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sábado, 8 de outubro de 2016

O racismo velado nas escolas: Precisamos falar sobre nossas crianças.

por Barbara Rodrigues,
Essa é a história fictícia (só que não) de uma menina preta, de cinco anos de idade. A garotinha iniciava sua primeira experiência na pré-escola, estava entusiasmada com a possibilidade de conhecer outras crianças e aprender novas coisas. Nessa idade, já havia sido alfabetizada por sua mãe. Apesar da idade, sentia-se “Ser” no mundo.

A tia da perua (Bia) tinha o apelido de Xuxa, por conta de olhos azuis, cabelo loiro e curto. Bia, sempre fazia o rodízio das crianças que poderiam sentar no banco da frente da perua, cada criança teria sua vez um dia da semana. No entanto, a garotinha preta nunca pode sentar no banco da frente, seu dia era preenchido com outra menina, loira, cabelos cacheados, pele branca e olhos verdes, ao ressaltar sua beleza, enfatizava que ela poderia andar no banco da frente mais de uma vez.

Sempre ao chegar ao “Pré” a tia da perua desmanchava a trança da garotinha preta. Refazia o penteado que sua mãe havia feito com esmero, sempre alegando: “sua mãe não arruma o seu cabelo direito”. Apesar de nunca ter se falado em raça, cabelo crespo, pele preta e racismo, a agressão estava implícita na maneira de tratar, no manejo das situações diárias, na comparação e no tratamento. Para uma ótima entendedora, palavras não eram necessárias.

Não sabemos exatamente quando, e como o racismo vai se apresentar para as nossas crianças, mas a iminência da sua chegada é uma certeza para todas nós. Segundo dados da Unicef de 2010, aproximadamente 54,5% das crianças e adolescentes no Brasil, são negras ou indígenas. Embora a pobreza no Brasil seja referida é citada, inclusive em pesquisas, de forma generalista, dados estatísticos demonstram que ela tem cor e especificidades.

Apesar da pouca produção científica, que nos traga dados variados a respeito do racismo e infância, alguns estudos nos mostram a configuração desse quadro no Brasil. Apesar da retórica da classe dominante, temos vários dados de pesquisa que apontam como a instituição educacional é aparelho de exclusão e cerceamento.

Quando em meio ao convívio com outras crianças ainda nas fases iniciais da pré-escola, crianças negras passam por diversas experiências de racismo velado, baseado em uma linguagem não-verbal, por meio de atitudes, gestos e tons de voz que reforçam o racismo e a rejeição por parte das crianças negras em relação ao seu pertencimento racial Oliveira e Abramowicz (2010).

Dessa forma, a todo momento é confrontada com modelos negativos que a hostiliza, silencia e rouba a possibilidade de sentir-se pertencente aquele grupo social. Os conteúdos hostis passam a ser internalizados e incorporados a identidade de forma negativa.

Primordialmente é negado o direito a existir em sua totalidade e unicidade. A criança internaliza muito cedo a necessidade de lançar mão de quem se é, para vir a ser uma versão caricata de si mesma, elaborando mecanismos para sobreviver as agressões. Nesse processo de expropriação da identidade racial, a criança é submetida a situações adversas. É comum o sentimento de menos-valia, inadequação e rejeição.

Esse é um processo de grande sofrimento psicológico. A criança tem os espaços negados, passa a perceber seu lugar no mundo a partir de uma perspectiva de expectador de sua própria história, à parte, sem poder de decisão e ação. Por isso, negar seus próprios traços, sua cor de pele, e descendência passa a ser uma defesa. É um meio de sobrevivência a sensação de aniquilamento do “Eu”.

Podemos comprovar esse quadro, quando observado a pesquisa com crianças em idade de pré-escolar: Souza (2002), aponta que as crianças negras revelaram, muitas vezes, o desejo de serem brancas, de cabelo liso, querendo se comparar com os personagens das histórias infantis, reforçando a imagem que a criança negra faz de si, evidenciando a negação de sua condição racial.

Como fortalecer nossas crianças?

Com absoluta certeza, a promoção de políticas públicas nos espaços sociais será de grande valia no que diz respeito a proteção e saúde mental das crianças negras, entretanto, sabemos que o racismo possui raízes profundas, e não podemos esperar que a esfera pública se transforme, por isso, precisamos fortalecer nossas crianças antes mesmo que tenham contato com o meio social amplo.

