Páginas

Mostrando postagens com marcador #Noticias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Noticias. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO: INTELECTUAIS NEGRAS BRASILEIRAS HORIZONTES POLÍTICAS POR ANA CLAÚDIA JAQUETTO PERREIRA (13/12)



Imperdível!
Na próxima sexta-feira, a Ana Claudia fará o lançamento de seu livro na Cardabelle Padaria. Todas e todos estão convidados!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Miss DF faz sucesso nas passarelas sem perder raízes africanas


 
A hoje psicóloga Amanda Balbino fez sucesso nas passarelas como a miss DF sem perder as raízes africanas 
por  Deborah Fortuna
"Ser uma mulher negra, hoje, sobretudo, é também se reconhecer nesse lugar. Você tem que se conhecer de novo", Amanda Balbino, Miss DF (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press) Amanda Balbino gosta de acessórios, samba e cores fortes, que destacam a pele negra. Do Rio de Janeiro, onde nasceu, trouxe a energia e alegria contagiante. De Brasília, aprendeu, segundo ela, a carregar a calma e a tranquilidade da cidade que virou casa. Mas não é apenas essa relação que Amanda tem com a capital federal. Em 2015, ela foi a primeira modelo negra a ganhar o Miss DF. Hoje, aos 25 anos, formada em psicologia, Amanda quer ser um exemplo de representatividade para outras meninas que desejam ultrapassar os obstáculos e vencer os preconceitos dentro da moda que, por anos, omitiu pessoas negras.

Entrar para o mundo da moda nunca foi um sonho de criança, mas, aos 11 anos, Amanda tentou pela primeira vez. Tinha todos os atributos físicos esperados por alguém que quer desfilar em uma passarela e ainda era alta para sua idade. “Mas eles disseram que eu tinha que alisar o cabelo, afinar o nariz e emagrecer no quadril. Essas são todas as características de pessoas negras”, queixou-se.


Continua depois da publicidade
Nessa mesma idade, ela chegou a fazer dietas para tentar emagrecer, mas logo abandonou o projeto de carreira. “O pessoal da agência sempre dizia que poderia estar em todos os lugares, vendo se nós (modelos) estávamos comendo direito ou não. Hoje, como psicóloga, eu vejo que poderia desenvolver algum tipo de pânico”, disse.


Apesar de nunca ter sido um sonho, Amanda sempre levou a vida de modelo como hobby. No ensino médio, participou por três anos consecutivos de competições de desfiles realizados pela escola onde estudava. No terceiro ano, ganhou. Mas foi apenas quando decidiu cursar psicologia na Universidade Brasília (UnB) que a estudante começou a ter uma nova relação com o próprio corpo, história e beleza: ela se entendeu como uma mulher negra. Por ter crescido dentro de espaços em que pessoas de pele branca são maioria, Amanda nunca tinha tido contato até então com tantas outras mulheres negras. “Foi quando eu me entendi: sou como essas pessoas, ou pelo menos parecidas com elas, foi quando comecei a me sentir mais à vontade”, disse.

Rainha
Foi apenas em 2014 que a moda deixou de ser um hobby para se tornar um trabalho, quando lançou um concurso de beleza em Brasília para premiar a Rainha do Futebol — título concedido a mais bela jovem da capital, durante a Copa do Mundo de Futebol que ocorria no país. Ela não se tornou rainha, mas tornou-se princesa — ganhou o segundo lugar.


No ano seguinte soube da seleção do Miss DF. Competiu pela região do Núcleo Bandeirante, apesar de morar na Asa Norte, e também ganhou a segunda colocação. Mas, a desistência da primeira colocada colocou Amanda na disputa para a competição regional. “Eu passei a ir aos eventos e sempre via meninas negras competindo. E percebi que sempre quem ganhava nas cidades eram meninas brancas. E eu comecei a entender que era um concurso que tinha um estereótipo, uma ideia formada de miss, por causa de uma cultura”, contou.


