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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

“Eu não quero ser a sua amiga”: A Precariedade do Afeto na Vida de Mulheres Pretas

A violência e estereótipos que minam nossa afetividade.
 
Ilustração por: Ojo Agi Shop

“Tenho a impressão de que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo. ”
– Carolina Maria de Jesus

Amor. Respeito. Afeto. Companheirismo.

Tais palavras lhe soam familiar? Obviamente, sim. E se eu lhe contasse que, apesar da extrema familiaridade, muitas mulheres jamais conheceram e vivenciaram seu real significado?

Infelizmente, não trata-se de um eufemismo, mas sim, uma afirmação real e confirmada através de dados estatísticos:


“No último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, dados sobre a mulher preta brasileira chamaram a atenção. O levantamento apontava que, à época, mais da metade delas — 52,52% — não vivia em união, independentemente do estado civil. ”

– Fonte: Revista Fórum

“As mulheres pretas chefes de famílias com até um salário mínimo de

rendimento são de 60%, revelando uma escolaridade mais baixa. Já as famílias

chefiadas por mulheres que recebem três salários ou mais, a presença das

mulheres pretas reduz para 29%. ”
– Fonte: Mulher Negra, Dados Estatísticos

“Dados da Central de Atendimento à Mulher relativos ao ano de 2013 apontam que 59,4% dos registros de violência doméstica no serviço referem-se a mulheres pretas. ”
– Fonte: Agência Patrícia Galvão (Violência e Racismo)

“O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014, eram pretas. E 62,2% dos homicídios de mulheres, vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%).”

– Fonte: Agência Patrícia Galvão (Violência e Racismo)

Torno a fazer outro questionamento:

Há algo em comum entre as mulheres catalogadas nas estatísticas, afora as condições inferiores as quais são submetidas?

Praticamente todas são: pretas.
O princípio da solidão

Desde os primórdios da sociedade brasileira, mulheres pretas têm constituído o elo mais fraco da corrente social. Trazidas da África para serem escravizadas; perderam direitos, família, amigos e boa parte de sua expressão cultural, religiosa e social. Tais acontecimentos não ocorreram somente em Brasil.

As escravizadas, em geral trabalhavam arduamente em lavouras e plantações, tal qual os homens. Entretanto, também serviam aos seus alvos senhores nas Casas Grandes. Havia divisão de trabalhos: algumas serviam aos cuidados domésticos, outras, aos cuidados das crianças e todas, sexualmente vinculadas, estavam sujeitas aos caprichos dos senhores e até mesmo, de outros escravizados. Creio eu, que neste ambiente caótico, torturante e repressivo, não havia o mínimo espaço para amor ou bons sentimentos. O menor deslize era o suficiente para suscitar castigos brutais. Afora afazeres domésticos e serviços como “amas de leite”, as mulheres pretas também eram o útero da servidão. Comumente estupradas, pariam os futuros trabalhadores de lavouras aos montes. Isso quando não provocavam abortos, para livrar suas futuras crianças de uma existência completamente miserável. As mais “bonitas” eram forçadas a tornarem-se concubinas de seus senhores, muitas vezes, parindo filhos mestiços que seriam renegados por seus “pais”.
 

Um dos pilares da violência sofrida por mulheres pretas em tal período, era o ódio que despertavam em suas senhoras. Eram intensamente punidas por motivos fúteis, baseados na frustração sentida pelas mesmas, ao saber que seus maridos preferiam as escravizadas em práticas sexuais, sem ao menos considerar o fato de que tratava-se de estupro. Não obstante, algumas serviam de acompanhantes para suas senhoras, o que não tornava-as imunes a maus tratos.

Mulheres pretas foram submetidas à uma existência de completa servidão física e mental ao patriarcado branco, durante 358 anos de nossa história. Certamente, haveria sequelas.
 
Os Dias Atuais

As consequências de tais abusos perduram em nossa sociedade até o tempo presente. Mulheres pretas ainda são o elo mais fraco da corrente social. Saímos das senzalas e migramos para as favelas. “A escravizada” torna-se “a pobre”, a experimentar mais uma vez hostilidade, crueldade e marginalidade. Pesquisas comprovam que no Brasil, a maior parcela de mães solteiras sustentando seus filhos com um salário mínimo, ou menos, é constituída por mulheres pretas. Somos aquelas que saem para trabalhar precocemente, muitas vezes, as que cresceram sem a presença masculina em suas casas. Não é preciso ir tão longe para deparar-se com tal realidade. Qual de nós não possui uma avó, tia, prima ou sobrinha de pele escura que, por alguma razão, sustenta ou sustentou os filhos sem a presença masculina em seu lar? E foram abandonadas por seus maridos, à própria sorte? Vivemos a precariedade do afeto, ainda em nossa infância e em nossos lares.

