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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Candidaturas negras apresentam propostas setoriais em roda de conversa em Brasília

Candidaturas apresentaram propostas para o povo negro no Distrito Federal. Foto: Daniela Luciana Silva.

Por Cecília Bizerra Sousa,
Na noite desta segunda-feira (22), no auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, foi realizada a Roda de Conversa “Candidaturas Negras ao Legislativo”. O evento foi promovido pela Irmandade Pretas Candangas com o objetivo de abrir, para as candidaturas negras do Distrito Federal, um espaço para a apresentação de propostas, planos de mandato e discussão de temáticas de interesse da população negra, como a baixa representatividade de negros e negras no Legislativo e alternativas para mudança deste quadro.

O evento, que priorizou o debate entre candidatas e candidatos do Distrito Federal que pleiteiam cargos no Legislativo, contou com a participação das candidaturas à Câmara Distrital da Assistente Social Lucimar (PT), Denízia Maria (PT) e Fábio Félix (PSOL); da candidata a deputada federal Mácia Teixeira (PSTU) e do candidato ao Senado Professor Robson (PSTU). “Pensamos nessa atividade para que as candidaturas negras tivessem a oportunidade de apresentar suas propostas ao eleitorado afro-descendente, sobretudo as propostas de mudança do atual quadro branco e masculino do poder Legislativo brasileiro”, afirma Raíssa Gomes, integrante da irmandade de Pretas Candangas que ficou responsável pela mediação do debate.

Para a Irmandade Pretas Candangas, a atividade foi rica e produtiva e foi possível discutir não todos, mas muitos dos que são muito caros para os movimentos negros, como a violência policial contra jovens negros, saúde da população negra, violência doméstica, a questão do aborto relacionada à saúde da mulher negra, redução da maioridade penal, cotas nas universidades, entre outros. “Estamos muito satisfeitas com o resultado, discutimos com certa profundidade e qualidade estes temas. Foi possível ter um bom panorama do que propõem as candidaturas negras do DF ao Legislativo e, a partir deste panorama, vamos refletir sobre os votos que iremos dar no dia 5 de outubro”, reflete Raíssa Gomes, que também comemora a avaliação positiva que candidatos e participantes fizeram ao final da atividade.

Sub-representação de negras e negros no parlamento

Os dados apresentados que no Seminário Desigualdades no Parlamento: Sub-representação e reforma do sistema político, promovido no dia 19 de setembro pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) foram relembrados no debate. Entre outros dados alarmantes, o estudo revela que as mulheres negras e indígenas são as menos representadas na composição do universo de candidaturas nas Eleições 2014.

Segundo a análise, primeiro vêm os homens brancos, seguidos de homens negros (pretos e pardos), depois mulheres brancas e, finalmente, mulheres negras e indígenas. Segundo a candidata Mácia Teixeira, a sub-representação dos negros e negras no Parlamento, bem como a não incorporação da questão racial em bandeiras de campanha se dá porque o racismo no Brasil é naturalizado, e a luta antirracista é considerada “perfumaria” ou exagero. “A luta é tão invisibilizada e tida como perfumaria, exagero, que temos candidatos negros que não se reivindicam como tal e não tem uma pauta voltada para isso”, destaca a candidata.

Candidata Mácia Teixeira. Foto: Daniela Luciana Silva

Disputa interna nos partidos

A dificuldade dos partidos políticos em abordar e priorizar a temática racial também foi discutida no debate. A candidata Lucimar ressaltou que faz há muito tempo essa disputa dentro do seu partido, a partir da Secretaria de combate ao racismo e que vivencia constantemente “quedas de braço”, pois, segundo ela, a liderança não apenas do seu partido, mas de muitos outros, está vinculada vinculados às candidaturas brancas. “É fundamental que os segmentos do movimento negro estejam organizados partidariamente para se fazerem representar. Uma questão que é um divisor de águas na participação política é por onde passam as decisões dentro dos partidos e quem define quem será candidato a majoritário, a distrital, a federal”, pontua Lucimar.

Candidata Assistente Social Lucimar. Foto; Daniela Luciana Silva

O candidato Fábio Félix também mencionou a dificuldade de se debater este tema dentro dos partidos políticos, inclusive os de esquerda. “Temos um setorial de negros e negras no PSOL, e ainda há muita dificuldade de mobilizar para este tema. Mas conseguimos fazer com que a candidata Luciana Genro pautasse isso no seu programa, ela assinou uma carta compromisso. Temos feito o debate, que é importante na campanha, incorporado com políticas sociais e em outras áreas”, afirma Fábio Félix.

Candidato Fábio Félix. Foto: Daniela Luciana Silva.

Legislação sobre trabalho doméstico

Para o candidato do PSTU ao Senado Federal, Professor Robson, é significativo que se tenha aprovado uma legislação sobre o trabalho doméstico que as equipare a trabalhadores de outras áreas, mas acha que isso devia ter sido feito há muito tempo. “Defendemos as propostas de legislação que coloca a trabalhadora doméstica como uma trabalhadora.Neste assunto, percebemos limitações na visão policlassista, pois muitas mulheres feministas defendem direitos pra elas, mas não para a empregada delas. Somos contra este retrocesso”, destaca o candidato que aproveita para fazer críticas ao atual governo e à candidatura de Marina Silva à presidência. “Temos que lutar contra as reformas trabalhistas colocadas pelo estado burguês. O PT, com 12 anos, não acabou com as propostas de reforma trabalhista. E agora a candidata Marina fala em rever o conceito de trabalho escravo. Pela força das mobilizações, precisamos impor a mudança que a gente quer”, finaliza Robson.

Candidato Professor Robson. Foto; Daniela Luciana Silva.

