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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Rap, pedagogia e transformação Heitor Valente expande atuação na cultura hip-hop

Foto: Coletivo DUCA

Além de compositor e músico, Heitor apresenta uma aptidão natural para a pedagogia e projetos sociais, o rapper de Ceilândia dedica-se a atividades voltadas para o desenvolvimento social a partir de projetos que tem a finalidade de profissionalizar, construir e compartilhar experiências e aprendizados com as comunidades por meio da cultura e educação, vista por ele como instrumento de transformação, libertação e principalmente emancipação.

Foi nesse contexto que nasceu a AREA (Associação Respeito e Atitude), uma organização não governamental na qual ele é presidente, e que tem o objetivo de organizar, criar e unificar ações voltadas para a juventude à partir de projetos sociais.

O principal expoente dessa gama de programas, foi o Projeto RAP (Ressocialização, Autonomia e Protagonismo), que utiliza esse estilo musical como uma ferramenta pedagógica de diálogo e estabelece uma relação profissional e colaborativa com os jovens em situação de vulnerabilidade nas unidades de internação e nas escolas do DF.

Foto: Dona Filmes

As atividades vinculadas ao projeto RAP são bem diversas, as ações que ja atenderam mais de mil jovens incluem saraus, festivais de música, debates, oficinas, rodas de conversa, cursos profissionalizantes como os de barbearia e manutenção de aparelhos celulares, além de ser responsável pela confecção de três produções literárias, um cd musical e um vídeo clipe que chegou a ser transmitido no festival de cinema de Brasília.

Em 2018 o Projeto RAP foi premiado pela UNICEF, órgão da Organização das Nações Unidas que tem como objetivo promover a defesa dos direitos das crianças, um reconhecimento importantíssimo aos trabalhos realizados e que qualificam a ong como uma das mais relevantes organizações não governamentais a nível nacional.

Hoje, além de presidir a AREA, Heitor é membro do conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável e Estratégico do Distrito Federal (CODESE), integrante do projeto LÍDER do Sebrae DF e educador no Instituto Ajax, funções que exerce com profissionalismo, responsabilidade e compromisso com as origens.

Foto: Thaís Batalha

Apesar de tantas atribuições, ele ainda é um rapper e não deixou a música de lado, neste ano ainda pretende lançar seu segundo álbum intitulado “O Presságio”, que contará com algumas participações especiais que ainda serão divulgadas, portanto, para ficar ligado nas novas produções, procure por Heitor Valente nas principais plataformas de streaming e fique por dentro. 
 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Há 17 anos perdíamos o Sabotage.


Há 17 anos, Mauro Mateus dos Santos, 29, o Sabotage, foi morto com quatro tiros em uma rua da zona sul de São Paulo. O rapper foi encontrado caído na calçada após ser baleado 4 vezes, ele foi levado ao Hospital São Paulo, na zona sul, mas não resistiu e morreu às 11h25.



Fonte: rapevolusom

terça-feira, 12 de novembro de 2019

‘O rap resgata a autoestima que os pretos não tinham’, diz rapper e professor do Grajaú

Leal Cash mostra, dentro das salas de aula no extremo sul de São Paulo, como o rap conta mais a história do povo negro do que a própria escola
Leal Cash no Centro Cultural do Grajaú, importante pico cultural da região | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Lucas Volney de Carvalho Silva, 26 anos, sonhava em ser jogador de futebol. Dormia abraçado com a bola e sabia que, com ela, conseguiria salvar a si e a sua família. Mas o futuro o surpreendeu positivamente. Cria da Vila Natal, um dos bairros do Grajaú, distrito do extremo sul da cidade de São Paulo São Paulo, Lucas agora é Leal. O rapper Leal Cash.