Além disso, as exigências pareciam não se ajustarem: “Era como se a estética do concurso não nos coubesse. Se a mulher tinha um quadril mais avantajado, talvez não se encaixasse. E essa é uma característica que algumas mulheres negras têm”, disse. Das 23 meninas competindo naquele ano, apenas duas eram negras. E o pouco espaço não ocorria apenas nas passarelas, mas também na produção. Em uma competição, Amanda relembra, uma das empresas de maquiagem não tinha base da cor da sua pele. “E aí eu comecei a puxar a bandeira da negritude”.

Do Miss DF, Amanda nunca imaginou que poderia ser a escolhida. “Não é que eu não me sentia bela o suficiente. Mas achei que o concurso não ia olhar para nossa beleza e reconhecê-la”, disse. Como não acreditava em uma possível vitória, Amanda levou a competição com o coração e mente tranquilos. Chegou ao top 15, e depois aos top 10. Passou para o top cinco, e depois ao top três. “Quando cheguei ao top três, disse para mim: ‘Uai, vou ficar em terceiro lugar, que vitória’. Mas chamaram a terceira colocada, e depois anunciaram que a Miss DF era do Núcleo Bandeirante. E eu pensei: ‘O quê? Me escolheram?”, lembra, ainda emocionada. “Eu tive a sensação que não fiz sozinha. Não era a Amanda, era uma conquista plural. Foi muito simbólico”, acrescentou.
Eventos

O reinado de um ano teve que se adaptar ao novo: maquiagem para pele negra, produtos não clareadores, cabeleireiros que trabalhavam com cachos. Amanda foi a eventos, fez ensaios remetendo à cultura afro, usou turbantes. Quando competiu pelo Miss Brasil, ainda encarou o cenário pouco democrático: era a única negra competindo, em um Brasil tão diverso. “Não que mulheres brancas não tenham que ter a vez delas. Mas, são anos e anos em que a mulher negra não chega nesses patamares. Então, eu comecei a falar sobre isso. Não de forma agressiva, mas comecei a colocar essa questão em pauta”, disse.

A discussão deu frutos: nos dois anos seguintes, em 2016 e 2017, as duas misses Brasil foram negras. “Meus amigos e familiares começaram a dizer que eu abri portas. Como se eles (os organizadores) tivessem me ouvido. Se eu pude contribuir, fico feliz. Meu objetivo era mostrar que a gente pode. Não era um sonho individual, era uma conquista coletiva”, completou.

Hoje, Amanda continua trabalhando como modelo e abrindo espaços para que outras meninas negras se identifiquem com ela — da mesma forma como ela se identificou com outras ao longo dos anos. Ela chegou a morar no Rio de Janeiro e em São Paulo, depois do Miss Brasil, para modelar, mas decidiu voltar para a capital federal em busca de terminar outra paixão: a graduação em psicologia. “Ser uma mulher negra, hoje, sobretudo, é também se reconhecer nesse lugar. Você tem que se conhecer de novo”, disse. Hoje, apesar de a moda continuar como um caminho, Amanda, ao lembrar os dias passados, tem o hábito de agradecer pela oportunidade. “E espero não parar por aí. Não é ter esse título e achar que ‘zerei’ com a vida e não tem mais nada para fazer. Tomara que essa seja apenas uma das grandes conquistas que eu tive. E que sempre tenham outras maiores”.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Manifestantes "ocupam" prédio da Fundação Cultural Palmares, em Brasília, em protesto contra novo presidente

Resultado de imagem para Manifestantes invadem prédio da Fundação Palmares, em Brasília, em protesto contra novo presidente
 
Representantes de movimentos negros invadiram o prédio da Fundação Cultural Palmares na manhã desta sexta-feira (29), em Brasília. O grupo protesta contra a posse do novo presidente do órgão de promoção da cultura afro-brasileira – o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo, que substituiu Vanderlei Lourenço.

O ato começou por volta das 10h30. Às 11h, o grupo com cerca de 30 pessoas entrou na sede da instituição e ocupou o sétimo andar do prédio, onde fica o gabinete do gestor (veja vídeo abaixo). Quatro seguranças tentaram impedir o acesso, mas os manifestantes ultrapassaram o bloqueio.

