Páginas

Mostrando postagens com marcador #Mortes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Mortes. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O país que mata seus Pelés

 
Brasil escolhe matar sistematicamente jovens negros e pobres, ratificando o DNA homicida de sua sociedade, que comprometerá o futuro

Por Aydano André Motta,(Foto: Ilustração Carlos Latuff)
O Brasil matou Pelé – não o Edson Arantes dos 1.281 gols, mas os novos, os do futuro, meninos pobres e pretos exterminados sistematicamente nas comunidades populares e periferias. O país que um dia foi do futebol consolida-se como o das mortes de negros e negras, incontáveis talentos potenciais sacrificados pela escolha do genocídio. Jovens que se vão aos milhares, na covardia dos tiros desferidos a esmo, no jogo sangrento e sem fim.

O Brasil teima em sacrificar os que vêm das quebradas, ceifando vidas em escala industrial, jogando fora seu futuro, aprisionando-se num presente perpétuo de covardia e mediocridade. Morrem quase todos pretos e pobres, na indústria da brutalidade, referendada pelas urnas de 2018, como certificado do DNA homicida de toda uma sociedade. É ele que aperta o gatilho sem dó nem piedade.

Nesta semana no Rio de Janeiro, foram-se dois potenciais craques de bola – Dyogo Costa (apelidado de Coutinho, como o craque carioca do Barcelona), 16 anos, da Grota, em Niterói; e Gabriel Pereira Alves, 18, do Borel, na Zona Norte carioca. Um jogou a última Taça das Favelas e tombou fuzilado pelas costas; o outro era atleta do Olaria e morreu baleado no ponto de ônibus, de manhã cedo, a caminho da escola. Vítimas da guerra burra, perdedora, numa goleada incomparavelmente pior do que qualquer 7 a 1.

É inaceitável que, em nome do combate ao tráfico de drogas, centenas de milhares de pessoas sigam aterrorizadas pelas forças do Estado
Eliana Sousa Silva
 
Diretora da Redes da Maré


O banho de sangue cotidiano grassa na mesma região metropolitana onde Romário sobreviveu até sair do Jacarezinho para o Vasco, o Barcelona, a seleção do tetra; onde Adriano escapou para se consagrar Imperador; onde Emerson Sheik venceu a marcação do destino em Nova Iguaçu (num barraco sem banheiro), até ser campeão por Flamengo, Fluminense, Corinthians; onde Vinícius Jr driblou a dureza de nascer negro em São Gonçalo, e materializou o milagre de chegar ao Real Madrid. Deram sorte.
Muitos, muitos outros humanos, mulheres e homens, não conseguiram escapar da indústria assassina. Para ficar só nesta semana no Rio de Janeiro, a adolescente Margareth Teixeira, 17 anos, alvejada com o filho bebê no colo, na comunidade do Quarenta e Oito, na Zona Oeste; Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19, morto por bala perdida num tiroteio entre policiais e criminosos na Comunidade Terra Nova, em Magé, na Baixada Fluminense; Lucas Monteiro dos Santos Costa e Tiago Freitas, os dois de 21, assassinados numa festa no Encantado, Zona Norte do Rio.
 
 
 Wilson Witzel e seus snipers: apologia do extermínio no discurso dos “tiros na cabecinha”. 
Reprodução do Facebook

No mundo paralelo das autoridades, inexiste empatia com as vítimas. Muito ao contrário – Wilson Witzel, ex-juiz que virou o governador fluminense, estremece de prazer ao exaltar “tiros na cabecinha”, “snipers”, matar, matar, matar. Entende festivamente ter o mandato do extermínio desenfreado, que trombeteia entre sorrisos. Na sua tara, adora posar embrulhado em fardas policiais, empunhando armas potentes, brincando de Rambo ao lado do sangue derramado.

As consequências, na vida real, são devastadoras. A ONG Redes da Maré divulgou edição extraordinária do Boletim Direito à Segurança Pública, contabilizando as mortes nos primeiros meses do mandarinato do amante da bala. De janeiro a junho, no conjunto de 16 favelas que se estende a perde de vista a partir da Linha Vermelha, 21 operações policiais produziram 15 mortos; 14 delas ocorreram em ações com uso de helicóptero, o caveirão aéreo. Outras 12 mortes foram causadas por dez confrontos entre grupos armados. Em todo o ano de 2018, 16 operações deixaram 19 mortos; em 2017, 41 e 20, respectivamente. Em efeito colateral igualmente nefasto, no primeiro semestre, escolas e postos de saúde ficaram fechados por dez dias devido aos tiroteios.
“O que é inaceitável é que, em nome do combate ao crime do tráfico de drogas, centenas de milhares de pessoas sigam sendo aterrorizadas pelas forças do Estado. Em nome de que isso pode ser justificado? Isso não é justiça, isso não é segurança pública, isso não é inteligente – até porque as milícias seguem crescendo no vácuo deixado pelo tráfico”, pondera Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes, em artigo no El País. “Acima de tudo: isso não é humano, considerando que vivemos no Rio de Janeiro de 2019, e não, como alguns pensam, no século XIX, antes da abolição da escravatura. Somos livres, cidadãs e cidadãos. E seguiremos sendo. Queiram essas pessoas ou não”, avisa ela.
 
