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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Debate na internet busca soluções para a violência contra jovens negros


por Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil,
Debate na internet examina até quarta-feira (8) propostas para salvar vidas de crianças e adolescentes negros. Segundo o mais recente relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância, de 2012, o Brasil fica em sexto lugar entre os países que registram grande número de vítimas de homicídios envolvendo jovens (negros, em maioria) com até 19 anos.

As discussões online serão feitas entre pessoas que se cadastrarem gratuitamente no fórum Juventude e Violência, no site. De acordo com a coordenadora-geral da Rede Mobilizadores, Gleyse Peiter, pensar solução em defesa da vida é o objetivo do fórum. “Se a gente continuar em um ritmo continuado de extermínio da população jovem, principalmente de negros, teremos diminuída essa camada na população”, frisou.

Gleyse lembra que o Mapa da Violência 2014, mostrou que a vitimização de negros é bem maior que a de brancos. Segundo o estudo, morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil em 2012, em situações como homicídios, acidentes de trânsito ou suicídio.

O autor do mapa, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), disse que pessoas brancas morrem menos de homicídio porque vivem em áreas mais beneficiadas por políticas de segurança e têm mais acesso à segurança privada. “Assim, os negros são excluídos duplamente – pelo Estado e em razão do seu baixo poder aquisitivo”, diz o texto.

Em agosto, parentes de jovens mortos nas comunidades do Rio fizeram manifestação em Manguinhos, na zona norte. Lá, o estudante negro Paulo Ricardo Pinho de Menezes, 17 anos, irmão do Paulo Roberto, morto em 17 de outubro do ano passado, disse que há indignação com os abusos cometidos pelas forças de segurança nas comunidades.

“Assim não dá para ficar, quase todo mês morre um. E só jovem que não tem nada [que] ver, eu mesmo quase fui morto com o Jonathan, os policiais começaram a dar tiro no meio da rua”, contou.

Jonathan de Oliveira de Lima foi morto em 14 de maio, em confronto com a polícia após uma manifestação, também em Manguinhos. A mãe dele, Ana Paula Gomes de Oliveira, lembra que quando o papa Francisco visitou a comunidade, no dia 25 de julho do ano passado, os moradores estenderam uma faixa com fotos de jovens mortos nas comunidades.

“O objetivo desse evento [manifestação] é dar um basta na morte de tantos jovens negros nas comunidades”, disse a mãe do jovem, à época.

Cerca de 38 mil pessoas estão cadastradas para participar da discussão no fórum Juventude e Violência. No site, está disponível o Mapa da Violência 2014.

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Edição: José Romildo.

Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, diz Diap

Órgão parlamentar diz que número de religiosos e militares vai crescer

O deputado antigays Jair Bolsonaro (PP) foi o mais votado no RioReprodução/Facebook

Apesar das manifestações de junho de 2013 — carregadas com o simbolismo de um movimento popular por renovação política e avanço nos direitos sociais —, o resultado das urnas revelou uma guinada em outra direção. Parlamentares conservadores se consolidaram como maioria na eleição da Câmara, de acordo com levantamento do Diap, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

O aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo refletem, segundo o diretor do Diap, Antônio Augusto Queiroz, esse novo status.

— O novo Congresso é, seguramente, o mais conservador do período pós-1964. As pessoas não sabem o que fazem as instituições e se você não tem esse domínio, é trágico.

Ele acredita que a tensão criada pelo debate de pautas como a legalização do casamento gay e a descriminalização do aborto deve se acirrar no Congresso, agora com menos influência de mediadores tradicionais, que não conseguiram se reeleger.

— No caso da Câmara, muitos dos parlamentares que cuidavam da articulação [para evitar tensões] não estarão na próxima legislatura. Algo como 40% da 'elite' do Congresso não estará na próxima legislatura, seja porque não conseguiu se reeleger ou disputou outros cargos. Houve uma guinada muito grande na direção do conservadorismo.