Intolerância religiosa e religiões de matriz africana

Sobre intolerância religiosa, a candidata Denízia Maria, que se apresentou como policial militar e pastora evangélica, foi questionada pela platéia sobre laicidade do Estado e intolerância religiosa em relação às religiões de matriz africana. Para a candidata, existe uma “cultura” que deve ser respeitada. “Gosto muito da falar: você pode não gostar de mim, mas você tem que me respeitar. Se todos são iguais, quem sou eu para colocar uma desigualdade entre eles? Todos tem que ser acolhidos, existe uma cultura e nós temos que se respeitar”, responde Denízia Maria.

Candidata Denízia Maria. Foto: Daniela Luciana Silva.

Descriminalização e legalização do aborto

A candidata do PT, Denízia Maria, também foi questionada sobre a criminalização do aborto e, surpreendendo a todas, respondeu sem titubear que o aborto não deve ser crime. “Eu tenho certeza de que nós mulheres temos que decidir o que tem que ser feito”, defende a candidata que afirmou já ter sido “menina de rua assaltante” (sic).

A candidata Lucimar (PT), também se posicionou pela descriminalização do aborto, apesar de ter manifestado a dificuldade de falar e se posicionar sobre o tema. A candidata justifica sua posição no fato de as mulheres negras serem as principais vítimas do aborto clandestino no país. “Esta é a primeira vez que falo em público sobre isto. Tenho dificuldade, por questões pessoais, de me colocar favorável ao aborto. Mas sou favorável à descriminalização do aborto. Nenhuma mulher tem que ser presa ou criminalizada por fazer aborto. A realidade nós sabemos muito bem, quem morre nos espaços de realização de abortos clandestinos são, em maioria, as mulheres negras”, posiciona-se a candidata, que defende que, assim, a mulher tenha o direito de decidir sobre o seu corpo.

A candidata Mácia Teixeira vai além e se diz a favor da legalização do aborto, destacando as questões de classe envolvidas na prática. “Quem tem dinheiro faz com toda segurança possível, quem não tem, morre com os açougueiros. É preciso deixar claro que legalizar não significa dizer que é obrigatório. Quem não quer, não faça, mas que seja permitido a quem quer o direito de fazer”, finaliza Mácia Teixeira.

Cidinha da Silva denuncia o preconceito no mercado editorial brasileiro

Escritora conta que os autores precisam recorrer ao próprio bolso para publicar seus livros
Cidinha da Silva: "O racismo faz com que a humanidade do 
negro não seja considerada como valor universal"

A voz do negro na literatura não é algo recente, mas se tornou invisível. É por conta de um racismo estrutural que levou o Brasil a desenvolver justificativas temporais para legitimar a ausência histórica dos negros em diversos setores da vida social que a literatura afrobrasileira tem pouca visibilidade. A escritora Cidinha da Silva acredita que essa ausência fica ainda pior quando se trata da produção de conhecimento.

“A maranhense Maria Firmina dos Reis publicou o romance Úrsula em 1859. Luís Gama, José do Patrocínio, Cruz e Souza e Machado de Assis, publicaram ainda no século 19. No século 20, João do Rio, Lima Barreto, Lino Guedes e Antonieta de Barros (ambos cronistas), a prolífica Ruth Guimarães, recentemente falecida, deixaram mais de 40 livros publicados, Solano Trindade e Carolina Maria de Jesus também escreveram capítulos significativos da literatura brasileira”, lembra Cidinha, que estará em Brasília na próxima sexta para lançar Racismo no Brasil e afetos correlatos e Baú de miudezas, sol e chuva.

É a segunda vez que ela vem à cidade este ano. Em agosto, esteve na Universidade de Brasília (UnB) para a II Jornada de Literatura Afrobrasileira contemporânea. Essa produção, embora ausente do mercado editorial de grande circulação, existe e reflete, segundo a escritora, a discriminação racial que ainda contamina a sociedade brasileira de forma geral. “A principal implicação dessa ausência no cenário literário é o silenciamento estético e político de vozes responsáveis pelo redesenho da história e da cultura brasileiras.”

Cidinha conta que, em reação à discriminação do mercado, muitos autores negros optam por desprezar o ISBN, espécie de carteira de identidade do livro, e preferem publicar com os próprios recursos. Para a autora, há um bloqueio imposto pelo mercado e uma sensação de não pertencimento dos escritores negros aos “clubinhos literários” que abrem portas para boas editoras e políticas de distribuição que incluem a venda de livros para o Estado e a participação em feiras e festas literárias. Em entrevista, a autora falou sobre a discriminação no mercado editorial e as alternativas encontradas pelos autores afro-brasileiros.

A escrita de Carolina Maria de Jesus é importante para você e para o teu trabalho?

A existência de Carolina e de sua obra é importante para o mundo, para a diáspora negra, para a América Latina e para o trabalho de todos os autores e autoras que lutam diariamente para escrever o que querem, o que acham importante, o lhes dá prazer ou os salva da amargura, do desespero. Carolina escrevia para não morrer, para enfrentar o aniquilamento de sua potencialidade humana, diuturnamente agredida pelo racismo, pela miséria, pela desqualificação do sonho e da vontade de brilho, de realização plena por meio da escrita, manifestadas por uma mulher negra em condição miserável de vida. Eu também escrevo para não morrer, então, Carolina é vital para mim.

Alguns críticos observam que há mais poesia do que ficção sendo produzida por autores negros. Você concorda? E o que isso significa?

