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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Adolescente atacado por grupo de ‘justiceiros’ é preso a um poste por uma trava no Rio de Janeiro


Por João Pedro,
Dia primeiro de fevereiro, véspera do dia de Iemanjá. Na noite seguinte, a região da Pedra do Sal, onde, não muito mais que um século atrás, havia um mercado de escravos e troncos para punição, seria tomada pela alegria fraterna de uma roda de samba tradicional. Mas antes disso, a poucos quilômetros dali, no bairro do Flamengo, os antigos horrores da Pedra da Prainha seriam revividos. Puseram um negro nu preso pelo pescoço com uma trava de metal num pelourinho improvisado. Segundo o comentário satisfeito de quem publicou a foto (sem qualquer tarja no rosto, perpetuando a humilhação pública), ele estava assaltando pessoas. Pra servir de exemplo aos pretos ladrões. Ao que tudo indica, obra de um grupo local organizado com esse intuito. Recentemente, um caso semelhante aconteceu numa praia na Zona Sul.

Se esse jovem não estava na Pedra do Sal de hoje ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre seu trabalho de mestrado não é porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.

É preciso saber que, oficial e oficialescamente, o Estado, seu judiciário e sua polícia fazem isso e pior todos os dias. Mas a resistência cotidiana, as lutas cotidianas e valores elevados presentes na consciência das massas exercem contrapressão. No entanto, a prova real do caráter humanamente falido do Estado burguês e de sua justiça degenerada é que na medida em que um setor cada vez mais amplo de civis se radicalizarem à direita e aderirem a seus valores e métodos, estaremos mais e mais próximos da barbárie do fascismo, sem subterfúgios. Não existe vacina política histórica, nada está garantido e nada está assegurado; a humanidade se reinventa todos os dias.

Repúdio absoluto e urgência de responder isso à altura. Não pode deixar naturalizar de jeito nenhum. Peço a todos que façam chegar a todas as organizações políticas, mandatos, movimentos e entidades democráticas de que tenham conhecimento.

Aborto e ilegalidade: a violência do Estado contra as mulheres negras

por Luana Soares, para blogueirasnegras,
Há tempos o movimento de mulheres vem pauta
ndo a necessidade da legalização, fazendo o debate ora pela autonomia do corpo feminino, ora pelos direitos sexuais e reprodutivos. Neste texto entretanto iremos discutir um outro olhar acerca desse tema, que é o da violência do Estado contra as mulheres negras. Antes disto, é importante colocarmos alguns pontos importantes, que já vem sendo debatidos há tempos, mas é sempre importante relembrarmos. Em primeiro lugar, a legalização não se constitui em um incentivo ao mesmo e nem na anulação da necessidade de um amplo sistema de políticas públicas voltadas ao planejamento familiar, o aborto é o ultimo estágio do debate sobre a questão reprodutiva, é a “ponta da lança” .

É importante referenciarmos, que o Estado brasileiro, garante em sua constituição, o direito à vida e à saúde como inalienáveis, que não podem ser negados a ninguém, pela sua cor, raça, gênero ou orientação sexual. É dever então, do Estado Brasileiro, zelar pelo bem-estar de todos os seus cidadãos e também de suas cidadãs, atentando-se as demandas especificas de saúde possuída por cada grupo. Isto é que se chama de princípio da equidade, que a grosso modo pode ser resumido como, tratar os iguais como iguais e os diferentes como diferentes.

É responsabilidade portanto, do Estado, garantir que todas as mulheres tenham o direito de exercer livremente a sua sexualidade, e de ser assistida nesse livre exercício. Sendo assim, quando o Estado brasileiro mantém o aborto na ilegalidade está fugindo de suas funções, cometendo assim uma violência que é sexista e assume um caráter genocida quando se trata daquela que é mais atingida e mais vulnerável nesses casos, que é a mulher negra.

Esse é um debate do qual os diversos movimentos de mulheres, precisam se apoderar, tirando a questão do aborto do âmbito privado, trazendo para a sociedade a compreensão de que a negação do Estado em dar assistência a uma mulher em situação de abortamento, seja espontâneo ou induzido, constitui em grave desrespeito aos direitos humanos, trazendo assim o debate para o campo da institucionalidade.

