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segunda-feira, 15 de julho de 2019

'Olhos que condenam' é a série mais vista da Netflix, desde a estreia


Netflix não revelou dados exatos de audiência da série
  
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Todos os episódios da série 'Olhos que condenam' estão disponíveis na Netflix (foto: Netflix/Divulgação)


A nova série da Netflix Olhos que condenam (When they see us) está há duas semanas no ar e é a série mais vista desde a estreia, no serviço de streaming estadunidense.


Nas redes sociais, o streaming divulgou um marco da produção. “When they see us foi a série mais assistida na Netflix nos EUA todos os dias desde que estreou em 31 de maio”, publicou o perfil oficial.


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A diretora da produção Ava Duvernay, que dirigiu o filme Selma: Uma luta pela igualdade e o documentário A 13ª emenda, agradeceu a audiência via Twitter. “Em nome de todos os artistas que fizeram essa série, obrigada por assistir”, postou.






A trama é baseada em uma história real e traça o panorama da vida de cinco jovens negros que moravam no Harlem e foram acusados injustamente de estuprarem uma mulher no Central Park. Eles só foram inocentados em 2002, depois que evidências de DNA comprovaram que o grupo não estava conectado ao brutal crime contra Trisha Meili. Assista o trailer:





Fonte: correiobraziliense

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Rael - Bença Mãe


BençaMãe | 🎶 O Rael lançou essa semana o clipe de seu novo som, Bença Mãe. O clipe homenageia as diversas faces das lutadoras que resistem e lutam por um futuro melhor para elas, para nós e para as futuras gerações. Assistam:



Confiram a letra:
 
"Que seja só amor e fé Sol e calor pra quem quiser Cores de oxumaré Mãe que é benzedeira Tem planta curandeira Mãe d’água cachoeira Forte igual capoeira Mãe de toda maneira Devo minha vida inteira Pra você Mãe d’água Mãe do vento Mãe do movimento Mãe de nascimento Mãe de sentimento Mãe do amanhecer Cada linha, cada traço Cada verso de compasso Como forma de abraço Para lhe agradecer E essa semana Seja abençoada de axé, mama Que todos possam ter mais amor, grana E seja lá como Deus quiser, mama Natureza mãe que me criou Mãe que é benzedeira Tem planta curandeira Mãe d'água, cachoeira Forte igual capoeira Mãe de toda maneira Devo minha vida inteira Pra você Oh mãe, oh mãe, oh mãe É terra, semente Mãe do sol nascente É luz reluzente Vem curar minha mente, mãe Faça dessa canção ritual Que pros aflitos seja paz espiritual Ó, mãe que me encanta Sua beleza é tanta Natureza é santa Medicina é planta Pra espada, escudo Se fechou, destranca Foi você quem disse “se cair, levanta” Olha, eu te prometo que vou ter cuidado Você sabe, preto tem que ter dobrado Me mantenha vivo, me mantém blindado Pra que eu leve amor pra tudo que é lado Mãe que é benzedeira Tem planta curandeira Mãe d'água, cachoeira Forte igual capoeira Mãe de toda maneira Devo minha vida inteira Pra você Eu quero que essa pergunta vá, para perguntar ao governador quando é que a polícia dele vai parar de matar trabalhador e pai de família? Quando? É isso que eu quero saber, quando? Quando? Quando isso vai acabar? E essa semana Seja abençoada de axé, mama Que todos possam ter mais amor, grana E seja lá como Deus quiser, mama Natureza mãe que me criou E essa semana Seja abençoada de axé, mama Que todos possam ter mais amor, grana E seja lá como Deus quiser, mama Natureza mãe que me criou E essa semana Seja abençoada de axé, mama Que todos possam ter mais amor, grana E seja lá como Deus quiser, mama Natureza mãe que me criou".

 Fonte: Rael

O racismo e o sofrimento psíquico

(Foto: Imagem retirada do site GGN)
 
O Banzo é o sofrimento psíquico de quem não pertence e não se pertence. Dos despossuídos de voz, estética e inteligência. Não por não as ter, mas por não se lhes permitir ter.

Por Marcia Noczynski e Cristiane Alves,
Falar sobre sua dor, num mundo onde se espera hegemonicamente que se conte sobre seus sucessos e vantagens, é um terreno fértil para a emergência do sofrimento psíquico. Você já deve ter vivido a experiência de se queixar de algo para alguém, confiando completamente a sua dor àquela pessoa, e obter como resposta, ‘ah, mas isso não é bem assim, você está exagerando, deixe de se vitimizar.’

Quem já sentiu na pele essa desautorização do sofrer, sabe do que estou falando. O sofrimento psíquico, não tem um nome que o defina. E quando não há um nome validado para o que se sente, é quase certo que quem escuta não acolha aquele sofrimento, não o legitime. Quando alguém conta que está com câncer, por exemplo, que é uma doença socialmente reconhecida como geradora de sofrimento, é fácil e simples que as pessoas se solidarizem com quem sofre. Ou se você disser que tem depressão ou síndrome do pânico, patologias reconhecidas inclusive pelas ciências, é possível que algumas pessoas acolham a sua dor. É importante mencionar que quando falo sobre sofrimento socialmente reconhecido, estou implicando o Estado nesse reconhecimento.

Agora, se você contar que foi vítima de discriminação e preconceito, que foi humilhado, hostilizado, ofendido, que se sentiu perseguido ou foi agredido, aí são outros quinhentos. Esse tipo de sofrimento depende do reconhecimento do outro. Depende da leitura que será feita da narrativa de quem sofre. Depende basicamente do lugar que o corpo social dará a esse sofrimento. Se a dor narrada não tiver sido reconhecida no tecido social, ninguém vai se ocupar dela, o estado não vai cuidar, as instituições jurídicas não vão defender, a escola não vai abordar, o sistema de saúde não vai atender, estrangulando ainda mais a possibilidade de se libertar daquele sofrimento.