A opressão sofrida por mulheres pretas é estritamente maior, pois, além do machismo, somos oprimidas pelo racismo institucional instaurado na sociedade. Não afeta somente as oportunidades de ascensão social, mas também, nossa afetividade, constantemente. Remontando o período colonial, nossos corpos ainda são sinônimo de sexo fácil, animalidade e ausência de sentimentos. Somos cobiçadas por conta de nossas coxas, bundas voluptuosas, lábios carnudos e silhuetas. A carne fala mais alto do que nossa humanidade, nesta sociedade em que valemos praticamente: NADA.

Somos preteridas, pois, homens e mulheres aprendem desde a tenra infância a adorar a beleza eurocêntrica e detestar aquela que advém de origem africana. Os traços finos, a pele branca, cabelos lisos e olhos extremamente claros, são exaltados. Enquanto traços africanos tornam-se motivo de chacota, vergonha e humilhação. Nossos contornos são considerados indesejáveis, ao menos que estejam no corpo de uma mulher branca. O que constitui uma enorme contradição, afinal, apesar do desejo exacerbado sobre nossos corpos, há um ódio descomunal sobre nossas origens. Este ódio não cega somente brancos, mas também, os pretos que por questões socioculturais acabam por preferir relacionar-se com mulheres brancas, a fim de conseguir ascensão social e “embranquecer” suas famílias. Na maioria dos casos, muitos passam a vida sem jamais relacionar-se seriamente com uma mulher de mesma cor e jamais percebem.

Para este artigo, entrevistei algumas mulheres, explanando assim uma realidade material a qual todas nós estamos sujeitas. Esperei as mais variadas respostas, no entanto, surpreendi-me ao perceber que todas possuíam, praticamente, pontos que partiam do mesmo pressuposto:


“01 — Você já se sentiu rejeitada por ser uma mulher preta?
02 — Já sentiu que homens a buscavam para sexo, mas não para relacionamentos duradouros?
03 — Já se relacionou com homens pretos e/ou brancos?
04 — Quais diferenças notou entre ambos?
05 — Já se sentiu pressionada pela sociedade em relação a sua sexualidade? ”

Essas foram as respostas de algumas das moças entrevistadas:

“sim, a todo momento. Sempre fui a pessoa que servia pra ser amiga, enquanto as meninas brancas serviam pra ser namorada, mesmo não sendo parceiras.”

“Sim, eu era objetificada inclusive durante um relacionamento. Era a “puta”, enquanto ele se encantava pelo “charme e delicadeza” de outras mulheres brancas.”

“demorei a entrar em um relacionamento sério”

“era hipersexualizada por ambos, preterida por ambos, escondida por ambos, porém senti dos caras pretos a negação em se ver como pretos, onde automaticamente não assumiam sua cor, se embranquecendo a todo momento (nitidamente fruto do auto-ódio.)”

“homem branco é racista e cego pelo privilégio, homem preto é vítima do racismo e tenta se embranquecer o máximo por conta disso. inclusive já me relacionei com homem preto retinto que enxergava em mim uma oportunidade de clarear a família, isso claramente porque não conseguia uma branca então uma preta de pele clara é o que tinha.”
“Eu não quero ser a sua amiga”: O estereótipo da amiga preta

“Sempre fui a pessoa que servia pra ser amiga, enquanto as meninas brancas serviam pra ser namorada.”
– S. G. (Entrevistada)
Essa frase remete-nos a um dos estereótipos mais nocivos à afetividade de mulheres pretas. Como é de se notar, em diversos filmes, séries, animações e novelas com algum protagonismo feminino, este arquétipo sempre, ou quase sempre, faz-se presente: “a amiga preta”. Geralmente, trata-se de uma personagem que a todo momento fica à sombra da protagonista branca. Ela possui uma personalidade subdesenvolvida na trama, praticamente nenhuma autonomia, comportamento caricato, e geralmente acaba sozinha, enquanto a protagonista branca vive uma intensa história de amor.
 
Ritinha e sua amiga Marilda em “A Força do Querer”.
 
Charlotte, ( no centro), acompanhada de suas amigas Tai ( a esquerda) e Dionne ( a direita) para o filme: “Clueless”.