O levantamento do Diap mostra que o número de deputados ligados a causas sociais caiu, drasticamente, embora os números totais ainda estejam sendo calculados.

A proporção da frente sindical também foi reduzida quase à metade: de 83 para 46 parlamentares. Junto com a redução desses grupos, o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização das drogas — temas que permearam os debates no primeiro turno da disputa presidencial — têm poucas chances de serem abordados pelo Congresso eleito, que tomará posse em fevereiro de 2015.

— Posso afirmar com segurança que houve retrocesso em relação a essas pautas. Se no atual Congresso houve dificuldade para que elas prosperassem, no próximo isso será muito mais ampliado. Houve uma redução de quem defendia essa pauta no Parlamento e praticamente dobrou [o número de] quem é contra.

Parte consistente do conservadorismo, segundo Queiroz, virá da bancada evangélica. Ele estima que o número de religiosos desta corrente deve crescer em relação aos 70 deputados eleitos em 2010.

— A bancada evangélica vai ficar um pouquinho maior, mas com uma diferença: nomes de maior peso dentro das igrejas para melhor coordenar e articular os interesses desse segmento junto ao Congresso Nacional.

Entre essas lideranças, o Diap já identificou 40 bispos e pastores.

Militares

O Diap também estima um aumento consistente de policiais e militares eleitos. Queiroz prevê que o aumento de parlamentares com este perfil deve chegar a 30%. "Esse grupo, necessariamente, vai fazer parte da 'bancada da bala', porque defende a defesa individual", diz, referindo-se ao lobby da indústria armamentista.

A ampliação desse grupo é uma onda que veio na contramão das manifestações populares de 2013.

"Isso é produto da alienação. Quem foi para rua, em grande medida, foi pedindo mudanças. Mas sem ter uma liderança capaz direcionar e coordenar [o movimento]. Era 'contra tudo o que está aí'", observa.

Queiroz considera que, caso o candidato do PSDB, Aécio Neves, seja eleito, temas como a redução da maioridade penal, considerada uma proposta conservadora, podem avançar facilmente no Congresso.

— O PSDB perdeu em quantidade (reduziu de 12 para dez o número de senadores), mas é uma bancada que se renova do ponto de vista qualitativo. Só que com viés conservador.

Fonte: noticias.r7

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Para os presidenciáveis, os negros não existem


Acompanhei os debates e entrevistas dos presidenciáveis, com especial atenção ao desta quinta feira na Rede Globo.

Tenho várias impressões sobre cada um dos candidatos e candidatas. Meu voto e apoio está definido neste primeiro turno – em Luciana Genro, do Psol. Poderia elencar aqui os motivos, mas quero me ater a algo que me provoca muito mais: a maneira como os candidatos e candidatas tratam (ou não) da questão racial no Brasil.

Ao fim do último debate, ficou muito forte uma impressão – agora constatação – que percebi nos discursos e não-discursos de todos eles e elas. E me lembrei de um dos textos de Jaime Amparo, quando cita Franz Fanon e recupera uma de suas ideias, sobre a impossibilidade negra no mundo social. Para Fanon, nós negras e negros habitamos uma zona chamada “a zona do não-ser”. Somos, por assim dizer, civilmente/socialmente mortos e é essa morte ontológica.

Foi assim que me senti, enquanto negro, diante da elaboração, das ideias, dos programas e do discurso partidário de todos eles e elas: Não sendo. Não existindo. Invisibilizado. E quando lembrado, estigmatizado.

Pergunto aos mais velhos: qual foi a última vez ou o último período em que o debate sobre racismo foi tão presente e evidente no Brasil? Talvez no auge do debate sobre cotas raciais há uns 10 anos? No centenário da abolição, em 1988? Na transição do trabalho escravo para o trabalho livre no final do século 19?

Nosso país tem sido sistematicamente denunciado pelo movimento negro e até pela ONU por seu racismo estrutural e institucionalizado. A mesma ONU que já orientou o Brasil a dar fim à policia militar por contra da prática violentamente racista de suas ações.