Esse preâmbulo é para falar de racismo. O racismo nosso de cada dia. Se o sofrimento psíquico demanda reconhecimento para ser tratado, como ficam as pessoas que sofrem por serem vítimas de racismo? Não consta no DSM5 a descrição desse sofrimento. Muito raramente é tema nas grades curriculares das escolas, menos ainda nas instituições de ensino superior. Não há campanhas nas grandes mídias que esclareçam essa forma de sofrimento.

O máximo que se tem de divulgação sobre o sofrimento que as pessoas, a partir da cor de sua pele, padecem, são os casos midiáticos de tragédias envolvendo essa população. Ainda assim, são mostrados apenas quando a tragédia é suficientemente interessante para dar audiência. Nunca a dor das pessoas é tratada com seriedade e compromisso ou é associada ao racismo. As políticas públicas não se ocupam disso.

As experiências de quem desde criança é discriminado pelo tom de sua cor de pele vai moldando seu modo de sofrer. A formação da nossa subjetividade é atravessada pelas experiências inaugurais com o outro, determinando de que forma, mais tarde, vamos lidar com as dificuldades, os conflitos e as perdas. Quem sofre com o racismo desde o nascimento, ao vivenciar a discriminação dos pais, dos familiares, dos antepassados, tem a sua subjetividade esculpida por essas experiências e sua compreensão de mundo terá como pano de fundo a violência do que viu, ouviu e sentiu.

O racismo rasga e invade todas as dimensões da existência e se materializa no dia-a-dia de quem sofre toda sorte de estigma, de discriminação e injustiça sem que sua dor seja reconhecida, inscrita e por isso mesmo não considerada ou tratada.

Por outro lado o negro sabe qual a sua dor. Desde que conheceu a opressão colonialista o Banzo ganhou outra dimensão. A dor do banzo é a dor da perda no mais amplo espectro. É dor da saudade de uma terra que não se chegou a conhecer, uma Wakanda onde nunca se pode pisar. O desejo da retornar à condição de normatividade. De ser maioria em número e em representatividade, sentido.

O Banzo é o sofrimento psíquico de quem não pertence e não se pertence. Dos despossuídos de voz, estética e inteligência. Não por não as ter, mas por não se lhes permitir ter.

Quando o Estado invisibiliza o sofrimento negro como específico da condição do negro dentro de uma estrutura que o ignora para o bem e para o bom, mas o destaca para o mal e para o mau, nesse momento o racismo estrutural se consolida como verdade incontestável.
 
Fonte: GGN

Lobeiras em mutirão cultural no Guará/DF


Lobeiras em mutirão cultural feminino no Guará !

São várias artistas do DF, apresentando a sua arte através de poesia, música, performance e espetáculos de teatro lambe lambe.

Mulheres da arte e da cultura, com projetos lindos e femininos, um convite especial para se divertir na praça.

13 de julho - LOBEIRAS
MUTIRÃO DE ARTE E CULTURA E FORMAÇÃO
17h às 22h - Praça da Moda - Guará II
ENTRADA GRATUITA

>>> Programação <<<<<

17h às 22h: Feira de artesanato da Rede Pequi
17h às 18h30: Mostra de resultados de oficinas: Teatro de Animação, Performance e Dança e Percussão Africana
18h30: Espetáculo “A Moça Redonda”, de Anasha Gelli
19h30: Sarau de Poesias com Cristiane Sobral, Noélia Ribeiro e Conceição Targino
20h: Espetáculo "Este Conto Não é Meu", da Cia. Trapusteros Teatro
20h30 às 21h30: Teatro Lambe-Lambe, d’As Caixeiras Cia. de Bonecas e Izabela Nascente
20h40: DJ Tâmara Maravilha
21h: Show de Letícia Fialho e Banda


-- RELEASE --

Iniciado em março deste ano, o projeto LOBEIRAS - Mutirão de Arte, Cultura e Formação chega ao seu evento de despedida dia 13 de julho, sábado, na Praça de Moda do Guará II. Idealizado com o objetivo de valorizar as criações artísticas feitas por mulheres, o LOBEIRAS movimenta uma importante rede de artistas criadoras de diferentes Regiões do DF e atuantes em várias áreas culturais.

Para fechar a programação do projeto, As Caixeiras Cia. de Bonecas, companhia feminina de atrizes especializada em Teatro de Lambe-Lambe e idealizadoras da iniciativa, convidaram um time especial de fazedoras de cultura. Abrindo a programação, às 17h, uma mostra com os resultados das oficinas de teatro de animação, performance e dança e percussão africana.

Em seguida, Anasha Gelli apresenta o espetáculo A Moça Redonda, às 18h30, que precede um Sarau de Poesias com as poetas Cristiane Sobral, Noélia Ribeiro e Conceição Targino. A programação continua com os espetáculos de bonecos Este Conto Não é Meu, da Cia. Trapusteros Teatro, das Caixeiras, Caixa de Mitos, Ataque de Nervos, A Mensagem e Priscila, a Perereca, e Pastana, da lambelambeira convidada Izabela Nascente.

E o LOBEIRAS se despede com música, às 20h40, ao som da DJ Tâmara Maravilha e do show de Letícia Fialho e Banda. E a tarde e noite, de evento, a exemplo dos dois primeiros, acontecem com a presença da Rede Pequi de artesãs empreendedoras, uma iniciativa feminista de comercio justo, solidário e que incentiva o consumo ético.