Manifestantes invadem prédio da Fundação Cultural Palmares, em Brasília

Servidores que preferiram não se identificar afirmaram ao G1 que Camargo estava no prédio no momento do protesto. Enquanto os manifestantes estiveram no gabinete, tentavam falar com o novo presidente.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Palmares para confirmar a informação, mas não recebeu posicionamento até a última atualização desta reportagem.

Manifestantes ocupam gabinete da Fundação Palmaresem protesto contra novo gestor

Por volta das 11h40, o grupo começou a deixar o prédio. Em seguida, eles se dispersaram.

O protesto, segundo os organizadores, é em referência a uma série de publicações, nas redes sociais, em que o novo presidente da Fundação Palmares relativiza temas como a escravidão e o racismo no Brasil (entenda abaixo).

"Como é que nós vamos aceitar, enquanto movimento social negro, que o presidente de um órgão que tem como obrigação estar certificando os mais de 5 mil quilombos que nós temos hoje no Brasil, negue a história da escravidão?", questionou a presidente da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil, Waldicéia de Moraes Teixeira.

O grupo de representantes do movimento afirmou que o objetivo de entrar no prédio era o de conversar com Camargo.

"Viemos para dialogar com ele. No sentido de protestarmos contra o fato dele depreciar a luta do movimento social negro."

A Fundação Palmares integra a estrutura da Secretaria Especial da Cultura, o antigo Ministério da Cultura.

Pedido de anulação da nomeação

Na manhã desta sexta-feira, o grupo protocolou no Ministério Público Federal (MPF) um pedido de anulação da nomeação de Camargo. O documento recebeu 62 assinaturas, entre militantes de diferentes entidades e políticos de partidos de oposição.

A representação foi redigida por Marivaldo Pereira, advogado e militante do movimento Mova-se. Ao G1, ele afirma que a nomeação de Camargo é ilegal.

"O posicionamento dele é incompatível. Por lei, o Estado tem que enfrentar o racismo e implementar políticas de promoção da igualdade racial. Quando você pratica um ato para acabar com uma fundação que tem essa finalidade, você está agindo contra a lei. Fere a lei de improbidade administrativa".

O movimento destaca ainda que o Ministério Público Federal se manifestou contrário a outras nomeações do governo por incompatibilidade.

"Essa nomeação é para acabar com a Fundação Palmares. Essa é uma estratégia que o governo Bolsonaro vem utilizando para destruir outros órgãos, como fez na Comissão de Anistia, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e o MPF já ser manifestou pedindo que ele revogasse as nomeações".

Em uma publicação feita nas redes sociais antes de ser nomeado para o cargo, Sérgio Nascimento de Camargo classificou o racismo no Brasil como "nutella". "Racismo real existe nos Estados Unidos. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda", afirmou.

Sobre o Dia da Consciência Negra, Sérgio Camargo escreveu que o "feriado precisa ser abolido nacionalmente por decreto presidencial".
 
Ele disse que a data "causa incalculáveis perdas à economia do país, em nome de um falso herói dos negros (Zumbi dos Palmares, que escravizava negros) e de uma agenda política que alimenta o revanchismo histórico e doutrina o negro no vitimismo".

No dia 3 de novembro, Sérgio publicou uma mensagem numa rede social na qual disse que "sente vergonha e asco da negrada militante. Às vezes, pena. Se acham revolucionários, mas não passam de escravos da esquerda", escreveu.
 
Fonte: G1 DF, Metropoles.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Irmão do presidente da Fundação Palmares: 'Vergonha desse capitão do mato'


O músico e produtor Wandico Camargo fez críticas ao irmão, Sergio Nascimento, nomeado para presidente da Fundação Palmares
 
por Fernanda Borges/Estado de Minas
Wadico Camargo à esquerda e o irmão, Sergio Nascimento, à direita (foto: Reprodução/Facebook) Mal recebida por integrantes do movimento negro, a nomeação de Sergio Nascimento de Camargo como novo presidente da Fundação Palmares recebeu críticas até mesmo da família do escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro.

