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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Elza Soares renasce das cinzas com seu já histórico novo disco


A primeira faixa, “Coração do Mar” (José Miguel Wisnik/Oswald de Andrade), é à capela. A voz de Elza Soares parece que vai falhar, mas nas sombras ela ilumina o início de tudo: “O navio humano, quente, negreiro do mangue”.

É o prólogo de um passeio pelos círculos do inferno de hoje. O já histórico CD “A Mulher do Fim do Mundo” tem shows de lançamento neste fim de semana no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

Os sons e os versos das 11 inéditas são do núcleo de compositores e músicos paulistas formado por, entre outros, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Clima, Marcelo Cabral, Guilherme Kastrup e Celso Sim.

A primeira etapa da saga é “Mulher do Fim do Mundo” (Romulo Fróes/Alice Coutinho), Elza como a narradora que viu e viveu tudo, perdeu dois filhos e agora vai registrar o apocalipse sem meias palavras.

Na canção, a desintegração se dá no Carnaval, a “pele preta”, a voz e o resto espatifados na avenida. Elza agoniza mas não morre, pede que a deixem “cantar até o fim”, e as notas longas da segunda parte traduzem o cansaço e a persistência.

“Maria da Vila Matilde” (Douglas Germano) trata da violência doméstica. A mulher reage: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Distorções sonoras se misturam à melodia. Samba ao rock e ao rap. Não é o fim da canção, mas a canção do fim.

Em “Luz Vermelha” (Kiko Dinucci/Clima), com rap e punk rock sobrepostos, o apocalipse é recortado em cenas de periferia, tiroteio, ruas esvaziadas. “O mundo vai terminar num poço cheio de merda”, diz a letra.

PALAVRÕES

No CD, a favela (ou as “quebradas”) é o cenário do fim do mundo (ou do Brasil) e o lugar de onde ele pode ser reconstruído, pois ali se dão as maiores violências contra o ser humano. A reação ante a destruição sistemática é a chance de um renascer das cinzas, como Elza fez por toda a vida.

Se o disco é sobre um tempo sem delicadeza, palavrões são naturais. Um virou título, “Pra Fuder” (Kiko Dinucci), samba rápido em que o tesão é cantado sem frescura e alardeado pelo naipe de metais. Elza é quente, não é “Frozen”.

Lirismo também não tem vez em “Benedita” (Celso Sim/Pepê Mata Machado), sobre a transexual que traz no corpo todas as violências sociais, mas nunca se rende. Vive à beira do fim do caminho, em meio a paus e pedras. Guitarras distorcidas e metais dão o clima.

Em “Firmeza?!”, Rodrigo Campos tornou mantras as frases e gírias que deve ouvir no bairro de São Mateus, seu berço. Angústia e fraternidade saem da música, gravada por Elza em duo com o autor.

O tango “Dança” (Cacá Machado/Romulo Fróes) se situa depois do fim. A narradora está morta. Porém, já quase pó, insiste em dançar. Elza não desiste.

O Oriente chega na sonoridade e na letra de “O Canal” (Rodrigo Campos). O arranjo segue no ritmo da caminhada feita em busca de algo, talvez renascer.

Em “Solto” (Marcelo Cabral/Clima), como o título e as notas soltas indicam, a travessia é solitária, sem nada mais. “O meu corpo/ Caminha/ Na minha sombra.” É a única faixa sem guitarras ou distorções.

Elas voltam no início de “Comigo” (Romulo Fróes/Alberto Tassinari). O crescendo ruidoso estanca de repente, e Elzaressurge à capela, em tom de oração, de lamento sertanejo. “Levo/ Minha mãe/ Comigo/ Pois deu-me/ Seu próprio ser.”

E vem o longo silêncio do fim de tudo. Mas, no fundo, ainda se ouve a voz de Elza. Ela insiste. Um recado para nós.


Assista também Elza Soares no Metrópolis (27/09/2015)


Fonte: Imprensa

Princesinha que nada!