Filho de professora, os primeiros anos do ensino fundamental foram estudados em uma escola particular na Vila Mariana, a cerca de 35 quilômetros da sua casa, onde sua mãe dava aulas e, por isso, Leal tinha uma bolsa de estudos. Ele levava duas horas pra chegar no colégio e, se desse sorte, de duas horas e meia a três horas para voltar, dependendo do trânsito. Nessa época, Leal começou a se deparar com dois grandes obstáculos que enfrentaria durante toda sua vida: o racismo e a discriminação do lugar onde ele nasceu.

“Eu não tinha muito uma vivência da quebrada nessa época, só de fim de semana que eu ficava com os meus amigos do meu bairro, que era quando a gente jogava bola, empinava pipa e tal. Aí eu sai dessa escola na quarta série. Aos 10 anos, na quinta série, eu fui para a escola pública e comecei a lidar com outro tipo de realidade, que é a minha realidade. Lá na outra escola era um bagulho utópico, eu tava lá, mas eu não era de lá e todo mundo ali sabia, por mais que eu fosse inocente na época hoje é muito nítido que eu não fazia parte daquela realidade”, relembra Leal.

Foi na escola pública que Leal percebeu que podia escrever música. Começou com o samba, passou pelo funk e finalmente se encontrou no rap. As músicas de samba e funk eram pura diversão, que muitas vezes ficavam só no papel. 

Desde muito novo, quando tinha 5 anos, ele via seu tio Cido, conhecido como Comparsa, integrante do grupo de rap Gueto Organizado, escrever suas próprias músicas. “Então eu já sabia que para você fazer um rap você precisava de um beat [uma batida], um papel, uma caneta e as suas próprias ideias”, conta o rapper.

Mas foi a vivência no funk que fez Leal perceber que estava pronto para começar sua trajetória no hip hop. “No funk eu aprendi a ter métrica, aprendi a manter o fôlego, a colocar vírgula nas letras. Por mais que a métrica do funk seja mais parada e o rap seja mais contínua, eu fui aprendendo ali. Eu parei com o funk quando comecei a ter uma consciência política. Tinha muita coisa que eu estava escrevendo ali que eu não vivia e eu não concordava, aí eu parti para o rap, que eu achava que era muito distante, mas percebi que era bem próximo”, explica.

Em 2009, Leal, que ainda era Lucas, decidiu começar sua carreira no rap ao lado de seu amigo Arthur. Nascia então a dupla Leal & Saaier, que hoje está em uma pausa para que os integrantes foquem nas suas carreiras solo. Depois de dois anos parado, desde 2017, Leal decidiu voltar para a música, dessa vez como Leal Cash. Ainda este mês, Leal lançará o primeiro EP (Extended Play) solo.

Dos campos para os palcos – e salas de aula

De jogador de futebol, Leal se tornou rapper e professor. Rapper por amor, professor por curiosidade. Mas Leal, apesar de não ser corintiano, é fiel ao antigo amor pelo futebol e trouxe no seu primeiro single muitas lembranças da sua infância.

“Gol de placa” é o primeiro single da carreira solo do rapper, e fala de futebol, de videogame e traz referências de como é ser um jovem negro no país onde a cada 23 minutos alguém como você pode ser morto. “Me jogaram pra selva, levei uma caneta pra guerra. Meu caderno me tira das trevas” são os primeiros versos de Leal Cash, ou Sir Cash. 


“Eu lancei a ‘Gol de placa’ agora em abril. Eu tô nesse conceito do ‘Superstar Soccer’, que é um jogo de Super Nintendo e representa a minha infância inteira, tem uma simbologia de amizade e família, porque a gente jogava junto. Na minha família tinha uma pessoa que tinha o videogame e todo mundo se reunia pra jogar, a gente nem dormia pra jogar. Então isso representa muito pra mim”, conta Leal à Ponte. 