 
(PHOTO/Marie HIPPENMEYER / AFP PHOTO / MARIE HIPPENMEYER)

Não é só no esporte, tampouco no Rio; o genocídio dos pobres está entre as mais sólidas políticas nacionais. O Brasil aperta o gatilho contra suas misérias – tanto que 18 das 20 cidades mais violentas estão nas regiões Norte e Nordeste. Rincões como Maracanaú (CE), Altamira (PA), São Gonçalo do Amarante (RN) e Simões Filho (BA) padecem com números semelhantes aos de guerras. Encurralada numa guerra de facções, Mossoró (RN) vê explodir a taxa de homicídios. Pelos mesmos motivos, massacres em presídios tornam-se endêmicos.

Ate a improvável vitória do bom senso, morrerá muito mais gente. Multidões inteiras. Se o descobridor da cura do câncer ou da solução para o aquecimento global tiver que ser alguém nascido nas nossas periferias, dificilmente tais avanços vão se materializar. O Brasil escolhe não permitir.

A ter um novo Pelé de qualquer uma das suas favelas, prefere matá-lo a tiros.
 
Fonte: geledes

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Racismo institucional leva polícia do Brasil e dos EUA a matar mais negros e pobres

Protesto em memória do músico Evaldo dos Santos, morto em uma ação do Exército na região da Vila Militar, na Zona Oeste do Rio, em 7 de abril de 2019 (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

Em 2018, o número de mortes cometidas por policiais na ativa no Brasil foi de 6.160, contra 992 nos EUA

O que justifica a filtragem racial das intervenções policiais no Brasil e nos Estados Unidos? Os dados sobre agressões e mortes de jovens negros nos dois países são alarmantes e salientam a desigualdade e o preconceito que muitas vezes custam a vida dos cidadãos. A RFI entrevistou especialistas nesta questão. O consórcio de jornalistas americanos Fatal Encounters divulgou recentemente o resultado de um novo estudo sobre violência policial nos Estados Unidos. Analisando dados do Sistema Nacional de Estatísticas sobre Mortalidade no país, pesquisadores descobriram que homens negros têm 2,5 mais probabilidade de serem mortos pela polícia do que brancos.

Os dados divulgados pela pesquisa são chocantes: a cada mil homens negros, um será morto pela polícia ao longo de sua vida, seja com arma de fogo, taser (arma de eletrochoque) ou sufocamento. O excesso de força policial lidera as causas de mortes de homens negros entre 25 e 29 anos, deixando para trás acidentes, suicídios, doenças cardíacas ou câncer.

Para o historiador francês François Durpaire, especialista em Estados Unidos, os dados divulgados no estudo da Fatal Encounters só reforçam o duro cotidiano de jovens negros no país. “Há o fator do racismo da polícia: isso está enraizado na história americana. Para o mesmo tipo de delito ou abordagem policial, se a pessoa é negra, maior é o risco que a situação saia de controle”, avalia.
Tratamento desigual da Justiça

Durpaire lembra que, embora a sociedade americana tenha evoluído nas últimas décadas, a comunidade negra continua enfrentando dois problemas principais: as desigualdades na relação com a polícia e com a Justiça. “Apesar das tentativas de integrar cidadãos negros aos júris, o tratamento da justiça é desigual com os negros. O próprio movimento Black Lives Matter não nasceu da revolta contra os policiais, mas da absolvição de George Zimmerman. Ou seja, o problema não é apenas com a polícia, mas também com a Justiça”, destaca.

De fato, o caso Zimmerman comoveu o país em 2012. O vigia matou a tiros o jovem Trayvon Martin, de 17 anos, alegando legítima defesa. O jovem estava desarmado e foi perseguido e alvejado em um condomínio na periferia de Orlando por ter sido considerado “suspeito” pelo segurança. Zimmerman foi inocentado, com a hipótese de um crime racista descartado, o que gerou uma onda de indignação nos Estados Unidos.