Quando falamos que o Estado comete violência, isto se dá pelo fato da ilegalidade se constituir em um cerceamento da autonomia e liberdade do corpo feminino. Além disso, mantendo o aborto na ilegalidade, o Estado brasileiro demonstra que está sendo pautado pelo fundamentalismo religioso ao invés de zelar pela vida de suas cidadãs, em especial suas cidadãs negras. Nega assim as estatísticas que mostram a dura realidade de que a atual situação não impede os abortos de acontecerem, mas simplesmente relega a morte e ao esquecimento as mulheres, em especial as mulheres negras mais uma vez.

No que tange às mulheres negras, que pela ação do racismo já são consideradas sub-cidadãs, ocorre uma situação de “marginalização” no âmbito do aborto. As mulheres brancas e ricas recorrem a clínicas especializadas e com plena assistência médica, enquanto as mulheres negras recorrem a métodos alternativos, que muitas vezes colocam em risco a sua vida.

A pesquisa Itinerários e Métodos do Aborto Ilegal em cinco capitais brasileiras, realizada por Debora Diniz e Marcelo Medeiros, traz um pouco do panorama de como a mulher negra está vulnerabilizada e exposta à violência do estado em sua negação de assistência. Inclusive é importante alertarmos para a necessidade de novas pesquisas em relação a esta temática com recorte racial. Isto garante visibilidade institucional a quem é mais vitimada pelos efeitos da ilegalidade.

Os mesmos alertam que a maioria das mulheres que abortam são mulheres negras, com idade até 19 anos, com pelo menos 1 filho. O aborto normalmente começa com a junção de chás e do Cytotec, remédio originalmente usado para combater ulcera mas que possui como efeito colateral o abortamento. Apesar da pesquisa referenciar o medicamento como sendo o principal meio de abortamento, são recorrentes os relatos de métodos mais invasivos como agulhas de crochê entre outros artifícios utilizados.

A pesquisa em questão, também referencia a ausência de exames diagnósticos da gravidez. Ou seja, muitas dessas mulheres acabam por identificar a gravidez através dos sinais corpóreos tradicionais, em especial o atraso da menstruação, esta ausência tanto se dá pelo medo de ser identificada pelo aparelho do estado, caso futuramente opte pela interrupção da gravidez, bem como pela dificuldade financeira de garantir os exames básicos como o BHCG e a Ultrassom.

O diagnóstico precoce, bem como a adoção de métodos não-seguros, leva à maioria destas mulheres a internação em grandes hospitais para a finalização do aborto através da curetagem, sendo que para cada mulher branca internada para finalizar o aborto, outras 3 mulheres negras foram também internadas. A chegada ao hospital para realizar os procedimentos finais dá inicio a uma outra etapa de violência, também subsidiada pelo Estado, também alimentada pela ilegalidade que é a violência obstétrica. Muitas dessas mulheres relatam o medo de serem denunciadas a policia, a falta de assistência médica e principalmente a falta de sensibilidade de profissionais que muitas vezes imbuídos de convicções religiosas e estereótipos raciais, acabam por fragilizar ainda mais esta paciente que normalmente chega desacompanhada de seus parceiros. (A pesquisa mostra que a maioria das mulheres negras entrevistadas, chegaram ao serviço publico sem os companheiros.)

Ou seja, quando o Estado diz não à legalização, na verdade está jogando para à inseguridade inúmeras mulheres que deveriam ter o direito de escolher o que fazer ou não com o seu corpo. Mulheres essas que acabam submetidas à intervenção machista do fundamentalismo dentro da estrutura do Estado, em especial do parlamento brasileiro, ostensivamente ocupado por homens pertencentes aos setores conservadores de nossa sociedade, além de muitos companheiros de esquerda que não compreendem o seu papel enquanto legisladores de representar TODA sociedade brasileira. E as mulheres fazem parte dessa sociedade.

Ao tratarmos da não-legalização como violência contra a mulher, colocamos este como uma política genocida contra todo o povo negro, já que a morte de cada uma dessas mulheres desestabiliza toda uma geração, se estendendo aos pais, aos filhos e filhas já existentes, companheiros,e principalmente as mães. Legalizar o aborto, no Brasil e diante das circunstâncias colocadas, é dar opções as mulheres e o direito de decidir, sem precisar morrer por esta escolha.