Infelizmente por uma série de questões, inclusive culturais, as crianças não possuem repertorio para enfrentar esse ciclo de agressão. Não se fala sobre raça, cor e posição social dentro da família. Muito desse comportamento se deve a uma falsa proteção contra o racismo: nega-se a origem e os traços para sofrer menos e ser melhor aceito. Entretanto, como os dados de pesquisa mostram, não existe sofrimento amenizado.

Construímos a imagem que temos de nós, tomando como referência os as pessoas mais próximas de nossa relação, por isso falaremos sobre Família.

Ao longo do desenvolvimento a criança se constrói como sujeito e se identifica como “Eu”, a partir da relação com o outro. Nesse processo, que acontece ainda nos primeiros anos de vida, é necessário que a criança se sinta segura do amor de seus pais ou cuidadores, que ela saiba que sua casa é o seu território.

Antes mesmo de estar inserida em meio social, a grande referência de espaço de fala e de pertencimento é o ambiente familiar. É nesse espaço que ela deve sentir-se segura, ser ouvida e acolhida, independente do que faça ou como haja.

É preciso falar sobre raça. Ainda cedo é importante que a criança tenha contato com figuras representativas, nas quais ela se reconheça: historias, brinquedos, jogos, tudo que favoreça a imaginação e ofereça boas referências. É importante que ela desenvolva autonomia sobre si e sobre suas decisões.

Referências Bibliográficas

  • SILVA, V. A.; ANDRADE, L. H. C. Considerações sobre o corpo em Lacan. Estudos em Psicologia São Paulo. n. 1, p. 143-149, 2002.
  • LOPES, S.C.J.; A vivencia do Racismo e do Sexismo na Infância e na Adolescência e a Construção da Identidade das Meninas Negras. Cadernos Imbondeiro. João Pessoa, v.2, n.1, 2012.
  • MÁXIMO, O.C.A.T; Vieira, L. R.C.F.L; Lins, B.L.S. Processos de identidade social e exclusão racial na infância. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 18, n. 3, p. 507-526, dez. 2012.
  • CIAMPA, Antônio da Costa. Identidade. In: W. Codo & S. T. M Lane (Orgs.). Psicologia social: o homem em movimento (pp. 58-75), São Paulo: Brasiliense, 1984.
  • ABRAMOWICZ, A; Oliveira, F. Um estudo sobre a creche: o que as Práticas educativas produzem e revelam sobre a questão racial?. 2004. 112. Dissertação de Mestrado – Universidade Federal de São Carlos. São Paulo. 2004.
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Imagem destacada – Arquivo pessoal

*Barbara Rodrigues
Mulher negra, aos vinte e nove anos de intensas vivências. Em constante transformação e conhecimento interno. Mãe da Alice, agora com três mêsinhos e meio. Psicóloga em um relacionamento sério com a profissão. Apaixonada pelo ser-humano e tudo que podemos vir a ser. Eternamente comprometida em ajudar pessoas a lapidar o melhor de si. Formada por meio do programa de cotas do PROUNI, primeira turma de 2005. Ex-concurseira assumida, e atual funcionaria estadual. Dedicada a árdua tarefa de ajudar pessoas em sofrimento psíquico, oriundas do sistema penitenciário do Estado de São Paulo, expropriadas do seu direito de decidir, e diagnosticadas com doença mental. Idealizadora do projeto Psiquê Preta, carinhosamente construindo para a promoção da saúde emocional e empoderamento de mulheres negras.

Minicurso Direito e Relações Raciais

 
O Programa Direito e Relações Raciais da Universidade Federal da Bahia (PDRR/UFBA), o Centro de Estudos em Desigualdade e Discriminação (CEDD/UnB) e o Maré - Núcleo de Estudos em Cultura Jurídica e Atlântico Negro convidam para o Minicurso Direito e Relações Raciais.

O Minicurso pretende ser uma introdução sobre as interconexões entre direito, relações raciais e antirracismo, abordando temas fundamentais para a compreensão do fenômeno jurídico a partir de uma perspectiva que leve a raça a sério.

Programação:
Segunda - 10/10/2016: Introdução: para além da criminalização do racismo.
Terça - 11/10/2016: Constitucionalização do Antirracismo.
Segunda, 17/10/2016: Sistema Penal, Prisionização, Guerra às Drogas e Genocídio
Terça, 18/10/2016: Liberdade Religiosa, Discriminação e Violência Contra as Religiões de Matrizes Africanas.