Essa banalização da violência contra negros também tem relação com a grande quantidade de armas de fogo nas mãos de civis nos Estados Unidos. “É preciso lembrar que existe uma taxa de 120 armas a cada 100 habitantes – a maior no mundo. Então, quando um policial faz uma abordagem, ele parte do princípio que há grande possibilidade de que o suspeito esteja armado. Por isso a polícia americana não hesita em atirar”, avalia Durpaire.
Alvos preferenciais da polícia são negros e pobres

Para o professor Adalmir Leonídio, coordenador do Observatório da Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais da USP, há similaridades entre a situação nos Estados Unidos e no Brasil. “Nos dois países, o alvo preferencial da violência policial – que se traduz em tortura e assassinatos – são preferencialmente negros e pobres, moradores dos chamados ‘territórios da pobreza’. No entanto, precisamos considerar a desproporção numérica entre as duas realidades. O Brasil mata muito mais negros e pobres que os Estados Unidos”, ressalta.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dos 5.896 boletins de ocorrência de mortes devido a intervenções policiais entre 2015 e 2016, 76,1% das vítimas eram negros: 5.769 homens e 42 mulheres. Grande parte é jovem: 35,5% têm idades entre 18 e 29 anos. Em 2018, o número de mortes cometidas por policiais na ativa subiu para 6.160 pessoas.

Nos Estados Unidos, de fato, esse número é expressivamente inferior. Segundo o Sistema Nacional de Estatísticas sobre Mortalidade do país, cerca de três americanos são mortos por dia pela polícia, contra 16 no Brasil. Em 2018, 992 pessoas morreram em intervenções policiais nos Estados Unidos.

Mas o que justifica essa filtragem racial da polícia brasileira? Para Leonídio, não há dúvidas: no Brasil, existe um senso comum penal desde o início da desagregação do trabalho escravo no País que relaciona negros e pobres ao potencial criminoso. “Essa parcela da população está envolvida em um clima de permanente suspeição. Nesse novo governo em particular, esse senso comum penal não só foi exacerbado como tem sido explicitamente assumido, o que tem sido favorável à execução de pobres e pretos”, salienta.

Para o especialista, a própria legislação criminal permite a predisposição ao combate arbitrário do “criminoso”, que, ressalta, é uma produção social. “O sistema penal não visa combater o crime, mas o criminoso: essa figura é envolta em todo um manto de estigmas e que obviamente não vai ser o rapaz branco, de classe média”, diz.

Por isso, segundo Leonídio, existe uma “produção criminológica” para o enquadramento desta população à margem da sociedade. “Essas pessoas não são absorvidas pelo mercado de trabalho, não fazem parte da lógica mercantil em evolução e é preciso fazer alguma coisa delas. Isso vai ser muito mais grave em países como o Brasil, onde há uma História de quatro séculos de escravidão. Existe um inimigo interno a ser combatido que, há cem anos, era o ex-escravo. Hoje é o morador da periferia pobre, que se configura como uma ameaça permanente ao patrimônio dos ricos”, reitera.
Resistência sobre o racismo institucional

Para o sociólogo Danilo Morais, professor da Fundação Hermínio Ometto, a resistência das autoridades em reconhecer a existência do racismo institucional piora ainda mais a situação. “Um dos elementos das políticas públicas brasileiras menos tocado pela democratização foi a segurança. Por isso é tão difícil conseguir dialogar com os atores institucionais sobre racismo”, afirma.

O preconceito velado contra os não-brancos no Brasil fortalece esse fenômeno que data de décadas, segundo Morais. “O racismo brasileiro se constituiu, desde a década de 1930, com a noção de que o Brasil é uma democracia racial, ou seja, que as relações raciais no país seriam harmoniosas, sem conflito. Isso serviu como política de Estado na Era Vargas pra criar um mito de unidade nacional. Então constituiu-se um racismo que, ao mesmo tempo que hierarquiza e subalterniza os não-brancos, reiteradamente diz que não há distinção entre as pessoas”, afirma.

Por isso, segundo o sociólogo, o racismo brasileiro não é explícito. Ele se apresenta no âmbito institucional – com a produção de desigualdade racial no acesso a direitos – e também o racismo latitudinal, nas relações cotidianas.

A partir da promulgação da Constituição de 1988 é que se começou a discussão e a implementação de algumas ações afirmativas para se começar a superar as desigualdades sociais no Brasil. No entanto, Morais sublinha que os retrocessos que o país vive atualmente prejudicam as “tímidas, mas importantes mudanças de percepções sobre as relações raciais”.
“Infelizmente o atual presidente reforça os elementos mais retrógrados sobre o que são as relações étnicos-raciais no Brasil. No campo da segurança pública, uma das áreas mais impermeáveis para a evolução da questão racional, havia o início da discussão que agora retrocede de uma maneira brutal, com um governo com uma visão de mundo que se constitui como uma espécie de neofascismo”, avalia.
De acordo com o professor, se antes já havia uma aprovação tácita por parte das autoridades para a filtragem racial dentro da segurança pública, atualmente há uma autorização explícita por parte do governo nacional. As consequências, segundo Morais, serão o aumento de número de mortos nos próximos anos não apenas de civis, mas também de policiais.