Para se ter uma ideia, só em São Paulo, de 2002 para 2011 houve um aumento de 24% de morte de jovens negros, um crescimento de 11.321 para 13.405. Com esse diferencial, a vitimização de jovens negros passa de 71% em 2002 para 237%. A violência nos três primeiros meses de 2014 em comparação a 2013 apresentou um aumento de 206% do número de pessoas mortas por policiais em serviço. 100 em cada 100 mil pessoas de com idade entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta em 2012.

Negros são os principais alvos destas mortes: morreram proporcionalmente 146 vezes mais negros que brancos em 2012. No período entre 2002 e 2012 o índice de mortes negras em comparação com a de brancos, mais que duplicou. Entre 2002 e 2012, os homicídios que vitimaram jovens brancos caiu 32,3%, enquanto que os homicídios de jovens negros aumentou 32,4%.

Casos como o de Amarildo, DG, Douglas e Cláudia se reproduzem e ocupam o espaço do debate público; Os casos de racismo no futebol e a postura de super-ídolos do esporte mais popular do país polemizam o assunto; a maior rede de TV do país emplaca um programa de estigmatização racista e machista em pleno horário nobre; as redes sociais fervem; as manifestações e declarações racistas proliferam; a presidenta da república chega a convocar uma reunião para tratar do tema; os movimentos reagem e organizam uma marcha de denúncia do racismo e do genocídio que reune mais de 60 mil pessoas em todo país. E ainda assim não somos assunto! Não existimos no que diz respeito ao debate sobre o projeto de nação que os candidatos defendem.

Nenhum deles e delas colocou o racismo como tema a ser tratado. Nos discursos, o “negro” só apareceu quando se falou em segurança pública, violência, encarceramento e mortes e ainda assim, de maneira tímida, sorrateira e quase sempre através da candidata do Psol. Dilma, vidraça, gasta o tempo se defendendo e Marina, a única negra dentre todas e todos, tocou ainda menos no assunto. Eduardo Jorge, é verde. E os demais defendem explicitamente projetos racistas. Todos, eu disse todos os candidatos e candidatas, inclusive a minha, ou não abordaram ou só o fizeram com esse viés. E com muita timidez.

Ou seja, a população negra não existe do ponto de vista dos direitos sociais, humanos ou da economia. Assim como no senso comum, estão presentes no imaginário dos presidenciáveis, apenas no lugar de sempre: como alvo das armas do estado, seja no discurso da repressão, seja no discurso da reação: o lugar social do negro é o mesmo, sempre a partir da ótica do olhar branco.

Negros são a maioria do povo brasileiro, são maioria da classe trabalhadora e logo, a maioria da mão de obra de força produtiva do país. Por consequência, são maioria dentre os responsáveis pela geração da riqueza nacional aliás, como sempre foi, desde a invasão europeia. Mulheres negras são a maioria entre as mulheres brasileiras. E ainda assim, não há sequer referências às políticas de promoção da igualdade, que dirá quanto à reparação histórica e ao enfrentamento ao racismo e ao genocídio.

Nenhum partido e nenhum candidato a presidência, nesse sentido, nos faz sentir representados.

Uma lástima! Uma tristeza. E muita raiva.
Triste, mas verdade. O racismo brasileiro é foda!
É preciso enegrecer a política!



As eleições e a política na vida real


Mais de 71 bilhões de reais. A eleição mais cara da história. É isso que revela o levantamento feito pela revista Congresso em Foco, a partir de informações do TSE e do IBGE.

O alto investimento feito por grandes empresas, construtoras e bancos em seus candidatos preferenciais – Aécio, Marina, Dilma e demais candidatos de seus partidos e coligações – é proporcional ao desencanto e a apatia generalizada por parte da população em relação às eleições deste domingo.