Sim. Não se trata de uma opinião, simplesmente, é uma informação sustentada por pesquisas. O que a gente pode discutir um pouco é o significado disso. A poesia é algo que povoa nosso imaginário desde a infância. Temos contato com poesia na escola primária. O poeta goza de um certo glamour e idealização e a maioria das pessoas, de maneira estranha e equivocada acha que escrever poesia é uma coisa fácil. Não é! É trabalhoso a vera. Contudo, a pessoa passa cinco, seis anos da vida dela dedicada a um doutoramento, escreve uma tese e quando encontra uma escritora na rua pede dicas para publicar um livro de poesias. O que de melhor ele escreveu na vida é a tese que consumiu centenas de neurônios, mas ela quer publicar os poeminhas que faz para a amada, para os filhos, o cachorro e o papagaio. Esse é um fenômeno generalizado no Brasil, não sei como é em outros países. Há editoras que descartam os originais de poesia assim que chegam, porque são quilos e quilos de celulose grafadas de emocionalismo. Isso porque todo mundo acha que o livro que se deve escrever, além de plantar uma árvore e ter um filho antes da morte, é um livro de poesias. Conosco, negros, não é diferente, a gente acha que escrever poesia é mais fácil do que escrever outros gêneros.

Há muitos autores negros escrevendo e publicando em editoras independentes, mas eles não estão nas grandes editoras. Na sua opinião, o que isso reflete?

Uma parcela desse grupo não quer publicar seguindo as regras do mercado editorial, o poeta gaúcho Oliveira Silveira era exemplo disso. Muitos autores e editoras de literatura periférica (em medida significativa composta por negros) desprezam o International Standart Book Number (ISBN), também como forma de resistência ao mercado. Entretanto, muitas autoras e autores negros publicam com os próprios recursos ou em pequenas editoras por não conseguirem furar o bloqueio imposto pelo mercado.

Por quê?

Isso acontece por vários motivos, entre eles: o não pertencimento de escritores negros aos clubinhos literários, cuja carteirinha abre portas das boas editoras, da política de distribuição eficaz, das vendas institucionais para o Estado, da participação em feiras, festas, festivais e outros eventos literários que garantem dividendos e impulsionam a carreira de quem escreve profissionalmente. Também, porque as temáticas e os recursos estéticos escolhidos pela maioria dos escritores negros são descredenciados em sua literariedade e essa costuma ser uma justificativa para que as editoras bem estabelecidas no mercado não tenham interesse pelos literatos negros.

Na literatura de forma geral, há pouquíssimos personagens negros. Por quê?

Creio que seja porque o grosso da produção literária, em vez de subverter a ordem, tem optado por repetir padrões nos quais as zonas de conforto das elites permanecem intactas ou até se ampliam. O racismo faz com que a humanidade do negro não seja considerada como valor universal, logo, sua história, memória, cultura, ancestralidade, seu jeitão colorido, sua polifonia rítmica, corpórea e verbal não merecem espaço na vitrine universalista da literatura brasileira, refletida no número exíguo de personagens negros e na subalternização dos parcos existentes.

A construção da identidade passa pela literatura? Como?

Creio que existam possibilidades, sim, embora a literatura não tenha obrigação de ser instrumento para isso ou para aquilo. Entretanto, à medida que minha vida, minha história, o povo ao qual pertenço são apresentados de maneira digna, bela, humana, uma representação pautada pela riqueza das contradições humanas em vez da miséria dos estereótipos que aprisionam determinados grupos sócio-históricos, eu me vejo dentro da obra literária, me sinto viva, pulsante, valorizada, e isso pode contribuir para o fortalecimento do meu amor próprio e para uma construção identitária positivada.

Você já sentiu que sua escrita foi discriminada porque é negra?

Sim, inúmeras vezes e em situações bem distintas, por exemplo: quando querem me enquadrar em caixinhas temáticas porque sou negra; quando determinam que a literatura negra deve ter voz única e monocórdia; quando meu texto é valorizado por minha suposta história de luta e não por seu valor estético; quando sou convidada para participar de eventos literários como ilustração do 20 de novembro, explico, a programação ocorre uma vez por mês durante os 12 meses do ano, mas o escritor ou escritora negra só é convidado (quando o é) na data de novembro, mês da consciência negra; quando minha representação sóciorracial tem mais destaque do que meu processo criativo e minha obra; quando a crítica canônica me invisibiliza porque como autora negra não participo do establishment; quando a crítica negra é condescendente com meu trabalho em contraposição ao excesso de rigor ou ao silenciamento impostos pela crítica canônica aos autores negros.

A Bahia está mergulhada num mar de sangue


Postura radical é inaceitável para policiais acostumados a chutar negros

Em entrevista exclusiva, Hamilton Borges comenta as perseguições sofridas após a realização da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Reação contra o racismo e a violência estatal virou incômodo para o Estado.

Desde o dia 22 de agosto de 2014 ficou mais difícil ao Estado brasileiro esconder os mortos e encarcerados que antes não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas. Esta é a avaliação de Hamilton Borges, um dos organizadores da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que colocou mais de 60 mil pessoas nas ruas para denunciar o racismo e a violência estatal que fazem milhares de vítimas todos os anos.

Nesta entrevista concedida ao blog Negro Belchior, da revista Carta Capital e ao jornal Brasil de Fato, Hamilton denuncia as perseguições sofridas por adotar uma postura intransigente no combate à violência policial. Ele se orgulha de ter crescido no Curuzu, em Salvador (BA), “o bairro mais negro do mundo depois do Harlem”, em Nova Iorque. A inspiração para a luta veio da convivência com mulheres que cuidavam da família.

Hamilton não tem dúvidas de que “o genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa”. O militante negro não tem receio em anunciar que “a Bahia está mergulhada num mar de sangue”. Hamilton revela não ter se surpreendido com as ameaças, pois “essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade”. Participaram da entrevista Paula Farias, Jorge Américo e Douglas Belchior.