“Essas políticas de segurança pública que privilegiam as situações de confronto também fragilizam o agente. Os policiais morrem muito em ação e, enquanto categoria profissional, a polícia é um dos setores onde mais se comete suicídio. Ou seja, essa situação não é adequada para ninguém. Até porque, se produzir encarceramento e morte fosse sinônimo de segurança, o Brasil seria um paraíso”, conclui.

Fonte: cartacapital

Em 80 horas, cinco jovens sem ligação com o crime são mortos no Rio de Janeiro


As mortes de pessoas que não estão ligadas ao crime somam números que crescem de forma acelerada no Rio de Janeiro


Por Rodrigo Melo,
Os sonhos de mais um jovem em brilhar nos campos de futebol do Brasil e do mundo foram abatidos pela força da bala de um fuzil, no que integrantes das forças de segurança do estado de Rio de Janeiro chamam de ‘efeito colateral’ da guerra contra o tráfico de drogas.

Dyogo Costa Xavier de Brito, de apenas 16 anos, foi morto durante uma operação da Polícia Militar que acabou em confronto entre a militares e traficantes, anteontem, na comunidade da Grota, em Niterói.

O corpo do garoto foi enterrado ontem, sob protesto pacífico nas proximidades do Cemitério São Francisco Xavier – no dia da morte, um ônibus foi incendiado. Familiares acusam um policial de ter atirado no adolescente e de apontá-lo como um dos criminosos.

As mortes de pessoas que não estão ligadas ao crime somam números que crescem de forma acelerada no Rio de Janeiro. No último fim de semana, em cerca de 80 horas entre sexta e segunda-feira, outros quatro jovens foram mortos em ações no estado. A Polícia Militar chegou a afirmar que alguns deles eram suspeitos, o que foi negado veementemente pelas famílias das vítimas.

Gabriel Pereira Alves, de 18 anos, foi atingido no peito por uma bala às 7h de sexta-feira, enquanto aguardava em um ponto de ônibus na Tijuca, Zona Norte do Rio. Já na noite de sexta, em uma festa no Encantado, na mesma região da cidade, o soldado e paraquedista do exército Lucas Monteiro dos Santos Costa, de 21, foi morto enquanto bandidos invadiram o local atirando. Um amigo de Lucas, Tiago Freitas, 21, foi baleado na cabeça. Na segunda-feira, Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, de 19 anos, também foi atingido na cabeça durante um tiroteio na Comunidade Terra Nova. Ele ia recolher uma moto deixada para conserto numa oficina.

Pelas costas

Assim como tantos garotos que enfrentam a luta diária no futebol de base e buscam a tão sonhada profissionalização como jogador, Dyogo foi morto enquanto perseguia seu objetivo, no caminho de casa para o Centro de Treinamentos do América do Rio de Janeiro. A tragédia ainda envolveu o avô do menino, o motorista de ônibus Cristóvão Xavier de Brito, que passava próximo ao local do confronto e resgatou o neto agonizando. O jovem foi encaminhado à Policlínica do Largo da Batalha, onde morreu. Parentes disseram que o tiro que matou o rapaz entrou pelas costas e saiu na região da cintura. Eles pedem que o caso seja investigado e que os envolvidos sejam punidos pelo comando da Polícia Militar e pelo governo estadual.

No Instituto Médico Legal (IML) de Niterói, ainda com a camisa marcada pelo sangue do neto, o avô de Dyogo lembrou do trauma e comentou como foi o encontro com o policial na hora em que o garoto foi baleado. “Quando eu cheguei perto do corpo o policial falou ‘Para, para para’, e eu respondi ‘Para o quê, rapaz? Eu tinha reconhecido meu neto. Ele estava com a barriga para baixo. Eu falei ‘você matou meu neto. Ele ia para o Rio treinar’. Ele falou ‘seu neto é traficante’. O que ele tinha dentro da mochila era uma chuteira, R$ 85, que eu dei a ele para treinar e uma sandália de dedo”, comentou Cristóvão Brito. “Uma criança que eu peguei no colo quando nasceu e fui eu quem pegou no colo quando morreu, no chão, baleado”, disse à reportagem da Rede Globo.