MC Soffia canta sobre empoderamento de meninas negras desde os seis anos. Foi sua mãe que a apresentou ao hip hop e hoje corre lado a lado da filha na carreira

Por Camila Eiroa,
Fotos: Andre Michiles

Soffia tem 11 anos e, como toda menina normal, vai à escola, gosta de estudar e mais ainda de brincar. Carrega no olhar toda a curiosidade sagaz de quem está descobrindo o mundo. Porém, desde os seis anos, é MC Soffia e tem mais tempo de carreira do que muito marmanjo do hip hop que está surgindo por aí. Ela canta sobre sua própria realidade de menina negra, que precisa se amar e se afirmar todo dia.

Junto com sua mãe, Kamilah Pimentel, recebeu a Tpm no apartamento em que moram, na Cohab Rap Tavares. Muito enérgica, Soffia nos mostrou seu quarto e suas bonecas, feitas à mão pela avó. Ela contou quando foi que começou a cantar. “Eu participava do Futuro do Hip Hop [organização infantil] e tinham várias oficinas; de DJ, MC, grafite e break. Eu gostei muito da de MC e comecei a fazer as minhas músicas, que falam sobre racismo.”


Kamilah foi a responsável por apresentar Soffia a essa cultura. Ela engravidou aos 18 anos e, mãe solteira em tempo integral, sua dedicação à filha é prioridade desde que ela nasceu. “Sempre pensei no que fazer pra que ela não sofresse tudo o que eu sofri. Até cheguei a ser radical em alguns pontos pra fortalecer a questão da identidade, para que ela se aceitasse e fosse forte quando tivesse que lidar de frente com o racismo”, diz a produtora cultural.

Hoje aos 29 anos, ela relembra sua trajetória na militância e no hip hop. “Quando conheci o movimento, me apaixonei mais ainda e nunca mais saí. É um ambiente muito masculino e já foi muito machista. Mas, hoje em dia, a mulher está muito empoderada. Se o cara é machista, a mulher vai pra cima com uma rima. Também criei a Soffia pensando na questão de gênero, então todas as canções fortalecem as meninas.”


Os primeiros shows de Soffia foram em eventos regionais de rap, mas ela já fez apresentações de peso ao lado dos Racionais MC’s e de Flora Matos. Também se apresentou no Vale do Anhangabaú, no aniversário da cidade de São Paulo. “Eu tinha uns 7 anos. Tinha muita gente! Fiquei nervosa, mas como eu era criança, não liguei. Cantei e dancei demais. Foi muito legal”, conta, e garante que aguenta a responsa, mas não canta à noite porque é hora de dormir.
“Fiquei muito triste e, de tanto me zuarem, falei pra minha mãe que queria ser branca”
A MC mirim tem seu discurso na ponta da língua: “Eu canto sobre a menina negra aceitar seu cabelo porque já passei por isso. Sei que ela é xingada na escola e vai alisar o cabelo. Eu já alisei, mas tem que aceitar natural, é bem mais bonito.” Ela se lembra de todos os episódios de racismo que enfrentou na escola, inclusive, que contou à sua mãe que queria ser branca.

Foi quando Kamilah a levou para conhecer o mundo do hip hop. Juntas, foram para diversos eventos, marchas e feiras com mulheres negras que tinham “aqueles cabelos lindos e grandões”. Não demorou para que a rapper mergulhasse de vez em seu próprio universo. Hoje, ela garante que não sofre como antes. “Agora que eu tô famosa… não tô famosa, né? Mas canto… Então não me zoam mais.”

O que ela quer, é que todas as meninas possam se aceitar através de sua música. “Quero ser uma dessas rainhas que ajudou os negros. Quero um show com todo mundo balançando o black comigo. Às vezes as crianças xingam as outras e a professora só diz pra pedir desculpas. Devia parar a aula e começar a explicar tudo, toda a história dos negros”, acredita.


Kamilah defende que o primeiro contato com o racismo vem da escola. Para deixar a filha o mais forte possível, ela começou parando de alisar os próprios cabelos. Depois, dando apenas bonecas negras. “Busquei ser uma referência pra ela. Se ela brinca que as bonecas são da família, elas têm que ser parecidas com a gente. A criança precisa se reconhecer enquanto brinca. Conforme ela foi crescendo, comecei a forçar nela a questão da leitura”, conta.

