Páginas

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Negros escravizados no período colonial resistiram como puderam

Resultado de imagem para Negros escravizados no período colonial resistiram como puderam

Desde que os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, há mais de 500 anos, eles exploraram, inicialmente, a mão de obra indígena. Mas o contato com os homens brancos foi péssimo para a saúde dos indíos. Além disso, os nativos conheciam muito bem o território e fugiam com facilidade.

Por razões econômicas e também em busca de mão de obra qualificada, os portugueses começaram a trazer negros escravizados para o Brasil. Os negros eram obrigados a vir para um país estranho, numa travessia de barco que levava meses, em condições precárias, para trabalhar forçado.

Mas as regras duras da chibata não foram aceitas sem luta. Os negros escravizados resistiram da forma que puderam. “Falar das lutas negras é falar disso, dos enfrentamentos, dos embates do outro lado do Atlântico, na travessia, do lado de cá do Atlântico. Eu costumo pensar na resistência de uma forma muito ampla”, destaca o professor Nelson Inocêncio, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília.

Para ele, o termo que define a retirada dos negros do Continente Africano é sequestro. “Este sequestro realmente foi algo absurdo, inominável. O Brasil foi o país que mais importou população africana. Dentro daquele universo de extrema violência existiam articulações coletivas para, de alguma forma, tentar minar o sistema”, ressaltou

A resistência sempre foi a palavra de ordem de quem era forçado ao trabalho escravo. Mas não foi fácil. Os negros foram caçados e perseguidos. Por isso, procuravam não ficar sozinhos. Em comunidade, era mais fácil sobreviver.

Os locais de refúgio começaram a se formar logo após a chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil. Nasciam, assim, os chamados quilombos. O mais famoso deles, o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, data do fim do século XVI. Isso quer dizer que pouco depois do início da escravidão, os primeiros negros já começaram a fugir.

A herança de quem fugiu da escravidão ainda é viva entre os quilombolas. Sirilo Rosa, presidente da Associação Quilombo Kalunga, comunidade no interior de Goiás, conta um pouco da história que já escutou. “Eu ouvia nossos antepassados falarem que tinha um lugar chamado quilombo mas que eles não sabiam onde era. [Diziam] que esse lugar chamado de quilombo era onde o pessoal que foi escravo fugia e ia pra lá”, lembra. “Era um lugar isolado e que não tinha nem estrada pra chegar. Eles saíam das casinhas deles, mas não deixavam trilha. Saíam de um lado e chegavam por outro”.

A jovem quilombola Edmeia Batista Costa, da comunidade Kaonge, em Cachoeira, na Bahia, também conhece a história de quem veio antes. “A gente sabe que os antepassados lutaram muito. Muitos apanharam no chicote. Agora a gente não tem mais isso. Graças a Deus, a escravidão já acabou e eles passaram para gente o trabalho e a luta deles para a gente continuar”, conta.

O Brasil têm mais de duas mil e quatrocentas comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Elas estão espalhadas em 24 estados e se organizam de forma diferente. A maioria vive da agricultura de subsistência. Ou seja, eles produzem na roça praticamente tudo o que precisam. É o caso de dona Leotéria, lavradora Kalunga. Ela planta mandioca, arroz, milho, cana, feijão de corda, além de frutas, hortaliças e ervas medicinais.

Dona Leotéria diz que nem sempre é fácil, mas que já viveu dias mais difíceis no passado

Dona Leotéria diz que nem sempre é fácil, mas que já viveu dias mais difíceis no passado. “Já foi sofrida a nossa vida. Uma parte foi boa e outra sofrida mas, graças a Deus, nós sobrevivemos. Não tinha rodagem [estrada] por aqui, não tinha médico. A pessoa adoecia, levava para Cavalcante [um dos municípios que compõem o território Kalunga, distante 30km da comunidade] na rede”, recorda.

“Hoje está melhor porque já tem médico, já tem muitas coisas. Hoje já tem até o posto [de saúde] aqui, também. Uma hora tem médico, outra hora não tem. Mas a hora que tem já serve”, resigna-se.

De acordo com a Fundação Cultural Palmares, apenas os estados do Acre e de Roraima e o Distrito Federal não contam com esses remanescentes. Mais de 200 processos de certificação ainda estão sendo analisados e mais de 500 comunidades foram identificadas pela fundação como quilombolas, mas não solicitaram a Certidão de Autodefinição, já que o primeiro passo para ser quilombola, é se reconhecer como tal.

É o famoso sentimento de identidade, como explica Juvani Jovelino, Líder Espiritual da Comunidade Kaonge, na Bahia. “Ser quilombola é você saber [a origem] os 50% do seu sangue. Não é só negro que é quilombola, porque existe branco também que é quilombola porque tem 50% do sangue que ele não procurou saber de onde vem.”

Fonte: GGN

Brasil, salto interrompido


Horror que se exibe todos os dias em Brasília contrasta com movimento surdo e subterrâneo — mas real — de novas rebeldias. Como fazê-las emergir?

Por Jean Tible, 

Para Marco Aurélio Garcia,
militante e intelectual internacionalista / in memoriam

fora todos

Desde 2013 e seu junho disruptivo, o sistema político brasileiro está num processo de perda total de legitimidade. O atual momento (de um presidente ilegítimo e com aprovação popular praticamente inexistente1 representa por ora o ápice desse que se vayan todos contínuo de quatro anos, bem diferente do caso clássico e incisivo argentino que, em 2001, derrubou vários presidentes em poucos dias a partir de fortes mobilizações de rua2. Ao medo de todos pertencentes aos poderes constituídos em junho de 2013, sucederam tentativas de captura e esperanças de muitos que esse acontecimento fosse passageiro – a crise política, no entanto, persistiu e se agudizou.

Alguém, no entanto, vai se eleger em 2018 (se houver eleições) e essa pessoa virá de algum canto: do partido da justiça, da Globo ou da mídia, dos bancos, do sistema político moribundo (Geraldo Alckmin, Marina Silva3) ou alguma surpresa. Nesse sentido, vale perguntar se a Lava Jato é uma exceção para atingir o PT e alguns poucos mais (Eduardo Cunha, Sergio Cabral4), pois boa parte da casta política está aí, inquieta mas ainda relativamente intocada, tentando se segurar e abafar a Operação (como Temer e Aécio5, dentre outros). Vale questionar igualmente que economia resiste a investigações a fundo, via delações premiadas, de seus vínculos com o sistema político, das relações entre elites política e econômica (e até militar)? Imaginam isso ocorrendo nos EUA do complexo industrial-militar ou na França da antiga petroleira ELF e seu papel nas conexões com o continente africano (Françafrique)?