Irmão de Camargo, o músico e produtor musical Oswaldo de Camargo Filho, cujo nome artístico é Wadico Camargo, escreveu nas redes sociais que não apoia a nomeação e disse ainda ter vergonha do parente, a quem chamou de "capitão do mato", negro que, na época da escrevidão, trabalhava como funcionário de fazendas, muitas vezes atuando na captura de escravos que haviam fugido.

"Tenho vergonha de ser irmão desse capitão do mato. Sérgio Nascimento de Camargo, hoje nomeado presidente da Fundação PALMARES", escreveu Wadico na internet.

O músico também apoiou um abaixo-assinado contra Nascimento. "Se fosse para o bem da nossa raça!!! Era o primeiro a apoiar, mas pro mau do Negro, sem chance. PRA MIM RAÇA É PÁTRIA, É ALMA !!!! EU SOU NEGRÃO."

Até a manhã desta quinta-feira (28/11), mais de 15,6 mil pessoas haviam assinado a petição.

Nomeado na quarta-feira (27/11) ao cargo, o novo presidente da Fundação Palmares, instituição ligada à Secretaria Especial de Cultura, afirmou em suas redes sociais que o Brasil tem um "racismo nutella", defendeu a extinção do feriado da Consciência Negra e declarou apoio irrestrito ao presidente Bolsonaro.

Camargo também disse que a escravidão foi "benéfica para os descendentes" e atacou personalidades como a vereadora assassinada Marielle Franco e a atriz Taís Araújo.

A nomeação faz parte de uma série promovida pelo novo secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, para quem Bolsonaro já disse ter dado total liberdade para montar a sua equipe.

Nesta quinta-feira (28/11), o presidente Jair Bolsonaro se esquivou de perguntas sobre as bandeiras que defende Sergio Camargo e disse que não o conhece pessoalmente.

Denúncia do Tribunal Internacional Penal Bolsonaro deu risada ao ser questionado sobre ser alvo de denúncia no Tribunal Penal Internacional (TPI). "Próxima pergunta", disse.

O presidente foi denunciado por "crimes contra a humanidade" e "incitação ao genocídio de povos indígenas" do Brasil. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a representação é da Comissão Arns e do Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos.

A representação também foi assinada pelo ex-ministro José Gregori e pelos advogados Antonio Carlos Mariz de Oliveira, Eloisa Machado e Juliana Vieira dos Santos. As declarações de Bolsonaro nesta quinta foram dadas em frente ao Palácio da Alvorada.

Com informações da Agência Estado
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Professor da UNESP é chamado de macaco e esfaqueado em Bauru

Em uma denúncia feita em suas redes sociais, o professor narrou ter sido chamado de “macaco” por um homem que, depois, o atacou usando um canivete.

Imagem: Cristiano Zanardi/ FolhaPress

Em um estabelecimento comercial na cidade de Bauru, o professor Juarez Xavier da UNESP sofreu ofensas racistas de um homem, aparentemente embriagado, além de ser atacado com um canivete, sendo ferido e tendo que ser levado a uma UPA.

Em 20 de novembro, dia da Consciência Negra, Juarez Xavier de 60 anos, professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação na Universidade Estadual Paulista (UNESP), sofreu um ataque racista de um homem em um estabelecimento comercial em Bauru, segundo informa a Polícia Militar.

Em uma denúncia feita em suas redes sociais, o professor narrou ter sido chamado de “macaco” por um homem que, depois, o atacou usando um canivete. O professor sofreu dois golpes, um no ombro direito e outro no braço esquerdo. Os ferimentos não foram graves, mas o professor teve que ser levado para uma UPA próxima para sutura. O agressor, cuja identidade ainda não foi revelada, foi parado por populares e detido pela polícia.