Fotos de divulgação: bit.ly/LobeirasEvento3

Dentre as artistas que se apresentarão pelo projeto e irão ministrar as oficinas estão:

As Caixeiras Cia. de Bonecas
Grupo de teatro Lambe Lambe

Grupo candango formado pelas atrizes Amara Hurtado, Jirlene Pascoal e Mariana Baeta, bonequeiras desde 2007, realizam juntas pesquisas com o Teatro Lambe-Lambe, desenvolvendo vários projetos culturais como o Encontro de Teatro Lambe Lambe, Lobeiras em mutirão cultural no Guará e diversas oficinas.

Nadja Dulci
Poeta e performer

Graduada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto, a artista apresenta para o público da praça das Lobeiras a performance CartoAmante, um mergulho a uma poesia profunda e intimista, a artista reside em Brasília onde pesquisa conceitos da interpretação, performance e questões de gênero.

Ana Flávia Garcia
Artista / Dramaturga

Desde 1999, Ana é atriz e desenvolve processos criativos de dramaturgia em ações teatrais de sensibilização e arte-educação no DF. O público das Lobeiras poderá conferir seu espetáculo solo "A Incrível Mulher que Virou Jarro será apresentado as 18hs.

Marina Mara
Poeta e ativista cultural

Artista com projetos multimídia que abordam a poesia em diferentes formatos, na Lobeiras Marina vai realizar um sarau de poesias as 19hs com outras convidadas especiais, as poetisas Cris Reis e Seira Beira.

Nãnan Matos
Cantora e percussionista

Nãnan é professora de música e dança do Oeste Africano, dedica seu trabalho e pesquisa às mulheres jovens e negras e apresenta nas Lobeiras o show AFRICA VIVE EM VOCÊ com repertório homenageando o centenário do Nelson Mandela.

Rede Pequi de Artesãs

Grupo de empreendedoras de Taguatinga, Samambaia, Arniqueira, Ceilândia, Guará, Sobradinho, Alexânia que somaram forças e na busca de meios de manter a produção, expor e vender seus produtos.

As Caixeiras, ,montaram esse time de LOBEIRAS para invadir as praças do Guará com muita alegria arte e sensibilidade, uma série de atividades com vista a incrementar a cena cultural da Região Administrativa e valorizar criações artísticas feitas por mulheres.

Esperamos vocês por lá!


SERVIÇO
Lobeiras em mutirão cultural no Guará/DF
Data: 13/07/2019 (Sábado)
Hora: 17:00 a 22:00
Local: Praça da Moda - Guará II

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Violência tem cor




Por Lúcio Antônio Machado Almeida,
Nesta semana o Instituto de Pesquisa Economia Aplicada (Ipea) juntamente com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicou o Atlas da Violência 2019, no qual se verificou a espantosa divisão racial da violência no Brasil. A violência tem cor segundo o documento! De acordo com os dados fornecidos pelo importante documento mostra que 75,5% das vítimas de homicídio no País são negras.

A espantosa informação confirma a maior proporção da última década. Há uma clara política de extermínio da população negra no Brasil, tendo em conta o crescimento nos registros de assassinatos no Brasil atingir preponderantemente uma significativa parcela da população negra, na qual a taxa de mortes chega a 43,1 por 100 mil habitantes – para não negros, a taxa é de 16. O Brasil dá sinais de continuidade da política de genocídio da população negra, seja por ausência de políticas públicas às quais poderiam impactar positivamente na vida da população negra, seja pela ação de sua estrutura de guerra contra a população negra. Há, certamente, uma tendência de se efetivar no país aquilo que Foucault formulou como o biopoder, no qual há a divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer.

Mbembe ao analisar a tese foucaultiana definiu como “Necropolítica”, ou seja, no pensamento filosófico moderno e também na prática e no imaginário político europeu, a colônia representa o lugar em que a soberania consiste fundamentalmente no exercício de um poder à margem da lei (ab legibus solutus) e no qual tipicamente a paz assume a face de uma guerra sem fim. Lamentavelmente, a violência atinge a todos, mas particularmente e mortalmente aos negros.
 
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Lúcio Antônio Machado Almeida
Doutor em Direito e Mestre em Direito pela UFRGS
Advogado
Diretor da Escola do Legislativo
Professor Universitário nos Programas de Pós-Graduação da ESDM, LaSalle e na Faculdade Dom Bosco.
E-mail: lucioalmeida9@yahoo.com.br (pode divulgar)
 
Fonte: GELEDÉS.

Sueli Carneiro: ‘Organizem-se, porque não há mais limite para a violência racista’



por Annie Castro,
Homenageada desta edição da FestiPoa Literária, a filósofa Sueli Carneiro esteve ao lado da colega Djamila Ribeiro no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na noite de segunda-feira (29) para o debate que abriu o evento.

  
A abertura do FestiPoa Literária 2019 contou com as escritoras Fernanda Bastos, Sueli Carneiro e Djamlia Ribeiro. Foto: Josemar Afrovulto/Divulgação

Mediado pela escritora Fernanda Bastos, o painel abordou questões como literatura negra, mercado editorial, racismo institucionalizado e o mito da democracia racial. Para Sueli, a homenagem que recebe em Porto Alegre significa “um momento de afirmação e reconhecimento da legitimidade desse lugar de fala, do discurso produzido por lágrimas insubmissas” e da “escrevivência, que não é para adormecer os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonhos injustos, como apontou nossa magistral Conceição Evaristo”.