Qual a originalidade brasileira nesse contexto? É o país mais corrupto que todos os demais? A venda de decisões governamentais, promiscuidades entre “público” e “privado” e a corrupção da democracia seriam uma exclusividade nacional? Por que aqui assumiu essa dimensão6? Além disso, a limpeza por ora se limita a um setor bem específico do capitalismo brasileiro, as empreiteiras. Setores com suspeitas de mal-feitos como grandes grupos de comunicação e bancos estão no momento fora do leque investigativo e punitivo e temores destes se fizeram notar no processo de negociação da delação premiada de Antonio Palocci, ex-ministro de Lula e Dilma. Ademais, fica pendente uma investigação mais apurada sobre questão do “elemento externo”, acerca do papel dos EUA e suas agências nesse processo – talvez futuros vazamentos (leaks) ajudem também nessa empreitada.

choque

A ativista e pesquisadora Naomi Klein já pode acrescentar mais um estudo de caso ao seu importante livro (esgotado no Brasil)7. Um choque-golpe em forma de impeachment sem crime de responsabilidade, governo temerário e restauração neoliberal na seguinte agenda: drástica contenção dos gastos públicos, mudança na legislação do pré-sal favorecendo o capital estrangeiro, reorientação da política externa, o liberou-geral da terceirização, mudanças nas regras da aposentadoria, ataque aos povos indígenas, desmonte das políticas culturais, diminuição dos beneficiários do Bolsa Família, aumento do desmatamento, intensificação da repressão aos movimentos sociais e uma série de descalabros que poderiam compor uma lista quase interminável.

Entramos num buraco cada vez mais fundo – o abismo nos espreita – e o Estado do Rio de Janeiro é o retrato da calamidade (pública), ao não conseguir honrar mais compromissos mais básicos (manutenção mínima da infra-estrutura social, pagamento dos servidores), que pode atingir rapidamente o país como um todo.

Crise política, social (mais de dez milhões de novos desempregados em dois anos, a fome retornando e as desigualdades voltando a se acentuar) e econômica (recessão, economia em frangalhos). As reformas trabalhista e da Previdência como continuidade, desdobramento e motivação do golpe; nenhuma eleição chancelaria tal programa. Temos um sistema sem nenhuma legitimidade (e sem o crivo das urnas) aprovando reformas importantes e impopulares (em vários sentidos)8. Mesmo a queda de Temer não breca as reformas, já que ele se fragiliza justamente ao gastar boa parte do tempo e energia em defender-se das graves denúncias de corrupção que sofre, diminuindo o ritmo de aprovação dessas mal-chamadas reformas.

Creio que Temer não deve terminar seu mandato usurpador, mas de alguma forma, isso pouco importa: entrará outro (Rodrigo Maia9) em eleições indiretas e buscará efetivar essa obsessão golpista pela retirada de direitos dos trabalhadores e dos de baixo, junto com a continuidade do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles10. Até termos eleições diretas? Ninguém pode ter certeza que haverá eleições no ano que vem (previstas para outubro de 2018). Não é difícil vislumbrar mais um golpe no golpe, que pode tomar a forma de impedir a candidatura Lula, da adoção abrupta do parlamentarismo, adiamento do pleito ou qualquer outra manobra. É significativo para compreender nossa situação o fato do sistema não ter suportado nem mesmo um programa moderado de mudanças. Na justiça de exceção que se manifesta continuamente no país e agora atinge Lula em sua injusta e absurda condenação em primeira instância a uma pena de quase dez anos por um imóvel que ele não possui e visitou uma vez – de outra forma e numa intensidade bem distinta em relação ao emblemático caso do Rafael Braga11, pode-se dizer que Lula foi tornado preto (ou seja permanentemente condenável sem provas)12.

lutas

Vivemos uma insatisfação altíssima (e uma esmagadora maioria apoia eleições diretas imediatas, de acordo com as pesquisas13), mas sem expressão contundente nas ruas. É certo que tivemos atos fortes na greve geral do 28 de abril e no ato em Brasília do dia 24 de maio14, mas essas belas jornadas não tiveram continuidade nem lograram manter a pressão. Ocorrem várias mobilizações militantes sim, mas que penam em chegar nas “pessoas comuns”. Se o governo ilegítimo e seu mundo permanecem de pé (ainda que cambaleantes – até quando?), tudo indica que revoltas mais fortes estão por vir, inclusive por conta da deterioração das condições de vida da população. As crises tendem a piorar15.

A isso se soma um fato curioso: um sistema em crise e sem uma esquerda fazendo uma crítica radical a ele. Viveríamos um cenário de terra arrasada? Apesar da situação adversa e difícil, temos muita luta no Brasil – trata-se, certamente, de um dos países com movimentos mais fortes. Desde o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)16, sua Escola Nacional Florestan Fernandes (um belíssimo caso de educação popular) e todos os movimentos do ciclo de lutas que se inicia no fim dos anos 1970 ao surgimento de novas iniciativas subversivas. Podemos nos referir tanto ao fortalecimento (apesar do etnocídio nunca interrompido) dos coletivos indígenas e à exuberância LGBT, secunda, feminista e negra, quanto à uma miríade de experiências, urbanas e rurais (festas, hortas, saraus, ocupações variadas). Uma periferia bombando política, cultural e existencialmente. Um novo imaginário radical com tintas de autonomia de variadas intensidades. Podemos pensar numa cartografia selvagem conectando essas múltiplas terriorialidades: desde os territórios indígenas (que compõem 12% do país) aos ditos tradicionais (quilombolas e outros) aos quais se juntam ocupações de terra, prédios, locais de trabalho, cultura. Como conectar, fortalecer o apoio mútuo desse tecido organizativo subversivo, suas territorialidades livres e conexões numa infra-estrutura da vida?

Transição. Dissemos acima que o sistema político brasileiro está em xeque desde 2013. Isso também significa que um novo ciclo de lutas também se inicia nesse contexto; do país e da esquerda. O anterior (iniciado no fim dos anos 1970 e do qual os governos petistas são um desdobramento institucional e moderado) produziu uma série de “entidades agregadoras” (Partido dos Trabalhadores (PT), Central Única dos Trabalhadores (CUT), MST e outras mais). Hoje vivemos esse nó, um desafio de política-criação, de articulação das diferenças que as duas frentes de partidos e movimentos existentes (a Brasil Popular, puxada por MST, CUT e PT, e a Povo sem Medo, capitaneada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST) não conseguem efetuar ou só o fazem de forma (infelizmente) bastante limitada – deixam muitas ricas lutas de fora.