Segundo o informe da PM, após sofrer a ofensa racista, o professor teria se defrontado com o atacante, que reagiu com ataques físicos. Em meio à briga, o agressor sacou o canivete e desferiu os golpes contra Juarez. Nós do Esquerda Diário repudiamos esse brutal ataque racista contra o professor Juarez Xavier!

Fonte: esquerdadiario

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Morre Kofi Annan, primeiro negro secretário-geral da ONU e Nobel da Paz

Diplomata de origem ganense se chocou com os Estados Unidos na invasão do Iraque

Kofi Annan na Assembleia Geral da ONU, em 2012 
Foto: TIMOTHY A. CLARY / AFP

ACRA — Primeiro negro e representante da África subsaariana a ocupar a Secretaria Geral das Nações Unidas e Prêmio Nobel da Paz em 2001, Kofi Annan morreu neste sábado, aos 80 anos, informou a Fundação Kofi Annan. Annan, de nacionalidade ganense, morreu em um hospital em Berna, na Suíça, depois de uma "breve enfermidade", cercado em seus últimos dias por sua segunda mulher, Nane, e seus filhos Ama, Kojo e Nina.

Primeiro secretário-geral egresso dos próprios quadros da ONU, Annan serviu dois mandatos, de 1997 a 2006. Seu período à frente da instituição multilateral criada depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial foi marcada por um embate com os Estados Unidos por causa da invasão do Iraque em 2003; pelo fortalecimento dos mecanismos globais de combate à Aids; e pela criação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, depois renovados como Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

"De muitas maneiras, Kofi Annan foi a Organização das Nações Unidas. Ele subiu nas fileiras para liderar a organização no novo milênio com inigualável dignidade e determinação", disse, em uma declaração, o atual secretário-geral da ONU, o português António Guterres.

CONTROVÉRSIAS


Em sua carreira na ONU, iniciada em 1962, Annan não ficou imune a controvérsias. Em 1994, quando era subsecretário-geral e responsável pelas operações de paz, Annan foi criticado pela inação das Nações Unidas no genocídio em Ruanda, quando 800 mil tutsis e hutus moderados foram massacrados em um período de pouco mais de três meses. O departamento de Annan foi acusado de ignorar informações de que o genocídio estava sendo planejado.

O setor de operações de paz voltou a ser criticado em 1995, durante os conflitos separatistas na antiga Iugoslávia, quando 8 mil muçulmanos foram mortos por milicianos sérvios em um setor supostamente protegido pela ONU na Bósnia.

No 10º aniversário do genocídio em Ruanda, Annan reconheceu que sua atuação ficou aquém do necessário. "Eu poderia e deveria ter feito mais para dar o alarme e arregimentar apoio. Essa memória dolorosa, ao lado daquela da Bósnia, influenciou muito do meu pensamento como secretário-geral", disse.

Depois de ganhar em 2001 o Nobel da Paz pelo trabalho da ONU "por um mundo mais organizado e mais pacífico", Annan enfrentou um dos seus momentos mais difíceis à frente da organização. Apesar de não haver provas de que o Iraque do ditador Saddam Hussein estivesse envolvido nos ataques terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos, o governo de George W. Bush começou a preparar a invasão do país árabe.

Na época, o Iraque continuava sob embargo internacional por causa da invasão do Kuwait, no início dos anos 1990, e os inspetores de armas da ONU se esforçaram em mostrar que, apesar das acusações americanas, não havia provas de que Saddam mantivesse armas de destruição em massa.
 
Ainda assim, os Estados Unidos invadiram o Iraque, derrubaram Saddam e ocuparam o país, à frente de uma coalizão de aliados, sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU.

— Do nosso ponto de vista e do ponto de vista da Carta da ONU, [a invasão] foi ilegal — disse mais tarde Annan em entrevista à BBC.

Essa posição causou problemas para o então secretário-geral quando ele foi envolvido na investigação que apontou abuso e corrupção no programa chamado de "petróleo por alimentos" — antes da ocupação americana, o Iraque era autorizado a vender pequenas quantidades de petróleo em troca de comida e remédios para sua população.