Em sua fala, Sueli destacou as motivações que guiam sua escrita. Ela contou que começou a escrever motivada pela vontade de falar, mas que não conseguia “pela timidez resultante da deslegitimação histórica da autoridade de fala das mulheres e das mulheres negras, em particular”. “Como disse Bell Hooks, mais do que qualquer grupo de mulheres, as negras têm sido consideradas só corpos sem mente. E aqui estou eu nesta noite, realizando sonhos não ousados, fruto da generosidade e do acolhimento, não apenas dos meus discursos, mas sobretudo de reconhecimento de realidades e vivências cruéis que pessoas negras experimentam nessa sociedade e contra as quais tem que estar sempre em luta, sempre alerta, em legítima defesa”, afirmou.

Sueli também pontuou que seus escritos são resultantes das dores causadas pelo racismo e pelo sexismo, tanto no passado quanto no presente, e citou questões que considera a “argamassa” de sua literatura: “São produto de algum momento dessa luta permanente, a qual as pessoas negras estão condenadas para assegurar o direito à vida, sempre ameaçado, para alcançar a igualdade de oportunidades de direitos, sempre negados; para ter o direito a uma representação justa e para alcançar reconhecimento e justiça social”. Nesse momento, Sueli leu o poema ‘Mãe Preta’, da anfitriã do evento, Fernanda Bastos. “Nossos passos vêm de longe, e também a indignação que nos impulsiona a escrever, como bem nos mostra esse contundente poema”, disse ao fim da leitura, ovacionada pela platéia.
 
 
Sueli Carneiro foi a homenageada desta edição do FestiPoa Literária. Foto: Douglas Freitas/Divulgação

Sueli, que é uma das fundadoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra, também enfatizou que é a indignação com as injustiças e opressões que move a denúncia, a resistência, a luta e a escrita das populações negras. Ela também pontuou que é necessária a criação de um novo pacto racial e de gênero no Brasil, “que desaloje todas as hierarquias produzidas pelo racismo e pelo sexismo”. “A valorização da diversidade humana torna-se um pré requisito para a reconciliação de todos os seres humanos. Se podemos educar as pessoas para discriminar e oprimir será possível fazê-las aprender a respeitar, acolher e se enriquecer com as diferenças raciais étnicas e culturais. Este é o abcesso do novo pacto racial e de gênero que desejamos. Um país que foi capaz de criar a mais bela fábula de relações raciais, que é o nosso mito da democracia racial, talvez seja também capaz de um dia torná-lo realidade”, afirmou.

Já a também filósofa e escritora Djamila Ribeiro iniciou sua fala narrando sua relação com Sueli, a quem define como “uma mulher autônoma, de coragem, que botou muito a cara pra bater”. Djamila contou que descobriu a existência de Sueli enquanto trabalhava na Biblioteca Carolina Maria de Jesus, na Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos. “Foi ali que eu descobri várias literaturas de mulheres negras. E ali foi um novo mundo que se abriu pra mim e que eu me reconheci, foi de cura também, porque a gente é muito adoecida por narrativas que nos desumanizam”, disse.

Durante um treinamento voltado para mulheres negras é que Djamila conheceu Sueli pessoalmente. “Eu vi a Sueli e fiquei encantada. Fui reencontrá-la anos depois, quando já estava então no mestrado”. Djamila teve Sueli como exemplo para decidir mudar do curso de jornalismo para filosofia. “E ela nem sabia que estava me inspirando tanto”, disse. A filósofa também abordou a importância de que as gerações mais novas reconheçam os avanços conquistados pelas mulheres das gerações anteriores e o trabalho realizado por elas. “Às vezes as gerações mais novas acham que estão inventando a roda, mas é importante a gente reconhecer que muita coisa já foi feita e já foi construída”, afirmou.

“A valorização da diversidade humana torna-se um pré requisito para a reconciliação de todos os seres humanos. Se podemos educar as pessoas para discriminar e oprimir será possível fazê-las aprender a respeitar, acolher e se enriquecer com as diferenças raciais étnicas e culturais. Este é o abcesso do novo pacto racial e de gênero que desejamos. Um país que foi capaz de criar a mais bela fábula de relações raciais, que é o nosso mito da democracia racial, talvez seja também capaz de um dia torná-lo realidade”
Debate geracional

Ao pertencerem a duas gerações diferentes dentro dos movimentos feministas e de luta pelos direitos das populações negras, Sueli e Djamila enfrentaram diferentes contextos políticos e momentos da violência racial no país. Por isso, o evento incluiu na abertura um debate geracional entre as duas escritoras.

Sueli foi a primeira a falar. Ela contou que participou do movimento negro e de mulheres durante o período da ditadura militar no Brasil. Segundo ela, era uma época em que as mulheres negras eram a base dos movimentos, mas ficavam excluídas e serviam como uma “plataforma de viabilização e de promoção” para mulheres brancas e até mesmo para homens negros. “Construir movimentos políticos, independentes e autônomos, que pudessem oferecer voz e autoridade para mulheres negras era uma questão essencial para sairmos desse ciclo perverso, no qual as conquistas das mulheres eram apropriadas pelas mulheres brancas em função do racismo, e as conquistas coletivas dos movimentos negros eram apropriadas pelos homens negros em função do sexismo e machismo”, disse.

A escritora também afirmou que sua geração teve um papel fundamental na desmistificação da democracia racial e em “mostrar que era uma falácia e uma hipocrisia”. Segundo ela, ao fazer isso, sua geração rompeu com o pacto e a etiqueta social que, até então, governava as relações raciais no Brasil. “Havia um combinado na sociedade brasileira. As pessoas brancas racistas nos diziam ‘o Brasil é uma democracia racial, nós vamos dizer isso e vocês negros vão fazer de conta que acreditam. Enquanto esse pacto prevalecer nós não teremos problemas’. E quando a gente nega isso e começa a exigir políticas de ação afirmativa como medidas de correção de redução de desigualdades o pacto se rompe”, afirmou. Sueli usou como exemplo para isso a criação de cotas raciais nas universidades brasileiras. “As cotas tiraram os racistas do armário e os organizaram. Isso também fez emergir toda violência e crueldade que esse racismo tem”.
 