Não será surpresa se esse processo eleitoral entrar para história não só por ter sido a mais cara, mas também por ter sido a com maior número de abstenções ou votos brancos e nulos. Nas ruas, o que mais se ouve é: “não sei”, “não pensei”, “não tenho candidato” ou “nem vou sair de casa”.

A política, ocupada e sitiada por grupos econômicos, parece cada vez mais distante da vida real. E esse é o problema: Só parece. Na verdade, o sofrimento da população mais necessitada dos serviços públicos é resultado direto dessa forma de organizar e de se fazer política.

E digo isso por vivenciar e atuar cotidianamente na realidade de pessoas e territórios onde eleições e políticos não tem a menor credibilidade e importância para a vida real. Mas ao mesmo tempo é responsável por toda dor.

Não preciso citar meu vizinho ou fazer referência à família moradora da casa mais humilde do bairro. Posso falar do meu próprio quintal: Meu pai, mãe, irmãos e filhas, quando ficam doentes, é num hospital público ou num posto de saúde que são atendidos. E nós sabemos como é.

Na escola pública do bairro, mas não na melhor delas, é que minhas filhas estudam. Na melhor, aquela com piscina, aulas de dança, teatro e professores bem pagos, não. Essas não têm vaga para todas as crianças. Minhas filhas não foram consideradas boas o suficiente para frequentá-las.

Muitos de meus amigos (e por sorte eu não) desapareceram nas mãos da polícia. Quando estudante, sempre reparava: cadê o amiguinho da sala de aula? O parceiro do futebol? O mano do baile? Depois, já como professor na escola pública da comunidade, as perguntas continuavam: Onde está aquele aluno? Nunca mais apareceu… Estava na Fundação Casa, ou tinha sido preso ou morto pela polícia. E tome notícia de velórios, revides, e mais velórios, e mães chorando… e minhas salas de aula sem os meninos pretos. Nós aqui sabemos como é.
No futebol do final de semana, na sinuca no boteco da vila, no baile funk, no rap, no grafite, no skate, aí está a política. O inevitável esculacho da PM racista, preconceituosa e violenta também é política. E nós sabemos como é.

A fila do leite na associação comunitária; a coleta de alimentos para ajudar o vizinho, e de vez em quando, ser ajudado; a correria por um advogado para o filho de alguém; o mutirão pra levantar a parede ou para reaver o telhado que a chuva levou; o ônibus e o trem, sempre lotados e caros; O salário baixo, o pequeno negócio, o boteco, as roupas nas sacolas, a revistinha da Avon, a manicure do bairro. Ou aquele “ilegal”, com o menino do DVD pirata, o cigarro do Paraguai, a maconha e a cocaína que, para além de quaisquer condenações no campo da moral, não passam de produtos quaisquer, comercializados ilegalmente para fins de sobrevivência econômica.

E, como alimento para a alma, a fé inabalável nas palavras do padre, do pastor ou no Asè da mãe de santo. Afinal, é preciso acreditar em algo para além dessa vida sofrida. E é dali, da voz que vem do altar, que sai nome do candidato escolhido por Deus, um dos poucos que merecem algum respeito na quebrada.

E para fora do universo religioso, que diferença faz para essa gente um político, um partido, uma eleição? Que importância tem a “festa da democracia”, vivida a cada dois anos, para além de um trabalho temporário como cabo eleitoral – feito balconista de loja em tempos de Páscoa ou Natal – ou ainda, a chance de um trocado na boca-de-urna do dia 5 ?

E na feira de sábado, na divisa de Itaquaquecetuba com Itaim Paulista e Poá, a resposta: “Somos todos voluntários. Nossa campanha não tem dinheiro e não paga pessoas para trabalhar”. E a reação:“kkkkkkkkkk!!! Trabalhar de graça pra político? Essa é boa. Mentirosos!”

A política está cada vez mais vazia de seu sentido. Querem nos convencer de que política é a prática do possível, da gestão e dos acordos sujos. Querem nos convencer que roubar, desviar, corromper e naturalizar o financiamento da política e dos políticos pelos ricos são inevitáveis.