Hoje ela oferece oficinas de hip hop na escola de Soffia, que fala orgulhosa sobre os grupos de discussão de racismo que participa. A pequena acredita que deveria ser regra em todo colégio: “Existe uma lei que diz que é obrigatório falar da cultura negra nas aulas. Onde eu estudo tem esses grupos, mas deveria ter nas outras escolas também. Tinha que falar da cultura africana da creche até a faculdade, pra criança já sair sabendo a valorizar sua cor e sua origem”.

Sua matéria preferida é história e, incentivada pela mãe e pela avó, gosta muito de pesquisar. Em sua música “África”, são citadas várias mulheres, descobertas por essas pesquisas. Entre elas, Carolina de Jesus, Chica da Silva e Dandara. A mãe conta que “o problema das periferias é que falta acesso à cultura. Então, procuro fazer isso por ela. Fomos em uma exposição da Frida Kahlo e ela achou a Frida estranha. Ela foi, pesquisou sobre ela e desconstruiu aquele pensamento”.
“Ela sofre, porque assiste uma TV, vê uma chacina e sabe exatamente o que aconteceu”
Quando perguntada se ela acha que a filha sofre mais por entender a maldade do mundo, Kamilah balbucia e não tem resposta certa. “Ela sofre, porque assiste uma TV, vê uma chacina e sabe exatamente o que aconteceu. Mas uma pessoa que não tem essa consciência, que se espelha em um outro padrão de beleza e que não se apropriou da sua própria história, também sofre.”


Por outro lado, ela garante que Soffia só tem tempo de ser criança. “A vida pra ela é uma brincadeira. Na concentração do show ela fica dando cambalhota, correndo, andando de skate… Quebra a cara. Ela é terrível! Uma vez me questionou: mãe, você garante que eu sempre vou brincar? É claro, garanto que vai brincar e estudar também. Esse é o nosso acordo desde que ela decidiu cantar”, conta.
“Eu tô cantando pra passar a mensagem e não só pra receber dinheiro”
A MC não desmente: “tem que ser uma brincadeira, mas também um trabalho. Eu tô cantando pra passar a mensagem e não só pra receber dinheiro. Meu sonho é ser famosa, dar várias entrevistas. Quando crescer quero ser médica, cantora, atriz, um pouco de modelo e jogadora de futebol. Não sei se vai dar, mas eu falo assim porque quando a gente é criança fala um monte de coisa!”

Com a agenda cada vez mais cheia de shows e a carreira andando a mil por hora, as duas estão descobrindo que é, sim, possível transformar a realidade de muita gente com esse trabalho. “Criar um filho sozinha não é fácil, eu tive que mudar a minha vida inteira. Até hoje eu pergunto se é o que ela quer. O meu sonho é que o sonho dela se realize, por isso vou correr atrás do que for”, finaliza a mãe de Soffia.


Fonte: TPM

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Reduzir a maioridade penal resolve o problema de quem?


Você também acha que “tá tendo” muitos crimes, muito roubo e muitas mortes? É verdade que tem muita impunidade e que a justiça não funciona? Quem são os culpados? Como vamos resolver esses problemas?

Em Brasília, deputados e senadores estão discutindo uma mudança no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A maior parte dos programas de TV, jornais e rádios dizem que reduzir a maioridade penal vai ajudar a resolver os problemas da violência no Brasil. Será?


O Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo. Quase 100% dos presos são pobres. Mais de 60% são negros. A maioria é jovem de até 30 anos e vem de famílias da classe trabalhadora. Prender mais pessoas, e cada vez mais jovens, é a solução para os problemas da violência e dos crimes no Brasil?

“Lugar de bandido é na cadeia!”. Qual a diferença entre o político corrupto e o moleque que faz “os corre” na biqueira? E para quem é a lei que pune e aprisiona?

Os adolescentes de 16 a 18 anos são responsáveis por apenas 0,9% do total de crimes. O índice cai para 0,5% se forem considerados somente os homicídios. Não parece né? Mas é verdade!