Nesse contexto, Lula permanece o principal personagem político do país desde 1989 e deve continuar ainda nesse posto por um tempo, mesmo se não puder ser candidato nas eventuais eleições do próximo ano. Político de maior aprovação popular apesar de todos os ataques, Lula mostra uma excepcional resiliência. Ontem e hoje, apresenta-se como problema e como solução. Ontem, personificou um ponto de convergência para boa parte da esquerda e ponto de referência para a população e os de baixo, mas também abafou experiências alternativas dessa mesma esquerda. Hoje, pode ainda representar um freio a um avanço (em curso?) da extrema-direita (seu candidato, o deputado Jair Bolsonaro alcança 20% nas pesquisas para as presidenciais) e contra o apetite arrasador da restauração neoliberal, mas é também um problema, pois ele não parece levar em conta (e isso, apesar da candidatura posta para 2018) as novas subjetividades e aspirações nem apresenta um esboço de programa para as atuais condições. Acaba, assim, colocando a discussão no terreno das eleições de 2018 e ainda numa chave de debate empobrecida, que talvez subestime os perigos da conjuntura atual17.

Como seguir nesse momento? Isso envolve, a meu ver, múltiplas dimensões de (re)construção e composição paciente e conjunta, sem atalhos artificiais:

– um novo programa, no qual pelo menos três pontos me parecem fundamentais: a defesa da vida (o fim da contínua necropolítica brasileira) e a descolonização do país, uma radical reformulação do sistema político e uma economia do comum18 – para além do nacional-desenvolvimentismo que muitas vezes parece ser a única proposta das esquerdas nesse campo;

– aliar-se em questões concretas, lutas pontuais e urgências, alianças pragmáticas para o fim das matanças, do encarceramento em massa, para o alívio imediato da pobreza, miséria e desemprego (que regressam com força);

– criar confluências e coalizões que articulem de verdade classe e diferença. Parece que os seus adversários percebem melhor tais conexões que as próprias esquerdas – Huntington e seus parceiros temiam o fortalecimento da participação, protestos e organizações de “negros, indígenas, chicanos, estudantes e mulheres” e suas demandas/lutas nos anos 196019, enquanto um deputado gaúcho, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, julga que “quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta” estariam influentes demais no então Governo Federal de 2013;

– constituir mais espaços de encontro (territorialidades livres, existentes e por vir) e debates (revistas, mídias variadas, peças/filmes/vídeos) – formação e auto-formação.

Tudo isso com a obsessão de chegar nas pessoas comuns e questões do cotidiano, multiplicando as experiências, tentativas e perguntas coletivas.

_____________________________________________

Imagem: Isidro Martins


PS. Agradeço os comentários de Sebastião Neto, Ramon Szermeta, Alana Moraes e Rita Natálio (de quem partiu a ideia desse texto).

1.http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1895645-aprovacao-da-gestao-t e http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/06/1895650-maioria-dos-brasileiros-pede-saida-de-presidente.shtml

2. No preciso paralelo feito por Ramon Szermeta: “enquanto na Argentina em 2001 um martelo se abateu sobre todo o sistema representativo causando um terremoto e produzindo um efeito de castelo de cartas, no Brasil, ao contrário, o efeito mais se assemelha ao de cupins corroendo diária e lentamente o que ainda havia de credibilidade das instituições em todos os níveis, numa ação que originalmente havia sido programada para atingir exclusivamente o governo, seu partido e sua base de sustentação e se espalhou atingindo a todos”.

3. Respectivamente, atual Governador de São Paulo, do PSDB, e ex-senadora e ex-ministra, duas vezes candidata à Presidência, da Rede.

4. Respectivamente, o ex-presidente da Câmara dos Deputados e o ex-Governador do Rio de Janeiro; ambos do PMDB e encarcerados.

5. Senador e Presidente do PSDB, perdeu a última eleição presidencial para Dilma Rousseff.

6. Sobre a Operação Lava Jato, vale muito a pena ler de Bruno W. Reis “A Lava-Jato é o Plano Cruzado do combate à corrupção”. http://novosestudos.uol.com.br/a-lava-jato-e-o-plano-cruzado-do-combate-… (agradeço a indicação de leitura de Vera Telles).

7. Naomi Klein. A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro, Record, 2008.

8. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/05/1880026-71-dos-brasileiros-… e http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2017/05/1880398-maioria…

9. Atual presidente da Câmara dos Deputados, do DEM, primeiro na linha sucessória.

10. http://midianinja.org/guilhermeboulos/meirelles-e-a-falencia-da-democrac…

11. Jovem catador negro, preso no dia 20 de junho de 2013 no Rio por portar duas garrafas com produtos desinfetantes nesse dia da maior manifestação (na qual ele nem tinha participado). Foi condenado a mais de cinco anos de prisão por estar portando esse produtos perigosos. Depois de conseguir, devido à progressão da pena, sair da prisão com tornozeleira eletrônica, a Polícia Militar o acusou, em outro episódio, de tráfico emputando a ele o porte de drogas. Foi condenado a 11 anos de prisão. Seus advogados recorreram e mobilizações buscam impedir mais essa brutal injustiça. Para saber mais, veja: https://libertemrafaelbraga.wordpress.com/about/, http://midiacoletiva.org/documentario-rafael-braga-o-homem-que-foi-conde… e http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/na-histori…

12. Rafael Costa faz, nesse contexto, a seguinte colocação: “ironicamente, o ex-presidente durante seus oito anos de governo também não visitou uma vez sequer um estabelecimento penitenciário, ou fez observação contundente sobre a situação da imensa população preta encarcerada em condições sub-humanas, ou sobre como evitar que o braço punitivo do Estado recaia somente sobre àqueles/as que não se encaixam no padrão normativo das elites”.

13. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1879861-com-rejeicao-a-temer-…

14. Sobre esse ato em Brasília, ver os relatos de Gavin Adams (https://urucum.milharal.org/2017/05/24/historia-em-pedacos-brasilia-24-d…) e de Henrique Rocha (https://m.facebook.com/henrique.rocha.9404?fref=nf&refid=52&__tn__=C-R).