Imagem – Agência Apublica.

História Geral da África | Diversidade Étnico-Racial [Download]


O Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), disponibiliza publicações com a temática "Diversidade Étnico-Racial". Entre elas, a coleção "História Geral da África", "Contribuições para Implementação da Lei 10.639/2003" e "Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais"

Acesse: Portal MEC

Fonte: MEC.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pós Afirmativas – Turma 2014 (Universidade de Brasília)


Universidade de Brasília
Edital Público do Curso Pós Afirmativas – Turma 2014

Inscrição
As inscrições para o Curso Pós Afirmativas deverão ser feita pessoalmente pelo/a interessado/a, ou procurador/a devidamente constituído/a, nos dias úteis do período de 03/02/2014 a 05/02/2014, em caráter improrrogável, no horário das 9h às 12h e das 14h às 17h no Centro de Convivência Negra (Campus Darcy Ribeiro – Universidade de Brasília).

Edital Público do Curso Pós Afirmativas – Turma 2014

Crack e Cocaína: o início da divisão entre usuários brancos e negros


Em 1914, há exatos 100 anos, começava uma campanha para mascarar o racismo no país através da guerra contra as drogas. Seu legado existe até hoje.

Por Carl L. Hart,
"Espírito Maligno da Cocaína dos Negros é a Nova Ameaça no Sul”. Essa era a manchete de um artigo que eu li enquanto pesquisava para meu PhD, em 1996. Ele envolvia tentar entender os efeitos comportamentais e neurobiológicos de drogas psicoativas como cocaína e nicotina. Então eu li tudo o que parecia relevante.

A manchete provocativa apareceu no New York Times em 8 de fevereiro de 1914. Eu fiquei surpreso pelo título, apesar de saber que houve uma época em que era aceitável imprimir palavras tão racistas em respeitáveis jornais. Mas o que realmente era chocante foi o quão similar com antigamente ainda é a cobertura da mídia moderna sobre drogas ilegais e como, desde cedo, o discurso racial sobre drogas servia para um propósito político maior.

O autor, um renomado médico, escreveu: “[O espírito maligno do negro] imagina que escuta pessoas o provocando e se abusando dele, e isso, geralmente, incita ataques homicidas sobre inocentes vítimas”, e ele continua, “A precisão mortal do usuário de cocaína se tornou axiomática nos círculos de polícia no sul do país… o relatório de um “preto com cocaína” próximo à Asheville, que matou cinco homens usando apenas uma bala para cada um, oferece evidência que é suficientemente convincente”.

Cocaína, em outras palavras, tornava homens negros unicamente mortais e melhorava suas miras com armas. Mas não era tudo. Ela também produzia “uma resistência para ‘nocautear’ os efeitos de ferimentos fatais”. Tiros em partes vitais que derrubariam um homem são, falharam em derrubar o “espírito maligno”.

Despropositado? Sim, mas tal relato não era exceção. Entre 1898 e 1914, numerosos artigos apareceram, exagerando a associação de crimes hediondos com cocaína usada por negros. Em alguns casos, a suspeita de intoxicação com cocaína em negros era razão o bastante para justificar linchamentos. Eventualmente, isso ajudou a influenciar a legislação.

Nessa época, o Congresso estava debatendo se passava ou não a “Harrison Narcotics Tax Act”, uma das primeiras investidas dos EUA na legislação nacional de drogas. Essa lei – sem precedentes – procurava taxar e regular a produção, importação e distribuição de produtos derivados do ópio e de coca. Proponentes da lei enxergavam nela uma estratégia para melhorar as relações abaladas com a China, demonstrando um compromisso com o comércio de ópio. Oponentes, muitos dos estados sulistas, já viam isso como uma intrusão nos direitos estaduais e evitaram a aprovação de versões anteriores da legislação.