Todas as atividades ocorrerão no horário de 19h às 21h.
Local: Miniauditório da Faculdade de Direito da UnB.
Certificação: 12 horas.

Coordenação:
  • Evandro Piza
Professor de Direito Penal, Processo Penal e Criminologia na Universidade de Brasília. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (1993), mestrado em Direito pela UFSC (1998) e Doutorado em Direito pela Universidade Nacional de Brasília (UnB). Coordenador do Centro de Estudos em Desigualdade e Discriminação da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (CEDD/FD/UnB) e membro do Grupo de Investigación sobre Igualdad Racial, Diferencia Cultural, Conflictos Ambientales y Racismos en las Américas Negras-IDCARÁN da Universidade Nacional da Colômbia.

  • Samuel Vida
É advogado, professor de direito da UFBA e Ucsal, militante do Movimento Negro e Secretário Executivo do AGANJU (Afrogabinete de Articulação Institucional e Jurídica). Mestrando em Direito pela Universidade de Brasília. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1994) e Especialização em Direito e Cidadania pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2001). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito e Relações Raciais e Teoria do Direito.

Organização:
Programa Direito e Relações Raciais (PDRR/UFBA)
Centro de Estudos em Desigualdade e Discriminação (CEDD/UnB)
Maré - Núcleo de Estudos em Cultura Jurídica e Atlântico Negro

Serviço
Minicurso Direito e Relações Raciais
Data: 10, 11, 17 e 18 de Outubro.
Hora: 19:00h às 21:00h.
Local: Miniauditório da Faculdade de Direito da UnB.

Câncer de mama: disparidades raciais e socioeconômicas



por Carmen SanDiego para Cientistas Feministas,
Outubro é o mês dedicado à conscientização do câncer de mama, que é um dos mais comuns cânceres mais comuns em mulheres, representando 25% de todos os casos de câncer no mundo. Globalmente, são diagnosticados aproximadamente 1,7 milhões de novos casos dos quais meio milhão vão a óbito 1. 

A incidência varia de acordo com a região geográfica. É observado que países norte-americanos, países da Europa Ocidental, países da América Latina e Austrália apresentam índices mais elevados, enquanto a grande maioria do território africano e asiático possui as menores taxas de incidência 1. Apesar dos países mais desenvolvidos possuírem uma alta taxa de incidência de câncer de mama, os países em desenvolvimento, como Nigéria e Etiópia, apresentam os maiores índices de mortalidade 2. Em países da América Latina, verifica-se que a incidência de câncer de mama está aumentando e acredita-se que isto esteja relacionado a diversos fatores: o aumento da taxa de obesidade, a redução de atividade física, a ocidentalização do estilo de vida e também ao limitado acesso de triagem e tratamento 1. 

Diferenças também são verificadas em um mesmo país. Nos Estados Unidos, as mulheres brancas apresentam maior índice de incidência, porém, mulheres afrodescendentes com câncer de mama apresentam maior índice de mortalidade 2. 

Estas disparidades estão relacionadas à combinação de diversos elementos, como fatores biológicos, estilo de vida, diferenças no acesso a tratamento e também em procedimentos de prevenção e triagem 3. 

Fatores Biológicos 

Devido a sua heterogeneidade, câncer de mama compreende um grupo de doenças. Estudos contendo análises genômicas mostram que câncer de mama pode ser classificado em 10 tipos 4. Na clínica, a classificação é feita por marcadores moleculares que são capazes de definir prognóstico e tratamento. 

Células tumorais que expressam receptores hormonais de estrógeno e de progesterona, geralmente estão associadas com bom prognóstico e pacientes que apresentam este tipo de tumor podem ser beneficiadas com o tratamento hormonal. Tumores que expressam o receptor HER-2 (human epidermal growth factor receptor 2), um dos membros da família de receptor do fator de crescimento epidérmico, estão associados com alta agressividade e prognóstico ruim 5. 

O desenvolvimento do anticorpo anti-HER-2, foi um grande progresso na terapia deste tipo tumor 6. Tumores que não apresentam nenhum tipo destes receptores, são considerados triplo negativo e pacientes com tumores triplo negativos apresentam um prognóstico pior. Diferente dos outros tipos, não há nenhum tratamento direcionado que seja eficaz para tumores triplo negativos 7. 

Dados mostram que mulheres afrodescendentes tem mais probabilidade de serem diagnosticadas com câncer de mama triplo negativo e também com tumores em estágios mais tardios 8. Tumores triplo negativo tem mais incidência em mulheres dos países da África, sugerindo uma possível associação genética 2. 