 
Milhares de pessoas reuniram-se no salão de Atos da UFRGS para acompanhar o evento. Foto: Josemar Afrovulto/Divulgação

Segundo Sueli, há uma “absoluta e crescente violência racial, que se manifesta de diferentes formas, e que tem a sua forma mais extrema no genocídio de jovens negros”. De cordo com a filósofa, esse não era o país que sua geração pretendia entregar para as gerações futuras. “Nós até acreditávamos há alguns poucos anos atrás que estávamos adentrando um círculo virtuoso de enfrentamento das desigualdades raciais, que nos permitiria construir uma nação mais justa e mais igualitária. Essa é a promessa que a minha geração fez para a de vocês. Falhamos”, disse.

Djamila discordou do pensamento de Sueli. Para ela, a geração da escritora foi responsável por muitos avanços, inclusive por trazer essas questões para o debate público. “O que falhou na verdade é esse sistema racista, desigual, sexista, classista. Essa é a falha nesse país. Quantos talentos todos os dias se perdem assassinados pela polícia, quantos talentos todos os dias se perdem nesse país pela falta de oportunidades. A falha nesse país já começou na colonização, e essa violência colonial ainda acontece”, disse.

Para exemplificar seu ponto, Djamila trouxe dados como o assassinato de um jovem negro a cada 23 minutos, a alta taxa de mortalidade materna de mulheres negras e a CPI da Esterilização, que em 1991 investigou a denúncia de que mulheres negras estavam sendo esterilizadas à força. “O Estado brasileiro esterilizava forçadamente. Isso pra mim é uma forma de genocídio e isso só foi a público e foi investigado por conta do movimento de mulheres negras”, disse.

Para Sueli, a geração atual herdou a tarefa de enfrentar as formas mais cruéis e perversas do racismo: “Vai exigir redobrada coragem, consciência e organização política para fazer frente ao racismo que já não tem mais vergonha de se afirmar, que cada vez se aproxima do fascismo e que tem obviamente uma clara intenção de extermínio. Organizem-se, é em legítima defesa, porque não há mais limite para a violência racista”.
Escritoras negras

Temas como exclusão de escritoras negras no mercado editorial também foram abordados pelas convidadas do evento. Para Djamila, é preciso que exista mais espaço para os talentos negros dentro da cultura brasileira, principalmente na representação internacional do país. “Tantos talentos se perdem, e o Brasil nunca consegue se destacar porque não é possível que só um grupo tenha talento. A gente é um povo de maioria negra e indígena e a gente só exporta brancos a vida inteira. Fica sempre esse pacto racista da branquitude”, disse. Sueli citou grandes personalidades negras brasileiras, como Machado de Assis, Cruz e Souza, Carolina Maria de Jesus e Milton Santos, e afirmou que “em condições de absoluta opressão, as formas exemplares de expressão de humanidade são dadas por nós [negros]”.

Ao final do debate, uma das perguntas feitas pela plateia questionou o papel da filosofia e da sociologia no cenário atual do país, quando o presidente Jair Bolsonaro fala em acabar com os recursos públicos para cursos na área. Sueli foi quem respondeu, definindo a filosofia como “o exercício da revolução crítica”, que “em tempos de obscurantismo, precisa ser suprimida”. “É sempre assim. E nesses tempos, a resistência tem que preservá-la. Nós vamos continuar filosofando e ensinando filosofia, problematizando, estudando e estimulando o pensamento crítico da sociedade brasileira. Seja no espaço público, seja no subterrâneo da liberdade”, afirmou.

No final do evento, o público que se dirigia à saída do Salão de Atos foi surpreendido por um grito agudo. Tratava-se de uma apresentação surpresa do coletivo cultural ‘Poetas Vivos’. Durante o espetáculo, três meninos denunciavam, entre diversos temas, o genocídio da população negra pela polícia brasileira e a violência racial. “Desculpe, mas a nossa única opção é o livro na mão ou a bala na cara”, diziam.
 
Fonte: Sul21.

“A brutalidade dos processos de colonização nos tornou incapazes de pronunciar a dor em corpos negros” afirma Ana Flauzina



Em 2018 o livro o Corpo Negro Caído no Chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado Brasileiro completou dez anos da sua primeira edição e a autora, Ana Luiza Flauzina, falou à Brado Negro sobre os impactos da obra e sobre as suas perspectivas acerca do debate racial no Brasil contemporâneo.

Entrevista realizada por Felipe da Silva Freitas,
O livro o Corpo Negro caído no Chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado Brasileiro foi um acontecimento no debate criminológico do ano de 2008. Resultado da dissertação de mestrado de Ana Flauzina o livro analisou aspectos centrais do modelo punitivo nacional com a proposta de “tomar o racismo como variável substantiva da constituição do sistema penal brasileiro” e de assumir as consequências deste giro conceitual em todo o debate da criminologia.

As afirmações diretas e fortes de Ana representaram novidade mesmo entre os já experientes nomes da criminologia crítica e seu livro foi rapidamente consumido na primeira edição. No prefácio escrito em 2008 o professor Nilo Batista destacava: “Na academia brasileira, o silêncio sorridente do direito penal chapa-branca e da criminologia colaboracionista perante estas chacinas silenciosas é rompido por poucas vozes, às quais doravante vem agregar-se a de Ana Luiza Pinheiro Flauzina”.