Em 1914, no entanto, os proponentes da lei encontraram um importante aliado em sua busca para conseguir a aprovação: o mítico “espírito maligno”, o qual, jornais proeminentes, médicos e políticos, prontamente exploraram. Realmente, em audiências do congresso, “especialistas” testemunharam que “a maioria dos ataques contra homens brancos no sul eram resultado direto do cérebro doido de um preto usando cocaína”. Quando o Harrison Act se tornou lei, os proponentes podiam agradecer ao medo de negros dos sulistas por facilitar a aprovação.

Com isso como cenário, a política de drogas nas décadas seguintes segue por um foco mais agudo. Apesar do Harrison Act não proibir, explicitamente, o uso de heroína e cocaína, a aplicação da nova lei se tornou rapidamente cada vez mais punitivas, ajudando a montar o palco para a aprovação da 18º Emenda (proibição do álcool) em 1919 e, finalmente, toda a política de narcóticos até 1970. Importante destacar, a retórica que rodeou as primeiras conversações sobre uso de drogas, não evaporaram: ela continuou e evoluiu, reinventando-se ainda mais poderosa na mitologia do crack.

Desde suas primeiras aparições nos anos 1980, cocaína crack foi impregnada com uma narrativa de raça e patologia. Enquanto o pó de cocaína ficou associado a um símbolo de luxo e para brancos, o crack era pintado como terrivelmente aditivo, imprevisível e com efeitos mortais e claro, associado com negros. A essa altura, obviamente, as referências com raça em tal contexto não eram mais aceitáveis. Então problemas relacionados com crack eram descritos como prevalentes em áreas “pobres”, “urbanas” ou “problemáticas”; termos como “guetos” e “cidades internas” eram códigos para “negros” e outras pessoas indesejáveis.

Um artigo do New York Times, em 7 de março de 1987, lia-se “Nova violência vista em usuários de cocaína”, oferece um exemplo potente. Ela descreve um incidente no qual “um homem aparentemente usando cocaína manteve quatro pessoas de reféns por 30 horas em um apartamento no leste do Harlem”. O fato de que o uso da cocaína nunca foi confirmado, foi minimizado e, como o leste do Harlem era quase que exclusivamente de negros e latinos, não se precisava mencionar a raça do suspeito. A mensagem era clara: o crack faz pessoas pobres e de cor, violentas e loucas.

Nos próximos anos, uma enxurrada de artigos similares conectavam crack e os problemas associados, com pessoas negras. Unidades inteiras de policiais eram colocadas em “vizinhanças problemáticas”, fazendo com que houvesse um excesso de prisões e subjugando as comunidades alvejadas a um tratamento desumano. Ao longo do caminho, complexos econômicos e forças sociais foram reduzidas a problemas de justiça criminal; recursos eram direcionados para o cumprimento da lei, ao invés de cuidar dos problemas reais de tais vizinhanças, como criação de empregos.

Em 1986, o Congresso aprovou o infame Ato do Abuso Antidrogas, estabelecendo penas que eram 100 vezes mais rigorosas para usuários de crack do que de cocaína. Nós agora sabemos que incríveis 85% daqueles sentenciados por crack eram negros, apesar da maioria dos usuários serem, até hoje, brancos. Nós também sabemos que os efeitos do crack eram enormemente exagerados; o crack não é mais perigoso que a cocaína. Em 3 de agosto de 2010, o presidente Obama assinou uma legislação que reduzia a disparidade das sentenças entre crack e cocaína de 100 para 1 em 18 para 1. Esse é um passo importante, mas qualquer disparidade de penas nesse caso, não faz o menor sentido.

Homens negros não são mais linchados por violarem as leis antidrogas, mas eles são assassinados. (Ramarley Graham, o jovem desarmado do Bronx que foi perseguido até o seu banheiro e morto por policias que acreditavam que ele tinha drogas, é apenas um exemplo recente). Mais comum é o dano infligido nos homens negros pela seletividade do cumprimento das leis antidrogas. Presos, encarcerados e colocados sob supervisão da justiça criminal, eles acabam se marginalizados e privados de uma educação. Incrivelmente, um em cada três rapazes negros nascidos hoje, irão passar mais tempo na prisão se os EUA não mudarem seu comportamento atual.