PF, JA e DB: Como você iniciou sua militância no movimento negro e como surgiu o Quilombo X e a campanha do Reaja?

Hamilton Borges: Iniciei de verdade minha militância, com os exemplos de minha mãe, avó e minha tia que me criaram, cresci vendo mulheres cuidando da família. Elas me deram exemplo de solidariedade africana, no bairro mais negro do mundo depois do Harlem: o Curuzu, onde foi fundado o Bloco afro Ilê Aiyê. Depois entrei no MNU, Movimento Negro Unificado, que colocou, desde as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, passando por todo o país, o racismo na agenda nacional sem tréguas ou concessões. Depois em 2005 retomamos a Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária, que foi criada em 2001 em BH, como uma organização cultural, mas que se transformou em uma organização política para impulsionar a “Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto”.

A Campanha Reaja surgiu em 2005 aqui em Salvador, depois de darmos um basta em contar nossos mortos pela violência racial, pela violência estatal, pelos grupos de extermínio e grupos paramilitares que a polícia legitima, retroalimenta e fortalece, seja pela ação (quando seus agentes públicos também são integrantes desses grupos) ou por omissão (quando sabe que há grupos atuando, mas não atua para impedi-lo). Ocupamos as escadarias da Secretaria de Segurança Pública com gente vinda de todo lugar da cidade e começamos a politizar nossa morte, chorar nossos mortos que não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas, ONGs e toda sorte de organização de rapina. Começamos a dar nome aos mortos e evidenciar o caráter genocida neles contido.

PF, JA e DB: Em todos esses anos dedicados ao movimento negro, você sempre conviveu com intimidações, mas nos últimos tempos a situação piorou. Você acha que isso é um reflexo da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que vem crescendo a cada ano?

Hamilton Borges: Desde o primeiro momento que a Reaja tomou a rua já foi um processo tenso. Negras e Negros de favelas e periferias tomando sua voz, não permitindo mediação de parlamentares ou especialistas bem pagos, isso já criou um ranço, estava demonstrada a ruptura, não queríamos fazer concessões com nossa desgraça – e a enfrentaríamos até as últimas consequências. Aí a Polícia, os Governos, eles olharam para nós como uma ameaça a sua cultura de medo e silêncio e nos trataram como criminosos. Sentimos na pele esse processo de criminalização, prisões sem fundamentos, retaliações, acusações infundadas, ameaças, foi então que procuramos criar nossas formas de fortalecimento, redes de proteção fora do Estado, fora do país, pautando a ONU, a OEA, buscando apoio da Justiça Global, da Anistia internacional, da imprensa séria.

Claro que a Marcha só poderia resultar em retaliação. No plano internacional nós revelamos ao mundo que o Genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa. Depois no plano nacional chamamos o movimento negro em especial e o movimento social de um modo geral a reagir, sair para a rua, sem bandeira de partido, sem dinheiro de governo, sem reivindicação eleitoral. Foi muita ousadia, ainda mais vindo de um grupo que em sua base e em seu comando tem mulheres, mulheres de presos, ex-presos, desempregados, gente de favela, gente do mato (a Reaja é Coordenada por um comitê de mulheres, Dra Andreia , Aline Santos , Jamile , Elaine, Fabia). Os caras disseram aos nossos amigos do exterior que perderam o controle da Marcha, esses caras são os garotos de recado dos governos com seus diplomas e MBA e sua mentalidade de capacho esperando que o país mude a lógica racista com programinhas e projetos e a gente dizendo que só muda com outro modelo de Estado, outra nação e não essa dos brancos.

E no plano doméstico, na Bahia, enfrentar os políticos que defendem pena de morte e prisão perpétua, como Oto Alencar, enfrentar a polícia matando nossa gente (30 em um mês no bairro da Suburbana, 21 no Bairro do Engenho Velho de Brotas, 16 no Bairro do Nordeste de Amaralina), enfrentar os cabos eleitorais com suas promessas de cooptação, e irmos para frente do Quartel mais antigo da Policia Militar do Brasil, aflitos e dizer que queremos o fim da polícia militar, a desmilitarização da segurança pública, justiça para os mortos e que naquele dia, 22 de agosto de 2014, eles não matariam nenhum negro ou negra, essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade.

PF, JA e DB: Nesses casos de perseguição, ameaças, invasão a sua casa, como você tem lidado com isso? Qual a posição das autoridades políticas e das lideranças dos grupos de outros movimentos negros diante desses fatos? Você se sente respaldado por eles?

Hamilton Borges: Olha tem uma coisa de ano eleitoral que cala a boca de muita gente boa. Tem muita gente boa que foi para o governo e não pode contrariar quem lhe paga o salário, temos apoio dos movimentos independentes, apoio do exterior, na Espanha nossa Irmã, a FOJA, articula em toda Europa uma campanha “Somos todos Hamilton Borges”, dos Estados Unidos a força vem do Texas, vem de São Paulo (Posse Haussa, Uneafro, Quilombagem, Estudantes Negros da USP, Douglas Belchior, CRP-SP, Afropress), do Rio de Janeiro (Justiça Global, Anistia Internacional, Coletivo Das Lutas), vem da Reaja de João Pessoa, aqui na Bahia sai das comunidades, das vilas, favelas, cadeia. Mas entendemos esse sequestro da solidariedade de certos movimentos, eles estão num tipo de pragmatismo eleitoral que tem que fechar os olhos para certas coisas e nós somos o oposto disso: nós somos o combate.

