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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Exposição gratuita em Brasília tem como tema a cultura e a religião negra

Mostra fica em cartaz até o fim de março


O Museu Nacional da República recebe a mostra “Geometria, símbolos e cores”, do artista Josafá Neves. A exposição é gratuita e fica em cartaz até o dia 29 de março, com visitação das 14h às 18h30, às segundas-feiras e das 9h às 18h30, de terça a domingo.

Quem visitar o museu poderá conferir de perto as obras do artista brasiliense que abordam os orixás, entidades cultuadas em religiões de matriz africana. A mostra reúne esculturas, quadros e instalações do artista, nascido no Gama.

A proposta da exposição é fazer um mergulho na história e cultura negra do país, provocando a reflexão sobre arte, origem e religião do povo negro. Para isso, o artista usa obras que representam cada um dos 16 orixás.

Foto: Chico Furtado/Inspira Filmes

SERVIÇO
Exposição “Geometria, símbolos e cores”
Data: até 29 de março
Local: Museu Nacional da República (Esplanada dos Ministérios)
Horário: 14h às 18h30 (segundas-feiras); 9h às 18h30 (terça a domingo)
Entrada gratuita

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Xô racismo! 10 músicas para entender e sentir a grandeza dos orixás

por Kauê Vieira,
Simone e Simaria protagonizaram uma cena no mínimo controversa. Acusadas de racismo, as sertanejas se recusaram em pronunciar o nome da Iemanjá – orixá homenageada na música ‘Quero Ser Feliz Também’, do Natiruts.

As duas justificaram dizendo que não conheciam a letra da canção de sucesso. Tá bom. O assunto, claro, diz muito sobre o racismo religioso no Brasil. Candomblé e Umbanda são discriminadas de todas as formas.

– ‘Nosso Sagrado’: documentário pede liberação de itens afro-religiosos apreendidos pela polícia


Iemanjá por Pierre Verger

Seja por meio do preconceito velado ou explícito – caso das dezenas de terreiros de culto aos orixás destruídos Brasil afora. A intolerância religiosa come solta no país.

Ubuntu: O pioneirismo de Ruth de Souza nas artes do Brasil

A cada 15 horas, uma denúncia de intolerância religiosa é registrada, segundo levantamento do Ministério dos Direitos Humanos. Isso porque, constitucionalmente, o Estado brasileiro é laico há 120 anos.

Para refrescar a memória dos que insistem em pregar o desconhecimento, separamos 10 canções que homenageiam e exaltam a beleza dos orixás. Pela liberdade religiosa. Contra o racismo. 
 
 
1- Mariene de Castro: Oxóssi/Citação: Ponto de Oxóssi


Mariene de Castro e os encantos de Oxum

Feita na Bahia, Mariene é um espetáculo. Como boa filha de Oxum, não poderia deixar de cantar para o senhor das matas e companheiro da dona das águas doces.

“Oxóssi reina de norte a sul

Oxóssi, filho de Iemanjá

Divindade do clã de Ogum

É Ibualama, é Inlé

Que Oxum levou pro rio

E nasceu Logunedé

Sua natureza é da Lua

Na Lua Oxóssi é Odé

Odé, Odé, Odé, Odé”
 

 
 2- Maria Bethânia – As Ayabás


Bethânia, aqui do lado de Mãe Menininha do Gantois

Não dá para falar do Candomblé como força cultural sem citar o nome de Bethânia. A baiana iniciada por Mãe Menininha no Terreiro do Gantois, em Salvador, sempre fez questão de exaltar a potência das divindades africanas.

Nesta composição do irmão Caetano Veloso e do parceiro Gilberto Gil, Maria Bethânia destaca o poder da ayabás – orixás mães e rainhas.

Para Iansã:

“Iansã comanda os ventos

E a força dos elementos

Na ponta do seu florim”

Lá veio Obá:

“Obá – Não tem homem que enfrente

Obá – A guerreira mais valente”

Se lembrou de Ewá:

“Euá, Euá

É uma moça cismada

Que se esconde na mata

E não tem medo de nada”

E, finalmente, Oxum:

“Oxum… Oxum…

Doce mãe dessa gente morena

Oxum… Oxum…
Água dourada, lagoa serena”
 

 
3- Mateus Aleluia – Cordeiro de Nanã


Com seus cabelos e roupas brancas cor de algodão. Contraste com a pele negra marcada pela passagem do tempo. Mateus nasceu em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, mas pode ser visto passeando de chinelos pelas ruas apertadas de Salvador.

É do ex-membro de Os Tincoãs a bela ‘Cordeiro de Nanã’. Como o nome já adianta, a canção homenageia ela, que vem, parafraseando Mariene de Castro, no som das chuvas.

“Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê

Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê”

Nanã está na água das chuvas. Na terra molhada dos pântanos e brejos. De roxo, andando calmamente, é a materialização da sabedoria. Salubá! 
 