100 anos depois do mito do “espírito maligno da cocaína do negro” ter ajudado a vender o Harrison Act ao Congresso, seu legado ainda vive. Mas agora, ninguém mais tem a desculpa de ignorância para alimentar essas ficções. Já passou do tempo de garantir que as políticas de drogas reflitam a realidade e moralidade, não o racismo.

O espelho descobrindo o meu cabelo crespo

por Carla Ferreira, para as Blogueiras Negras,
Há exatamente um ano e seis meses atrás tomei a uma decisão que provocou uma reviravolta totalmente positiva na minha vida. O meu Big Chop (1) foi a chave para uma elevação tanto pessoal, intelectual e política. Assumir meu cabelo foi um processo solitário e árduo, o que me fez atentar para as mutilações sociais, pessoais e psicológicas que a mulher negra sofre quando e obrigada a se embranquecer .

No início, assim que cortei todo o cabelo quimicamente tratado acredito que a pior fase era me olhar no espelho e não me enxergar como uma mulher negra, natural e linda, foi hard!!! Não conseguia de maneira alguma me achar bonita, não compreendia a forma e a textura do meu cabelo. Agonia, desespero e medo eram os sentimentos que me definiam no início do processo. Tanto que chorava ao me olhar no espelho, não queria sair, me sentia mal com os olhares, a minha vontade era me trancar dentro de casa e não sair mais ou alisar o cabelo novamente.

Como sempre fui curiosa, e este processo não conseguiu anular esta característica, comecei a pesquisar leituras que tratassem do assunto até para tentar compreender o que estava acontecendo comigo, estava a beira de uma depressão. Bell Hooks, Sueli Carneiro e Neuza Santos me ajudaram a compreender que não era a primeira e nem a única a passar por este processo. Comecei a entender o que estava acontecendo comigo, nós, negros/as não somos preparados para nos amar, amar o que somos realmente, amar nossa cultura, nossos defeitos para a sociedade são defeitos e só, não enxergam qualidades em nós e quando enxergam é revestida de racismo. Somos preparados para nos espelhar em um ideal de ego branco.


Pesquisas e mais pesquisas, leituras e mais leituras, e ainda cercada de um povo preto maravilhoso que é o Leafro da UFRRJ, pessoas com plena consciência do que é ser negro e militantes pela igualdade me ajudaram intensamente nesse caminho, consegui obter total compreensão do que queriam que eu fosse e o que realmente deveria ser.

No campo familiar, não tinha tanto apoio assim, todos questionavam o porque abandonei tantos anos de henê quente, se eu ia deixar meu cabelo “duro” assim mesmo, se não ia “passar” nada pra amansar meu cabelo ou se eu relaxasse um pouquinho a raiz ia ficar show de bola… Por aí vai. Luta dentro de casa, luta fora de casa, mas o que não cessava era a minha luta interna, compreendia, mas ainda não me achava bonita, me questionava, brigava comigo mesma tentando descobrir o que era, quem eu era na frente daquele espelho.

Até que um dia, dentro do metrô uma senhora me fez o seguinte elogio : – Nossa! Que cabelo lindo! Está muito na moda né ?
Eu, imediatamente respondi: – Não sei, está? Mas, meu cabelo é assim não é por causa da moda não, é porque eu sou assim. ( Risos).

Na mesma hora a senhora fechou a cara, me bateu um sentimento de culpa por respondê-la tão agressivamente, entretanto me foi surgindo uma segurança indescritível e após uma felicidade imensa, sorri quando me olhei no vidro do metrô, descobri ali o melhor amor de todos… o amor próprio, enfim conseguia me enxergar, enxergar o amor pela minha cor, minha herança e pelo meu cabelo, não era conveniência e nem modismo, era eu negra me descobrindo, me cicatrizando (ou tentando) e enfrentando e dizendo não a o que queriam me impor, me transformar.

Segui inquieta até a estação de Botafogo, meia sem ar, meia engasgada e chegando no trabalho, segui direto para o banheiro, lá sorri, chorei, isso tudo na frente do espelho, porém era pura felicidade, me olhei e me identifiquei, me encontrei no que sempre insistiam e insistem em apagar, a minha raiz.

A medida que minha segurança e certeza cresciam, meu cabelo também cumpria o mesmo processo e fomos e estamos crescendo juntos, e isto é extremamente fantástico.