Depois do enterro, centenas de pessoas acompanharam os familiares de Dyogo em um protesto pelas ruas do Bairro São Francisco, onde está localizado o cemitério. Muitas delas estavam com as camisas manchadas de tinta vermelha. Pacificamente, os manifestantes gritavam pedindo justiça e falando o nome do jovem, entre aplausos. “Que cada pessoa que está aqui não perca ninguém desse jeito. Quando alguém estiver assim, bem triste, pega suas mãos e põe lá no coração dele. Sejam do bem, não sejam do mau”, pediu a pequena Sofia, de 7 anos, irmã do adolescente.

A Polícia Militar disse que vai investigar as circunstâncias da morte de Dyogo e que só soube que o garoto havia sido baleado depois da operação. A corporação também investigará porque o policial militar teria afirmado ao avô do menino que ele era traficante. Já a Polícia Civil informou que foi instaurado um inquérito para apurar o caso e adiantou, em nota, que “familiares foram ouvidos e policiais militares também foram chamados para prestarem depoimento. Diligências estão sendo realizadas e as investigações estão em andamento”.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Mães alertam sobre fim do Mecanismo de Combate à Tortura nos presídios: ‘Vai morrer gente demais’

Ponte conversou com duas mães que lutam por melhores condições no sistema prisional de Ceará e Goiás, estados com mais torturas no país, para mostrar a importância do Mecanismo; há um mês, presidente Jair Bolsonaro exonerou todos os peritos do órgão

Alessandra Félix começou a lutar contras as violações de direitos depois de acompanhar as passagens de seu filho, Israel, no socioeducativo do Ceará | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo 
 
“Eu sou Alessandra Felix, mãe do Israel. Eu gosto muito de falar meu nome e sobrenome porque o racismo institucional me chama de ‘mãe do preso’. Então a gente precisa reafirmar o nosso nome e o nosso sobrenome e os nossos filhos também. Eu sou periférica, mulher negra, pedagoga, professora e mãe do Israel”, é assim que Alessandra começa a entrevista concedida à Ponte.
Alessandra Félix, 29 anos, é uma das mães do movimento Vozes de Mães e Familiares do Socioeducativo e Prisional do Ceará. Ela teve contato com o MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) durante as passagens de seu filho, Israel, 20 anos, em centros socioeducativos e no sistema prisional. Dos 14 aos 18 anos, o jovem passou por diversos centros socioeducativos. Aos 20, foi preso no sistema prisional. Alessandra sabe a importância do órgão e teme pelo seu fim.

Há exatamente um mês, em 10 de junho, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) exonerou todos os peritos do Mecanismo de Combate à Tortura. O MNPCT é responsável por investigar violações de direitos humanos em locais de privação de liberdade, como penitenciárias, hospitais psiquiátricos e abrigos de idosos. Entidades de direitos humanos denunciaram o decreto do governo à ONU, mas Bolsonaro não voltou atrás.

Nesse período de visitas à Israel, Alessandra começou a notar que ele estava passando por diversas violações de direitos. “A história que eu conto não é só minha, é de todas as famílias. A nossa pauta prioritária era garantir os direitos básicos para os meninos, como água, comida e visita. A gente queria visitar os nossos filhos e que parassem de espancar eles. Nesse contexto todo, os meninos começaram a sair e serem assassinados, então passamos a ter uma segunda bandeira, que era a bandeira da memória e da justiça. Começamos a falar que os meninos estavam sendo mortos”, explica Felix.

Percebendo o modus operandi do Estado, tanto no socioeducativo quanto no sistema prisional, Alessandra começou a mobilizar as famílias para que as denúncias começassem a aparecer. “Denunciamos para a Defensoria Pública, que entrou e não atestou tortura. Denunciamos para a OAB, que entrou e não viu nada. Denunciamos para o Ministério Público, que também não viu nada. Aí pedimos para que viesse o Mecanismo de Combate à Tortura”, relembra.

com a chegada dos peritos do MNPCT, os familiares começaram a ter apoio. “Eles conversaram com a gente e pelas nossas narrativas já sabiam o que iam encontrar. Foram lá, fizeram uma inspeção e viram, detectaram, atestaram, documentaram. São pessoas preparadas para isso. Que bom que eles vieram, porque hoje nós temos esse documento (leia aqui). Enquanto o portal de transparência do Estado mostra que está tudo bem, o Mecanismo mostra o contrário. Quem é que vai contrapor essa narrativa do Estado além do Mecanismo?”, indaga Alessandra.

Israel desenha como funciona o sistema prisional para mostrar para a mãe as violências do Estado | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo 
 
Para Alessandra, a educação de Israel foi institucional, já que ele passou a adolescência sob tutela do Estado. “Israel tem uma educação institucional. Hoje, para eu ver meu filho, eu atravesso dez portões – desde a entrada do presídio até chegar ele, são dez portões. Quando ele vem, ele vem com a bíblia e a mão na cabeça. O agente prisional aponta uma arma de cano muito longo ou para a cabeça ou para o peito de meu filho. Isso é uma memória muito viva. Eles são condicionados o tempo inteiro à violência”, diz a mãe emocionada.