E, em grande medida, estão conseguindo. Mas ainda não venceram!

Precisamos recuperar a beleza e a importância da política para a vida das pessoas. Precisamos lembrar que só através da participação, da organização e da mobilização popular é que poderemos defender os interesses dos trabalhadores, combater as desigualdades sociais e os grandes males que o racismo, o machismo e a homofobia causam à sociedade.

Não há soluções simples para problemas complexos. E não acredito que será por eleições que resolveremos os problemas do país. Mas, diante da impossibilidade imediata de uma forte reação popular em contraponto ao estado de injustiças em que vivemos, as eleições são um importante momento de diálogo e de disputa da opinião e da própria mentalidade coletiva.

Por menor que pareçam, campanhas militantes e coletivas que carregam as bandeiras históricas da classe trabalhadora acabam por cumprir um papel pedagógico muito importante. Afinal, se é verdade que há reações descrentes como a da senhora da feira, há também, especialmente entre os jovens, a surpresa positiva e muitas vezes, a adesão às lutas.

Lançada campanha ‘Racismo Mata!’


O Genocídio da Juventude Negra é um termo utilizado para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física de grupos étnicos, raciais, e/ou religiosos, mas não só. Também está em jogo a eliminação de aspectos simbólicos e da defesa da ideia da terra como um bem coletivo, a partir dos valores de terreiros tradicionais, quilombolas e indígenas, todos vítimas do extermínio.

No Brasil, mais da metade dos homicídios (53%) atinge pessoas jovens, sendo que, deste grupo, mais de 75% são jovens negros. Grande parte dessa violência é promovida pelo Estado brasileiro através de suas polícias. Isso somado às precárias condições de vida e à negação de direitos básicos, tais como saúde, educação, segurança, moradia, transporte, acesso a universidades, à cultura e ao lazer – que atingem sobremaneira a população negra –, configura, na visão dos movimentos sociais e do movimento negro, um estado de genocídio contra a juventude e o povo negro. Assista:


Agora não é mais só uma eleição. Agora é a História.





Por: Fernando Brito,
Não é difícil perceber que se formou, nestes dias finais da campanha eleitoral do primeiro turno (e talvez da própria campanha eleitoral), uma imensa e tresloucada aliança do conservadorismo brasileiro.

Um clima histérico que capturou, admita-se, parte da classe média e da mediocridade fútil que foi entronizada pela mídia como sendo a “inteligência” brasileira.

Chegamos aos píncaros de uma onda de pessimismo que não encontra base nos fatos profundos da economia – não há desemprego, não há queda violenta do poder de compra da população, não há uma crise social como tantas que vimos em nossa história – e muito menos nos da política, porque jamais vivemos numa democracia formal tão completa como hoje, embora os imbecis chamem a tudo de “perigo vermelho”, 50 anos atrasados em sua guerra-fria neurótica.

Mas os jornais publicam um país que arde: as bolsas despencam, o “mercado” incorpóreo prevê o desastre e embolsa lucros milionários.

Mas o outro mercado, o da esquina, faz tempo que não tira a plaquinha do “estamos contratando”.

O debate nacional se reduz à pobreza mental do aparelho excretor de Levy Fidélix, como se Levy Fidélix e e a polivalência de aparelhos excretores fossem as causas nacionais e este não fosse um país que tenta se livrar de sua condição histórica de colônia.

Um Brasil que pode e vai assumir seu papel de um dos gigantes do mundo, já não só pela sua “própria natureza”, e não mais ser, me perdoem, o cu da Terra.

Mas é assim a alienação de nossas classes médias transformadas em diletantes do voto: o ator americano que faz o papel de Hulk ou a neurose fanática do pecuniário pastor Malafaia contam mais que o aumento do salário mínimo que alimenta melhor 40% dos 200 milhões de brasileiros.