Quando começou a escrever esse som, Leal sabia quais jogadores iria citar e porquê. Decidiu homenagear Adriano e Dodô, ex-jogadores do seu time do coração, o São Paulo Futebol Clube. “Eu cito o Adriano, o Imperador, porque ele tem uma simbologia muito forte da favela, que mesmo jogando na Itália ele se sentia melhor no Complexo do Alemão, então ele representa muito forte a favela e a periferia, por ser um jogador negro, por ser muito tachado, mas quando ele jogava todo mundo pagava pau pra ele”, explica o rapper.

“Eu também cito o Dodô, que jogou no São Paulo, no Santos e no Botafogo, e é conhecido por ser o artilheiros dos gols bonitos, então eu falo na música que nessa fase atual eu quero só fazer golaço, só gol de placa. E o termo gol de placa caiu em desuso hoje em dia, mas isso representa a minha infância”, conta. “Eu peguei essa fase do futebol mais raiz, sem essas arenas modernas, sem esse futebol modernizado, e tento colocar isso na minha música. Tento colocar também o que o meu pai me fala, ele é um jogador de várzea, futebol que tem muita importância na periferia. Meu tio tem um time, que é o Santa Chica, que representa muito o lugar de onde eu vim”, continua. 

Mas a parte mais importante da música, afirma Leal, é resgatar a autoestima do povo preto. “O rap vem como um resgate de autoestima que os pretos não tinham antes, que a quebrada não tinha antes. Eu converso muito com os mais velhos e eles falam muito isso, então eu quero resgatar essa autoestima, quero falar que a gente pode ganhar milhão lá em Milão, a gente pode ser melhor do que ontem, fazendo vários gols de placa, independente se for na música, se for na faculdade, a gente tem que fazer o gol de placa, a gente tem que fazer o gol mais bonito, não pra ser reconhecido, mas pra gente mesmo. A essência da música é isso: autoestima”, defende o MC.
Leal durante show no Projeto LiteraRap | Foto: Alex Soares/Divulgação
Foi o rap que levou Leal, ou melhor, Lucas, para as salas de aula. Primeiro como estudante no curso de História na Unisa (Universidade de Santo Amaro), e, depois, como professor na Escola Estadual Herbert Baldus, mesmo colégio onde ele concluiu o ensino médio. 

“É muito triste isso que eu vou falar, mas eu comecei História porque eu escutava rap e não conhecia as referências. A escola não me trouxe essas referências. Não tinha nada sobre a história do povo negro na escola, mesmo com a lei até hoje não é muito propagado dentro da escola. Na minha época eu via pessoas negras só sendo escravizadas, só servindo alguém, nunca com protagonismo. Quando eu comecei a escutar mais rap, comecei a ir atrás dessas referências. Eu estudava mais por conta do que na escola”, desabafa.


“Fazer História foi a melhor coisa que eu fiz da minha vida. Eu me descobri e me reinventei como ser humano. Eu tentei me tornar um cidadão melhor, me livrei de muitos preconceitos que eu tinha. É lógico que eu tô em construção e desconstrução a cada momento, que em certos momentos eu me pego falando alguma coisa errada, porque eu sou um homem hétero. Eu aprendi a ser machista. Por isso tô me construindo e desconstruindo frequentemente e a faculdade de História me ajudou muito nisso”, continua.

Consciente de que há muita defasagem na rede pública de ensino, Leal conta que não era um bom aluno porque não se sentia abraçado pela escola. “Eu não prestava atenção, não tinha muito interesse nas matérias. Eu tinha outros interesses e a escola não dava conta deles, desse meu conhecimento prévio. A escola nunca me abraçou. A escola foi algo que mais me aprisionou as minhas ideias, mais roubou os meus sonhos do que tudo”, explica.