Estilo de vida 

A população hispânica* dos Estados Unidos apresenta menor incidência de câncer de mama que a população branca, porém, observa-se que o risco é menor para mulheres hispânicas estrangeiras que as mulheres nascidas nos Estados Unidos. Este risco aumenta para as sucessivas gerações que vivem nos Estados Unidos. Apesar de países asiáticos apresentarem taxas de incidência menores que os países ocidentais, asiáticas que vivem nos Estados Unidos apresentam maior risco de serem diagnosticadas com câncer mama. Resultados indicam que o aumento no risco é devido a mudanças de estilo de vida e aumento do peso corpóreo 3. 

Obesidade não só aumenta o risco de incidência de câncer de mama, como também está relacionada ao encurtamento do tempo de sobrevivência após o diagnóstico. Estudos mostram que a obesidade eleva o risco de incidência em mulheres após a menopausa. Entretanto, obesidade durante a adolescência e o período de início da vida adulta é inversamente proporcional com a incidência do câncer de mama antes da menopausa. Nos Estados Unidos, o índice de mortalidade de câncer de mama é maior na população afrodescendente, que também apresenta alto índice de obesidade 3. 

Detecção, triagem e manejamento 

Detecção precoce através da mamografia promoveu a redução de mortalidade, porém, isto não é observado em mulheres de todas etnias e raças. A incidência de diagnóstico para uma mulher afrodescendente com idade inferior a 35 anos é 1,4 a 2 vezes maior que para as brancas 8. O fato dos exames preventivos serem somente realizados com mulheres na faixa de 40-50 anos pode contribuir com o aumento das chances de mulheres afrodescendentes serem diagnosticadas em estágios mais tardios. Acredita-se que o ajuste da idade para estas mulheres começarem a fazer procedimentos de detecção com idade inferior a 40 anos poderia ser mais benéfico 2. 

A qualidade do exame de mamografia e do treinamento dos profissionais envolvidos também pode contribuir para o aumento na disparidade da detecção precoce entre mulheres brancas e mulheres afrodescendentes e hispânicas. Geralmente, unidades que atendem minorias não possuem mamografia digital e profissionais especializados para interpretar os resultados 8 . 

Um estudo com 55.000 mulheres mostrou que há uma menor probabilidade de mulheres afrodescendentes serem tratadas nos hospitais de alta qualidade nos Estados Unidos. Além disso, outro estudo com 108.000 mulheres demonstrou que há maiores chances de atrasos no tratamento para pacientes afrodescendentes e hispânicos do que para mulheres brancas 2. Também há uma maior probabilidade das mulheres afrodescendentes não receberem tratamento adequado, além de também receberem doses inferiores de medicamentos. 

Foi sugerido por alguns cientistas que o alto custo de medicamentos orais poderia desencadear a subdosagem e até o abandono da terapia 8. Dados mostram que há uma maior probabilidade das mulheres afrodescendentes desistirem do tratamento e faltarem nos dias da aplicação de medicamentos. 

Sugere-se que barreiras econômicas como dificuldades de encontrar creches para as crianças, faltar ao trabalho e não ter como pagar o transporte podem desencadear o abandono no tratamento. Um estudo, onde todas estas variáveis foram controladas, mostrou que as mulheres afrodescendentes tinham uma redução na sobrevivência quando comparadas com mulheres brancas. Isto sugere que, mesmo que as mulheres afrodescendentes recebam tratamento adequado, não resulta na mesma proporção de benefícios observados para mulheres brancas. 

Câncer de mama e disparidades raciais e socioeconômicas no Brasil 

O interesse pelo tópico sobre disparidades raciais e socioeconômicas na incidência e mortalidade de câncer tem aumentado. Como observado nos Estados Unidos, dados mostram uma tendência de aumento das taxas de mortalidade de mulheres afrodescendentes com câncer de mama no Brasil 9. Estados como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo apresentaram diminuição no índice de mortalidade, enquanto que os estados do Maranhão, Piauí e Paraíba apresentaram aumento. Possivelmente estas disparidades refletem as diferenças na qualidade do sistema de saúde 10. 

A importância dos estudos sobre disparidades 

Muitos estudos sobre disparidades raciais e câncer de mama foram realizados nos Estados Unidos, que apresentam uma menor miscigenação racial que no Brasil. Desenvolver projetos que visam investigar diferenças na incidência do câncer de mama no Brasil é mais desafiador devido ao alto grau de miscigenação e também pela subjetividade das pessoas sobre a determinação da raça e cor 9. 