Ou que os espelhinhos energéticos da Siemens (caríssimos, aliás) fossem nos prover da gigantesca energia de que precisamos e nos fizessem guardar para os espertos o petróleo do pré-sal. Ou se um país pudesse se desenvolver sem portos, ferrovias, gasodutos, estradas, transportes.

Assim é, em tudo, a manipulação que nos impõe, como se fôssemos, um bando de tolos e superficiais.

O que teria ou não teria dito um safardana que foi demitido da Petrobras e ao qual se promete o perdão de anos de cadeia por todos os roubos se envolver neles os que o demitiram de lá ( perdão que faria um desqualificado moral que, a esta altura, acusaria a própria mãe) flui, anonima e criminosamente, de meia dúzia de meganhas e promotores que podem dizer o que quiserem, na sombra do que seria, no mínimo, a violação dos seus deveres funcionais, mas os confessados e comprovados aeroportos privados e jatinhos de caixa-2, ah, estes repousam no silencioso limbo da conveniência.

Em tudo se tenta distrair o povo brasileiro do que está por trás da eleição.

É preciso que se deixe de olhar para a história deste país infelicitado por quase ininterruptos 512 anos de governos de elites coloniais, daqui e de fora, para que se atribua a quem nos tenta tirar daí a culpa pelas carências e roubalheiras que nos marcaram por séculos.

É preciso transformar em tolos ou corruptos quem tem trajetória de luta, de honradez, de amor ao povo brasileiro e que não se serviu dele para exibir-se como um exotismo manso e servil aos senhores de nossa escravidão histórica.

O povo brasileiro a tudo vem resistindo, na sua sabedoria inconsciente, aquela que se forma apenas pela força irresistível da realidade, que é o único componente da verdade que não se forma com fumaça e que, por isso, não se esfumaça com os dias.

Hoje não é dia mais de dados, de números, de “denúncias”.

Nada disso importa mais, porque nossa imprensa e nossas classes dominantes transformaram dados, números e “denúncias” em panfletos imundos que se penduram nas bancas de jornal ou se exibem na tela das televisões. O nosso povão, na sabedoria que lhe vem da vida e da pele, na sua maioria, já o entendeu e o repele.

Hoje e os próximos três dias são de honradez, de altivez, de dignidade e, por isso, de absoluta tranquilidade.

Sabemos contra o que lutamos e pelo que lutamos.

A nossa causa é digna, é bonita, é humana, é generosa.

A deles, é feia, sombria, perversa e, por isso, precisa revestir-se de mil mentiras e das falsas juras de quem há muito entregou sua fé, como Judas, pelos trinta dinheiros com que os novos (e eternos) romanos compram alguns de nossos filhos.

Os que representam a causa do povo brasileiro, nestes dias finais, devem se sublimar.

Banharem-se na serenidade dos que sabem que sentem a razão e o destino a seu lado.

Distantes do ódio, do nervosismo e dos medos, inseguranças próprias de cada um e de todos nós, seres humanos.

Há momentos em que as circunstâncias são o senhor supremo nossos atos e decisões.

Porque é a hora que faz os grandes e os que e aqueles que apenas planejam sê-lo declinam quando chega o momento da verdade.

Este é o instante em que já não somos apenas nós mesmos, mas somos o o passado mesclado ao futuro, somos nossos pais e nossos filhos, somos negros, pardos, brancos, índios, somos esta massa diversa, fervilhante e teimosa que é o povo brasileiro .

A História, esta força imensa que habita em cada um de nós, nos absorve quanto mais a amamos.

E, quando amamos agudamente, temos a confiança dos amantes e deixamos que ela nos possua e fale por nossa boca.

E as palavras, então, tornam-se invencíveis.

Fonte: Tijolaço

Servidores do Ipea protestam contra show de mulatas em congresso acadêmico


Manifesto relaciona imagens ao turismo sexual e à violência contra a mulher

Sexismo “está no olhar de quem vê”, reage Marcelo Neri, ex-presidente do órgão

por Bruno Lupion,
Imagens de mulatas de uma escola de samba interagindo com professores estrangeiros em um congresso organizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) provocaram incômodo entre os funcionários do órgão, vinculado ao governo federal.