O Governo Estadual já está sabendo, a Anistia e a Justiça Global enviaram ofícios para a SSP-BA (Secretaria de Segurança Pública da Bahia) e para a SJDH (Secretaria de Justiça e Direitos Humanos). Nós comunicamos por e-mail à SEPROMI (Secretaria de Promoção da Igualdade), que “deve cuidar das questões dos negros”, como eles dizem, mas até agora só houve silêncio do governo, o mesmo silêncio ocorrido quando policiais tentaram invadir minha casa depois da Marcha de 2013.

Nós da Campanha Reaja nos sentimos respaldados pela solidariedade que vem dos nossos primeiramente, como Lázaro Ramos que conversou conosco, tirou foto, nos apoiou, coisa que pode parecer simples, mas faz a maior diferença.

PF, JA e DB: Houve algum posicionamento por parte do governo frente às denúncias de abuso de autoridade?

Hamilton Borges: Até agora nada. A Bahia está mergulhada num mar de sangue, atos de terror praticado por policiais e bandos criminosos de extermínio, e o governo não fala uma palavra, nossa vida não tem valor para essa agenda. Se morresse um jovem branco de classe média eles escreveriam um tratado pela vida – e isso são todos os candidatos, com exceção do único candidato negro ao Senado que tem feito um debate solitário sobre direitos humanos e racismo.

PF, JA e DB: Qual a importância da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, essa articulação entre vários companheiros de luta de diversos estados?

Hamilton Borges: Na verdade são diversos Estados e vários Países. Demos um passo de unidade internacional. Saímos da condição de mendigar espaço na agenda de organizações que nos colocam como assessório, despertamos a agenda do genocídio como motor da luta negra e podemos construir grandes pontes para repensar a sociedade do ponto de vista das negras e dos negros, sem precisar entregar nossos símbolos sagrados (como uma conta de orixá) a um salvador ou salvadora que pouco se importa com nossa vida desprotegida. O recado que demos é que podemos nos organizar sem pedir migalhas.

PF, JA e DB: Fazendo uma reflexão sobre a campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, quais foram os avanços? E como tem sido a participação dos jovens nessa luta?

Hamilton Borges: Nossa Campanha não é geracional, mas evidente que os jovens cumprem um papel importante e elas e eles tem enfrentado bem esse debate, feito avançar. Nós colocamos várias agendas em foco, sempre afirmando a centralidade do racismo. Nós popularizamos o debate sobre encarceramento em massa, a revista vexatória e o fortalecimento dos familiares na luta pela memória de seus entes.Nós provocamos o governo a criar um programa para enfrentar a morte de jovens negros, mas como sempre o governo federal tem “pudores” em pronunciar a palavra negro e não coloca orçamento necessário para a boa política (daí a coisa fica focada em encontros e seminários). Mas, sobretudo demos uma arma a nosso povo, somos continuidade de nossos mais velhos, muitas e muitos ainda vivos, que disseram que não podíamos negociar o racismo, mas combatê-lo. Quem quer promover igualdade tem que ir à porta ao lado, a Reaja é outra coisa, é Quilombismo.

PF, JA e DB: Neste ano de eleição como o movimento tem se posicionado? Qual análise fazem das candidaturas à Presidência da República? Vocês têm alguma esperança em fazer avançar a pauta do combate ao racismo e ao genocídio em alguma das candidaturas colocadas?

Hamilton Borges: Nós da Reaja não falamos por ninguém, mas não vemos alternativa para nosso povo com o que tem aí. Vá na Favela do Moinho e pergunte ao povo o que eles acham, e ali é a cidade mais rica do Brasil – São Paulo. O povo vai te dizer que o Estado não existe. Nenhum desses três candidatos mais bem colocados, em seus debates falam uma linha sobre o racismo ou os direitos humanos ou a situação carcerária. As eleições se tornaram um trabalho subalterno para negros e negras com bandeiras e faixas nos faróis, os palanques lotados de brancos e empresários. Para nós a aposta é na organização para a autonomia comunitária e pressão sobre nossos inimigos.

PF, JA e DB: Diante dos assustadores números de assassinatos de negros, como mostrou o Mapa da Violência 2014, e da negligência por parte do Estado, quais os próximos passos para esse enfrentamento?

Hamilton Borges: Temos que cada vez mais internacionalizar o debate e a organização e ao mesmo tempo internalizar, chamar para dentro para o interior, para as comunidades, levar a mensagem e o método de solidariedade e autonomia, criar uma organização horizontal, baseada na vida real, criar instrumentos de pressão e ao invés de seguirmos com pires nas mãos, enfrentar as oligarquias, os racistas, sexistas e homofônicos com força negra de todas as camadas conscientes e fortalecidas. O próximo passo é a III Marcha, cuja preparação já começamos desde o dia 23 de agosto de 2014.

PF, JA e DB: Faça, por fim, as considerações que achar necessárias.

Hamilton Borges: Precisamos de outro modelo de nação que seja realmente inclusivo e isso não conquistaremos com arranjos, com remendos, precisamos de outra política, outro Estado que vamos conquistar com luta e solidariedade.

Fonte: negrobelchior

Ebola já matou quase três mil pessoas em cinco países da África, diz OMS


Falta de leitos e resistência de comunidades ao tratamento faz com que epidemia continue a se alastras

O alastramento exponencial do surto de ebola, que agora já matou quase 3 mil pessoas no oeste da África, parece ter se estabilizado na Guiné, de acordo com balanço da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o balanço, divulgado nesta quinta-feira (25/9), 2.917 pessoas morreram de ebola dentre 6.263 casos em cinco países do oeste africano afetados pela doença, até 21 de setembro.