“Lugar de bandido é na cadeia!”. Quem discorda? Mas são os jovens, negros e pobres os grandes criminosos no Brasil? Qual a diferença entre o empresário ou o banqueiro que explora o trabalhador e o jovem que “faz o corre” na biqueira do seu bairro? Qual criminoso é mais perigoso: o político corrupto que some o dinheiro do hospital e da creche, ou o “menor” do farol? Mas para quem é a lei que pune e aprisiona?

Em 54 países que reduziram a maioridade penal, não houve redução de violência. Só conseguiram reduzir violência países que investiram pesado em áreas sociais, na cultura, nos esportes e principalmente em educação. Porque no Brasil seria diferente?


da classe trabalhadora. Não caia nessa! Saiba mais e ajude na campanha: www.maioridadepenal.org.br


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*Texto originalmente publicado pelo jornal Brasil de Fato – Edição impressa semanal.


Fonte: Negrobelchior.

Novo prédio da ONU em Brasília homenageia ativista Lélia Gonzalez



Ícone do movimento negro e de mulheres negras, homenagem se insere no marco da Década Internacional de Afrodescendentes, dos 20 anos da 4ª Conferência Internacional das Mulheres e dos 70 anos de criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945

A Casa da ONU no Brasil inaugura oficialmente nesta quarta-feira, 30, o segundo módulo do Complexo Sérgio Vieira de Mello, em Brasília. O novo espaço reunirá os escritórios de representação dos seguintes organismos: Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS). Os cerca de 80 funcionários e colaboradores destes organismos se somam a outros 100 colegas já instalados na Casa da ONU desde a inauguração do primeiro módulo, em novembro de 2012.

O novo prédio receberá o nome de Lélia Gonzalez, em homenagem à ativista brasileira, ícone do movimento negro e de mulheres negras. A cerimônia de inauguração se insere no marco da Década Internacional de Afrodescendentes, além de celebrar os 20 anos da 4ª Conferência Internacional das Mulheres, realizada em 1995, em Pequim, China, e os 70 anos de criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945.

Participarão da cerimônia, o filho de Lélia Gonzalez, Rubens Rufino, e os netos Melina e Marcelo Marques, acadêmicos, militantes, além de autoridades de organismos parceiros da ONU no Brasil como a Secretaria de Políticas para as Mulheres, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, representantes de ministérios e secretarias distritais. Das agências anfitriãs, estarão presentes as representantes do PNUMA, Denise Hamú; do UNAIDS, Georgiana Braga-Orillard; da ONU Mulheres, Nadine Gasman; o representante do UNFPA, Jaime Nadal; e o coordenador residente do Sistema ONU, Jorge Chediek.

Após o evento de inauguração, terá início a visitação à exposição sobre a homenageada, organizada pela Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) e pela Fundação Banco do Brasil (FBB), no hall de entrada do novo prédio. A exibição ficará aberta aos visitantes da casa da ONU durante 30 dias.

Situado no Setor de Embaixadas Norte, a construção do prédio teve início em 15 de outubro de 2014, totalizando exatamente 10 meses e 15 dias de obras, gerenciadas pelo Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos (UNOPS). O desenho arquitetônico e a engenharia ficaram a cargo do escritório Paulo Bruna Arquitetos Associados, que utilizou os parâmetros internacionais de edificações de consumo energético.

O prédio foi concebido para o melhor aproveitamento de luminosidade da cidade de maneira a reduzir a necessidade de consumo energético. Além disso, utiliza um sistema de ar condicionado inteligente, que reduz o consumo de energia em 45% em relação a sistema de refrigeração tradicional central de mesmo porte. É, portanto, um edifício inteligente de baixo consumo de energia, pelo tipo de lâmpadas e de sistemas de ar condicionado.

O terreno situado no Setor de Embaixadas Norte foi doado pelo Governo do Distrito Federal à ONU há várias décadas e tem 22.500 m2. Nesta etapa, a área total de construção foi de 1.780 m2 – o módulo I conta com uma área construída de 3.100 m2.