15. Acerca dessa questão, uma boa entrevista do coordenador do MTST, Guilherme Boulos: https://www.conversaafiada.com.br/tv-afiada/boulos-a-revolta-e-subterran…

16. No dia 25 de julho, o MST protagonizou a Jornada de Luta pela Reforma Agrária, a partir do lema “Corruptos, devolvam nossas terras!”, ocupando fazendas de um amigo e assessor de Michel Temer, de Ricardo Teixeira (ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol) e a Base de Alcântara, no Maranhão, a respeito da qual o governo golpista negocia utilização pelos EUA: https://www.brasildefato.com.br/2017/07/25/mst-realiza-serie-de-ocupacoe…

17. Ler a interessante análise de Juarez Guimarães: http://www.sul21.com.br/jornal/nao-ha-nada-mais-desmobilizador-hoje-do-q…(agradeço a indicação de leitura de Josué Medeiros)

18. Um exemplo talvez pioneiro que se aproxima disso, vindo do Equador, FLOK/Buen conocer: modelos sostenibles y políticas públicas para una economía social del conocimiento común y abierto en Ecuador. http://book.floksociety.org/ec/

19. Michel Crozier, Samuel P. Huntington e Joji Watnuki. The Crisis of Democracy: report on the governability of democracies to the Trilateral Commission. New York University Press, 1975 (p. 61).

*Militante e professor de Ciência Política na Universidade de São Paulo.


Foto: “As instituições políticas representativas estão derretendo”

Fonte:  Outras Palavras

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Aula Magna e Ato em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Quilombolas: contra o marco temporal, na UnB, 11/08


No dia 16 de agosto, é possível que o Supremo Tribunal Federal julgue três ações sobre o chamado marco temporal, tese anti-indígena que tem a finalidade de limitar as demarcações de terras no Brasil. Tanto os povos originários quanto os quilombolas, que também estão sob a ameaça de aplicação dessa tese inconstitucional, vêm se mobilizando contra esse marco, que pretende negar as territorialidades históricas desses povos, bem como legitimar o genocídio que eles sofreram e a usurpação de suas terras por invasores e grileiros.

No mês passado, o governo Temer resolveu institucionalizar esse impedimento às demarcações de terras por meio de um parecer da Advogacia Geral da União, que comentamos:

Imaginem se, na Alemanha, fosse editada uma lei determinando que os bens das vítimas de genocídio pelo nazismo devessem ficar com os algozes e os colaboradores. Segundo a “lógica” dessa lei, as vítimas seriam “culpadas” de terem sido mortas ou expulsas de sua terra e, portanto, os assassinos e invasores mereceriam ser recompensados por suas ações criminosas “em prol” da nação… Uma lei dessas, além de ferir princípios básicos de justiça e de dignidade humana, colocaria a Alemanha na berlinda das nações.

Isso não se fez lá, mas, no Brasil, acaba de acontecer algo parecido. A tese do “marco temporal” foi oficializada por Michel Temer no Diário Oficial da União do dia 20 de julho de 2017, por meio de um Parecer vinculante da Advocacia Geral da União (Parecer n. 001/2017/GAB/CGU/AGU), com a finalidade de paralisar processos de demarcação de terras indígenas no Brasil, bem como de anular demarcações já realizadas.

Contra a tese do marco temporal, o Índio é Nós preparou uma declaração em 2015 e colaborou na organização de um seminário naquele mesmo ano na USP, em que José Afonso da Silva apresentou um parecer demonstrando sua cabal inconstitucionalidade.

Como essa tese inconstitucional, anti-indígena e antiquilombola está sendo defendida no âmbito dos três Poderes instituídos, seja por meio daquele parecer do Executivo, seja por intermédio dos projetos legislativos incorporando o marco temporal como emenda constitucional, ou por decisões da 2ª Turma do STF, devemos nos alegrar que a Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), uma exceção no ensino jurídico, abra suas portas para a mobilização “Nossa história não começa em 1988″ da Articulação dos Povos Indígenas do País (Apib) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas(CONAQ).

No Dia do Advogado, 11 de agosto, a Faculdade de Direito da UnB abrigará uma Aula Magna e Ato em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Quilombolas. Nela, “Além das representações da Apib e da Conaq, já estão confirmadas as participações presenciais de José Geraldo de Sousa Junior (FD/UnB), Ela Wiecko Wolkmer de Castilho (PGR/MPF e FD/UnB), Deborah Duprat (PFDC), Luciano Mariz Maia (6ª CCR/MPR), Anginaldo Oliveira Vieira (DPU-Defensor Nacional de Direitos Humanos) e Carlos Frederico Marés de Sousa Filho (PUC-PR); e virtual de Dalmo de Abreu Dalari (USP). ”

Vejam a página do evento no facebook para mais informações.

Agradecemos a Henyo Barretto as informações sobre o evento.

Fonte: Índio é Nós.

Luiz Melodia era um tropicalista dos morros

“Como assim, o rapaz é negro, desce do morro do Estácio e não é sambista?”. Um jornalista do qual Luiz Melodia não citava o nome o recebeu assim em 1973, quando ouviu o que ele poderia fazer ao lançar o álbum “Pérola Negra”, sua estreia, pela Philips. Eram anos de liberdade criativa mesmo nas gravadoras, de produção livre e “orgânica”, de colocar para fora tudo o que bossistas, jovem guardistas e tropicalistas haviam deixado de legado na década anterior.

Melodia surge como o filho mais bem acabado do espírito tropicalista do “tudo é possível”

Melodia surge como o filho mais bem acabado do espírito tropicalista do “tudo é possível”. Não por acaso, se aproximou de mentes livres como Waly Salomão, Torquato Neto e Helio Oiticica. Gravou rock, samba, samba rock e todo o universo que existe entre os dois.

O preconceito despejado na infeliz frase do jornalista carioca era sinal do embaralhamento que aquela imagem cheia de atitude poderia causar. Não havia como classificar Melodia. E “Pérola Negra”, um dos grandes álbuns da música brasileira percebido assim logo de cara, não deixava dúvidas de que Melodia era um nome incontornável. Era preciso falar sobre ele.

O músico explicava aos jornalistas que se debruçavam para saber de onde vinham tantas informações na música de um homem que parecia predestinado ao samba. “Eu ouvia tudo isso no rádio e talvez tenha sido isso o motivo dos discos que até hoje gravo, sempre com variedade, desde o rock, o pop. Eu sempre tive essa malícia pra poder passar para os discos que eu componho.”

Jazz e blues, idiomas que aprendeu, já eram presentes em criações iniciais como a própria “Pérola Negra” e em “Magrelinha” (basta ouvir as frases de guitarra blues de Perinho Albuquerque). “Uma vez vi minha mulher conversando com meu filho: ‘Você já ouviu seu pai cantando blues? É genial.'” Ele mesmo se surpreendeu até identificar o quanto blues eram suas abordagens. Mas o mesmo disco tinha também “Forró de Janeiro”, com acordeão de Dominguinhos. O tropicalismo, definitivamente, havia subido o morro.