Comparado ao número atualizado anterior da OMS, os últimos dados mostraram 99 mortes a mais na Libéria desde 17 de setembro, mas apenas algumas a mais em Serra Leoa desde 19 de setembro e apenas três novas mortes em Guiné desde 20 de setembro. A proporção de casos que ocorreram nos últimos 21 dias - o período de incubação do vírus - também caiu em todos os três países, sugerindo que a difusão da doença pode estar desacelerando. 

A calamitosa falta de leitos e a resistência de comunidades em algumas áreas estão contribuindo para que a doença continue se espalhando. Os esforços da OMS para coletar mais dados revelam gradualmente uma epidemia ainda mais mortal do que parecia inicialmente. 

Racismo faz mais uma vítima no futebol brasileiro

Zagueiro do Corinthians, Gil é alvo de ofensa racista no Instagram, mas não vai processar autor na Justiça


Depois do goleiro Aranha, do Santos, outro jogador do futebol brasileiro foi alvo de uma ofensa racista, agora pelas redes sociais. O zagueiro Gil, do Corinthians, foi chamado de “macaco de m...” por uma pessoa com acesso à sua página na rede Instagram.


Identificado como “juniorrodrigguez”, o agressor tem o seu perfil fechado e, desta forma, não é possível visualizar outros detalhes sobre os seus conteúdos. No início da tarde, a assessoria de Gil informou ao site Lancenet que o corintiano iria entrar na Justiça contra o autor da ofensa. Horas depois, contudo, o jogador disse que não buscará a Justiça e disse apenas "querer encerrar o assunto".

Nas redes sociais, a solidariedade a Gil foi ampla – a exemplo do caso envolvendo Aranha.

Gil foi xingado de macaco... ate quando, Brasil?

— line (@tirumonk) 23 setembro 2014
Pena que o o Gil não vai levar à Justiça o idiota que o chamou de “macaco de merda” no Instagram. Internet não pode ser escudo para injúria

— Leandro Augusto (@leandroaugustos) 23 setembro 2014
Gil foi bem babaca com o Pato. Aí vai um idiota racista e perde a razão xingando o cara de macaco. Que gente escrota.

— Luiz (@luizbrazzers) 23 setembro 2014
Lamentavelmente, houve quem ainda usasse o novo caso para criticar o racismo envolvendo o goleiro santista.

Gil do corinthians tem meu respeito, torcedor chamo ele de macaco, mas diferente do Aranha ele nao fez nem um escandalo pra ter midia

— Massaro (@porramassaro_) 23 setembro 2014
Chamaram o Gil de macaco no instagram dele, mas não era só no RS que aconteciam atos racistas ?

— Sr. Winterfeld (@HenriqueDanieli) 23 setembro 2014
Capaz!? Achei que só nós gremistas fossemos racistas! http://t.co/d4XzdUsnJ7

— William Borges (@Williamimortal5) 23 setembro 2014
Coincidência irônica

A ironia do caso é o fato do zagueiro ser o principal nome do Corinthians em uma coleção de camisetas recém-lançada para combater o racismo no futebol.

Está não é a primeira polêmica de Gil no Instagram. Ainda no domingo (21), após a vitória sobre o São Paulo no clássico, o zagueiro provocou o atacante rival Alexandre Pato, que não jogou e que até pouco tempo atrás esteve no time de Parque São Jorge.


O volante Souza, do São Paulo, acabou discutindo com o jogador corintiano, que depois pediu desculpas.


E prossegue a luta por um futebol sem racismo no Brasil e no mundo.

Fonte: brasilpost

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O assassinato do trabalhador Carlos Braga: uma polícia sem autoridade


Isaías de Carvalho Brito, trabalhador, foi preso por policiais militares sob a acusação de desacato à autoridade. Momentos antes de sua prisão, um colega de trabalho, Carlos Augusto Muniz Braga tentou impedir que Isaías fosse humilhado e agredido por três policiais, durante uma abordagem abusiva e despreparada, e foi executado com um tiro na cabeça diante de dezenas de pessoas no meio da rua, à luz do dia, na cidade de São Paulo.

Dois dias antes, trabalhadores que ocupavam um prédio abandonado há dez anos no centro da cidade resistiram à remoção forçada determinada pela justiça e efetuada pela Polícia Militar. As imagens violentas de crianças, mulheres grávidas e idosos sendo jogados na rua pelas autoridades assombraram a cidade pelo resto do dia. O confronto teve de um lado caminhões, helicópteros, bombas e balas; do outro, cocos e pedras.

Estes dois últimos acontecimentos são exemplos da regra sobre as relações de poder em nosso país, mas talvez mostrem também a possibilidade de que uma exceção está em gestação.

A palavra central neste movimento parece ser “autoridade”. Trata-se em português de uma palavra ambígua: faz referência à importância da experiência de alguém sobre certo assunto, mas ao mesmo tempo é também o radical de “autoritário” e “autoritarismo”. A etimologia nos ensina que “autoridade” vem do latim “auctoritas”, termo que se referia a uma capacidade de influência específica, derivada de idade, de saberes, e baseada em uma legitimação social sobre a importância da opinião de uma pessoa ou um grupo. Não é um poder em si, mas uma influência tornada socialmente legítima sobre o poder. O filósofo Cícero distinguiu da seguinte forma: o poder reside no povo, a autoridade no senado.

Em 2014 anos oficiais da história deste país, a autoridade do estado falou muito mais alto do que o poder do povo. Ou, para dizer de outra maneira, uma pequena elite teve muito mais autoridade nas tomadas de decisão do estado, do que a maior parte da população teve poder. Essa discrepância parece cada vez mais evidente para todos os brasileiros. As manifestações de Junho de 2013 talvez tenham apontado um pouco neste sentido, com sua recusa (ainda que quase infantil) de sindicatos, partidos, bandeiras. Há uma crise de autoridade instalada, porque a autoridade não é mais vista como legítima – ou seja, reconhecida como de interesse comum. Não seria, então, o caso de recusar a autoridade e, com ela, as autoridades?