O conceito de Instalações Comuns a várias agências, fundos e escritórios da ONU faz parte de um componente importante do Programa de Reforma das Nações Unidas, lançado há mais de uma década. A proximidade favorece a coordenação das ações e projetos conjuntos, promove uma atuação unificada, reduzindo também os custos operacionais do Sistema.

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Lélia Gonzalez – Lélia Gonzalez nasceu no dia 1º de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte. Graduou-se em História e Filosofia e trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social e o doutorado em antropologia política. Começou então a se dedicar a pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.

Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Lélia Gonzalez, acesse:

Fonte: ONU Mulheres.

Quanto sangue derramado… O genocídio do povo negro


O genocídio do povo negro, não é um problema atual, e ainda que seja um problema extremamente sério, somente agora está tendo “evidência e reconhecimento” de sua existência, nas esferas: nacional, internacional, estatal, governamental e política.

As tentativas de incluir a população negra na sociedade vem desde o século XIX, logo após a Guerra Civil e a abolição da escravidão, no entanto, o que ocorreu foi a intensificação da marginalização da comunidade negra, vista como cidadãos de segunda categoria.

Não estou dizendo nenhum “mimimi”! As estatísticas mostram o índice de assassinatos ocorridos no país, e, além disso, eu consigo ver de perto, as consequências desses acontecimentos, sendo pobre, negra, oriunda de família negra, de amigos e vizinhos, também negros e pobres.

Vivencio isso bem de perto, e me vejo refém, ameaçada, diminuída, um nada, assim como os meus semelhantes também.

Pesquisa do Instituto Datafolha

Segundo a pesquisa do Instituto Datafolha 62% de moradores de cidades com mais de 100 mil habitantes têm medo de sofrer algum tipo de agressão de policiais militares. A pesquisa também mostrou que 53% temem agressão de policiais civis. 

O Datafolha ouviu 1.307 pessoas em 84 municípios em todas as regiões do país.

Entre os que relataram medo de sofrer agressão da PM, segundo o instituto, a maioria é de jovens, pobres, moradores do Nordeste e que se declararam negros.

A pesquisa também apurou que 91% têm medo de ser vítima de violência por parte de criminosos.

Dos entrevistados, 81% disseram ainda que têm medo de ser assassinados. Dos que têm medo de ser mortos, 49% disseram acreditar que podem ser vítimas de homicídio já no próximo ano.

Definição da ONU e dados da Secretaria de Segurança Pública

Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o período entre 2015 e 2024 como a Década Internacional de Afrodescendentes. Com os temas Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento, a instituição estabelece metas a serem alcançadas pelos países nos próximos dez anos com o intuito de promover a igualdade racial.

Algumas destas metas são o direito à igualdade e à não discriminação, educação para igualdade e ampliação da conscientização, coleta e divulgação de dados sobre a situação dos povos afrodescendentes, participação e inclusão dos povos afros em questões públicas e políticas sem discriminação, acesso à justiça, adoção de medidas especiais como ações afirmativas, direito ao desenvolvimento e medidas contra a pobreza, educação, emprego, saúde e moradia.

Em pleno século 21, há pessoas que ainda não têm acesso aos direitos fundamentais positivados e instituídos. E neste muito estão inclusos direitos básicos. As populações negras, em especial, precisam ter seus direitos promovidos.

Estima-se que haja 200 milhões de pessoas que se auto identificam como afrodescendentes somente no continente americano.

No Piauí, mais da metade da população é constituída por pessoas pardas e negras. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, a cada 10 jovens assassinados, 7 são negros.

A coordenadora de igualdade racial da Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc), Assunção Aguiar, destacou como uma das principais metas para os próximos dez anos a luta contra o genocídio de jovens negros no estado.

Aguiar explica que está sendo elaborado em nível estadual o Plano Juventude Vivo que deve trazer uma série de ações para resolver este problema, além da criação de políticas públicas para a juventude.

Outra meta é colocar realmente em vigor a lei nº 10.639. A lei que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira em escolas de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, entrou em vigor em janeiro de 2003.

A regularização fundiária das comunidades quilombolas é outro objetivo almejado. Assunção Aguiar disse que já foi realizada uma audiência com o governador Wellington Dias para discutir essa questão.