Para nós, que durante toda a década de 2000, militávamos nos coletivos negros das universidades brasileiras a palavra e o estilo de Ana já haviam chegado antes e suas ideias já eram bem conhecidas. Sua crítica radical, sua defesa da autonomia e da auto-organização de negras e negros e o profundo conhecimento das produções criminológicas já nos mobilizavam no período em que, como representante do EnegreSer, coletivo organizado em Brasília, Ana Flauzina participava das discussões do movimento negro no âmbito nacional.

Foi ouvindo Flauzina numa reunião por volta de 2004, 2005 que pela primeira vez ouvi falar sobre as possibilidades de uma aplicação mais direta da discussão racial no âmbito da criminologia. Lembro com muita força do impacto daquelas palavras naquele plenário e do agito causado entre nós, estudantes negros na área de criminologia, quando o discurso virou o livro de dez anos atrás que foi relançado pela Brado neste ano de 2018.

Desde a publicação da nova edição que tento convencer Ana, hoje amiga e parceira em vários trabalhos, a falar sobre a obra. Ela relutou. Foram muitas as tentativas pois, mesmo reconhecendo o significado do trabalho, ela sempre achou que “não representa, em si, uma novidade ou ruptura. Funciona muito mais como um amplificador do que como a inauguração de qualquer coisa que justifique sua circulação” e que, portanto, uma entrevista sobre o tema não necessariamente acrescentaria muito ao debate.
 
Inconformado com a negativa. Segui nas investidas argumentando a publicação da segunda edição, falando da importância de contextualizar o livro até que, já nos últimos dias do ano, consegui convencê-la a driblar as correções provas e as atribuições do fim do semestre e responder por e-mail a esta entrevista que trata da repercussão do Corpo Negro e das suas impressões acerca do debate racial contemporâneo.

Acho que valeu a pena ter insistido tanto...

*****

O Corpo Negro está completando 10 anos de publicação e neste tempo o livro foi bastante citado em diferentes áreas, animou debates sobre o tema e inspirou outras pesquisas em sentido semelhante. A que você atribui este sucesso do livro?

Acredito que a circulação tem a ver com uma sede de materiais sobre a temática, num contexto em que as denúncias dos movimentos negros em relação ao genocídio se expandiam. Por óbvio, o corpo negro nasce a reboque dessas denúncias, é apenas uma articulação das inquietudes há muito pautadas por diversos setores da militância com um jargão acadêmico que a torna acessível. Talvez seja essa a razão do impacto do trabalho: conseguir fissurar a blindagem jurídica para pautar a questão do genocídio nos nossos termos. Mas ele definitivamente não representa, em si, uma novidade ou ruptura. Funciona muito mais como um amplificador do que como a inauguração de qualquer coisa que justifique sua circulação. Por isso desconfio um pouco dessa coisa de qualificar o trabalho como um sucesso. Acho que o livro tem méritos em termos de conteúdo, mas acredito que são os esforços dos movimentos negros em pautar a questão do genocídio como uma agenda decisiva que justifica a sua ampla divulgação.

No livro você afirma que há um fosso entre o sistema penal brasileiro e os instrumentos teóricos usados para apreender esta realidade. Dez anos depois como você avalia os impactos do Corpo Negro no debate sobre racismo na criminologia brasileira? Você acha que este debate avançou?

Tenho uma relação muito ambígua com a criminologia. Sou credora de seus ensinamentos, pelas desconstruções que promove e isso altera minha visão de mundo. Então na minha formação, a criminologia ocupa um espaço importante, principalmente no repúdio aos ditames do punitivismo. Mas ela é definitivamente um produto patenteado pela branquitude. Acho que apesar dos esforços, a questão racial foi incorporada como parte do jargão politicamente correto do campo. Por isso acredito que a crítica central do livro permanece: o racismo não entra como substrato nas análises. Ao contrário, na maioria dos trabalhos os negros seguem figurando apenas como personagens da seletividade penal. Me incomoda também o fato desse ser um campo que mantém um tipo de tutoria arrogante da movimentação dos movimentos sociais no campo das criminalizações. Vejo uma postura muito comum entre autores de referência que se encastelam no templo seguro do diagnóstico e da crítica. Cada passo dado na realidade por aqueles que buscam alternativas é caricaturado como equivoco ingênuo ou irresponsável, nunca como o produto falho e limitado de quem se dispõe ao enfrentamento. Por isso, não me identifico com as trincheiras da criminologia como espaço para o cultivar de um pensamento verdadeiramente rebelde. É um campo que trabalha com servilismo ao Estado que critica; não topa romper teoricamente com a leitura liberal da democracia e dos direitos humanos de forma radical; segue surda à contribuição de grandes nomes do pensamento negro. Zaffaroni uma vez disse que a “criminologia é o saber e a arte de despejar discursos perigosos”. Já fui uma entusiasta dessa possibilidade. Hoje, acho que ou os criminólogos rompem de fato com os mandatos da branquitude que orientam suas análises ou ela seguirá sendo um instrumento subaproveitado no enfrentamento do racismo e consequentemente das violências perpetradas pelo sistema penal.

Um ponto bastante importante e inovador do corpo negro é afirmar de maneira peremptória que é possível tipificar como “projeto genocida” a ação do Estado brasileiro quanto ao povo negro. Essa afirmação segue gerando fundas controvérsias no meio intelectual e político brasileiro. Como você lida com as reações hostis a este debate?