 
4- Juçara Marçal e Kiko Dinucci – Atotô


Juçara e Kiko em registro de Marina Sapienza

Deixemos os clássicos de lado. Por hora. Juçara Marçal e Kiko Dinucci são membros do Metá Metá, mas também costumam trabalhar em dupla.

Ao lado do violão preciso do paulista de Guarulhos, Juçara canta para ‘o velho’. A faixa do disco ‘Padê’ exalta, com calmaria, Obaluaê. O senhor que cura todas as chagas com um bom banho de pipoca reina soberano.

A linha de baixo Marcelo Mainieri dialoga com o silêncio. Obaluaê não gosta de algazarra e se move lentamente. Aprecie. 
 
 
5- Saudação/Abertura -Rita Benneditto

“Adorei as almas

As almas adorei”




Rita cantando o Brasil

Já ouviu ‘Tecnomacumba’? O disco é um ode à Umbanda. Uma exaltação ao orixá. O trabalho de Rita Benneditto exalta todos os elementos da religião do Brasil.

A abertura, com a velocidade de Exu, mistura funk e a fúria de guitarras para celebrar e saudar. De Exu, claro, passando por Ogum, Oxóssi, Obaluaê, Jurema, pombas giras e por aí vai. Eita Brasil plural!

Eparrey! 
 
 
6- Casa Nova/Raiz – Dona Edith do Prato


Maria Bethânia (sempre ela) ao lado e Dona Edith do Prato

Ai, o Recôncavo Baiano. Terra de sangue negro, descendentes de africanos e do samba de roda. A manifestação mais baiana de todas se tornou fio condutor de Dona Edith do Prato.

Macumbeira de primeira, ela cantou o povo brasileiro. Sua fé, costumes e comidas. ‘Casa Nova/Raiz’ une o frescor da voz jovem de Mariene de Castro (sempre ela) com a sabedoria de quem já viveu o suficiente. Tem como dar errado?

Sabe o que é axé? Escute o trecho abaixo para ter uma ideia:

“Tá na beira do mar nas folhas de sultão

Nos metais de ogunhê vendo raio e trovão

Tá na voz mais bonita que tem graça nas mãos

Por um milagre bem disse será a voz da canção”
 
 
7- Charles Ilê – Carlinhos Brown e Ilê Aiyê

Difícil escolher apenas uma música do bloco afro mais lindo do Brasil e do cantor mais talentoso de todos. Brown e Ilê, juntos na Concha Acústica de Salvador.

“Ogum onilê

Onilê Ogum”

Só pode ser coisa orixá! Com sua guitarra, todo paramentado, o filho do Candeal exalta Ogum e sua força. Ao mesmo tempo em que mostra a riqueza intelectual do Ilê ao cantar a África e as particularidades culturais de seus 54 países.

Brown oferecendo pipoca para Obaluaê

“Que realeza, Charles

Beleza negra

Negra marrin

Negra Salim

Salamaleikum, Charles

Salamaleikum

Salamaleikum”
 
 
8- Kaô – Gilberto Gil

Dizem por aí que Gilberto Gil é um orixá. Filho de Xangô, face da Justiça, o baiano caprichou ao homenagear o dono de sua cabeça.

‘Kaô’, lançada no álbum ‘Sol de Oslo’, do fim da década de 1990, é um mantra. Uma espécie de meditação. Cada toque da voz de Gil, ali, quase nua, emociona. Entra no sangue e dá a dimensão do que um orixá pode significar.

Gil como Oxalufã para o fotógrafo Daryan Dornelles

“Baobá

Obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá obá”
 
 
 
9- Afoxé de Oxalá – Roberta Nistra

Sexta-feira é dia de vestir branco. Respeito ao orixá da paz e sabedoria, Oxalá. Homenageado com sensibilidade no ijexá de Luiz Antônio Simas, cantado aqui por Roberta Nistra.


Roberta Nistra também canta para Ogum

“Orun Alá

Orun yê

Alá un

Alá Orun

Alá”
 
10 – Obàtálá – Metá Metá

Ainda debaixo do alá de Oxalá. E talvez inspirada na tranquilidade da já citada ‘Kaô’, de Gilberto Gil, o Metá Metá deu show.



Gente que ama amar o Metá Metá

Thiago França e seu saxofone levitam de mãos dadas com as notas de ‘Obatalá’. Poucas coisas conseguem ser mais bonitas e sensíveis. Difícil não derramar uma lágrima.

Obàtálá, dizem os Yorubás, é criador do mundo, dos homens, dos animais. O ‘Rei do Pano Branco’ foi o primeiro orixá criado por Oludumare. Se delicie com a voz da talentosa Juçara Marçal e pense no colorido lindo da vida.
 
 
Fonte: hypeness

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Eu respeito o seu amém, você respeita o meu axé

Por PAI RODNEY,
 O Carnaval 2020 vem com uma alma rebelde. Sinal dos tempos, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, onde, apesar da grandiosidade do espetáculo, que atrai turistas de todo o Brasil e do mundo inteiro, as escolas de samba estão enfrentando cortes significativos nas verbas e restrição de espaços, entre outras dificuldades. Uma verdadeira guerra que o prefeito evangélico Marcelo Crivella, ligado à Igreja Universal, tem travado de maneira sistemática, sem levar em consideração a quantidade de empregos e renda que a festa gera. Por essa razão, a cada ano mais agremiações aderem aos enredos críticos.
 