De fala curta e objetiva, olhar cortante para entender a pergunta antes de respondê-la, Melodia gostava de exercer o controle da situação e o distanciamento profissional diante de jornalistas. “Não faço ideia do que você está falando”, respondeu a um deles quando perguntado se a imagem de ‘maldito’ por parte da mídia não o havia prejudicado.

Respondia que sempre fez os discos que gostaria de ter feito, sem jamais deixar sair de si o “Estácio” que o havia ensinado tanto. Falava por si e olhava para os lados, sem medo de esfriar a festa quando preciso. Em 2014, em pleno palco Julio Prestes, na Virada Cultural, foi o único a lembrar que estavam todos ali em um território marcado pela calamidade humana. “Vamos olhar por esse pessoal que está nessa dependência dessa droga filha da p.. Qualquer ajuda é importante.” Disse isso e cantou Magrelinha aos agoniados do crack.

Fonte: Hoje em Dia.

Mercantilização da saúde e violência obstétrica



Por Daniela Valle,
Quem é a pessoa que tem coragem de cortar e depois costurar a vagina de uma mulher sem dar anestesia? Quem é capaz de simular uma emergência ou forjar exames para obrigar um parto por cesárea contra a vontade da gestante? Quem nega atendimento digno a uma adolescente por considerá-la “negra, tatuada e drogada” [1]? Enfim, quem são os profissionais que praticam a violência obstétrica?

Considerando que o parto virou um evento hospitalar, para 98,4% da população brasileira o nascimento acontece dentro de clínicas e hospitais, lugares que nos últimos anos passaram a ter “clientes” ao invés de pacientes [2], evidenciando que a saúde, cada vez mais, deixa de ser um direito universal e um dever do Estado, para se tornar um produto [3], com foco no lucro do empreendimento e não no bem-estar.

Como produto, mercadoria, o serviço de saúde passa a seguir a lógica da eficiência econômica. Esse caráter financeiro se revela, entre outros aspectos, na substituição dos médicos por administradores de empresa, na gestão das unidades de saúde.

Seguindo a lógica do mercado, esses administradores terceirizam todas as atividades possíveis, cumprem as rotinas com o menor número de trabalhadores que conseguir dar conta do recado, estabelecem e cobram metas, enfim, suam a camisa para enxugar gastos e garantir a lucratividade da “sua” empresa.

Essas clínicas e hospitais são empregadores de uma enorme massa de trabalhadoras, estimando-se que cerca de 80% dos profissionais de cuidado à saúde (enfermeiras, auxiliares e técnicas de enfermagem) são mulheres. Nota-se que essa maioria de mulheres não é por acaso [5]:

“É a noção de cuidado (de saúde à família), enquanto ação concebida como feminina e produto das “qualidades naturais” das mulheres, que fornece atributos e coerência ao seu exercício no espaço formal das relações de trabalho na saúde. (…) O que queremos mostrar é que o fato de se associar (funcionalmente) essas práticas no campo do trabalho, sobretudo hospitalar, às “qualidades” (e não qualificação) femininas condena essas ações ao status de tarefas intermediárias, destituídas de valor científico no processo terapêutico.”

Para a prestação do serviço de saúde são necessárias tanto as práticas do tratar, relacionadas à atuação médica, identificadas como masculinas, científicas, portadoras de valores de verdadeira qualificação profissional, quanto as práticas do cuidar, relacionadas às atividades de enfermagem e nutrição, associadas às qualidades femininas e empíricas, divisão que justifica a desvalorização social e econômica das atividades do cuidar, onde se concentra a mão-de-obra feminina.

Apropriando-se dessas concepções e a qualificação (competências e valores), o empregador define as práticas que sustentam a rigorosa hierarquia e os baixos níveis salariais aos que respondem pelas atividades do cuidar. Na área da saúde só resta a esses profissionais cumprir o trabalho massivo, rotineiro, taylorista, que exige sua atenção constante e intensiva durante a toda a jornada de trabalho, sem qualquer espaço para uma reflexão sobre as rígidas e pesadas rotinas e onde dificilmente os empregadores investem na formação continuada e/ou reciclagem dessas trabalhadoras.

Essas profissionais cumprem, em regra, plantões de 12 horas e quase nunca descansam nas 36 horas subsequentes, como pressupõe a escala, pois precisam de outra fonte de renda para complementar os baixos salários e, por isso, costumam manter dois postos de trabalho ou mais. Portanto, a rotina dessas trabalhadoras é “dobrar” o plantão, cumprindo jornadas diárias de 12 horas, praticamente sem folga, além de assumirem a maior parte dos trabalhos domésticos, lembrando que as mulheres gastam nessas atividades 25,3 horas por semana, contra as 10,9 horas gastas pelos homens nos cuidados com os filhos e o lar.

Temos, assim, uma enorme massa de mulheres mal remuneradas, desvalorizadas pela atividade que exercem, exaustas de tanto trabalhar dentro e fora de casa, submetidas a rotinas intensas de trabalho, onde a última coisa que podem fazer é refletir sobre a realidade onde estão inseridas.

Essas trabalhadoras, responsáveis por receber a gestante para internação e dela cuidar até a alta hospitalar, não têm tempo para o afeto, para ouvir a paciente, olhar individualmente para cada mulher que ali chega para se tornar mãe, pois o importante é entregar o produto tal qual foi vendido: separar direitinho quem é atendido pelo SUS e por convênio particular, no último caso verificar qual o convênio e a validade, separar o material usado por cada convênio (sem errar!) além de preencher corretamente formulários e relatórios, cumprindo à risca as rotinas pré-determinadas, sem sentir, sem pensar, sem olhar ao redor.

Mesmo os médicos, apesar de melhor remunerados, em comparação aos profissionais de apoio, também vivem o extenuante acúmulo de diversos vínculos de trabalho, para garantir um patamar salarial razoável. Além disso, estão cada vez mais doutrinados por conhecimentos extraídos de pesquisas financiadas por grandes laboratórios e empresas médicas, que pautam e direcionam essas pesquisas de acordo com seus interesses econômicos e não em prol do bem-estar humano, o que tem gerado uma formação e uma rotina médica onde igualmente resta pouco espaço para um olhar mais crítico e humano em relação às rotinas hospitalares, especialmente as praticadas no parto.

É nesse ambiente hospitalar que encontramos mulheres submetidas aos maus tratos, aos cotidianos e repetidos casos de violência obstétrica que, não raro, são praticados por outras mulheres.

Curiosamente, o fato de a mão-de-obra ser predominantemente feminina não impede a rotina de desrespeito às parturientes. Qual a razão da passividade dessas trabalhadoras diante da violência obstétrica?