Em Goiás, a situação dos centros socioeducativos e dos presídios não é diferente das prisões do Ceará. Há um ano, em maio de 2018, dez adolescentes foram queimados vivos no Centro de Internação Provisória, instalado no 7º Batalhão da Polícia Militar de Goiás. Assim como notificou o El País, o governo de Goiás reconheceu responsabilidade nas mortes e indenizará as famílias.

Lucas Rangel Lopes, 16 anos, estava entre as vítimas fatais. O jovem estava preso há 6 meses e vivia em uma cela superlotada, sem escola, banho de sol, roupas e muitas vezes material de higiene. O único benefício que os meninos tinham era jogar bola por 40 minutos, depois de realizar a faxina do presídio. Em entrevista à Ponte, a auxiliar de cozinha Luciana Ferreira Lopes, 34 anos, mãe de Lucas, conta que só teve acesso ao Mecanismo de Combate à Tortura depois da morte do filho.

“Até então eu só ouvia falar, não conhecia. Quando nossos filhos vão para lá, não temos nenhuma instrução de onde temos que ir, para quem podemos pedir apoio. As mães ainda não sabem quem são as pessoas, não sabem a quem recorrer. Ficamos sozinhas, abandonadas, sofrendo as humilhações de lá de dentro e não sabemos para quem falar”, conta. “Nossos filhos são agredidos lá dentro. Meu filho foi esfaqueado uma vez e eu não sabia para quem recorrer. A questão de maus tratos, de apanhar, ele sofreu isso e eu não sabia. Vim saber a quem procurar depois que o meu filho morreu”, afirma Luciana.

Lucas é um dos dez jovens mortos queimados dentro de um centro socioeducativo de Goiás | Foto: arquivo pessoal 
 
Lucas foi preso aos 16 anos acusado de roubar uma moto com um amigo. Foi a própria Luciana que levou o filho para a delegacia em novembro de 2017. Depois que Lucas foi encaminhado para o centro socioeducativo, a mãe o visitava uma vez por semana: toda quinta-feira, das 8h às 11h, a agenda de Luciana estava reservada para passar um tempo com o filho.

Luciana teme que, sem o Mecanismo, mais mortes podem acontecer. “Se com eles atuando já acontece tanta morte, tanta tortura, tanta agressão dentro dos presídios, tanto para menores de idade quanto para maiores, sem esse pessoal vão sumir pessoas. Vão ter mães que vão chorar e não vão ter um corpo para velar. Muito mais do que já tem. Sem o Mecanismo vai ser pior”, projeta. “Esse Mecanismo é um pouco de segurança que eles têm. Sem o Mecanismo… eu não desejo para ninguém o que eu passo, mas sem esse Mecanismo eu sei que muitas mães vão passar por tudo isso que eu estou passando. O Estado não nos ajuda, o Estado não nos ampara. Eles tiram os nossos filhos e tiram o nosso direito de exercer a nossa cidadania. Sem esse Mecanismo vai morrer gente demais. Muito mais gente”, suspira a mãe.
 
A história de Israel e Alessandra

Falar da história de Israel e Alessandra é falar também do atual cenário vivido atualmente dentro dos centros socioeducativos do Ceará, já que há seis anos o jovem vive dentro do sistema prisional. Para contar o todo, é preciso voltar em 2010, quando, aos 19 anos, Alessandra passou de irmã à mãe de Israel.

Israel foi adotado pela mãe de Alessandra quando vivia em uma situação de abandono e de violência. Com a sua morte, como os documentos da adoção ainda estavam em trâmite, Alessandra assumiu a responsabilidade e terminou o processo. Na cidade interiorana do Ceará, Ibiapina, que fica cerca de 300 km da capital Fortaleza, Alessandra se tornou mãe do pequeno Israel.

“Minha mãe era nossa base, era o equilíbrio de tudo. Com ela, eu poderia estudar e trabalhar e ele era a criança da casa. Quando ela falece tudo se torna muito mais difícil, pois eu trabalhava o dia inteiro como professora em uma escola e estudava de noite, fazia faculdade, estava no meu processo de formação em pedagogia”, conta Félix.

Alessandra Felix esteve em São Paulo para participar do segundo dia do Seminário Internacional Amparar | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo
 
“Com isso, Israel começa a ficar em casa sozinho, crescendo em um contexto muito ruim. Não se tinha nessa época facções criminosas como existe hoje no estado do Ceará, que é todo dominado, mas já se tinha gangues e tinham os meninos que usavam drogas. Mas eu precisava trabalhar, era mãe solteira e precisava dar uma qualidade de vida melhor para ele e para mim”, continua Alessandra.