Descobriu-se que um dos filhos de Annan, Kojo, recebeu pagamentos de uma empresa contratada para monitorar o programa. O próprio secretário-geral, no entanto, livrou-se da acusação de ter usado impropriamente sua influência em favor do filho.

IMPERFEITA, MAS NECESSÁRIA

"A ONU pode ser melhorada, não é perfeita. Mas, se não existisse, precisaria ser criada", disse Annan durante entrevista que deu em seu 80º aniversário em abril, no Instituto de Pós-Graduação de Genebra. "Sou um otimista teimoso, nasci otimista e continuo otimista", acrescentou.

Annan deixou as Nações Unidas em 2006, mas não deixou a cena internacional. Criou a fundação que leva seu nome, dedicada à promoção da paz e do desenvolvimento sustentável, e fazia parte do grupo de líderes conhecido como The Elders, fundado por Nelson Mandela para promover a paz e os direitos humanos. Ele intermediou um acordo entre grupos políticos rivais no Quênia, e em 2016 foi nomeado para uma comissão independente que investiga a situação da população da etnia rohingya em Mianmar.
 
"Kofi Annan era filho de Gana e sentia uma responsabilidade especial para com a África. Ele estava particularmente comprometido com o desenvolvimento africano e profundamente engajado em muitas iniciativas, incluindo sua presidência do Painel Progresso da África e sua liderança inicial da Aliança por uma Revolução Verde na África (AGRA)", afirma o comunicado divulgado neste sábado pela Fundação Kofi Annan.

Koffi Annan e sua irmã gêmea, Efua Atta Annan, nasceram em 1938 na então colônia britânica da Costa do Ouro, em uma família de posses — seu pai foi governador provincial no período colonial. O país se tornou independente quando ele tinha 19 anos. Depois de iniciar a universidade em Gana, ele concluiu os estudos nos Estados Unidos. Começou a trabalhar na ONU na Organização Mundial da Saúde (OMS).

NOTA DO BRASIL E REPERCUSSÕES

Em nota, o governo brasileiro expressou "imenso pesar" pela morte de Annan e destacou o apoio dele à reforma da Conselho de Segurança da ONU. "Tinha profundo conhecimento do funcionamento da ONU, tanto na sede em Nova York, como nas missões no terreno espalhadas pelo mundo. No período em que esteve à frente do Secretariado, entre 1997 e 2006, Kofi Annan destacou-se como defensor da reforma e da revitalização das Nações Unidas, inclusive do Conselho de Segurança, bem como do fortalecimento institucional das agendas de direitos humanos e de promoção da paz", diz a nota.
 
O comunicado brasileiro lembrou também que, sob Annan, foram criadas a Comissão de Consolidação da Paz e o Conselho de Direitos Humanos, que substituiu a antiga Comissão de Direitos Humanos, considerada parcial em favor das grandês potências. "O governo brasileiro deseja que seja sempre recordado o legado de Kofi Annan, um dos maiores defensores do multilateralismo, para que suas ações e seus ideais de paz, justiça e tolerância continuem a servir de inspiração para as gerações vindouras", conclui a nota.

O presidente de Gana, Nana Akufo-Addo, descreveu Annan como um motivo de orgulho para o país e decretou uma semana de luto. "Diplomata consumado e altamente respeitado, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan foi o primeiro da África Subsaariana a ocupar essa exaltada posição. Ele trouxe considerável renome ao nosso país por essa posição e por sua conduta e comportamento em a arena global", diz Akufo-Addo em um comunicado oficial.

O alto comissário para os Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad al-Hussein, que será substituído em setembro pela ex-presidente do Chile Michele Bachelet, chamou Annan de "o melhor exemplo da humanidade e o epítome da decência".

— Quando eu disse a ele uma vez como todos estavam resmungando sobre mim, ele me olhou como um pai olharia para um filho e disse severamente: "Você está fazendo a coisa certa, deixe-os resmungar". Então ele sorriu! — contou al-Hussein. 
 
Fonte: oglobo