Primeiro eu insisto em afirmar que não é inovação do Corpo Negro pautar a existência de um projeto genocida anti-negro no Brasil. De Abdias do Nascimento à Campanha Reaja isso já vinha sendo articulado e denunciado. Mas a resistência à categoria genocídio nos meios acadêmicos e políticos é muito interessante de ser trabalhada. Por óbvio, essa resistência está centrada numa das consequências mais nefastas que o racismo produz: a impossibilidade de se reconhecer o sofrimento negro. Tenho insistido em pontuar que a brutalidade dos processos de colonização nos tornou incapazes de pronunciar a dor quando essa atinge os corpos negros. É por isso que o genocídio, essa categoria plasmada no imaginário como sinônimo de vitimização horrenda e injustificável, não está à disposição para explicar os processos de extermínio que vitimam a população negra no Brasil. As reações ao debate do genocídio estão, portanto, ancoradas no sentido mais dileto do racismo, apesar de comumente se pautarem fatores jurídicos para essa suposta inviabilidade. No atual contexto, esse tipo de postura obscena fica ainda mais gritante. Estamos testemunhando o arcabouço jurídico, mais do que nunca, ser usado para legitimar as pautas políticas da branquitude em todos os espectros do poder. Pode ser lido de forma solta para acomodar tanto as justificativas de um impeachment presidencial quanto para a acusação de que isso se constitui num golpe de Estado. Quando o que está em jogo são os interesses das elites, a seara jurídica é sempre um argumento de poder. Então os intelectuais que se retorcem considerando uma heresia quando falamos de genocídio do povo negro, são os primeiros a dizer que estamos vivendo uma espécie de ditadura, quando em ambos os casos o que está em jogo é uma leitura jurídica que dê conta do animus das práticas e fuja ao dogmatismo. Pessoalmente, confesso que não me implico nesse tipo de esforço de convencimento. Minha tarefa não é justificar o genocídio, sua existência é meu ponto de partida. Me animam as discussões que propõem formas de desmobiliza-lo.

Recentemente houve no Brasil uma série de eventos para discutir os 30 anos da Constituição Federal e para avaliar as conquistas deste período em termos de direitos sociais. No Corpo Negro você já sinalizava para as limitações deste debate sobre “Estado Democrático de Direito” e já destacava, por exemplo, a inefetividade da criminalização do racismo como meio exclusivo de combater a violência racial. Como você avalia esta questão da disputa institucional e que balanço você faz desta arena para as lutas políticas dos negros no Brasil?

Acho que a questão de base é que discutir democracia no horizonte do racismo é a retificação da violência. Porque é da natureza da expropriação que o próprio racismo produz no Brasil, você poder qualificar um Estado genocida como o nosso, como democrático. Agora, cientes disso, é importante sinalizar para os esforços empreendidos por diversos grupos sociais para a melhoria das condições de vida da população e que a democracia tem funcionado como uma categoria que, para muitos, mobiliza e inspira transformações. Mas é fundamental que se entenda, em especial num momento político como o que estamos atravessando, que o direito sacrossanto de matar pessoas negras no Brasil, a produção de aniquilamentos quotidianos naturalizados, ou seja, aquilo que está no âmago do construto do racismo, é algo que não se estrutura fora da democracia. Ao contrário, o tipo de democracia que se admite entre nós depende do racismo para o seu bom funcionamento. Então, ou entendemos que estamos testemunhando o aprofundamento de privilégios e não uma ruptura com tempos idílicos, ou isso descompromete o Estado brasileiro e os governos ditos progressistas da responsabilidade pelos empreendimentos genocidas que sempre estiveram em curso. Para mim, os 30 anos da Constituição se coroam como o reflexo de elites indispostas a conciliar, assumindo abertamente sua sanha por carne negra e é dada a hora de elevarmos o tom daquilo que propomos. A ruptura com as promessas vazias da igualdade, o desencantar com as fraudes da representação política, faz da resistência negra um aporte de transformações não somente da realidade das pessoas negras, mas da viabilidade política e social do Brasil. Acho que a democracia dos brancos, acuada pela espreita da ditatura, tem de ser sentenciada por nós. Nossa tarefa no acompanhamento das lógicas institucionais é, portanto, enfrentar os desmandos de um governo autoritário que se impôs de forma ilegítima ao tempo em que pensamos em formas de alterar a própria gramática do que se entende por democrático. Num mundo em que o Estado aporta nossa morte, nos falta o vocabulário para expressar o que significa um convívio social harmônico. A verdade é que sejam quais forem os meios que usemos para empreender nossa resistência, ela tem que superar os melindres das disputas entre os segmentos das elites, que em última instância representam diferentes metodologias de controle e eliminação dos corpos negros.

Depois de publicar o “Corpo Negro” você dirigiu o filme “Além do Espelho”, que discute a questão do genocídio do ponto de vista da memória e das narrativas do movimento negro, e em seguida lançou o livro “Utopias de nós desenhadas a sós”, que tematiza questões de afetividade, das mulheres negras e sublinha as deformações que o machismo, o sexismo e a violência racial produziram na relação entre homens e mulheres negros na diáspora. Como você avalia estas performances de violência nas quais homens negros também estão engajados? Como você vê a relação entre mulheres e homens dentro deste debate sobre genocídio?