Atualmente, Lucas leciona na escola em que concluiu os seus estudos. E ele usa isso como parte da aula: mostrar a importância de ser um morador de periferia, ser jovem e dialogar com os alunos. “Os professores que me deram aula são meus colegas de trabalho. Eu não era tão bom na matéria do meu professor e agora tô na sala dos professores com ele. E eu falo isso para os meus alunos. Agora eles não se interessam por estudos, mas daqui um tempo eles vão ser cobrados por isso. A gente, por ser da periferia, por ser do fundão, é cobrado dez vezes mais, saca? E não temos estrutura nenhuma pra ser cobrados dessa forma. Eu passo isso pra eles”, relata. 

“Eu sou novo, então tenho uma linguagem muito próxima com eles. Eles me veem como se eu fosse um irmão. Eu tô dando aula de manhã, que é pra galera do sétimo, oitavo e nono ano do ensino fundamental e pro primeiro ano do ensino médio. Eu tô com 26. Eu compreendo os alunos que não querem estudar, mas uma hora eles vão ser cobrados. A gente tem um processo, não podemos correr além do tempo. Isso vai pesar. Alguns assuntos que eu falo em sala de aula e eles acham chato, uma hora eles vão ver que não é um assunto chato”, critica Leal.

‘Me sinto preso pra falar sobre certas coisas’

Em tempos de “Escola sem partido”, “Kit gay” e “Ideologia de gênero”, ser professor na rede pública é um desafio diário. Ainda mais quando, ao mesmo tempo que dá aulas, você faz parte do estilo musical mais crítico aos governos e perseguido por isso. Essa é a rotina de Leal.

“Tanto no rap quanto na escola eu me sinto preso pra falar sobre certas coisas, mas a gente não tem que se sentir preso, tem que se sentir cada vez mais liberto pra falar, temos que nos posicionar e não ficar em cima do muro”, brada o professor MC. 

Um de seus últimos sons, aliás, fala bastante sobre isso. A música “Poder paralelo“, que Leal canta ao lado do Gueto Organizado, fala da importância da quebrada no contexto político atual. “Eu fiz essa letra tem dois anos, mas ela fala muito sobre o momento atual. A gente tava prevendo o que ia acontecer, pra onde ia dar. Quando a gente fala de poder paralelo estamos falando do gueto, aqui é o poder paralelo. Temos o nosso próprio poder, nosso empreendedorismo. A gente só precisa da gente”, explica.


“Em todos os governos a gente protestou, tá ligado? Até nos governos mais de esquerda a gente estava nas ruas e não é agora que a gente vai sair. Se a gente não for resistência, de fato, as coisas vão só piorar. Um ponto positivo disso [governo Bolsonaro] é que as máscaras caíram, agora a gente sabe daquele tio que é homofóbico, aquele tio que fazia piadinha com novinha e sabe que ele é um pedófilo. Os lados agora estão bem mais explícitos. A gente consegue ver o nosso inimigo. A gente sempre lidou com o fascismo, mas agora a gente tá com armadura pra quem é o nosso inimigo”, protesta Leal.

O rapper questiona também o racismo no Brasil, principalmente o racismo velado, aquele preconceito que não é explícito, que sempre foi que queixa dos movimentos negros. Para Leal, o governo Bolsonaro também trouxe à tona os racismos. 

“O Brasil é um país super racista, mas todo mundo fala que não é racista. Dizem ‘seu cabelo é duro, mas é uma brincadeira’. Não, é racismo. Diversos humoristas usam racismo pra fazer humor, mas não existe piada, é racismo. Racismo não é piada, homofobia não é piada. Agora a gente sabe quem é quem, não tá mais velado. Mas isso é bom, tá ligado, agora a gente consegue se proteger mais e a gente consegue acolher mais quem tá do nosso lado. E isso é muito importante”.
Leal durante show no Projeto LiteraRap | Foto: Alex Soares/Divulgação
Jovem negro, rapper, professor e morador de quebrada, Leal conta que tem medo da Polícia Militar. “A gente não enxerga a Polícia Militar como nossa aliada. É triste falar isso, porque eu queria que ela fosse nosso braço forte, que fizessem a nossa segurança como fazem dos ricos. Eles são braço forte do governo e o governo é braço forte dos mais ricos. Eles veem pra periferia só pra dar esculacho. É triste isso. Na periferia a gente não enxerga isso como uma coisa boa, não traz benefício pra gente. Eu me sinto até inseguro de falar isso, mas a gente tá aqui pra dar cara a tapa, desde o começo o hip hop é isso”. 

