar-nos de que estamos em um patamar o qual “não pertencemos” e jamais nos permitirão pertencer.

As moças de pele clara, “são para casar”, construir família e vivenciar relacionamentos. Nós, “somos para transar”, viver dissolutamente em prol do prazer masculino, para posteriormente ser descartadas e terminar nossas vidas criando filhos de homens que simplesmente abandonaram-nos. Muitas vezes, somos relegadas tão somente à amizade. Quando nos relacionamos socialmente com rapazes, veem-nos como boas amigas, mas, jamais cogitam a possibilidade de estarmos ali, como parceiras. Já outros, nos buscam, quase desesperadamente, para o sexo sem compromisso. Toda menina preta já ouviu algo como: “vocês são as mais quentes”, “vocês são mais gostosas”, “essa pele da cor do pecado me deixa louco”. Somos impossibilitadas de experimentar uma vida sexual e afetiva saudável. Na maioria das vezes, ou nos reprimimos, ou acabamos na cama de algum babaca.
 
Tradução: “Meu nome, com toda a certeza não é Maldita Vadia Preta.”. Imagem retirada da série: “she’s gotta have it”.
Considerações Finais

Essa sociedade doentia sexualiza-nos de maneira cruel, com destaque para as meninas que estão em situação de pobreza. Desde os 10 anos ou até menos, muitas eram e ainda são ensinadas a utilizar shorts minúsculos e agir de maneira provocante e permissiva. Nos doutrinam para apreciar tal tratamento, reproduzi-lo para outras meninas e o aceitarmos sem jamais questionar. Enquanto os homens, sempre foram ensinados que a cor de nossa pele é um passe livre para o abuso, estupro e pedofilia. Nunca para o amor. Independente de como você seja. Ensinam-nos que essa prisão constitui liberdade, quando verdadeiramente, apenas estamos apreciando nossa própria opressão.

Nosso sofrimento, assim como a solidão, é estrutural. Sim, meus caros, não trata-se de uma simples “preferência” quando você excluí mulheres pretas do seu hall de relacionamentos sérios, amizades e afetos sociais. Mas sim, uma construção social excludente que fixam em nossas mentes desde a infância. Mulheres pretas são lindas, inteligentes, possuem sentimentos, são companheiras, amigas e boas pessoas, como qualquer outra mulher pode ser. Não somos inferiores, não somos pedaços de carne em exposição e não estamos aqui para satisfazer ninguém. Precisamos desconstruir anos e anos de estereótipos nocivos que minam até os dias atuais a afetividade de mulheres pretas. Pois, merecemos vivenciar o amor, em toda a sua plenitude.


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by
Yasmin Morais

Escritora baiana, atriz e discente em Jornalismo na UFBA. Siga meu blog literário: minhadoceparanoia15.blogspot.com
 
Fonte: medium

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma criança feliz é barulhenta, inquieta, alegre e indisciplinada

 
 
Por: Valeria
Uma criança feliz, que gosta de interagir e descobrir o mundo, é barulhenta e rebelde. Agora, nos últimos tempos, há um movimento que chama nossa atenção e nos preocupa: a “fobia de crianças”.

Por algum tempo, esse tipo aumentou um tipo muito específico de oferta de hotel, que oferece acomodações “sem crianças”. Ou seja, durante a estadia, não encontraremos bebês ou crianças que nos incomodam à noite com seus gritos ou que nos incomodam na piscina com seus jogos.

O mesmo vale para certos bares e restaurantes. É uma oferta diferente para todos aqueles que desejam passar um momento de paz longe da presença de crianças. Este movimento está tendo um grande impacto nos Estados Unidos e no Reino Unido. E isso nos convida a refletir sobre uma questão um tanto complexa.

Já esquecemos o que é a infância? Temos tão pouca empatia que somos incapazes de nos conectar com aqueles anos maravilhosos, barulhentos e indisciplinados que definem a infância? Convidamos você a refletir sobre isso em nosso espaço.


Quando as crianças se incomodam em nossos espaços públicos

Começaremos explicando o caso da cantora canadense Sarah Blackwood. No ano passado, ele experimentou uma situação que a marcou e denunciou. Ele tentou fazer com que, com sua história, a sociedade refletisse em algo importante.


Ele teve que fazer uma viagem de avião com seu menino de 23 meses. Eu estava grávida de 7 meses e, embora não fosse a primeira vez que fiz essa jornada de São Francisco a Vancouver, naquela ocasião foi algo diferente.

Quando o avião ainda não decolou, seu filho começou a chorar. Logo, toda a passagem olhou para ela com aborrecimento. Ele logo ouviu críticas sobre “que ela era uma mãe ruim”, alguém que não sabia como cuidar de seu filho.