A razão é que, em regra, não há espaço para sororidade nas maternidades hospitalares; ao contrário, o parto hospitalar rompeu os vínculos de solidariedade feminina que existiam quando o nascimento era um evento doméstico [10], guiado por parteiras e comadres. Pior do que isso, a lógica mercantilista aliada às rígidas e incontestáveis verdades científicas praticadas nos hospitais, a estrutura extremamente hierarquizada, geram um ambiente onde as condições do pensamento se esvaziam, as rotinas de trabalho estimulam uma ação mecânica, onde não se pensa, apenas se executam ordens.

Nesse contexto, atos contra a integridade física e moral da parturiente são praticados muitas vezes sem que o profissional da saúde se dê conta da violação que ali ocorre, das consequências traumáticas para a mãe e bebê, pois as práticas são naturalizadas, dentro da lógica do mercado e sem e se refletir sobre o seu impacto humano ou mesmo se seriam as melhores condutas para a saúde física e psíquica da paciente.

Nasce, assim, uma categoria profissional incapaz de fazer julgamentos morais, esvaziada de reflexão, que aceita e cumpre rotinas e ordens sem questionar, como fruto da massificação, da imposição de rígida hierarquia e de procedimentos padronizados, onde não há espaço para reflexão sobre o sentido daquele trabalho.

O mais chocante é perceber que os atos de violência obstétrica são praticados por funcionários comuns, pessoas dedicadas ao trabalho, cumpridoras de suas obrigações, a tal ponto que repetem, sem refletir, rotinas médicas impregnadas de preconceito e machismo, que pressupõe um corpo feminino “doente” e que, por isso mesmo, só funcionará com as intervenções e procedimentos por eles ditados.

Ou seja, não é um monstro perverso quem pratica os atos classificados como violência obstétrica, a exemplo da episiotomia como rotina e sem autorização [7], o “ponto do marido” [8] e a imposição de parto por cesárea [9], por exemplo, são pessoas “assim como você e o seu vizinho”, enfim, uma pessoa comum, como você e eu.

Trabalhadoras desvalorizadas e oprimidas pela rotina de trabalho atendem mulheres igualmente desvalorizadas na atividade reprodutiva.

É nas maternidades hospitalares que as esferas produtiva e reprodutiva se interpenetram, se entrecruzam, na definição da situação do trabalho feminino, visto para além do mercado de trabalho.

Com isso não se quer retirar a eventual responsabilidade individual de algum profissional da área de saúde nos casos concretos, a intenção é tentar enxergar a engrenagem que torna tão comuns e corriqueiras os atos de violência praticados no momento em que a mulher se torna mãe, questão que está inserida no trabalho reprodutivo do ser humano, cujo ônus é essencialmente assumido pelas mulheres [11]:

“O capitalismo oculta o nexo econômico entre o trabalho doméstico e o chamado trabalho reprodutivo (…) [o que] implica toda uma utilização da divisão sexual do trabalho das mulheres como aquelas que vão sustentar nos seus ombros boa parte desse trabalho de reprodução da vida. (…) O que as economistas feministas defendem é o seguinte: no centro do modelo econômico deve estar o bem-estar, isso significa que o trabalho reprodutivo e de cuidados tem que ser considerados como uma prioridade”.

Apenas com essa mudança de foco é que se enfrentará por inteiro a questão da violência obstétrica, colocar o bem-estar no centro do serviço de saúde ao invés do simples lucro mercadológico.

A precarização proposta pela recente alteração das Leis Trabalhistas, que inclusive institui de vez a escala 12×36, tende a agravar o quadro ora constatado, pois ao permitir condições mais precárias do que as hoje existentes, inclusive liberando o trabalho de mulheres grávidas em atividades insalubres, tende a intensificar o quadro de exploração das profissionais da área de saúde e alienação delas em relação ao resultado do trabalho, o que torna ainda mais propício o ambiente para perpetuação das práticas de violência obstétrica.

Se quisermos realmente enfrentar a violência obstétrica temos que olhar, urgentemente, para a realidade de trabalho das profissionais e começar a entender que as regras contidas na CLT regulam relações que impactam diretamente na vida de todos e não apenas dos trabalhadores que perdem proteções e garantias legais.

________________________________________________________
Daniela Valle da Rocha Müller é membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Foi advogada na área de Direitos Humanos e também trabalhista, já foi Juíza do Trabalho na 10ª Região e desde 2001 é Juíza do Trabalho da 01ª Região, Rio de Janeiro. Atualmente é diretora de Direitos Humanos da AMATRA-1, vegetariana, mas não todos os dias, mãe, cozinheira e entusiasta da produção orgânica, vai se virando no meio da luta de classes e sonha com a eficácia plena da legislação social.

Notas:

[1] – “Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!”, fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclâmpsia, cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres).

[2] – relato de profissionais da área de saúde – Seminário sobre Violência Obstétrica realizado em 14.07.2017 na sede da FEESSERS.

[3] – Frei Betto

[4] – A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres (“Violência obstétrica e o viés racial” – Emanuelle Goes – Blogueira, Enfermeira, Coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra, Doutoranda em Saúde Pública (ISC/UFBA). Email: emanuellegoes@gmail.com)

[5] – “A feminização persistente na qualificação profissional da enfermagem brasileira” Marta Júlia Marques Lopes e Sandra Maria Cezar Leal – cadernos pagu (24), janeiro-junho de 2005, pp.105-125.

[7] – episiotomia é uma cirurgia realizada na vulva, cortando a entrada da vagina. Com uma tesoura ou bisturi, algumas vezes sem anestesia, e que afeta a estrutura do períneo, como músculos e tendões, responsáveis pela sustentação de alguns órgãos, pela continência urinária e fecal e ainda tem ligações importantes com o clitóris.