Até os 13 anos, a rotina de Israel era estudar pela manhã e parte da tarde e esperar sua mãe retornar para casa de noite, depois da faculdade. Alessandra contava com a ajuda de vizinhos para ver se estava tudo bem com seu filho. Mas, aos 14 anos, a dinâmica das coisas mudou. Alessandra teve o primeiro contato com o Conselho Tutelar depois de Israel se envolver em uma briga na escola. Na mesma época, o menino decidiu procurar sua família biológica. Alessandra e Israel agora estão em Fortaleza, capital do Ceará.

“Ele nunca se afastou totalmente da família biológica, sempre teve contato com a mãe, com todos seus problemas, e eles se aproximaram mais. Aí foi quando tudo começou. Eu não justifico que tenha sido ela e nem atribuo essa culpa, mas a permissividade dela. Lá ele podia fazer tudo o que queria, estar com quem queria e fazer o uso do que queria, dificultou muito na educação que eu tentei propor, mediar para ele”, relembra Alessandra.

A primeira passagem de Israel pelos centros socioeducativos acontece nessa época, mas Alessandra só soube depois. “Ele foi apreendido e eu nem soube, ele passou o telefone de outra pessoa, falou que eu morava no interior e foi liberado. Ele tava promovendo bagunça com outros meninos. Na segunda vez, Israel estava cometendo pequenos furtos e foi encaminhado para o Semiliberdade Martir Francisca, que tem liberdade assistida, e foi a primeira entrada em centros socioeducativos”, explica.

Poeta, Israel usa as tampas das quentinhas para escrever poesias | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo
 
No mesmo período em que Israel começava a sua trajetória com o sistema prisional, Alessandra aprendia direitos humanos e lia sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) na faculdade. Até esse momento, Félix acreditava que o Estado estava ali para ajudar, mas percebeu que a realidade era bem diferente.

“Ele começou a ter contato com os meninos que tinham outras experiências dentro dos centros. É isso que os centros fazem. O Israel deu uma piorada no seu comportamento depois da estadia dentro dos centros, por causa das trocas que eles fazem, por conta do ócio, por conta das metodologias que não são alcançadas, a objetividade dos próprios centros”, explica a professora.

Pouco depois, em 2015, os centro socioeducativos de Fortaleza passavam por rebeliões severas por causa de maus tratos e das torturas. “Nesse período, os meninos estavam sempre sinalizando: a gente apanha, a gente passa fome, a gente passa sede. E nós, as mães, não acreditávamos muito naquilo, como que podia o Estado propor isso? Chegávamos lá e muitas vezes eles estavam machucados, eu cheguei a ver o Israel machucado, roxo. E eles falavam que não era nada. O Israel já chegou a me dizer que foi o orientador que bateu nele. Mas a gente achava que aquilo era normal, que era disciplina”, conta Alessandra.

Depois de duas grandes rebeliões, no centro São Miguel e São Francisco, um para jovens de 16 anos e o outro para 15 anos, respectivamente, em que os jovens quebraram os dois centros, Alessandra se deparou com a primeira morte. “Um guariteiro atirou contra um menino chamado Márcio e ele saiu entre a vida e a morte do centro. Os que não foram espancados, se esconderam. Foi ali que começamos a nos preocupar com o que estava acontecendo”, explica.

Como os centros foram destruídos, o Estado levou os menores para duas escolas de Fortaleza. “Fecharam as escolas e colocaram eles lá. Foi um fim de semana torturante. As pessoas vizinhas das escolas escutavam os gritos e os latidos dos cachorros enviados para conter os meninos. O Estado resolve, depois disso, mandar os meninos para um presídio em Aquiraz, que é onde contém todo o complexo de penitenciárias aqui do Estado. Israel foi para lá porque não tinha como superlotar os centros daqui. Ele estava com 16 anos nessa época”.
 
‘Em Aquiraz foi onde tudo começou’

Com a mudança de endereço, as visitas firam mais difíceis. A mães foram avisadas apenas quando chegaram na porta dos centros socioeducativos que seus filhos foram encaminhados para outro município, a cerca de 33 km de distância.

“Eles mandaram uma van para irmos a Aquiraz. Quando descemos lá, não passamos da porta do complexo de cadeias. Eles não permitiram. Ficamos tentando chamar a mídia para denunciar aquilo, tinha muita mãe chorando, muita mãe passando mal. Sabíamos que meninos tinham sido machucados. Nisso eu começo a entender que o Estado não nos acolhe, não nos dá informações”, relembra Alessandra.