Como pesquisei muito na internet, como cuidar do cabelo crespo, encontrei páginas extremamente maravilhosas que realizam um verdadeiro trabalho de terapia. Eu, em particular enchi o saco das Meninas Black Power e elas me ajudaram muito neste processo, era verdadeiramente uma terapia online, porém notava que não era a única e veio a necessidade de fazer algo por nós, que passamos por este processo, criei a Indiretas Crespas, que no início era somente para fazer as indiretas para quem tinha cabelo crespo, já que não via nenhuma indireta que sequer mencionasse a valorização do cabelo crespo, só que foi tomando uma proporção enorme e comecei a receber mensagens de amigas, segue abaixo o trecho de uma conversa com uma fã da página, que autorizou a publicação desde que sua identidade fosse mantida em sigilo:


“Mas venho me questionando: está errado não achar o MEU tipo de crespo bonito? Acordar de manhã e ver a bagunça é terrível. Tenho dores de cabeça se dormir com ele amarrado (com tranças tudo bem), acordo sem lenço ou touca. Ele ainda está curto.”

Somos anuladas, obrigadas a nos moldar e encaixar em um ideal de ego branco, por tantas várias vezes li a seguinte frase: ”Eu nem sei mais como meu cabelo é de verdade!”

Nós não nos conhecemos, eu quando cogitei a ideia de me livrar de vez do henê foi um pouco antes de entrar para faculdade, eu simplesmente não queria mais meu couro cabeludo queimado, ferido e resolvi cortar e por implante, ainda não satisfeita, porém amando o volume do cabelo cacheado, tirei o implante e fui tentar fazer o permanente, sentindo o meu cabelo percebi que ele só ficava no volume que eu queria quando eu não passava a química, foi então que resolvi cortar tudo, debati com a minha família, alguns amigos a minha posição, e me redescobri como parte de um todo que tem liberdade de ser o que realmente é, sigo sedenta pela minha cultura e história, além de lutar para que a mulher negra possa se achar linda ao natural, que não negue suas raízes e que se ame plenamente e é claro, amando me olhar no espelho .

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(1) Quando uma negra corta os cabelos bem curtos para que cresça ao natural.


Meu nome é Carla Arlindo Ferreira, filha de Nanã com Oxóssi, mãe da Ágatha, historiadora, e dona da página Indiretas Crespas.


O final da novela foi ótimo. Mas não redime anos de piadas com gays na TV


por Leonardo Sakamoto,
A Globo tem seu milhão de defeitos, mas não é burra. Percebendo que havia demanda de uma parcela significativa da classe média e de formadores de opinião para o primeiro beijo gay entre homens em sua principal novela, a emissora construiu um caminho e autorizou esse desfecho para os personagens de Mateus Solano e Tiago Fragoso.

O beijo poderia ter aparecido em qualquer um dos capítulos do último mês, assim, de repente, passando a mensagem que um beijo entre homens poderia ser tratado de forma tão banal como entre homem e mulheres. Mas a emissora é esperta: acabou criando expectativa, transformando o momento em final de campeonato. O que, como diria um amigo, foi equivalente a uma ruptura de placas tectônicas que, há muito, já chacoalhavam. A Globo acabou criando um fato histórico que faz esquecer sua própria relutância em abordar o tema.

Afinal de contas, nada ajudou (e ainda ajuda) a moldar nossa identidade como dramaturgia via rádio e depois televisão.

Não tenho capacidade de dizer se Amor à Vida foi boa ou não. Mas, eu que não acompanho muito novelas, passei o mês perguntando para amigos se o beijo já tinha rolado. Não vou negar que fazia parte da torcida, pelo o que aquilo significaria e por conta da cutucada que daria à turma da Campanha “Volta Idade Média, Volta!”

As novelas são responsáveis por ajudar a moldar a forma como o brasileiro vê e entende a si mesmo e como se relaciona com os outros. As falas, o figurino, a maquiagem, a cenografia de nossa vida cotidiana são influenciados por elas – elementos de formação do que convencionou-se chamar de identidade nacional, chegando a dezenas de milhões de pessoas, todas as noites. E, através de suas histórias, cria modelos, critica padrões e reafirma relações de poder. O telespectador não é passivo, claro.