[8] – “Num determinado momento da sutura, ele disse que ia dar dois pontos que iam doer um pouco mais, depois comentou que era o “ponto do marido”. Perguntei a ele o que era isso e ele disse que era um ponto que era dado para que “as coisas voltassem a ser parecidas com o que era antes” e que, se eles não fizessem isso, depois o marido voltava para reclamar. Como a referência ao marido é uma constante, perguntamos se eles já viram um marido reclamar, ao que responderam que não, uma vez que esse ponto era sempre feito. (DINIZ)

“E o médico, depois de ter cortado a minha vagina, e depois do bebê ter nascido, ele foi me costurar. E disse: ‘Pode ficar tranquila que vou costurar a senhora para ficar igual a uma mocinha!’. Agora sinto dores insuportáveis para ter relação sexual (relatos extraídos do Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, 2012)

[9] – “Conforme revelou a Folha ontem, a mulher, grávida de 42 semanas, foi levada por policiais ao hospital para passar pela cirurgia depois de a Justiça acatar um pedido do hospital e da Promotoria que alegavam “risco iminente de morte” da mãe e da criança. (…) “Quis ouvir uma segunda opinião de fora do hospital, mas negaram”, disse. “Não fui irresponsável. Sabia aquilo que era melhor para nós.” (…) Mãe também de um menino de 7 anos e de uma menina de 2, ela afirmou que se sentiu “enganada” por médicos nas gestações anteriores, quando passou por cesáreas”. Folha de São Paulo 03/04/2014

[10] http://justificando.cartacapital.com.br/2016/08/31/meu-corpo-suas-regras/ ehttp://justificando.cartacapital.com.br/2016/10/20/quando-o-parto-nao-e-exatamente-do-jeito-que-voce-imagina/

[11] Nalu Faria (revista Cult nº224, ano 20, junho 2017)

__________________________________________
Foto: Paciente da obstetrícia com bebê recém nascido. Reprodução/Agência Brasil

Enviado para Combate Racismo Ambiental por José Carlos.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Último dia de inscrições para o Conselho de Defesa dos Direitos do Negro - CDDN/DF

Os interessados têm até 31 de julho para apresentar os documentos exigidos


Do Correio Braziliense,
Estão abertas as inscrições para o processo seletivo de seis organizações da sociedade civil que integrarão o Conselho de Defesa dos Direitos do Negro do Distrito Federal. Os interessados têm até 31 de julho para apresentar os documentos exigidos, na sede do colegiado, no 8º andar do Palácio do Buriti, Ala Leste.

Para se candidatar, é preciso ter pelo menos três anos de atuação comprovada no enfrentamento ao racismo e na promoção da igualdade racial. Instituições filiadas não podem participar simultaneamente do edital. Os documentos necessários são:

  • Ofício dirigido ao secretário do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, assinado pelo representante legal, solicitando a habilitação da entidade para participar do processo seletivo Cópia de carta de princípios ou estatuto, na qual constem a missão e as ações de defesa dos direitos da população negra
  • CNPJ ou, na inexistência deste, carta de apresentação assinada pelos titulares de três entidades públicas — ou por autoridades públicas —, atestando o funcionamento da organização há pelo menos três anos e sua atuação em âmbito distrital
  • Relatório de atividades da organização nos últimos três anos, acompanhado de documentos comprobatórios, como registros em mídia nacional ou local, folhetos de eventos, cartazes, cartilhas, fotos e outros
Por meio da análise da documentação, a assessoria do conselho avaliará quais instituições cumprem os requisitos para concorrer. A população poderá escolher entre as entidades habilitadas por meio de votação, em 21 de agosto.
Igualdade Racial no DF

Criado em 1997, o Conselho de Defesa dos Direitos do Negro do DF é um órgão construtivo e deliberativo, encarregado, entre outras funções, de definir políticas, programas e ações voltados ao fim da discriminação racial, além de assessorar o governo de Brasília sobre assuntos relativos ao tema.

Ele é vinculado à Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. Além dos seis representantes de organizações sociais, compõem o colegiado:

  • dois servidores do governo de Brasília
  • um da Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura
  • um integrante da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Distrito Federal
  • um da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania, Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Legislativa do Distrito Federal
  • um da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça
Com informações da Agência Brasília

A voz de Diva para esconjurar o racismo


Até sexta-feira, diversidade da Flip era algo mais aferível por números, até que a professora falou

Por André de Oliveira,
Ao levantar ofegante, já emocionada, tremendo pela coragem repentina que lhe fez erguer o dedo e pedir a fala na manhã desta sexta-feira durante uma mesa na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Diva Guimarães, 77, estava – como ela própria diz durante um almoço neste sábado – esconjurando, compartilhando e vingando-se de uma história que lhe perseguia há 72 anos. Em sua intervenção, acompanhada de aplausos e choro dos palestrantes Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques, falou sobre o dia em que, aos seis anos, deixou de ser criança depois do sermão de uma freira do colégio interno em que estudava no interior do Paraná.

Deus, na fantasia da religiosa, havia criado um rio para que todos se abençoassem. Uns, laboriosos, teriam chegado primeiro e, ao se banharem, ficaram brancos. Outros, preguiçosos, demoraram-se e encontraram um rio já atolado em lama escura. Estes, puderam apenas lavar as palmas das mãos e as plantas dos pés, ficando com todo o resto do corpo preto. O que a freira dizia é que a cor da pele de Diva era um verdadeiro estigma, a denunciar lassidão, moleza, falta de moral. Tudo poderia ser resumido em uma palavra: racismo. Mas uma palavra não basta.

“O racismo é para além da pele. O racismo nos adoece, porque é muito difícil a gente se manter emocionalmente. Você ter chorado naquela hora [em que fazia a intervenção] é porque nossas vozes estão engasgadas desde sempre”, disse a escritora Conceição Evaristo em um encontro com Diva pouco antes da hora do almoço deste sábado. Lembrando da conversa com a autora e de tudo que está acontecendo na Flip, Diva ressalta que não havia se preparado para falar coisa alguma na sexta-feira. “Mas ao ver Lima Barreto homenageado, ao ouvir a fala do Edmilson Pereira [autor que abordou a questão racial no evento], ao conhecer a história da moça de Ruanda [a autora Scholastique Mukasonga] que perdeu toda sua família no genocídio, eu senti que precisava dizer algo também”.

A ideia inicial, diz enquanto espera seu spaghetti bolonhesa, era conseguir falar apenas com Lázaro Ramos, mas, ao ter a oportunidade de fazer uma pergunta durante a mesa do ator, acabou usando o espaço para dizer tudo que precisava. “Foi minha oportunidade, meu momento”. Menos de 24 horas depois, a filmagem de sua intervenção já tinha sido assistida mais de 5 milhões de vezes. Na rua, ela tem sido reconhecida por todos. Diva é paciente. Está feliz. Para, conversa, abraça, tira sefiles. As pessoas querem dizer que o que ela fez foi fundamental, que ela é, de fato, uma diva. E, desde sexta-feira, ela tem uma palavra para todos. Mas quer deixar bem claro: “Não sou boazinha assim, eu tenho raiva, ódio mesmo, e falei o que falei também por causa disso”, diz ao explicar que detesta ser vista com comiseração.