Na vida real, não é diferente.

A maioria das meninas pretas passam por tal situação em sua adolescência. Não importa o quão bonita, interessante, afetuosa ou inteligente você seja; nunca será páreo para aquela menina loira e branquinha pela qual todos os meninos pretos, brancos e não-brancos derretem os corações. Sentimos isso em nossa pele ainda nas primeiras paixões e esse estigma, infelizmente, acompanha-nos até o fim da vida. Tal situação transforma um período de descobertas essencial ao ser humano, em uma ferida aberta e visceral que, talvez, jamais feche-se. Sonhamos com um amor construído socialmente, que negam-nos a todo instante. Enquanto nossas amigas brancas ou de pele clara saem constantemente, namoram e são tratadas de maneira diferenciada pelos rapazes, somos preteridas e silenciadas.

Um exemplo real o qual podemos citar, é a atriz global Taís Araújo. Como sabemos, Taís é considerada uma mulher belíssima e nos dias atuais é extremamente aclamada por sua aparência. Porém, através de seus relatos ao site Gshow a respeito de sua relação com os demais durante a adolescência, percebemos que não trata-se do quão bonitas somos ou podemos ser, mas sim, da cor de nossas peles:
 
“Estudei a vida inteira em um lugar no qual a maioria das pessoas era branca. Só que eu era aquela que não namorava ninguém no colégio, nem no condomínio. Para dar meu primeiro beijo, tive que ir à Bahia. Eu até trabalhava como modelo, era considerada bonita, mas ninguém queria me namorar. Ou não tinha coragem. Sofria, né? ‘Eu gostava dos garotos, eles que não gostavam de mim’”
— Taís Araújo.

O preterimento intensifica-se quando vivemos em ambientes majoritariamente brancos. A todo momento, atitudes e posicionamentos teimam em recordar-nos de que estamos em um patamar o qual “não pertencemos” e jamais nos permitirão pertencer.

As moças de pele clara, “são para casar”, construir família e vivenciar relacionamentos. Nós, “somos para transar”, viver dissolutamente em prol do prazer masculino, para posteriormente ser descartadas e terminar nossas vidas criando filhos de homens que simplesmente abandonaram-nos. Muitas vezes, somos relegadas tão somente à amizade. Quando nos relacionamos socialmente com rapazes, veem-nos como boas amigas, mas, jamais cogitam a possibilidade de estarmos ali, como parceiras. Já outros, nos buscam, quase desesperadamente, para o sexo sem compromisso. Toda menina preta já ouviu algo como: “vocês são as mais quentes”, “vocês são mais gostosas”, “essa pele da cor do pecado me deixa louco”. Somos impossibilitadas de experimentar uma vida sexual e afetiva saudável. Na maioria das vezes, ou nos reprimimos, ou acabamos na cama de algum babaca.
 
Tradução: “Meu nome, com toda a certeza não é Maldita Vadia Preta.”. Imagem retirada da série: “she’s gotta have it”.
Considerações Finais

Essa sociedade doentia sexualiza-nos de maneira cruel, com destaque para as meninas que estão em situação de pobreza. Desde os 10 anos ou até menos, muitas eram e ainda são ensinadas a utilizar shorts minúsculos e agir de maneira provocante e permissiva. Nos doutrinam para apreciar tal tratamento, reproduzi-lo para outras meninas e o aceitarmos sem jamais questionar. Enquanto os homens, sempre foram ensinados que a cor de nossa pele é um passe livre para o abuso, estupro e pedofilia. Nunca para o amor. Independente de como você seja. Ensinam-nos que essa prisão constitui liberdade, quando verdadeiramente, apenas estamos apreciando nossa própria opressão.

Nosso sofrimento, assim como a solidão, é estrutural. Sim, meus caros, não trata-se de uma simples “preferência” quando você excluí mulheres pretas do seu hall de relacionamentos sérios, amizades e afetos sociais. Mas sim, uma construção social excludente que fixam em nossas mentes desde a infância. Mulheres pretas são lindas, inteligentes, possuem sentimentos, são companheiras, amigas e boas pessoas, como qualquer outra mulher pode ser. Não somos inferiores, não somos pedaços de carne em exposição e não estamos aqui para satisfazer ninguém. Precisamos desconstruir anos e anos de estereótipos nocivos que minam até os dias atuais a afetividade de mulheres pretas. Pois, merecemos vivenciar o amor, em toda a sua plenitude.