Mas a força desse discurso e sua onipresença tem uma força descomunal. Ainda mais quando histórias são bem contadas e fazem sucesso. E isso é tão complexo que gera situações paradoxais: amigos que, por um lado, gostariam de ver a Globo de portas fechadas e, ao mesmo tempo, não perdem um capítulo de uma boa novela.

Não raro, a cúpula da emissora diz que as novelas são apenas um retrato da sociedade. Mas de que sociedade estamos falando? Vista de que lugar de discurso? Por qual grupo social? Não há retrato isento, a escolha do enquadramento, da composição, dos personagens de uma foto depende da intenção de cada pessoa ao mostrar uma cena. Não é diferente com as novelas. Elas trazem um discurso de reafirmação ou mudança de valores compartilhados por essa gente que mora neste canto do mundo.

É claro que novelas influenciam comportamentos e a emissora não só sabe, mas ganha muito dinheiro com isso. E, mais importante: o controle da formação do que é considerado amálgama de um povo é um dos mais fortes instrumento de poder.

Mas não nos enganemos achando que, a partir de agora, o mundo será povoado por Ursinhos Carinhosos e todos serão amigos. Se, por um lado, as cenas finais de Amor à Vida souberam canalizar um sentimento de parte da sociedade, que exigia ver sua novela representando a vida real, com toda a complexidade que ela pode ter, por outro, a teledramaturgia ainda funciona como instrumento de propagação de preconceito e homofobia. E vai demorar muito tempo para deixar de ser.

Afinal de contas, tanto o beijo quanto a reconciliação com César, o pai homofóbico, ocuparam alguns minutos. Some-se a eles outros em que a relação entre os personagens de Mateus e Tiago se aproximaram e ganharam o gosto do público. Mas horas e mais horas têm sido gastas em cenas patéticas em que a homossexualidade ou a transsexualidade são vistas de forma caricata. Ou, pior, usadas como ofensas entre os personagens.

No ano passado, um garoto de 11 anos foi chamado de “Félix” pela professora e colegas de sala, em uma escola estadual no interior de São Paulo. A partir daí, foi hostilizado pelas crianças e caiu em depressão. É claro que a professora não poderia nunca ter dito algo que magoaria um garoto de 11 anos, dando combustível para que seus colegas de classe praticassem bulling estúpido e selvagem contra ele. Não pelo personagem ser (até então) ruim, mas por ser gay.

Daí a pergunta: por que chamar alguém de gay ou lésbica ainda é uma ofensa? Sabemos que essas palavras, em uma sociedade heteronormativa e machista, são carregadas de significados negativos. O que não é aleatório, mas sim uma forma de separar o certo e o errado, o quem manda e quem obedece, ditados pelo grupo hegemônico. Mas imagine se isso não acontecesse, se a orientação sexual ou identidade de gênero de uma pessoa não fizesse diferença alguma? Porque, na prática, não faz mesmo.

Se assim fosse, caso alguém dissesse que o aluno parece um personagem que por um acaso é gay, ninguém se abalaria pela orientação sexual, mas procuraria outras características para entender o que o interlocutor quis dizer (Ele é rico? Forte? Cria pugs? É do mal? Engraçado? Um ladrão? Come caca do nariz?) Hoje, se alguém comparar um rapaz ao Toni Ramos, as pessoas pensarão o quê? Ah, é hétero como ele? Ou: ah, é peludão que nem ele?

Já passou do momento de sairmos de nossa zona de conforto e contarmos histórias para que nossos filhos vivam sem medo. E não para serem inimigos de quem não usa o pênis para dominar o mundo.

Gostaria muito de estar vivo para chegar ao dia em que uma cena de amor envolvendo homossexuais ou transgêneros seja tão comum quanto heterossexuais ou cissexuais. Talvez, nesse mundo futuro, ninguém se sinta ofendido ou ofenda por algo que deveria suscitar o mesmo debate que o tom do branco do olho.

A mídia tem um papel importante nesse processo. Ou seja, pelo que ela diz, pelo que deixa de dizer. O fim da novela disse algo, mas ainda um sussuro que não apaga tanto tempo de silêncio.