Quando familiares decidem resistir à remoção imoral e desumana que a autoridade jurídica repassa à autoridade policial é o poder popular que olha e diz ao estado: não é legítimo porque não representa o meu poder, o do povo. Isso mostra uma mudança? É difícil não lembrar – na verdade, é difícil esquecer – de Pinheirinho e de sua trágica resistência, chamada ridiculamente pela Folha de S. Paulo de Armada Brancaleone. Certamente não foi a primeira vez na história recente do Brasil que pessoas resistiram coletivamente, até consequências extremas, a uma ação autoritária das autoridades. É possível, no entanto, que esses momentos de resistência estejam se multiplicando e, quem sabe, se intensificando.

Pois foi o mesmo tipo de impulso ético e humano – uma reação à ilegitimidade da autoridade da Polícia Militar – que levou um grupo de pessoas a interromper suas atividades e hostilizar a abordagem autoritária dos policias ao jovem Isaías Brito. Foi o mesmo exercício de poder popular – a tentativa de destruição da autoridade autoritária e de instauração de uma autoridade legítima – que levou o jovem Carlos Augusto a reagir diante do perigo encarnado no policial alucinado, armado de spray de pimenta e de uma pistola de munição letal.

O filósofo contemporâneo Alain Badiou chama de ética a ação que é fiel ao chamado de uma verdade. Talvez a verdade para Carlos naquela tarde tenha sido a destruição da autoridade daquela força policial e a necessidade de insurreição contra ela. Se for possível entender desta perspectiva a tragédia acontecida, então precisamos dar o triste título de mártir a Carlos, em reconhecimento à sua ação heroica, e ter a coragem de nos deixarmos atingir pela grandeza e significado de sua morte. Certamente ela, em seu mudo conselho, tem muito mais autoridade sobre a população de São Paulo do que sua Polícia Militar.

#AsNegaReal discute serie “Sexo e as Nêgas”


Vídeos produzidos pelo site Blogueiras Negras promove debates relacionados às temáticas dos episódios do programa exibido desde o último dia 16 pela Rede Globo. “Discutiremos o episódio da semana, nossas impressões (e depressões) sobre ele e em que aspecto ele beneficia ou prejudica o avanço no debate sobre machismo e, principalmente, sobre racismo na sociedade brasileira. Nosso objetivo principal é oferecer às nêgas a voz e o protagonismo que raras vezes (arriscamos perguntar: alguma vez?) nos foi dado num espaço como a Rede Globo”, explica uma das blogueiras, Gabi Porfírio

Favela 247 – Durante os 13 episódios da série “Sexo e as Nêga”, previstos para irem ao ar até 9 de dezembro, na Rede Globo, o site Blogueiras Negras promoverá um debate sobre os programas exibidos pela emissora. Os vídeos estarão disponíveis aos sábados no canal do blog no youtube e contarão com a participação de debatedoras envolvidas com o tema. “Discutiremos o episódio da semana, nossas impressões (e depressões) sobre ele e em que aspecto ele beneficia ou prejudica o avanço no debate sobre machismo e, principalmente, sobre racismo na sociedade brasileira. Nosso objetivo principal é oferecer às nêgas a voz e o protagonismo que raras vezes (arriscamos perguntar: alguma vez?) nos foi dado num espaço como a Rede Globo”, explicou Gabi Porfírio, em artigo publicado pelo Blogueiras Negras. Desde antes da estreia, ocorrida no último dia 16, o programa vem gerando polêmica. “Teremos a oportunidade de ver o que é a mulher negra, como se comporta, o que faz, onde faz e com quem faz, segundo a visão do homem branco cis: Miguel Falabella, autor de bordões como ‘eu odeio pobre’”.

O primeiro episódio de #AsNegaReal foi ao ar em 6 de setembro, antes de “Sexo e as Nêga” estrear, e discutiu o conceito da série, seu protagonismo, o não-lugar da mulher negra na sociedade brasileira e a violência simbólica que a série global significa. Participaram Gabi Porfírio (blogueira, professora de Literatura Brasileira e Português, especialista em Língua Portuguesa e mestranda em Linguagens), Aline Djokic (feminista negra, blogueira, estudante de Literatura, Língua Portuguesa e Espanhola e Pedagogia), Charô Nunes (feminista negra, blogueira e coordenadora do Blogueiras Negras) e Djamila Ribeiro (feminista negra, blogueira, mestranda em Filosofia Política).


O segundo episódio de #AsNegaReal foi ao ar no último dia 20, após a estreia de “Sexo e as Nêga”. “A partir da análise meticulosa e do nosso embasamento, construímos nossas ideias e colocamos tudo bem explicadinho nesse segundo episódio. Destrinchamos algumas cenas da série, expondo nossa opinião sobre o impacto na identidade negra e sobre os repertórios trazidos pela trama”, explica o texto do site. Participaram Larissa Santiago (blogueira e publicitária), Viviana Santiago (militante negra, blogueira e pedagoga) e Mabia Barros (militante negra, blogueira e publicitária)


#AsNegaReal é o Blogueiras Negras no youtube

Por Gabi Porfírio, para o Blogueiras Negras,
A nós, mulheres negras, incomoda muita a imagem e a consequente estereotipação feitas de nossos corpos. A Rede Globo, como grande veículo de massa que é, contribui há anos nesse desserviço que é mostrar – segundo uma visão machista, racista e classista – qual é o lugar que deve ocupar a mulher negra, reforçando – por vezes de modo caricato e ofensivo – esse estereótipo.