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by
Yasmin Morais

Escritora baiana, atriz e discente em Jornalismo na UFBA. Siga meu blog literário: minhadoceparanoia15.blogspot.com
 
Fonte: medium

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Campanha #EuPareçoCientista tenta quebrar estereótipos de profissionais - #hashtag


por Mateus Camillo,
Como é um cientista pra você?

Provavelmente a primeira imagem que vem à cabeça seja a do físico alemão Albert Einstein. Um homem branco, velho, talvez com cabelo desgrenhado.

Uma campanha no Twitter quer mostrar que não é bem por aí.

Não existe uma identidade única de cientistas. São inúmeros profissionais pelo mundo de cores, idades e origens socioeconômicas das mais diversas. Os temas estudados também são amplos, seja nas exatas, humanas ou biológicas.

O movimento começou em inglês (#ILookLikeAScientist) e ganhou uma versão brasileira, a #EuPareçoCientista.

Cientistas publicam uma espécie de mini biografia, com nome, profissão, área de pesquisa e curiosidades e hobbies.

A hashtag chegou a virar um dos assuntos mais comentados durante a semana passada.

Confira algumas publicações, com curadoria da minha colega de Folha Sabine Righetti, professora e pesquisadora da Unicamp.
Eu sou Paulina e #EuParecoCientista
Formada em Física Biomolecular, trabalho em Materiais, primeiro em processamento de materiais a laser (LIFT) e agora, no mestrado, com caracterização e análise de Biomateriais (corais!); sou maluca por extracurriculares e sou atleta. pic.twitter.com/6dd3aJr9BW
— ZIKAtômica 2020 (@zikafrom802) January 9, 2020
Sou a Fernanda e #EuParecoCientista
Me graduando em Astronomia, estudo como umas estrelas nervosinhas afetam o disco de gás que elas cospem.
Tbm gosto de fazer uma divulgação com um pessoal daorinha.
Minha alma foi vendida pros animais, em especial esses dois, Fredy 🐕 e Duque 🐎 pic.twitter.com/F35vKLu3jp
— Fernanda Nogueira (@febanog) January 9, 2020
Meu nome é Andressa e #EuParecoCientista . Sou Física e faço mestrado em Eng. Aeronáutica. Pesquiso sobre redução de ruído em aeronaves, para que a população que mora em regiões de aeroportos não sofra mais com estresse, perda de audição, hipertensão e baixa produtividade. pic.twitter.com/RVaymYEpLq
— andy (@FISlCAT) January 8, 2020
#EuPareçoCientista Sou Jeferson, sou mestre em Ciências farmacêuticas e doutor em microbiologia e imunologia. Estudo o perfil epidemiológico de bactérias e fungos multirresistentes e também analiso potenciais bioativos antimicrobianos em extratos vegetais . pic.twitter.com/FmzzUOck2m
— Jeferson Jr Silva (@JefersonJr6) January 8, 2020
Me chamo Ismael e eu #EuParecoCientista sou Eng°Agrônomo, especialista em Geotecnologias e Recursos Naturais, mestrando em Ciências Ambientais e estudo agricultura familiar em assentamentos de reforma agrária na região do Sudeste Paraense. pic.twitter.com/sPJgddIQIR
— Ismael Amorim (@mael_amorim) January 9, 2020
Me chamo Marla e #EuParecoCientista, sou Eng de Produção, faço especialização em Gestão da produção industrial e sou mestranda em Ciências Ambientais. Eu estudo cooperativas com modelos de economia extrativista de base sustentável na Amazônia, p/ o avanço de uma economia circular pic.twitter.com/seEDsAvkSe
— Marlandra (@marlandraa) January 9, 2020
Sou Brenda e #EuPareçoCientista
Sou formada em Química e doutoranda em Nanociências e Materiais Avançados. Estudo novos materiais semicondutores pra utilização fotoeletrocatalítica em células solares pra incentivar e tornar acessível o uso da energia solar (que é limpa/renovável) pic.twitter.com/8UnhC82B3Z
— lili carabina (@BrendaaaLima) January 9, 2020
Até o reitor da Unicamp entrou no movimento.
E entrou para o Moments do Twitter
Quem começou a campanha no Brasil foi a astrofísica Camila de Sá Freitas, mestranda do Observatório do Valongo, da UFRJ.
— C. Esperança - tentando virar mestre de galáxias (@safreitas_c) January 7, 2020
Cara de maluco antissocial? Bem longe de ser verdade, escreveu Camila.
Eu estou dando rt em cientistas que usam a tag #EuPareçoCientista pra vocês verem que o esteriótipo do cientista como um cara maluco não social não prevalece! hahahah
Espero que vocês tenham achado bastante gente bacana pra seguir, são muitos trabalhos legais!!! https://t.co/25yyVyJxxd
— C. Esperança - tentando virar mestre de galáxias (@safreitas_c) January 8, 2020
Lembrando que a pasta de Ciência tem sido uma das mais afetadas com cortes de verba na gestão Jair Bolsonaro, colaborando para aumentar a fuga de cérebros no país.