Estudos que investigam os fatores envolvidos na disparidade são essenciais para nós definirmos melhores estratégias para diminuir estas diferenças. Precisamos desenvolver mais projetos multidisciplinares com o objetivo de elucidar como os fatores biológicos e socioeconômicos podem modificar as taxas de incidência e mortalidade do câncer de mama nas diferentes raças e etnias no Brasil. 

* Hispânicos: são pessoas provenientes de Cuba, México, Porto Rico, países da América Central e do Sul, ou ainda de outro país de cultura espanhola. 
 
Referências:

  • Torre LA, Bray F, Siegel RL, Ferlay J, Lortet-tieulent J, Jemal A. Global Cancer Statistics, 2012. CA a cancer J Clin. 2015;65(2):87-108. doi:10.3322/caac.21262.
  • Ademuyiwa FO, Edge SB, Erwin DO, Orom H, Ambrosone CB, Underwood W. Breast cancer racial disparities: Unanswered questions. Cancer Res. 2011;71(3):640-644. doi:10.1158/0008-5472.CAN-10-3021.
  • Bandera E V., Makarinec G, Romieu I, John EM. Racial and Ethnic Disparities in the Impact of Obesity on Breast Cancer Risk and Survival: A Global Perspective.Am Soc Nutr. 2015;(5):803-819. doi:10.3945/an.115.009647.non-Hispanic.
  • Curtis C, Shah SP, Chin S-F, et al. The genomic and transcriptomic architecture of 2,000 breast tumours reveals novel subgroups. Nature. 2012;486(7403):346-352. doi:10.1038/nature10983.
  • Sims AH, Howell A, Howell SJ, Clarke RB. Origins of breast cancer subtypes and therapeutic implications. Nat Clin Pract Oncol. 2007;4(9):516-525. doi:10.1038/ncponc0908.
  • Slamon DJ, Leyland-Jones B, Shak S, et al. Use of chemotherapy plus a monoclonal antibody against HER2 for metastatic breast cancer that overexpresses HER2. N Engl J Med. 2001;344(11):783-792.
  • Dent R, Trudeau M, Pritchard KI, et al. Triple-negative breast cancer: clinical features and patterns of recurrence. Clin Cancer Res. 2007;13(15 Pt 1):4429-4434. doi:10.1158/1078-0432.CCR-06-3045.
  • Daly B, Olopade OI. A perfect storm: How tumor biology, genomics, and health care delivery patterns collide to create a racial survival disparity in breast cancer and proposed interventions for change. CA Cancer J Clin. 2015;65(3):221-238. doi:10.3322/caac.21271.
  • Soares LR, Gonzaga CMR, Branquinho LW, Sousa A-LL, Souza MR, Freitas-Junior R. Mortalidade por câncer de mama feminino no Brasil de acordo com a cor. Rev Bras Ginecol e Obs. 2015;37(8):388-392. doi:10.1590/SO100-720320150005319.
  • Gonzaga CMR, Freitas-Junior R, Curado M-P, Sousa A-LL, Souza-Neto J-A, Souza MR. Temporal trends in female breast cancer mortality in Brazil and correlations with social inequalities: ecological time-series study. BMC Public Health. 2015;15(1):96. doi:10.1186/s12889-015-1445-7.
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Emanuelle Aduni Góes
 

Emanuelle Goes - Blogueira, Enfermeira, Pesquisadora, Odara Instituto da Mulher Negra|emanuellegoes@gmail.com


O que as urnas revelam sobre o racismo nosso de cada dia


 

Por *Jorge Américo e **Douglas Belchior,
No Brasil todo mundo já namorou uma negra. Chamou um negro de genro. Adora ouvir as histórias do porteiro (que é negro). Considera a diarista (também negra) uma pessoa da família. Se emociona quando vê aquele gari (negro) que gosta de sambar, ser aplaudido pelos gringos. Tamanha harmonia é a consumação plena da principal regra da nossa democracia racial. Ou seja, a população negra sempre será tratada bem, desde que saiba qual é o seu lugar e dele não queira sair. Curioso como o gari continua sendo gari mesmo depois de tantos anos aparecendo na televisão.

