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terça-feira, 23 de setembro de 2014

A partir de violência policial, filme de Brasília debate preconceito racial.



O filme narra a história de dois amigos da Ceilândia, um amputado de uma perna, e o outro, paraplégico, após o truculento ataque policial em uma festa na periferia

Em uma semana em que um policial militar é preso pelo assassinato de um ambulante em São Paulo e que Aranha, goleiro do Santos, é vaiado por uma torcida que já o tinha discriminado, o novo filme de Adirley Queirós, “Branco Sai. Preto Fica”, exibido neste sábado (20) no Festival de Brasília, não poderia trazer uma discussão mais atual.

O ponto de partida para o filme, que mistura documentário e ficção científica, é um episódio que está na memória da maioria dos moradores de Ceilândia, periferia de Brasília. No dia 5 de março de 1986, a polícia invadiu o baile Black do Quarentão, centro cultural da comunidade local, e ordenou: quem é branco sai, preto fica!

O rapper Marquim do Tropa e Shockito estavam entre os que tiveram que ficar. O primeiro tomou um tiro que o deixou em cadeira de rodas até hoje. O segundo perdeu a perna após ser pisoteado pela cavalaria. No presente criado por Adirley, os dois vivem isolados em uma periferia sitiada em que os negros são proibidos de ir para Brasília, sendo obrigados a falsificar passaportes para ter acesso à capital brasileira, que nessa ficção é governada por brancos cristãos. 

Ao UOL, o diretor comentou como seu filme, que parte de um caso ocorrido em 86 se insere nessas questões atuais. “O filme busca justamente esse debate da questão racial. A questão do Aranha é muito representativa do que é esse preconceito racial no Brasil, ainda mais no futebol em que pensamos ser um local apaziguado. Teria que existir uma frente para apoiar o Aranha porque quando o caso esfriar, ele vai ser rechaçado e vai ser estereotipado”.

O longa, bastante aplaudido pelo público do Cine Brasília, abre um leque de questões sobre a realidade das periferias do Brasil, como o próprio distanciamento de quem vive em Brasília. “A ideia do passaporte é meio o que já acontece porque não existe uma ligação entre Brasília e a periferia. A gente não usufrui da cidade, a gente passa aqui de passeio”, disse o diretor que também cresceu na Ceilândia.

“Branco sai. Preto fica.”, filme do cineasta Ardiley Queirós, foi bem recebido pelo público do Festival de Brasília

Marquim, que improvisa raps para contar a tragédia, diz que foi difícil falar da própria história. “Todo mundo gosta de falar dos outros, mas ninguém gosta de se expor”. Por fim, ele disse que conseguiu entrar nesse personagem que tem muito de realidade, mas que tem um plano violento, da parte da ficção.

A medida em que o filme se desenvolve fica mais evidente a importância da ficção em um filme em que também serve para exorcizar as dores e alegrias do passado, sistemas de governo e angústias.

O final reserva uma surpresa para Brasília e os espectadores, digno de um diretor que cresceu vendo filmes violentos e de ação. “Também queria que fosse um filme de ação, com tiro, com bomba e que eu pudesse falar muito mal do outros”. Queirós pensou em finalizar o filme de uma maneira musical, com um forró que é hit em Ceilândia, mas optou por uma conclusão mais arrasadora.

Fonte: UOL

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