Reprodução/YouTube/ Itaú Cultural

Na homenagem ao babalorixá Joãozinho da Gomeia, a escola de samba Grande Rio apresenta mais que um belo tema: é um grito contra o racismo, a intolerância religiosa e todas as formas de preconceito. De Salvador à Baixada Fluminense, o pai de santo mais famoso do Brasil rompeu os limites da sociedade e do próprio candomblé. Negro, homossexual, ousado, tornou-se à época um símbolo de resistência e escancarou a influência das religiões de matriz africana entre os poderosos da nação.

Mais do que justa, a homenagem resgata a importância da população negra e a presença expressiva dos terreiros na região de Caxias, retratada no enredo como um quilombo, ou seja, um território de resistência. Joãozinho da Gomeia foi uma grande liderança espiritual e política, um Zumbi desses tempos modernos. Foi o primeiro sacerdote a dar visibilidade às práticas do candomblé, estampando capas de revistas e jornais, gravando discos, fazendo cinema e tomando as ruas.

Personagem fundamental na expansão do candomblé no eixo Rio/São Paulo, difundiu seu axé e fez do seu corpo síntese de todos os sincretismos: preto, mulato, índio; angola, caboclo, nagô; católico, juremeiro, macumbeiro. O Brasil sonhado por Jorge Amado, miscigenado e democrático, tinha em Joãozinho da Gomeia sua mais perfeita tradução. Ao mesmo tempo em que resgata o orgulho e a alma caxiense, o enredo vai forjando a identidade de uma escola de samba relativamente nova.

Recupera também um compromisso com causas urgentes, uma vez que a região da Baixada Fluminense é uma das que mais sofre com a atuação das milícias, além das facções supostamente associadas ao neopentecostalismo que perseguem adeptos das religiões afro, invadem e destroem terreiros de candomblé e umbanda. Nesses tempos de “Bonde de Jesus” e “Bandidos de Cristo”, bradar contra a intolerância e o racismo religioso é fundamental. Dessa forma, a escola de samba ainda reassume seu papel de território negro e sua missão política de lutar contra as injustiças.

Numa cena que viralizou nas redes sociais, os componentes da Grande Rio realizam seu ensaio de rua em frente a uma filial da Igreja Universal do Reino de Deus e cantam com empolgação o refrão que diz “salve o candomblé”. Nessa homenagem a um homem que por força da fé escapou das várias mortes que acompanham negros e gays ao longo de sua existência, vemos uma escola que, além de pedir respeito, faz as pazes com sua vocação histórica.

Nesses tempos em que a desonestidade da branquitude usurpa territórios e culturas negras, a Grande Rio devolve seu pavilhão aos orixás e ancestrais e resgata sua alma quilombola. No Rio de Janeiro, a perseguição empreendida pelo bispo prefeito contra as escolas de samba e as tradições do povo negro vem chamando à luta todas as agremiações. As pesadas críticas aos governos municipal, estadual e federal devem marcar o Carnaval 2020 na Marquês de Sapucaí e irritar especialmente Bolsonaro e Crivella.

No Brasil, a grande verdade é que o crescente fundamentalismo religioso ainda vai nos destituir de qualquer humanidade. No ritmo que as coisas andam, a pátria do evangelho, sectária e arrogante, deve erguer-se das falácias de um discurso integralista que finge promover união, mas exclui e execra os que destoam da hegemonia.

Não restará esperança. Só a guerra vai nos redimir. Lutar, resistir, sobreviver é a parte que nos cabe. Afinal, quem são os escravos desse reino torpe? Vassalos, servos, capachos do poder do Senhor, do Deus único, bélico, que odeia o diverso e lança ao fogo do inferno os condenados da terra.

Uma guerra santa, de sutilezas, com armas brandas e brancas. Quem vencerá? Ao que parece, hipocrisia daqueles que matam sorrindo. E dizem que matam para o bem dos que morrem, matam para salvá-los de si mesmos. Almas perdidas em corpos escuros, possuídas pelos demônios que a intolerância impõe e pela distorção e desonestidade de seus algozes salvadores, que os aniquilam ao converte-los.

Um pai de santo é o grande homenageado da Grande Rio. Na Portela, índios não se curvarão diante da violência de capitães e bispos. E um Jesus com a cara dos oprimidos vai desfilar com a Mangueira e denunciar a hipocrisia dos falsos messias. A Beija-flor encerra a festa e vem reafirmar que o povo é o dono da rua e que a rua é de Exu. Então, segura! Abram alas ao Carnaval do protesto e vejam com quanta beleza, alegria e ginga se denuncia os desmandos e se samba na cara dessa gente de bem.
 
Fonte: Carta Capital