Se não falha a memória, o ex-jogador de futebol Pelé foi o primeiro ministro de Estado negro do período chamado de redemocratização do Brasil. Sua nomeação para a pasta de Esportes se deu no ano de 1993, no governo FHC. Caso a preguiça desse uma trégua, seria muito proveitoso investigar se ele não terá sido o primeiro da história republicana. Dez anos mais adiante outro negro de renomada trajetória, Gilberto Gil, assumiria o ministério da Cultura, no primeiro mandato de Lula.

Pelé e Gil são dois ícones da cultura nacional. Chegaram ao topo dos únicos lugares onde negras e negros podem chegar ao topo. Um fez carreira no futebol, outro na música. Pela experiência e capacidade intelectual, tinham credencial para serem ministros da Saúde e Educação, respectivamente – podendo comandar dois dos orçamentos mais gordos da União. Afinal, a prática esportiva (aliada a uma alimentação adequada) é o que existe de mais avançado em saúde preventiva. E a capacidade criativa e postura crítica diante dos dilemas da humanidade são o melhor que um sistema educacional público e de qualidade poderia oferecer aos nossos jovens.

Mesmo no período de maior expansão das políticas de ações afirmativas, poucas alterações ocorreram nas estruturas de poder. Com rara exceção, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – criada por Lula e extinta por Michel Temer – se tornou o ministério exclusivo das negras e negros, o único lugar onde puderam exercer cargos de primeiro a décimo escalão. Era praticamente o quartinho da empregada do Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, muita gente incompetente (e pouco comprometida com os brasileiros que vivem com as menores rendas) esteve à frente dos ministérios da Fazenda, Planejamento e direção do Banco Central. Como diz a brilhante Rosane Borges, “em um período de avanços sociais a população negra foi beneficiária, mas nem sequer foi cogitada para ser gestora de políticas públicas”.

Vez ou outra algum dirigente de alta patente se colocou a favor da reserva de vagas para negros nas universidades e concursos públicos, mas ninguém praticou a pedagogia do bom exemplo. Nem as sucessivas chefias da Presidência da República nem dos governos estaduais e municipais se preocuparam em ter sua cota ministerial ou de secretariado formada por negras e negros. A universidade e as mobilizações populares produziram mão-de-obra negra qualificadíssima no último período. Isso significa que o corpo técnico e político das instituições públicas só não abrigaram negras e negros por opção de quem estava na Direção.

Esse esvaziamento e falta de diversidade étnico-racial também é comum nos cargos eletivos, responsabilidade do povo brasileiro em geral, este sob radical influência do meio ambiente racista a que somos expostos desde que nascemos. Existem perguntas que não são feitas por questão de decoro, mas que estão colocadas e devem ser enfrentadas com sinceridade. Principalmente num momento – eleitoral – como este, em que tanta gente coloca seus dons, talentos e boas intenções a serviço da população. Afinal, quem aceita ser representado por uma negra ou um negro na prefeitura ou na câmara municipal? Quem é capaz de reconhecer que não é racista na vida cotidiana, mas o é na hora de votar? As urnas revelarão este segredo que cada um esconde no coração.

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*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
**Douglas Belchior é professor de história e editor do Blog (Negrobelchior).

Fonte: Negrobelchior

Furacão Matthew deixa quase 900 mortos no Haiti e mergulha país no caos

Autoridades da ilha caribenha afirmam que a situação é “catastrófica”
 
 Empregados de um restaurante cobrem portas e janelas em Coral Springs (Flórida), nesta quarta-feira. 
HENRY ROMERO (REUTERS) Reuters-Quality

por Silvia Ayuso,
Os efeitos do Matthew não param e continuam aumentando em um dos países mais pobres do planeta, que já sofreu um terremoto devastador em 2010. O balanço, ainda provisório, de mortos na área sul do Haiti após a passagem do furacão continua subindo e passou, na quinta-feira, de 140 para 283, de acordo com relatórios recentes do Governo. Uma estimativa da agência Reuters eleva para 877, citando fontes de ajuda humanitária. Muitas das vítimas, de acordo com estas fontes, morreram quando árvores caíram sobre elas, pelo colapso de casas e nas inundações provocadas por ventos de mais de 230 quilômetros por hora.