De 16 de setembro a 09 de dezembro, teremos a oportunidade de ver o que é a mulher negra, como se comporta, o que faz, onde faz e com quem faz, segundo a visão do homem branco cis: Miguel Falabella, autor de bordões como “eu odeio pobre”, assina a nova série da Globo “Sexo e as Nêga” e pretende, de acordo com suas palavras, mostrar que as quatro protagonistas (e que nem são as protagonistas… Claudia Jimenez o é. Sim, Claudia Jimenez é a protagonista de uma série chamada “Sexo e as NÊGA” … reflitam), enfim, mostrar que as quatro protagonistas ”são mulheres que gostam de transar, de se arrumar, querem arrumar homem. Vivem os mesmos problemas de mulheres de qualquer lugar”.

O Blogueiras Negras produz “informação para fazer a cabeça” e milita um feminismo negro que visa, dentre outras frentes, tanto à desconstrução da imagem hiperssexualizada da mulher preta quanto à consequente objetificação de seu corpo. Por essa razão, o compramos a idéia da preta Aline Djokic, autora de textos como “A mulher negra, o cristianismo e o mito da redenção” e “A balada das quatro mulheres”. Aline propôs que alguma ação fosse feita em resposta aos episódios que, já sentíamos, seriam problemáticos: a primeira ideia foi de que cada uma fizesse seu vídeo comentando o episódio e postasse na sua própria timeline no facebook ou que esses vídeos fossem compartilhados pelo Blogueiras Negras. Com a idéia já abraçada, logo surgiu a proposta desse formato final, que apresentamos a seguir.

Assim, para debater questões que serão apresentadas na nova série da Globo, para problematizarmos e discutimos a visão da mulher negra reforçada por “Sexo e as Nêga”, reunimos três de nossas nêgas: Aline Djokic, Charô Nunes e essa que voz fala, Gabi Porfírio, para iniciarem uma série de debates que serão feitos coletivamente e cuja gravação será transmitida e veiculada através do canal do Blogueiras Negras no youtube . Esse grupo vai levantar a bola para uma 4ª nêga que, como convidada especial e representando a voz da audiência, vai enriquecer ainda mais esse debate trazendo um aspecto do episódio da semana que mais lhe tenha chamado atenção.

Ao todo, serão trezes episódios que, como já dissemos, irão ao ar de 16 e setembro a 09 de dezembro. Ao todo, serão seis grupos formados por três nêgas + a nêga convidada representando a audiência. O primeiro grupo é formado por Aline Djokic (a cabeça da ideia), Charô Nunes e Gabi Porfírio: nossa convidada especial é supresa!! Para a formação dos outros cinco grupos (cada uma com três nêgas) a gravarem seus debates, faremos uma agenda (semelhante à agenda de textos do BN), para organizarmos as pretas que se dispuserem a contribuir nessa vlogagem coletiva.

O convite da quarta nêga fica por conta do próprio grupo, que vai ter autonomia para escolher quem melhor poderia contribuir e representar à altura as pretas da audiência. Nessa nossa conta, então, cada grupo ficará com dois episódios para comentar (o que também será organizado numa agenda); para o último vídeo referente ao último episódio, vamos abrir na fanpage ou ver quais pretas se fizeram mais presentes nas discussões para comporem o último grupo e fecharem com chave de ouro esse ciclo de debates, que terá como uma das identidades a hashtag #AsNegaReal.

A ideia, vinda de uma votação aberta no grupo do Blogueiras Negras, partiu de Maria Rita Casagrande. Para Maria Rita, o duplo sentido da tag é o mais interessante: somos todas negas da realeza e, mais do que isso, reais. Gostaríamos de deixar claro que essa tag não rejeita, de forma nenhuma, que mulheres negras moradoras de comunidade e que são camareiras, costureiras, cozinheiras e operárias não sejam reais. Nós sabemos que a mulher negra está na base da pirâmide social e, em comparação ao homem branco, ganha 30% a menos que ele. Entretanto, além de camareiras e costureiras, nós somos advogadas, professoras, colunistas, jornalistas, escritoras, arquitetas, e nós queremos mostrar que a realidade da mulher negra vai além do estereótipo que Miguel Falabella está querendo reforçar.

Além da contribuição de Maria Rita e Aline, contamos ainda com a cola que nos une a todas no Blogueiras Negras que atende pelo nome de Charô Nunes – a primeira e grande entusiasta da ideia e o motor que fez começar a girar essa engrenagem: Aline pensou no “quê” e Charô botou pra funcionar pensando e organizando o “como”. Por trás deste texto estou eu, Gabi Porfírio, a quem foi confiada a tarefa de organizar em palavras esse projeto novo, mas já tão precioso como mais uma ferramenta de empoderamento de mulheres negras.

Nos vídeos, que irão ao ar aos sábados, discutiremos o episódio da semana, nossas impressões (e depressões) sobre ele e em que aspecto ele beneficia ou prejudica o avanço no debate sobre machismo e, principalmente, sobre racismo na sociedade brasileira. Nosso objetivo principal é oferecer às nêgas a voz e o protagonismo que raras vezes (arriscamos perguntar: alguma vez?) nos foi dado num espaço como a Rede Globo. A branquitude (e a loiritude do senhor Miguel Falabella) precisa entender que a voz negra é autônoma e pode falar por si mesma, e que não precisamos de nenhumx brancx narrando nossas histórias como se títeres fôssemos sob o comando e vontade de uma pessoa branca.

Fonte: 247