O racismo é um processo que para dentro das comunidades negras sobrevive com o acirramento das questões de gênero e sexualidade. O principal pilar da dominação esteve e está calçado na desarticulação comunitária. Fomentar a autofagia sempre foi fundamental para o nosso controle. E nesse mosaico das hierarquias internas, as masculinidades cis-heteronormativas tem de ser pautadas. Para mim, sem um debate franco sobre as masculidades negras, nossas chances de pensar horizontes verdadeiramente renovados são inviáveis. O questionamento sobre as consequências de se exercer o mandato da masculinidade no horizonte do racismo é central. Do meu ponto de vista, ou o genocídio dá conta dos estupros, das costelas quebradas, das violências que abatem pessoas LGBT e de todas as outras violências que nos assaltam dentro de nossas casas e comunidades, ou estamos hierarquizando sofrimento negro. E nessa balança são as mulheres negras que tem de secundarizar suas urgências e acomodar as demandas dessas masculinidades que não se repensam. Acho importante considerar esforços em curso que têm pautado essa questão. Existem muitos homens mobilizados nesse sentido. Acho fundamental, é claro, que entendamos a pluralidade de vivência das masculinidades negras, para não reduzirmos tudo a violência e brutalidade. Mas sinto que ainda há muita resistência a se estabelecer um debate honesto sobre essa questão. Inegavelmente, há um custo muito alto em ser um homem negro, em especial exercendo um tipo de masculinidade moldada pela violência do racismo. Estamos falando de morte. Da morte como uma sentença provável. Mas é preciso pontuar que, no mundo das nossas precariedades, os privilégios associados ao exercício desse mandato, que estão fundamentalmente voltados a terem o domínio sobre as nossas comunidades, têm feito com que muitos homens assumam essa performance. Agora, é preciso lembrar que esse debate não se reduz a pautar as dores das mulheres negras, suas solidões, suas demandas e tudo o mais que o sexismo tão violentamente taxa de prosaico. Estamos falando de trabalhar os dilemas dos homens negros nas violações que os assaltam de frente. Homens que tem sobre si um arquétipo que os quer impedir de sentir, de expressar afetividade, de desenvolver estratégias de autocuidado. E isso tem efeitos no debate de pautas centrais para nós. Se tomamos a questão da polícia, por exemplo, da presença expressiva de policiais negros nas baixas patentes, o tipo de ação que empreendem e a situação em que se encontram, vemos a urgência de se politizar a discussão sobre masculinidades negras. Talvez seja essa uma das maiores dificuldades de se debater polícia atualmente. Sem um mergulho profundo nos efeitos do racismo para a vulnerabilização dos homens negros e a produção de uma estética ilusória de poder baseada na violência, não temos como compreender de fato essa questão. Então, para mim, o debate de gênero é central se quisermos dar conta das inúmeras facetas do genocídio e entendo que é dada a hora de enfrentarmos essa demanda de frente.

Quando o governo federal iniciou a intervenção federal no Rio de Janeiro você escreveu que aquele episódio demonstrava “que o apetite social por carne negra é o grande combustível que libera o engavetamento dos parâmetros jurídicos”. Nas últimas eleições presidenciais este ímpeto se tornou ainda mais explícito. Como você pensa que é possível denunciar e resistir a este avanço de autoritarismo e violência?

Acho que poderia te responder essa pergunta de muitas maneiras. Mas nesse momento me ocorre pautar a ousadia da concretude. Para mim, resistir a esse avanço conservador significa ter a coragem de se voltar para as necessidades básicas da população negra. O relato da fome, que nunca desapareceu de nosso quotidiano, já começa a voltar com mais vigor. As ruas já começam a ficar apertadas para tantos corpos abandonados. Quero aprofundar os sentidos de uma militância que parta dessa realidade material. Projetos de duas ou três pessoas que possam alimentar outras, esforços de garantir roupas limpas para pessoas em situação de rua. O que pode parecer prosaico e assistencialista é essencial. Reencantar e disseminar um tipo de militância – já praticada por muitos – que se preocupe menos com uma aparência de radicalidade e mais com a pragmática da nossa condição. Acho que, mais do que nunca, é preciso abraçar um legado da resistência negra que abarca estratégias distintas, que passam pelas disputas no âmbito das retóricas que inspiram, das movimentações que pressionam as decisões institucionais e das ações autônomas que nos garantem a vida no quotidiano. Sinto que temos nos ocupado muito das dimensões alinhadas às disputas ideológicas e institucionais e acredito ser necessário conectar esses esforços com ações autônomas contundentes que toquem de fato a vida das pessoas.

Por fim, que tipo de balanço você faz destes dez anos da publicação do livro Corpo Negro Caído no Chão? O que você acha que são as novas peculiaridades do projeto genocida do Estado Brasileiro hoje?

Acho que o que mais me impressiona é o quanto as peculiaridades dizem pouco sobre nós. É claro que estamos num mundo diferente. As tecnologias se multiplicam para saquear nossas informações, para vender nossos dados pessoais a grandes corporações internacionais, para nos tornar pessoas subordinadas, passivas em aplicativos sempre ao alcance das mãos. Mas o que me assalta é que esses novos contextos não desatualizam denúncias forjadas há décadas, há séculos. A desumanização que o racismo enseja faz de nomes como Luiz Gama e Lelia Gonzalez, passando por João Cândido e Beatriz Nascimento, mais do que marcos importantes para o estudo da história da resistência negra. A verdade é que suas reflexões até hoje mobilizam um tipo de conteúdo político que reflete a realidade. É assustador entender que o terror infligido às comunidades negras não foi desarticulado no decurso do processo histórico no Brasil. Com isso não quero dizer que nada mudou e nossos esforços não pressionaram por mudanças, mas que a matriz fundamental do genocídio, segue cobrando sua fatura independentemente dessas atualizações. Isso implica em constatarmos o quanto a luta negra é atual. As insinuações de que militar é algo ultrapassado e de que há um saturamento em se falar da questão racial são uma falácia. A energia que pulsa nas veias daqueles que se comprometem com nossa sobrevivência, com nossas demandas, com nossas realizações é o único combustível capaz de alterar o curso da história do nosso povo. Resistir, como João Vargas pontua, é um imperativo ético, é o que nos dá asas para projetar novos horizontes, é o que faz valer continuar a caminhada. 
 
Fonte: Bradonegro