O saldo, oficial mas ainda parcial, poderia continuar a subir nas próximas horas, já que ainda não foram publicados números de outras áreas de difícil acesso. O chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) no Haiti, Enzo di Taranto, confirmou que a região sul foi a mais afetada. Taranto explicou ainda que, se “o tempo permitir”, a agência vai realizar uma avaliação de campo para estabelecer dois centros de operação de coordenação com a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), em Les Cayes e Jeremie, a cidade mais afetada. “Nunca vi nada parecido com isso”, disse à agência Efe Louis Paul Raphael, representante do Governo na cidade costeira de Roche-a-Bateau, no Departamento Sul, uma das áreas mais devastadas pelo furacão.

A Organização Pan-Americana da Saúde alertou sobre um possível surgimento de cólera depois do furacão. Este ano, antes do desastre do Matthew, já tinham sido registrados 28.500 casos desta infecção intestinal com risco mortal. 
 
 

A ilha caribenha é até agora o país mais afetado pela tempestade que recuperou a categoria quatro. Cerca de 30.000 pessoas estão em abrigos improvisados em 12 municípios da região, diz a agência haitiana de notícias AlterPresse, e cerca de 10.000 estão sem abrigo.

Desde terça-feira, o poderoso ciclone atingiu o empobrecido e golpeado país causando danos extensos. O presidente interino do Haiti, Jocelerme Privert, qualificou a situação como “catastrófica”, garantindo que vão precisar de ajuda internacional para enfrentar possíveis emergências de saúde que podem surgir como resultado do furacão.

Durante a passagem do Matthew pelo Haiti, mais de 28.000 casas foram afetadas, mas o número poderá subir quando for possível chegar a todas as áreas e fazer uma avaliação completa dos danos. Segundo as Nações Unidas, o furacão Matthew já é responsável pela maior crise humanitária no Haiti desde o terremoto de 2010.

A ajuda internacional começa a chegar. Os Estados Unidos anunciaram o envio de um milhão de dólares em assistência para as comunidades afetadas. A União Europeia (UE) também se juntou ao apoio e informou que vai destinar 255.000 euros em “ajuda humanitária inicial” e está mobilizando ofertas de países europeus para ajudar o país através do mecanismo de proteção civil da UE, de acordo com a agência Efe.

Os danos causados pelo Matthew ainda não foram quantificados por causa das inundações e o colapso da ponte principal da cidade de Grand Goave, que faz a conexão com a capital do Haiti, Porto Príncipe. As equipes de resgate estão presas em muitas áreas.

Na vizinha República Dominicana, outras quatro pessoas morreram por causa do Matthew. Em Cuba ele também deixou grandes danos, mas apenas materiais. A passagem violenta do Matthew na noite de terça-feira deixou um rastro de deslizamentos de terra e inundações em lugares como Baracoa, Maisí e Imías, que hoje permaneciam sem sinal de telefone nem energia elétrica e com as estradas de acesso ainda bloqueadas e pontes destruídas. O flagelo do Matthews, o maior furacão formado no Caribe nos últimos nove anos, causou penetrações do mar e deslizamentos de terra e rochas em longos trechos de estradas que levam a esses municípios por isso a ajuda, até o momento, só está chegando por via aérea.

A cidade cubana de Baracoa, onde o furacão foi especialmente destrutivo, ficou em ruínas. Foram contadas pelo menos 749 casas atingidas pelas inundações e mais de 35.000 pessoas evacuadas. Segundo a Efe, na quinta-feira voltava o movimento nas ruas de Baracoa, dois dias após o furacão. As famílias iniciavam as tarefas de limpeza de suas casas e tentavam recuperar seus pertences entre os escombros e o barro. 
 
  Sobreviventes em casas destruídas na localidade haitiana de Jeremie. 
CARLOS GARCIA RAWLINS REUTERS
 
No total, as autoridades cubanas retiraram mais de 1,3 milhão de pessoas em toda a metade oriental da ilha antes da passagem do Matthews, realocados em abrigos, edifícios públicos ou casas de família mais seguras, uma medida preventiva que evitou vítimas fatais. O jornal estatal Granma noticiou na quinta-feira a retomada das saídas de ônibus, trens e voos, mas afirmou que não é possível chegar às cidades mais afetadas por terra.
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Para reflexão:



Fonte: Brasil.ElPais

sábado, 1 de outubro de 2016

Vidas Negras Importam: Nego E solta clipe ‘Lua Negra’, com KL Jay, Mc Soffia, Drik Barbosa

Na última quarta-feira (21), o Nego E finalmente divulgou o primeiro single do seu novo álbum. A música se chama “Lua Negra” e ganhou um clipe com cara de curta-metragem, onde a principal mensagem transmitida é: vidas negras importam.
Vidas Negras Importam (Imagem reprodução clipe)

Assista:


 
No som, Nego E manda versos inteligentes que carregam conteúdo histórico e protesto enquanto convidados especiais dão seu depoimento sobre como é ser negro no Brasil e a importância da representatividade. Artistas como KL Jay, Mc Soffia e Drik Barbosaestão presentes no clipe, que também reúne títulos de notícias evidenciando o racismo que mata diariamente, principalmente por parte da instituição da Polícia Militar.