A ciência tem papel fundamental no desenvolvimento de uma nação. Como vimos nos exemplos acima, são estudados muitos temas complexos que resultarão no progresso da sociedade brasileira.

Fonte: blogfolha

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Estereótipos racistas e Eleições


A BBC News Brasil fez uma notícia sobre “A batalha entre católicos e evangélicos pelo domínio dos Conselhos Tutelares”. As eleições para os Conselhos Tutelares é apenas mais uma das disputas de cargos de poder que os segmentos religiosos cristãos estão disputando. Toda eleição há essa disputa e cada eleição o voto de cajado só aumenta.

A influência de líderes religiosos sobre a vida e a opinião de seus fiéis é inegável. A indicação de candidatos por esses líderes se mostra muito eficaz e vemos isso no aumento das Bancadas religiosas a cada eleição. É normal da democracia representativa escolhermos aqueles que mais se aproximam dos nossos valores e filosofias, mas só é justo quando todos tem essa mesma escolha. O que não é o caso do Brasil.

Saindo das eleições pro Conselho Tutelar e indo para eleições mais amplas. Saindo por um momento da categoria religião e indo para povo.

Não há candidatura avulsa/independente no Brasil, o que significa que para ser político você deve ser filiado a um partido e esse partido te escolher como candidato. Isso mesmo, o partido escolher. Aos cidadãos cabe escolher apenas entre as opções que o partido oferece. E ao candidato que você teve acesso, é claro! Porque investir mais ou menos na campanha de um candidato para ele ter a visibilidade necessária para ganhar votos suficientes, também é uma escolha feita de cima para baixo.

É assim que se formam e se mantem Elites Políticas. Mas ainda tem um porém para essa Elite Política ainda continuar sendo de maioria masculina, mesmo com tantos avanços do feminismo. Ainda tem um porém, que mesmo com cotas para mulheres, só aumente a presença de mulheres brancas. Ainda tem um porém que apesar da esquerda chegar ao poder, ainda continuam sendo maioria de homens e mulheres brancas nos cargos de poder de um país de maioria negra.

Não é atoa que os grandes intelectuais negros sempre falaram: Entre direita e esquerda, continuamos negros!

O racismo estrutural, o sistema político de supremacia branca (Mills, 1997), se retroalimenta através de ferramentas colonizadas e colonizadoras disfarçadas de democráticas. E obtém esse sucesso com a criação de estereótipos. Principalmente dos estereótipos racistas. Patricia Hill Collins, Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento nos ajudam a entender essa dinâmica.

Os clássicos que teorizam Elites Políticas apresentam várias características do que foi ensinado para a sociedade do que é aceitável num perfil de um representante, coincidentemente todos estereótipos do que o homem branco cis diz ser. Varia pra cada país, mas ser racional, conhecimento acadêmico (principalmente jurídico e econômico), ser da religião dominante, por exemplo, estão sempre valorizados.

O racional já foi usado muito para deixar mulheres de fora da política, sob a desculpa que são muito emotivas. Agora, temos políticas “de família”, que justifica a presença das mulheres (brancas).

Muitos estereótipos de classe e gênero foram quebrados. Trajetórias de superação tornaram-se capital político. Mas é impressionante como ajudam a colocar mais brancos no poder.

Quando discutimos padrões de beleza. Quando ficamos puto por cada personagem negro de novela ou literatura que só fazem papel de marginal, de amante ou de malandro. Quando lutamos por negros como ancoras de jornal ou por negros não só aparecerem no jornal na parte policial. Quando lutamos por cotas nas universidades e nos serviços públicos. Não é só uma luta para que a próxima geração possa sonhar com um futuro. Não é só para a professora corrigir os racismos presente nos livros de história e nem só o juiz negro diminuir a seletividade penal. É também mudar os estereótipos racistas que colocam o negro como inferior, como irracional, como se não tivéssemos “mérito” para representarmos uma população que é 54% negra.