Logo o comissário de bordo chegou, avisando-o de que ele deveria acalmar o filho. A passagem estava reclamando e eles poderiam tirá-la do avião se a criança não calasse a boca. A jovem mãe estava quase sem fôlego.

As lágrimas do bebé mal duraram 10 minutos. Depois desse tempo, ele adormeceu novamente e não acordou até o pouso. Será que as pessoas esqueceram o que é ser mãe? Alguém se lembra que os bebés choram, riem, gritam e gritam?


A “fobia de crianças” ou pensar que uma criança que chora é o resultado de maus pais

Este é apenas um pequeno exemplo do que muitos pais sofrem todos os dias. Ir às compras, sair em um teatro, comer em um restaurante … Se uma criança grita, chora ou chama a atenção de outras pessoas, é porque seus pais “não estão fazendo algo certo”.
É uma ideia incorreta e estigmatizada. Cada criança tem sua personalidade e sua maneira de interagir nos seus contextos mais próximos. Há mais inquietação e mais calma. Mas isso nem sempre é o resultado da educação de seus pais.
Os bebés choram, e chorar é a linguagem essencial para pedir algo, para se comunicar. É algo natural que toda mãe entende.

Portanto, devemos ser mais empáticos e respeitosos quando, em um trem ou avião, vemos os pais tentando acalmar o bebé durante a viagem.

A “fobia de crianças” está fazendo a entrada de menores em muitos espaços de lazer nos Estados Unidos e no Reino Unido. No entanto, com isso, a entrada para os pais também é proibida. É algo para refletir.

É claro, no entanto, que em matéria de turismo, cada empresa pode oferecer o serviço que deseja. Portanto, se uma pessoa deseja passar suas férias sem ver ou ouvir uma criança, ela merece todo o nosso respeito.

Uma criança feliz é uma criança que corre, que grita, que chama nossa atenção

Qualquer criança quer tocar em tudo, experimentar, sentir, rir, aprender … Se o forçarmos a calar a boca, a não chorar, a falar baixinho e a não sair da cadeira, o que teremos é uma criatura medrosa que não se atreverá a explorar, não a criança feliz
Os gritos são tratados, eles não são censurados, nem são ignorados. Se uma criança quiser tocar em algo, nós a protegeremos de danos. É necessário promover sua conduta de exploração, curiosidade, interação com o meio ambiente.
A infância é barulhenta por natureza. Só é necessário passar por um berçário ou um centro primário no recreio para lembrar o que é ser uma criança feliz.

Com o tempo terá que crescer e permanecer em silêncio, permanecer imóvel nos assentos de um avião, sem perturbar. Enquanto isso, respeitamos os pais em sua tarefa de educar e ter mais empatia com os filhos. Porque uma criança feliz é uma criança inquieta, curiosa e alegre.
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Por: Valeria Sabater Psicoplenitud
Photo by frank mckenna on Unsplash
 
Fonte: inspiringlife

Campanha #EuPareçoCientista tenta quebrar estereótipos de profissionais - #hashtag


por Mateus Camillo,
Como é um cientista pra você?

Provavelmente a primeira imagem que vem à cabeça seja a do físico alemão Albert Einstein. Um homem branco, velho, talvez com cabelo desgrenhado.

Uma campanha no Twitter quer mostrar que não é bem por aí.

Não existe uma identidade única de cientistas. São inúmeros profissionais pelo mundo de cores, idades e origens socioeconômicas das mais diversas. Os temas estudados também são amplos, seja nas exatas, humanas ou biológicas.

O movimento começou em inglês (#ILookLikeAScientist) e ganhou uma versão brasileira, a #EuPareçoCientista.

Cientistas publicam uma espécie de mini biografia, com nome, profissão, área de pesquisa e curiosidades e hobbies.

A hashtag chegou a virar um dos assuntos mais comentados durante a semana passada.