Os jovens foram encaminhados para uma unidade militar em Aquiraz, que foi reformada com urgência para recebê-los. “Os banheiros não tinham sido concluídos, os meninos começaram a fazer suas necessidades dentro de quentinhas [o recipiente das marmitas]. Não tinha água na caixa d’água. Achamos que as coisas fossem melhorar, mas foi lá que toda a tortura, toda violação que eles poderiam passar foi piorada”, conta Félix.

Um dos desenhos de Israel mostrando para mãe como é a vida dentro do presídio | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo 
 
Nas visitas que se seguiram, Alessandra começou a não reconhecer mais seu filho. Foi nesse período que o adolescente mais teve contato com as drogas. “O Estado viciou o meu filho. Quando chegava lá, os meninos que não estavam drogados estavam dopados, não tinham uma direção. Foram colocadas ali pessoas na pressa para dar uma resposta. Foi um período muito ruim”, desabafa a mãe.

Em 2016, uma nova rebelião acontece depois que comidas azedas foram oferecidas aos jovens, que se revoltam e jogam as “quentinhas” fora. No dia seguinte vem a punição. “Trinta orientadores fizeram uma roda na quadra, abriram todas as vivências [celas] e espancaram os meninos. Foram 113 meninos machucados e o Israel foi um deles”, conta Alessandra.
 
Dos centros socioeducativos ao sistema prisional

Em 2018, aos 18 anos, Israel finalmente saiu de vez dos centros socioeducativos. Era a chance de começar de novo. Mas a realidade das ruas é outra: agora Fortaleza está tomada por facções criminosas, principalmente o CV (Comando Vermelho).

“Percebi que o Estado transformou meu filho em uma pessoa pior. Eu compreendi que ele precisava ser responsabilizado pelos atos infracionais deles, mas não da maneira que o Estado faz, que é na base do espancamento e da violação da própria identidade dele. O Israel chegou a tomar cinco tiros, mas graças a Deus ele sobreviveu a isso”, confessa Alessandra.
Com medo do filho ser assassinado, Alessandra manda Israel para o interior do Ceará. Durante meses, Israel procura por um emprego, mas sem sucesso. Para sobreviver, o jovem encontrava apenas bicos. Pouco tempo depois, Alessandra decide mandar o filho para o Rio de Janeiro, para morar com a tia. Mas, como também não consegue um emprego, aos 19 anos ele retorna para Fortaleza.

“Quando ele retorna, procuramos por muito tempo por um emprego. Tentamos impulsionar ele para muitas coisas, mas infelizmente, e eu culpo o Estado, existe uma polícia repressiva da minha cidade, onde não há equipamentos públicos de cultura que possamos acessar. Não há segurança para isso. Quando a polícia aparece é para reprimir, não para guardar a vida dos meninos. E com isso ficou muito difícil do Israel transitar. Eu fui pedir autorização para os donos do bairro, para as pessoas envolvidas com facção, pela vida do meu filho”, critica Alessandra.

Quando o Estado não chega, garante Alessandra, outros poderes chegam. Foi nessa época que o tráfico chegou na vida de Israel. “O Israel começou a usar novamente. Ele foi preso de novo, completou 20 anos dentro do sistema prisional. Aí eu levantei outra bandeira, porque os nossos filhos, a geração de 2013, 2014 e 2015, eles todos, os que não foram assassinados migraram para o sistema prisional. Eu hoje sou uma mãe do sistema prisional”, lamenta.

O maior medo de Alessandra é que Israel vire um homem faccionado. “Se ele se faccionar é como se eu tivesse perdido essa luta para o Estado. Se faccionar dentro de um presídio é uma questão de sobrevivência, porque o Estado não te garante segurança, não te garante nada”, conta.

Para evitar isso, Alessandra pede para o filho usar todas as suas energias nas poesias. Como não há papel lá dentro, o jovem usa as tampas das quentinhas para escrever. É pelo afeto que Alessandra, e muitas outras “mães do enfrentamento”, tentam recuperar seus filhos.

Israel usa as tampas das quentinhas para escrever suas poesias | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo 
 
“Quem conhece um presídio é quem mora dentro de um, quem trabalha e quem visita. Fora isso, ninguém tem autorização ou propriedade de fala para dizer o que se passa lá”, defende Alessandra. “Vemos esses meninos crescendo, acompanhamos o processo de escolarização, queremos que eles sejam pessoas boas. Mas, infelizmente, eles desviam suas condutas. Isso não se apaga das nossas memórias, do nosso coração”, lamenta. “Talvez seja nesse momento que a gente mais se aproxima porque é o momento em que eles mais estão precisando da gente. Eu o amo incondicionalmente. Eu sei que sou uma luz na vida dele, porque nós, as famílias, somos a única humanização que uma pessoa privada de sua liberdade tem”, conclui.

Fonte: ponte.org/