Os parlamentares negros e negras que temos são as exceções que confirmam a regra. São a prova do esforço e resistência dos movimentos negros num trabalho de base de conscientização. E ainda são barrados por seguranças, porque o manual da Elite Política não estava preparado para elas e eles quebrarem essas barreiras. Isso quando eles não são obrigados a embranquecer seus discursos e lutas pra chegar lá. Porque a pauta que os políticos brancos defendem, que mantem o status quo da supremacia branca é “neutro”, já os dos negros e outras minorias é pauta “identitária”. (Ainda vamos ter um primeiro presidente negro, eleito pela direita, que nega o racismo).

Mas o Brasil é o país da democracia racial. Da política do embranquecimento. Do discurso da miscigenação. Onde a direita nega que há racismo e a esquerda diz que é questão de classe. Em outras palavras: Está tudo velado.

Então vamos voltar a falar de “religião”, para exemplificarmos com casos mais próximos de todos o que é essa escolha de candidatos, de políticos e de políticas públicas que os estereótipos influenciam.

“Chuta que é macumba”, “doce de Cosme e Damião é veneno”, “eles sacrificam animais domésticos”, “eles cultuam o diabo”. O Ensino Religioso nas escolas é facultativo, mas na prática é quase obrigatório. Sempre esteve presente no ensino brasileiro e sempre foi uma doutrinação cristã. Doutrinação essa que a séculos coloca na cabeça de cada futuro cidadão os esteriótipos negativos sobre afro-religiosos.

Quando um padre ou um pastor se candidatam, é a imagem de um líder que da literatura a novela mostram como alguém boa, que pensa nos outros, que ajuda aos mais pobres. Quando é um afro-religioso, é a imagem do adorador de demônio que vem. Os partidos sabem disso e sabem que quem mais vai atrair voto pro partido é o padre e pastor.

Eleitos, o padre e o pastor vão fazer políticas que beneficiam seus grupos. Políticas como Ensino Religioso confessional que diz que só eles são dignos e bons. As vezes não precisa ser pastor ou padre, só cristão já basta para beber dos estereótipos. Aí você faz políticas que permitem missões missionárias em povos tradicionais, tira recursos de pesquisas e projetos que vão contra os valores da Igreja (tipo pregação do Escola Sem Partido), tira recursos da saúde e da educação e abre caminho para a Igreja chegar onde o Estado não está indo e garante assim mais votos pra quem a Igreja indicar. Porque a Igreja, pro cidadão comum, ela sabe chegar e ajudar, logo seus candidatos também saberão.

Não se enganem, eu cito religião, mas estamos falando de estruturas de valores morais e filosóficos de povos e comunidades.

É só transferir essa lógica para o estereótipo do homem negro estuprador. Da mulher negra barraqueira. De ambos serem mais “animalizados do que racionais”. Estereótipos que servem tanto para criminalizar esses corpos (assim como foi para criminalizar a religião deles), quanto para lhes negar acesso aos espaços de poder que poderiam mudar essas imagens com política pública. Transfere essa lógica para os estereótipos dos LGBT. Transfere pro estereótipo do indígena preguiçoso ou que precisa ser tutelado.

É necessário compreender os padrões estéticos, o papel da literatura e da TV na manutenção da Elite Política. É necessário compreender que quem sempre esteve no poder desse país, a branquitude, nos influencia diariamente para mantê-los lá. Quando eles escolheram esse sistema política, quando escolheram os valores e morais dignos, quando fizeram as leis (e quais corpos e cultura iriam criminalizar), quando definiram o que era bem estar e o que seria bem comum, eles não escolheram pensando nos não brancos que não estavam presente. Escolheram para os não brancos nunca estarem.

São mudanças estruturais gigantescas que esse país precisa. Reforma no Sistema Penal. Reforma na Educação. Reforma na Comunicação. Sem dúvida uma Reforma Política que proponha uma lista fechada com cotas de etnia e gênero. Mas por enquanto, podemos começar votando em Conselheiros Tutelares negros e negras, de preferência que não sejam fundamentalistas religiosos.

MILLS, Charles W. The racial contract. Cornell University Press, 1997.

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Written by
Nailah Neves Veleci
Ìyàwó Ọmọ Ọ̀ṣun, Embaixadora da Juventude UNODC, cientista política, advocacy e ativista acadêmica de Política, Direito e Relações Raciais
Fonte: medium