Imagem reprodução clipe

“Ninguém melhor do que nós mesmos pra falarmos sobre o que passamos todos os dias, por isso buscamos recortes da luta negra pra falar um pouco sobre a treta de viver sabendo que pode ser morto por engano a qualquer momento e percebemos que esse medo rola tanto pro(a) preto(a) que mora no fundão da Cidade Tiradentes ou pro(a) que mora em Perdizes“, disse Nego E à Noisey.

O som tem produção musical de Grou e integra o disco “Oceano“, ainda sem data de lançamento, mas com participações confirmadas de Drik Barbosa, Helibrown, Nando Vianna, Rincon Sapiência e DCazz.

O clipe (que você assiste no topo) teve identidade visual pelo coletivo MOOC e direção do próprio Nego E. A faixa está disponível para download gratuito:
Baixe a música

Trecho da música
Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada?
A noite vi minha mãe com insônia
Por não saber se eu ia cair numa cena forjada (açoite)
O perfume das ruas cheira Brasil Colônia

Fonte: Geledes.

Intolerância religiosa

 
por Laísa Gabriela Sousa,
“Deus é mais!”, “Você está cultuando o demônio?”, “Logo você, que já foi da igreja se envolvendo com essas coisas? Sai disso!”, “Você tem que procurar Deus, porque esse Deus aí que você diz que cultua não é o meu”, “Jesus disse que os feiticeiros não teriam o reino dos céus, vá buscar Jesus, ele é o único que salva”. Essas foram algumas das coisas que após passar por um resguardo, usando roupas brancas por 21 dias. Ouvi isso de pessoas na rua, familiares e até mesmo de um rapaz no ônibus que nunca vi na vida.


Dói ter que ouvir essas coisas. E o que mais dói é lembrar que um dia fui evangélica e também preconceituosa, então, agora consigo entender o que as pessoas sentiam quando eu agia de forma ignorante e desrespeitando a fé delas. Acho que na nossa vida tudo serve como aprendizado, aprendi da pior forma, passando pelo mesmo e estando no lugar daqueles que um dia ofendi.

A situação quanto à intolerância religiosa está tão agravante no país, que só em 2015 o Disque 100 registrou 556 casos. Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, de 2011 até 2015 o número de denuncias subiu de 15 para 556 (aqui e aqui). Esse aumento pode ter se agravado também devido à coragem das pessoas de denunciar.

No Brasil, já tivemos diversos casos conhecidos nacionalmente. Desde casas de candomblé queimadas, imagens das divindades queimadas, casos de intolerância dentro do coletivo e pasme, até criança sendo apedrejada. Diante de tudo isso, me pergunto: onde vamos parar e o que vai ser feito pelo nosso povo? Esses são apenas alguns tristes exemplos, mas por aí a fora tem muito mais!

Fico incomodada quando as pessoas usam o que creem como verdade absoluta, desmerecendo as demais religiões, desrespeitando e sendo intolerante e muitas vezes, sendo racista também. Acredito que não há motivos pra isso. Vivemos em um mundo onde existem milhares de culturas, religiões, sendo que todos precisam aprender a conviver no mesmo espaço e respeitando as diferenças de cada um, mas infelizmente não é o que acontece.

Eu queria que as pessoas entendessem que pra mim Orixá é amor, respeito, união, é o ar que respiro, é o vento que toca meu rosto, é a coragem que surge em mim para enfrentar as mais diversas situações, é o desejo de justiça que tenho quando vejo alguém injustiçado, é a força ao acordar, é vida! Não cultuo ao diabo, cultuo divindades e exijo respeito, não só para mim, mas para todos os irmãos de Asè! Desejo força para cada um de nós que precisa lidar diariamente com essas situações. Não nego minha fé, sou candomblecista sim e não tenho vergonha disso. Que Olorum abençoe a todos e nos traga discernimento. Asè ooo! 
 
 
________________________________________________________Imagem de destaque – Reprodução Geledés