Até a manhã desta sexta-feira, a diversidade da 15ª Flip ainda era algo mais aferível por números do que concretamente. Sabia-se, por exemplo, que pela primeira vez havia mais autoras convidadas do que autores. Sabia-se também que 30% dos escritores da programação oficial eram negros e negras. Ao falar, Diva Guimarães fez de tudo isso algo palpável. O resultado é que deixou uma cidade emocionada, mas, mais do que isso, desorientada. Foi como se tivesse oferecido um espelho para uma pessoa que nunca vira seu reflexo. “Parece que deu um erro, uma tela azul do Windows na cara das pessoas. A Diva contou a nossa história, a história de todos os negros, e deixou claro como os brancos não sabem lidar com isso”, disse uma ativista do movimento negro em uma conversa informal com a reportagem do EL PAÍS.

“O escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana tem um conto chamado ‘As Mãos dos Pretos’ em que narra a história de uma criança que quer saber porque as palmas das mãos dos negros são brancas e recebe como resposta diferentes variações da história que Diva ouviu da freira”, diz Claudia Fabiana, professora e pesquisadora de literaturas de língua portuguesa, que está na Flip. Em uma delas, relembra, um professor da personagem explica que é porque os negros, até pouco, andavam de quatro, como os bichos. “O que a Diva fez foi contar uma história comum a todos. Quando você dá o microfone para a Diva, dá o lugar de fala para ela. Se só tiverem autores brancos, só vai ter uma história e, por isso mesmo, só uma literatura, um conhecimento”, argumenta Claudia.


Em um ambiente quente e polarizado no país, há uma crítica que reverberou na internet nos últimos dias que diz que essa edição da Flip teria se esquecido da literatura para se tornar só política. Claudia rejeita a ideia. Para ela, a literatura está no centro de todo o debate da Festa e o argumento contrário ao evento parte do princípio de que a experiência compartilhada do negro, que está presente muito mais na oralidade, é menor ou pior. “O que a Diva fez foi contar uma história que poderia ou não estar em um livro, mas que é um conhecimento oral e não é por ser oral que é menor”, diz. Em entrevista ao EL PAÍS nesta sexta-feira, Conceição Evaristo disse algo semelhante: “Não nasci rodeada de livros, mas de palavras”. Tudo pode dar em literatura ou ser literatura.

No almoço, Diva conta que ainda criança chegou à cidade de Cornélio Procópio, no interior do Paraná, com a mãe, que era lavadeira em diferentes casas do município. Pouco depois, aos cinco anos, foi recolhida por uma missão católica para estudar em colégio interno. A coisa, diz, funcionava assim: a Igreja dava educação, as crianças, em paga, trabalhavam para a instituição. Tudo muito mascarado de boas intenções. Aos 21 anos, pegou um trem que demorou 24 horas para chegar a Curitiba. Lá, passou frio com uma manta “corta febre” – “dessas que o prefeito de São Paulo anda distribuindo para os mendigos da cidade” – arranjou trabalho, estudou, entrou no curso de educação física na Universidade Federal do Paraná. Foi a única negra da instituição. Virou “cobra” no atletismo, jogou basquete, arremessou peso, nadou, formou-se. Tornou-se professora. Nunca esqueceu a freira.

E a freira, explica, não está apenas na história de sua infância, mas na diretora da escola que um dia lhe disse que “se negro não faz sujeira na entrada, faz na saída”. Está no fato de que no Sul do país muitos negros aprenderam alemão em suas escolas por causa dos imigrantes europeus, mas que os brasileiros não aprenderam sequer uma vírgula sobre a África. Está também em todos os olhares de desconfiança que já recebeu. Está até mesmo nestes dias em Paraty, quando uma mulher lhe disse “talvez achando que me elogiava, que meu coração é branco”. Ou ainda na pergunta de um repórter que queria saber quanto Diva ganhava. “Eu não sou vítima! Porque estão me perguntando do meu salário? O que isso tem a ver?”.

Na rua do Fogo, distante algumas quadras do restaurante, onde está a casa da editora Malê – termo usado no Brasil no século XIX para designar a população negra de origem mulçumana que sabia ler e escrever em árabe –, Vagner Amaro, seu fundador, também comenta a intervenção de Diva. “Eu venho à Flip desde o começo e não via meus pares. Vivi essa situação inúmeras vezes. Por que essa edição tem muito mais presença de negros no público? Porque nós nos reconhecemos nessa programação. Ela chamou as pessoas”, comenta. A Malê, fundada em 2015, é dedicada à literatura afro-brasileira e é o selo de autores como a própria Conceição Evaristo. “Acho que a Diva falou porque se sentiu empoderada pelas palestras e pela presença de seus pares”, reflete Amaro.

Formada em educação física, Diva, contudo, sempre foi uma apaixonada por literatura e Conceição é uma de suas preferidas. Não à toa, ficou tão emocionada quando recebeu a visita da escritora neste sábado. “Sempre procurei ler literatura de autores negros, mas também ouvir suas histórias”, conta. O que faz lembrar que desde que a programação da Flip foi anunciada, há um comentário recorrente que diz que mais importante do que “trazer autores negros é formar leitores negros”. Uma variante da mesma ideia diz que “não faltam só autores negros em Paraty, mas também público negro”. Para Amaro, Diva é a prova viva da mentira dos argumentos. “O leitor negro no Brasil, a literatura negra no Brasil, não nasceu agora”, argumenta.

Segundo o editor, as pessoas se sentem livres para falar sem conhecimento, como se o mundo em que elas vivem, fosse todo o mundo. “A Malê, por exemplo, tem livros em terceira, quarta edição, outros esgotados, e temos pouco tempo de vida. Não há leitores negros ou os eventos, como a própria Flip fazia, não dão espaço para que esses leitores possam se reconhecer?”, diz Amaro. Para ele, há gerações anteriores de leitores e escritores, como a da própria Conceição, além de uma juventude nova que teve mais acesso à formação, e que está tão bem representada em mobilizações na internet e projetos que não param de surgir – como sua própria editora.

Cabelos curtos presos em tranças, Diva contou, enquanto se equilibrava com sua bengala nas pedras das ruas históricas da cidade fluminense – “toda construída por meus antepassados escravos” –, que só perdeu a raiva de Deus quando compreendeu que Jesus não era o da freira de sua infância. “Ele não tinha olhos azuis e nem cabelo loiro, seria impossível”. No espaço de um quarteirão entre o restaurante e a casa para onde foi à tarde para participar do lançamento de um catálogo de intelectuais negras, organizado por pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Diva foi parada mais umas tantas vezes para tirar fotos e conversar. Chegando ao evento, encontrou um espaço completamente lotado, com mais de 300 pessoas se espremendo. Ao passar a soleira da porta, foi ovacionada e, mais uma vez, se emocionou.

_________________________________________________
Diva Guimarães e Conceição Evaristo. Foto: Walter Craveiro

Fonte: El País.