Cinco servidores divulgaram uma carta aberta na última 3ª feira (30.set.2014) em protesto contra a iniciativa de contratar a apresentação das mulatas, considerada por eles “racista” e “sexista”.

O fato ocorreu no 6º Fórum Acadêmico dos Brics, organizado pelo Ipea e a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), no Rio de Janeiro, em março deste ano. As fotos começaram a circular há poucos dias.

Show de mulatas em congresso organizado pelo Ipea

Passistas de escola de samba foram contratadas para o jantar de encerramento do 6º Fórum Acadêmico dos Brics, no Rio de Janeiro, com pesquisadores estrangeiros.Divulgação

Os servidores Natália de Oliveira Fontoura, Luana Simões Pinheiro, Antonio Teixeira Lima Júnior, Leila Posenato Garcia e Fernanda Lira Góes redigiram a carta e a divulgaram para os colegas. Eles afirmam que as imagens contradizem o esforço do governo federal para combater o turismo sexual e a violência contra as mulheres.

Para os funcionários, o show das mulatas no congresso evoca a “suposta sensualidade e disponibilidade dos corpos femininos negros (…) a serviço dos homens brancos”. A carta cita o episódio de camisetas lançadas pela Adidas na Copa do Mundo que representavam o Brasil como uma bunda usando biquini fio dental, retiradas do mercado após pressão do governo.

Marcelo Neri, hoje ministro da SAE, presidia o Ipea na época do congresso e aparece em uma das imagens. Ele minimiza as críticas dos servidores e afirma que as passistas representam uma manifestação cultural típica do Brasil.

“Aquilo era absolutamente normal dentro do Rio de Janeiro. Elas estavam exercendo seu trabalho”, diz Neri. A crítica de racismo e sexismo, diz, “está no olhar de quem vê”. “Estamos no Brasil, não estamos na Rússia”.


O Ipea é uma fundação criada em 1967 para dar suporte técnico ao governo na formulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento. O órgão se envolveu em outra polêmica recente, em abril, quando divulgou que 65% dos brasileiros apoiavam ataques a mulheres que mostram o corpo. O dado alarmante provocou enorme repercussão no país. Uma semana depois, o Ipea divulgou uma errata informando que o percentual correto era de 26% e o diretor responsável pela pesquisa, Rafael Guerreiro Osorio, pediu exoneração.

O Ipea, por meio de nota, informou que o show das passistas foi oferecido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, co-organizadora do evento. Segundo o site do congresso, o Fórum Acadêmico dos Brics tem por objetivo estabelecer redes acadêmicas entre pesquisadores dos cinco países que integram o bloco.

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P.S. 1: Depois da publicação deste post, o Blog recebeu mensagem de parte dos signatários informando que a carta de protesto divulgada está ‘em vias de conclusão’ e recebeu a adesão de dezenas de novos servidores. Os signatários também manifestaram preocupação com a exposição dos servidores e das passistas. Como se trata de instituição pública (Ipea) e de um assunto que tem relevância jornalística, o Blog considera que o correto foi publicar o documento de protesto –até porque o texto (com as fotos) estava sendo enviado para inúmeras pessoas e não era, nem de longe, algo reservado nem muito menos secreto.

P.S. 2: O Ipea divulgou uma segunda nota, na noite de 6ª feira (3.out.2014), informando ser “costume'' nos Fóruns Acadêmicos dos Brics oferecer uma apresentação de grupo cultural típico do país anfitrião. A organização do evento contratou o grupo de passistas da escola Acadêmicos do Grande Rio pelo valor de R$ 5.500. Na nota, o Ipea diz reiterar seu compromisso com “o combate à discriminação de gênero e raça no Brasil'' e seu apoio à cultura popular.