Em 2017, Leal gravou uma música ao lado de Badrani e Bruno Gusth, dois rappers do Grajaú. O trio relembra os 111 tiros disparados contra Wesley, Wilton, Roberto, Carlos Eduardo e Cleiton, 5 jovens negros no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, na zona norte do Rio de Janeiro, e os versos mostram como é a atuação das forças policiais nas quebradas. O racismo, velado e direto, também está na canção. 

“Enquanto tiver injustiça, enquanto tiverem matando um dos nossos eu vou falar. Não vou me esconder. Foda-se quem tiver no poder. Que seja um militar, um baba ovo de militar, seja se direita ou esquerda, se tiver matando o nosso povo, se tiver matando um dos nossos, eu vou sempre falar. Isso não é de agora. A gente é mira, independente do governo. Isso é questão de ser o povo preto. A gente vem sofrendo desde a escravidão”, defende o rapper à Ponte.


“Os 111 tiros foi um som importante, é um dos sons que eu mais gosto, porque a gente fala sobre esse fato que nos deixou indignados. A justiça é pra quem? O militarismo é pra quem? Eles pedem ditadura militar, mas na favela tem ditadura militar, sempre teve. Essa ditadura que eles querem vai lá pro centro? Vai ter exército na Paulista? Eu acho que não, né. Os 111 tiros representa isso. A gente fez um show esses dias no centro da cidade e voltou de madrugada, cheio de preto no carro, e os 111 tiros podia ser ali. A gente não tava fazendo nada, mas mesmo inocente a gente fica com medo”, indaga. 

“Até quando vão matar o nosso povo? Os 111 tiros acabaram com cinco famílias. Os 80 tiros [disparados contra o músico Evaldo Rosa] acabaram com uma família. A gente tem que ficar falando sobre a mesma coisa porque não tá mudando, só tá piorando, por isso temos que continuar fazendo esse trabalho de base. Temos que ser resistência, não podemos parar, a luta tem que ser diária”, continua Leal.

Grajaú: ‘Não viamos só como a quebrada do Criolo’

Desde que Criolo bombou no rap, o distrito do Grajaú, extremo sul de SP, passou a ser conhecida nacionalmente. Mas, para quem nasceu e cresceu na quebrada, a imagem é outra. “A gente, aqui de dentro, não via como a quebrada do Criolo, a gente via como a quebrada do Criolo, a quebrada do Xemalami, a quebrada do Gueto Organizado, a quebrada do Pentágono. A gente do Grajaú já se via como um polo artístico muito forte, porque a gente faz um trabalho de base muito forte. Todo fim de semana tem evento. O Criolo deu um boom e começaram a enxergar aqui com outros olhos, foi a mesma fita do Capão Redondo que era visto só como um bairro perigoso e com os Racionais virão que ali tinha cultura”, critica Leal Cash. 

Para ele, as pessoas olham a periferia de cima e veem só as estatísticas e números, sem se importar se ali tem trabalhadores ou cultura. Mas afirma: no Grajaú ainda tem muito talento escondido ainda. 

