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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O Sound System é resistência negra!

 
Esses caras da foto acima são filhos da chamada “geração windrush”, batizada assim por conta do navio Empire Windrush, de onde saiu a primeira geração de jamaicanos que imigraram para a Inglaterra, em 1948. Os filhos desses negros imigrantes foram jovens durante as décadas de 60 e 70, até a década de 1980, no caso dos mais novos. Esses jovens viram seus pais tentarem se adaptar ao estilo de vida inglês e falharem, já que sistema não os absorveu, não deu a dignidade que fora prometida nos slogans que os estimularam a deixarem a Jamaica. No início dos anos 70, esses mesmos jovens estavam sendo influenciados pela efervescência do Black Power Movement nos EUA – assim como aconteceu com os frequentadores dos Bailes Black aqui no Brasil. Mas eram as canções do roots reggae, politicamente engajadas a favor da libertação negra, que davam o clima de tudo. The Wailers, Big Youth, Junior Murvin, Dennis Brown…

Durante esse período, o governo inglês passou a colocar em prática uma lei informalmente chamada de SUS, que permitia à polícia abordar, revistar e prender qualquer pessoa que tivesse uma aparência “suspeita”. A aplicação dessa lei foi obviamente motivada pela imigração crescente durante as décadas de 1960 e 1970, ou seja, era uma forma de garantir que os homens de farda pudessem abordar e prender arbitrariamente jovens negros nas mais variadas situações. Somada aos outros problemas cotidianos do racismo, na escola e trabalho, essa repressão gerava revolta. E essa revolta era embalada pelas músicas criadas pelos rastafari, que apontavam na ilha os mesmo problemas que a juventude de ascendência caribenha enfrentava no Reino Unido. O visual desses músicos, rebelde como suas músicas, os influenciava a ponto de não-praticantes do Rastafari passarem a deixar crescer seus cabelos em dreadlocks – algo impensável na Jamaica. 
 
A banda inglesa de reggae Aswad.

Os sound systems sempre tiveram força na comunidade negra que vivia na Inglaterra. Esse elemento fundamental da cultura jamaicana desembarcou por lá com a geração windrush. Nas décadas de 50 e 60, servia principalmente como consolo e recomposição das energias para esses imigrantes. Mas foi no contexto político da década de 70 que ele ganhou a força que o tornou mundialmente conhecido. Além de bandas de reggae, muitos jovens se reuniram para criar seus próprios sound systems. Fosse na rua, casas noturnas ou festas em casa, essas equipes elevavam a mente dos jovens negros com a força da reggae music, para conscientizar e divertir – como um descanso merecido do mundo hostil que existia do lado de fora dessa aura mágica. Essas festas eram, de fato, espaço de resistência que estimulavam a libertação negra à sua própria maneira. E como qualquer espaço ocupado exclusivamente (ou majoritariamente) por pessoas negras, os problemas e reações violentas da comunidade branca e governo inevitavelmente começam a surgir. Um dos incidentes mais notórios aconteceu no Notting Hill Carnival de 1976, tradicional festival de rua promovido pelas comunidades caribenhas em Londres. A polícia, além de ter realizado prisões arbitrárias, iniciou um tumulto usando violência gratuita. Os presentes, incluindo fotógrafos e jornalistas, testemunharam que a ação da polícia começou do nada, em um ambiente pacífico. Os jovens negros, já cansados da violência, reagiram com o quê estava disponível: paus, pedras e garrafas. Foram mais de 100 policiais feridos, 66 pessoas presas e um número ainda maior de civis feridos. 
 
 
Cena do tumulto no Notting Hill Carnival de 1976. Foto de Robert Golden.

Ataques às manifestações negras aconteciam com frequência. Um dos eventos mais trágicos foi o batizado de “New Cross Fire”, um incêndio que aconteceu em 1981 numa casa em Londres, onde rolava uma festa de aniversário. Treze jovens negros morreram e um dos sobreviventes se matou dois anos depois. A suspeita é de que o incêndio tenha sido proposital e teve motivações racistas, pelas evidências encontradas nos restos da casa e testemunhos de sobreviventes. Uma série de protestos aconteceram após o evento, motivados principalmente pela má vontade e acobertamento da polícia na investigação do caso, e também pela indiferença da comunidade branca. O evento inspirou o que, pra mim, é o reggae mais triste da história, que leva o mesmo nome do triste evento. Sir Collins a compôs em homenagem a Steve Collins, seu filho, que comandava seu Gemini Sound System na festa (os equipamentos lhe foram dados pelo pai). Com apenas 18 anos, Steve acabou morrendo. Durante a música inteira pode-se ouvir o som de um sintetizador simulando uma sirene de ambulância/carro de bombeiro. A capa, que mostra Sir Collins e Steve, é de cortar o coração. Outros músicos e artistas também lamentaram/protestaram através de músicas e poemas. Mas nenhuma é tão poderosa e triste quanto ela:



Você pode estar se questionado: “se a cultura sound system é originalmente jamaicana, por que ele deu ênfase ao sound system na Inglaterra?”. É porque a Jamaica é um país quase 100% negro e, depois disso tudo, quero propôr um questionamento que só é válido em países cuja população é racialmente diversificada e os negros representam uma minoria política. Esse é o caso da Inglaterra e, claro, do Brasil. The Jah Shaka Sound System, Sir Coxsone Outernational e Saxon Studio International são referências que vão além do estilo de discotecagem e potência das caixas que espalham a reggae music pelo ar. São referências de resistência, que cravaram em pedra seus nomes no universo da diáspora africana. E não são resistência por mera classificação vaidosa. Como esse artigo aponta, foram espaços que sofreram inúmeros ataques da sociedade racista e ainda sim se mantiveram em pé. A cultura sound system e a negritude são indissociáveis. Se salvam os que se mantém firmes à essência da coisa, mas o que tenho visto aumentando cada vez mais no Brasil é o esvaziamento de significado e da história dessa cultura. O discurso da democracia racial toma conta de todos os setores e na cena sound system não seria diferente. Como disse Ari Consciência, figura notória da cena do reggae em Alagoas, em entrevista recente à Vice, “o movimento não se assume como negro. Eles se apropriam das músicas (…), mas não estudam a história por trás daquilo, de onde vem e o que significa”. Muitos dos que se atrevem a falar sobre questões sociais, soltam clichês que dão noções vagas sobre respeito e igualdade, em tom desracializador. Se fala sobre pobreza, sobre o gueto, sobre a periferia, mas nunca sobre os problemas raciais. Quando mencionados, vem na leveza do “diga não ao racismo” e “somos todos iguais”. Eu pergunto: a quem serve o discurso vago e desracializador num país em que o assassinato de negros é classificado pela ONU como genocídio (em média 23 mil jovens negros assassinados por ano, e o número vem aumentando)? O quê representa esse incômodo com o recorte racial e discursos sólidos sobre a negritude, justamente dentro de uma cultura criada por negros e onde se toca música negra? Gostem ou não: o sound system é resistência negra!

 
  Phantom, sound system londrino da década de 1960. 
 
 
Fonte: obuli

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Racismo e resistência no livro “Beco Afro – Ficção Quilombola Urbana”, de Fausto José

A alma e o jeito do poeta nunca abandonam o proseador. Seus textos são fotografias, fragmentos, frases que, ao parecerem soltas, prendem a história, arrematam tudo lá na frente. O tal Beco Afro “são duas carreiras de barracos enfileirados num longo corredor sem saída. no final, uma praça. uma armadilha rastafári” 
 
Foto: Facebook
Por Julinho Bittencourt
 
Lembro bem, era começo dos anos 80. Fausto José passava pelos corredores da antiga Faculdade de Comunicação de Santos e arrancava suspiros. Era um dos dois únicos negros que estudavam por lá na época. Alto, com andar de malandro, porte atlético e terrivelmente simpático, como se não bastasse ainda era (e é até hoje) poeta.

Eu, filho de vendedor com dona de casa, morava com muito custo no bairro do Boqueirão, em Santos (SP), um local classe média, próximo da praia. Numa manhã de sábado, o Fausto passava por lá, provavelmente pra ir me visitar, quando uma viatura da polícia o parou e prendeu. A vizinha havia visto ele passar e, imediatamente, o acusou de um roubo no seu comércio.

Por um daqueles golpes do destino, a Dona Mila, minha mãe, passava e viu a confusão. Imediatamente se colocou aos gritos e arrancou o Fausto de dentro da viatura. Ela se dirigiu ao policial, perplexo diante daquela dona de casa franzina, e disse: “Este menino é amigo do meu filho, estudante de jornalismo e nunca roubou nada de ninguém”. Passou uma descompostura na vizinha racista e trouxe o Fausto para a nossa casa.
 
Naquele dia, nunca esqueci, nos olhamos entre orgulhosos com a mãe e indignados com o racismo da vizinha corroborado pela polícia. E nos tornamos um tanto mais irmãos, protegidos pela mesma figura materna.

Anos mais tarde, no dia da morte da minha mãe, o Fausto, que estava longe, me ligou e a única coisa que conseguiu balbuciar em prantos foi: “A nossa Mila!”.

Este nariz de cera é só pra contar que, décadas mais tarde, neste mês de agosto, ainda em Santos, encontro na caixa do correio um pacote vindo do Distrito Federal com um livro dentro. Constato emocionado que é um exemplar de “Beco Afro – Ficção Quilombola Urbana”, de Fausto José.

Sobrevoo o livro, com ótima capa de Osvaldo da Costa, em impressão simples, e leio uma sequência de textos lindos, ora em versos, ora em prosa. São palavras repletas da sabedoria acumulada por uma vida a sofrer e observar atitudes racistas, como aquela de tantos anos antes. E outras tantas muito piores.
 
A alma e o jeito do poeta não abandonam o proseador. Seus textos são fotografias, fragmentos, frases que, ao parecerem soltas, prendem a história, arrematam tudo lá na frente. O tal Beco Afro, como o próprio autor avisa, “são duas carreiras de barracos enfileirados num longo corredor sem saída. no final, uma praça. uma armadilha rastafári”, tudo assim mesmo, em letras miúdas que o corretor insiste em querer mudar, mas que a vida de seus personagens persiste em se apresentar. “um pedacinho d’áfrica no coração de cada brasileiro”.

A ironia das minúsculas, no entanto, se mostra cada vez maior à medida do texto e seus heróis, expandindo enormes em uma quase “utopia criada por uma mulher negra, mãe solteira, regueira, filha de santo, pandeirista, bandida… uma heroína”.

Poderia falar dias do Fausto e seu livro, da vontade de abraçar a Iris, ver suas meninas crescidas, beijar o neto deles e, sobretudo, contar do orgulho que tive ao ler o Beco Afro.

Tomara que não tarde. Enquanto isso não se dá, compartilho com vocês. Fica aqui, ó: https://www.facebook.com/becoafro/.

Tenho certeza que ele, como sempre, vai abrir pra vocês todas as portas e janelas da sua vida e sorrir feliz.

Fonte: revistaforum