Confira algumas publicações, com curadoria da minha colega de Folha Sabine Righetti, professora e pesquisadora da Unicamp.
Eu sou Paulina e #EuParecoCientista
Formada em Física Biomolecular, trabalho em Materiais, primeiro em processamento de materiais a laser (LIFT) e agora, no mestrado, com caracterização e análise de Biomateriais (corais!); sou maluca por extracurriculares e sou atleta. pic.twitter.com/6dd3aJr9BW
— ZIKAtômica 2020 (@zikafrom802) January 9, 2020
Sou a Fernanda e #EuParecoCientista
Me graduando em Astronomia, estudo como umas estrelas nervosinhas afetam o disco de gás que elas cospem.
Tbm gosto de fazer uma divulgação com um pessoal daorinha.
Minha alma foi vendida pros animais, em especial esses dois, Fredy 🐕 e Duque 🐎 pic.twitter.com/F35vKLu3jp
— Fernanda Nogueira (@febanog) January 9, 2020
Meu nome é Andressa e #EuParecoCientista . Sou Física e faço mestrado em Eng. Aeronáutica. Pesquiso sobre redução de ruído em aeronaves, para que a população que mora em regiões de aeroportos não sofra mais com estresse, perda de audição, hipertensão e baixa produtividade. pic.twitter.com/RVaymYEpLq
— andy (@FISlCAT) January 8, 2020
#EuPareçoCientista Sou Jeferson, sou mestre em Ciências farmacêuticas e doutor em microbiologia e imunologia. Estudo o perfil epidemiológico de bactérias e fungos multirresistentes e também analiso potenciais bioativos antimicrobianos em extratos vegetais . pic.twitter.com/FmzzUOck2m
— Jeferson Jr Silva (@JefersonJr6) January 8, 2020
Me chamo Ismael e eu #EuParecoCientista sou Eng°Agrônomo, especialista em Geotecnologias e Recursos Naturais, mestrando em Ciências Ambientais e estudo agricultura familiar em assentamentos de reforma agrária na região do Sudeste Paraense. pic.twitter.com/sPJgddIQIR
— Ismael Amorim (@mael_amorim) January 9, 2020
Me chamo Marla e #EuParecoCientista, sou Eng de Produção, faço especialização em Gestão da produção industrial e sou mestranda em Ciências Ambientais. Eu estudo cooperativas com modelos de economia extrativista de base sustentável na Amazônia, p/ o avanço de uma economia circular pic.twitter.com/seEDsAvkSe
— Marlandra (@marlandraa) January 9, 2020
Sou Brenda e #EuPareçoCientista
Sou formada em Química e doutoranda em Nanociências e Materiais Avançados. Estudo novos materiais semicondutores pra utilização fotoeletrocatalítica em células solares pra incentivar e tornar acessível o uso da energia solar (que é limpa/renovável) pic.twitter.com/8UnhC82B3Z
— lili carabina (@BrendaaaLima) January 9, 2020
Até o reitor da Unicamp entrou no movimento.
E entrou para o Moments do Twitter
Quem começou a campanha no Brasil foi a astrofísica Camila de Sá Freitas, mestranda do Observatório do Valongo, da UFRJ.
— C. Esperança - tentando virar mestre de galáxias (@safreitas_c) January 7, 2020
Cara de maluco antissocial? Bem longe de ser verdade, escreveu Camila.
Eu estou dando rt em cientistas que usam a tag #EuPareçoCientista pra vocês verem que o esteriótipo do cientista como um cara maluco não social não prevalece! hahahah
Espero que vocês tenham achado bastante gente bacana pra seguir, são muitos trabalhos legais!!! https://t.co/25yyVyJxxd
— C. Esperança - tentando virar mestre de galáxias (@safreitas_c) January 8, 2020
Lembrando que a pasta de Ciência tem sido uma das mais afetadas com cortes de verba na gestão Jair Bolsonaro, colaborando para aumentar a fuga de cérebros no país.

A ciência tem papel fundamental no desenvolvimento de uma nação. Como vimos nos exemplos acima, são estudados muitos temas complexos que resultarão no progresso da sociedade brasileira.

Fonte: blogfolha

Bacurau no Complexo Cultural Samambaia


O Complexo Cultural Samambaia exibirá no próximo dia 18 de janeiro o filme brasileiro que conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, BACURAU. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles com distribuição da Vitrine Filmes (Brasil), BACURAU conta a história de moradores de um pequeno povoado do sertão brasileiro que descobrem que a comunidade não consta mais no mapa.

A programação que começa a partir das 17h contará ainda com feira criativa, com artigos de artesanato, indumentárias, comidas veganas e outros, discotecagem e show com a banda Madamme Bovary.

Venha assistir esta grande produção com a gente e se vier venha na paz!

Local: Cine teatro Verônica Moreno do Complexo Cultural Samambaia
Data: 18 de janeiro de 2020
Horário: A partir das 17h

Entrada: 20 inteira e 10 meia
(ingressos a venda no Sympla)
https://bit.ly/39Gx7BX

Classificação Etária 16 anos

O Complexo Cultural Samambaia fica na Quadra 301 conjunto 05 – Centro Urbano Samambaia Sul ao lado dos Correios
Informações: (61) 9 9228-0715

Distribuição e apoio: Vitrine Filmes

Associação Imaginário Cultural e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

Mais infos: Bacurau no Complexo Cultural Samambaia