“O Criolo foi importante pra olharem pra cá com outros olhos. Os espaços nem sempre estavam abertos pra gente, agora que estamos conseguindo ocupa-los. A gente que vive aqui no Grajaú conheceu o Criolo bem antes dele ser o Criolo. Ele era o Criolo doido, o Kleber pra gente, o filho da Maria Vilani. A Maria Vilani é uma referência máxima pra gente daqui da quebrada, esse espaço onde estamos ela é uma das fundadoras, ela tem rodas de poesia aqui até hoje. Ela já era uma referência monstra e os filhos dela também são. O Criolo surgiu disso, de um berço abençoado. Os pais deles são pessoas super gente boa”, explica.
Leal Cash em frente ao Centro de Cultura do Grajaú, espaço que se tornou uma referência cultural da região | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo
“Aqui no Centro Cultural do Grajaú tá tendo evento direto. Trazendo coisas diversificadas, não só com o rap, mas com samba e MPB, porque a periferia é isso, sabe? É multicultural. Eu faço rap, mas meu pai ouve samba, minha mãe ouve música gospel, meu vizinho ouve forró. A periferia é isso, são pessoas de vários estados que estão instaladas aqui. Temos que respeitar essas pessoas, não só o meu gosto”, defende o rapper.

Assim como a sociedade, argumenta Leal, o rap ainda é muito machista e LGBTfóbico. O rapper lembra que, aos poucos, as mudanças estão acontecendo: Emicida gravando com Pabllo Vittar e Majur, uma drag queen e uma pessoa não-binária, Rico Dalasam e Quebrada Queer rimando o orgulho de serem LGBTs, Rimas & Melodias e Graja Minas mostrando que as mulheres rimam sim. 

“Eu acho muito louco ter o Rico Dalasam e Quebrada Queer. Quando surgiu o Rico eu cheguei nos meus amigos e falei: o rap tá dando um passo, tá ligado? O rap precisava do Rico Dalasam, o rap precisa ser mais plural. O que o Rimas e Melodias fez é muito importante. O que o Graja Minas tá fazendo aqui é muito foda”, cita Leal. 

“Eu sempre apoio. Não quero ver só pessoas brancas no rap, quero ver pessoas negras ganhando igual pessoas brancas, quero ver mulheres ganhando cachês igual os caras. Eu fico muito feliz quando surgem novos grupos com pessoas LGBTs, porque o rap é isso, rap é união, a gente tem um inimigo e o inimigo é o sistema, é o sistema que fode a gente”, finaliza o rapper.

Fonte: ponte

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O rap me salvou

Por Diana Carvalho,
Dexter transformou sua experiência dentro e fora do sistema penitenciário em trabalhos sociais
 
Dexter (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

O rapper Dexter tem um incômodo. “Para muita gente, quem ouve rap é bandido. Uma vez um cara me falou, em tom de elogio: ‘Porra, negão, fui preso e, quando os homens me ‘pegaram’, eu estava ouvindo ‘Oitavo Anjo’.’ Respondi: ‘Que pena, cara. Você não entendeu nada. A música fala para você não cair nessa. O rap é para salvar vidas'”, contou à reportagem de Ecoa.

O músico fala com a propriedade de quem já esteve dos dois lados: dentro e fora do crime. Em 1998, ele foi preso depois de cometer sete assaltos. Cumpriu 13 anos de reclusão, parte deles na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Foi lá que formou com o também rapper Afro-X a dupla 509-E – o nome faz referência ao número da cela em que os dois ficavam. Com a turnê “Vivos”, eles voltaram recentemente aos palcos. O primeiro show reuniu 3 mil pessoas em São Paulo.

Além da carreira artística, Dexter se dedica a trabalhos sociais que vem realizando há quase uma década com presos, egressos e, mais recentemente, com jovens em situação de vulnerabilidade.

Deficiente, viciado e vicioso

“Quando fui preso, percebi que o sistema carcerário no Brasil é deficiente, viciado e vicioso.” A declaração de Dexter tem respaldo na realidade. O país está entre os que mais prendem no mundo. Isso não significa, porém, que a criminalidade esteja controlada. As cadeias estão superlotadas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no mês passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de vagas em 2017 (423 mil) era metade do que o de presos (726 mil).

Nesse contexto, a ressocialização de egressos é um desafio enorme. Afinal, mesmo depois de cumprir a pena são poucos aqueles que conseguem trabalho. Retomar a vida afetiva, ser aceito de volta pelos amigos e a família também são grandes obstáculos. Segundo um relatório publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2015, as taxas de reincidência variam entre 30% e 70%

Dexter também poderia ter engrossado as estatísticas, mas seguiu um caminho diferente graças à atitude de uma pessoa que percebeu o potencial que o artista (não o criminoso) tinha para transformar realidades – a dele e a de outras pessoas na mesma situação.
 
Dexter (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Salvo por uma oportunidade

“Consegui sair do sistema por meio do rap. E quantos não têm o rap como apoio? Quantos não têm uma oportunidade? A minha aconteceu na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, quando já estava cumprindo o semiaberto. Um juiz me notou numa multidão de homens que contrariavam a lei. Ele viu um cara disposto a mudar e colaborar com a mudança de outras pessoas também.

O nome desse juiz é Jayme Garcia dos Santos Júnior, da Vara das Execuções Criminais da cidade. Meu advogado foi pedir autorização para um show em Brasília e, mesmo com o Ministério Público sendo contra, o doutor Jayme concedeu a minha ida. Ele demonstrou confiança e me chamou para uma conversa. Algo inédito.

Geralmente, os juízes não pedem audiência com um preso, a não ser que ele seja muito importante, que muita coisa esteja na mão dele. Durante a conversa, doutor Jayme me disse: ‘Tenho certeza de que você vai voltar do show. O senhor ama o trabalho que faz e é nisso que acredito. Quando voltar, quero falar sobre um projeto’.

Eu só sabia chorar. Estamos falando de um período em que eu já tinha desistido do crime e acreditava piamente que minha profissão, o rap, iria me tirar da prisão. O doutor Jayme estava devolvendo em amor algo que, em algum momento, usei de maldade. Mas não foi uma maldade fria, calculada, foi uma maldade que nasceu ali, no momento. Depois você pensa e fala: ‘Pô, não precisava, né?’. Mas foi um momento. Meu exílio foi um aprendizado.”

Projetos de ressocialização para presos e ex-detentos

O projeto sobre o qual o juiz queria falar era o “Como vai seu mundo”, que oferecia cursos profissionalizantes, rodas de conversa e apresentações culturais com o objetivo de ajudar na ressocialização de reeducandos.

Dexter aceitou o convite e, ao lado do especialista em mediação de conflitos, Eduardo Bustamente, impactou mais de 800 pessoas durante os anos de 2011 e 2012. Mais 80% delas conseguiram trabalho depois de cumprida a pena.

“Quando participo dessa troca de ideias o que tenho pra contar é exatamente o que as pessoas querem saber: ‘Como o Dexter, preto, pobre, favelado, rapper, ex-detento, execrado por uma parte da sociedade, conseguiu ser o Dexter? Como?’. As pessoas querem saber: ‘Como você se sustenta hoje, mano, se você não usa mais arma?’. Elas querem saber essas coisas porque, no Brasil, isso não é comum. Não é comum preto fazer sucesso.”

Trampo Justo

Em liberdade há oito anos, Dexter continua o trabalho fazendo visitas frequentes a penitenciárias do Brasil. Recentemente foi nomeado padrinho da ONG Responsa, que capacita e acompanha a reintegração de egressos ao mercado de trabalho.

Ao lado do juiz Ibere Dias, o rapper realiza o projeto Trampo Justo. O objetivo da dupla é orientar jovens moradores de abrigos para a inserção no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, estimular empresas a contratá-los. No estado de São Paulo, a cada mês, cinquenta garotos e garotas completam 18 anos e são obrigados a deixar as casas de acolhimento para tocar a vida sozinhos. Desde fevereiro, quando foi lançado, o Trampo Justo já conseguiu emprego para 54 pessoas.

“Quando recebo o convite do juiz Ibere para conversar com adolescentes que não são infratores, que em sua maioria são crias de acolhimento, sinto mais força ainda para continuar. Significa que o meu trabalho não serve só para quem passou ou para quem está dentro do sistema carcerário. A história da minha vida se amplia, é para quem entrou não entrar mais. E para quem não entrou nem se arriscar.”

“Negão, é só deixar o coração falar”

“O que faço é uma troca de ideia. Longe de mim menosprezar um palestrante, mas ele tem uma maneira mais bonita de fazer, ele coloca um PowerPoint na parede, dá números… Eu não. Não tenho isso. O que eu tenho? O coração.

Me lembro de ter perguntado: ‘Pô, [Mano] Brown, e aí essas ideias? Esses discursos, como é que é?’ E ele virou e me disse: ‘Negão, é só deixar o coração falar’.

É a essência. É só deixar o coração. Eu não sou palestrante. Meu diploma quem me deu foi a rua. Se hoje eu sou reconhecido, se ando por aí e gritam: ‘E aí, Dexter, satisfação!’, é o reconhecimento do meu trabalho, que é honesto, digno e tem que ser respeitado.”

“Estamos falando de amor”


“O que procuro mostrar é que a mudança tem que ser você, porque, se você esperar isso do Estado, o Estado não vai te ajudar em nada.

Se em cada show que faço eu conseguir fazer um dos nossos parar pra pensar que uma arma na mão vai acabar com eles, que o estudo e a humildade é que vão levá-los longe, eu já estou salvando uma vida. Foi isso que aconteceu comigo.

As palavras de Brown, de Edi Rock, de cada show a que fui estão impregnadas na minha mente até hoje. Foram palavras que salvaram a minha vida. E até aqui estamos falando do quê? De amor. Quanto vale uma vida?”
 
Fonte:  Ecoa.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Grandes nomes do RAP se apresentam em festival gratuito na Ceilândia

O projeto tem o apoio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, e traz um festival de rap e hip hop com artistas locais e nacionais, como: MV BILL, Viela 17, Menestrel e mais


Ceilândia terá o festival Elemento5, de rap e hip hop, no dia 28 de setembro, na Praça da Bíblia. Entre as atrações, o projeto “Viela 17 Convida”, que conta com o rapper Japão e o grupo Viela 17, trazendo MV BILL, Menestrel, Dj raffa e Heitor Valente. O festival será gratuito e mostrará novos nomes da cena rap/hip hop de Brasília.

O Elemento5, projeto da associação Vila dos Sonhos, nasceu em 2012, na Ceilândia, em Brasília – DF. Desde então atua em escolas e nas periferias brasilienses com oficinas, palestras, torneios e festivais. E com este propósito leva arte, educação e cultura aos jovens, ao tecer a ideia de que todos podem aprender e se profissionalizar dentro da cultura hip-hop.

O Hip Hop é um fomentador de vidas, que engaja e empodera através da arte. O Elemento5 realizou oficinas de DJ, percussão, discotecagem e violão em escolas de Ceilândia e na sede da associação Vila dos Sonhos, também em Ceilândia e ainda o seminário Ceilândia Nacional de Literatura Periférica, um “salve”, a literatura produzida nas periferias. Para fechar o ciclo do projeto em 2019, a Vila dos Sonhos realiza o Sarau Elemento5.

O projeto tem o apoio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, e traz um festival de rap e hip hop com artistas locais e nacionais, como: MV BILL, Viela 17, Menestrel, Dj Raffa, Heitor Valente, PR 15, Sobreviventes de Rua, Dudu Mano, Plenamente, Falange F4E e o grupo de dança ceilandense Pegada Black. O evento terá estrutura de alimentação e brinquedos infláveis para as crianças.

Serviço:
Data: 28/09/19 10h às 02h.
Teatro: Praça da Bíblia – Terminal Desativado – P Norte, Ceilândia, Brasília.
Entrada Franca