A coordenadora revela que nos últimos quatro anos não houve qualquer ação no estado que promova a igualdade racial e que, no momento, implementar o Estatuto da Igualdade Racial deve também ser uma prioridade.

O Mapa da Violência

O Brasil registrou 10 mil 136 assassinatos de jovens entre 11 e 19 anos em 2013, em média 28 mortos por dia. De acordo com o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, autor do estudo Mapa da Violência e coordenador da Área de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), o número equivale a 3,5 chacinas da Candelária perpetradas diariamente.

Dados apresentados por Júlio mostram que o índice de jovens negros, entre 16 e 17 anos, mortos no ano de 2013, é de 66,3 por 100 mil habitantes. O de jovens brancos, na mesma faixa etária, é de 24,2 por 100 mil.

Para o ministro Pepe Vargas, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, os números são um alerta de que as chacinas não cessaram.

Pesquisa da Amnistia internacional

Os jovens negros pobres são muito expostos à violência no Brasil sem que as autoridades tenham implementado uma política visando reduzir os homicídios. Anualmente, de acordo com a Amnistia internacional, mais de 23 000 jovens negros seriam assassinados neste país latino-americano.

56. 000 pessoas seriam alvo de homicídio por ano no gigante sul-americano. Entre estes 30 mil seriam jovens entre os 15 e os 29 anos.

77% dentre estes seriam negros: anualmente mais de 23 000 jovens seriam assassinados no Brasil.

Chacinas que marcaram a história

Chacina de Acari

A Chacina de Acari, como ficou conhecida, ocorreu no dia 26 de julho de 1990, quando onze jovens, dentre elas sete menores, moradores da favela do Acari no Rio de Janeiro, foram retiradas de um sítio em Suruí, no bairro do município de Magé, onde passavam o dia, por um grupo que se identificava como sendo policiais.

Os sequestradores queriam joias e dinheiro para depois liberar as vitimas que ficaram em poder dos sequestradores durante cerca de uma hora, segundo a única testemunha do caso, Dona Laudicena, já falecida.

Depois desse período os sequestradores levaram as onze vítimas para um local abandonado. Nem os assassinos, nem os corpos das vitimas jamais foram encontrados.

As mães dos desaparecidos começaram uma busca por seus filhos e por justiça, e ficaram conhecidas como as Mães de Acari (local onde a maioria dos sequestrados morava). O inquérito, que recebeu nova data em 1998, sob o número 07/98 na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense está aberto e sem progressos até os dias atuais.

A revelação de que uma testemunha depôs no Ministério Público Estadual contando detalhes de quem participou e como foi a Chacina de Acari, há 25 anos, deu mais um estímulo às mães dos 11 jovens desaparecidos. O inquérito está na Delegacia de Acervo Cartorário da 6 DP (Cidade Nova) e contém o relato da testemunha.

Chacina da Candelária

A chacina da Candelária ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, deixando mortos oito jovens de 11 a 19 anos, no centro do Rio de Janeiro. Os autores foram policiais militares (PMs) e as vítimas eram moradores de rua que frequentavam as imediações da igreja e dormiam no local.

Segundo o sociólogo, o perfil das vítimas jovens que sofrem violência é de cor negra, pobre e pouco escolarizado e os índices vêm aumentando a cada ano. Entre 1993 e 2013, praticamente quadruplicaram os níveis de violência.

Chacina de Vigário Geral

Na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, a favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, foi invadida por um grupo de aproximadamente cinquenta homens encapuzados e fortemente armados, que arrombaram casas e executaram 21 moradores.

Todas as vítimas tinham endereço fixo e profissão e não possuíam nenhum envolvimento com o tráfico de drogas. A matança na comunidade foi motivada por vingança, em represália à morte de quatro PM’s, atribuído a traficantes daquela região, numa praça da mesma favela, conhecida como “Catolé do Rocha”, no dia anterior.

O grupo de policiais militares que realizou a chacina era conhecido dos moradores de Vigário Geral pelo modo que agia. Eles eram chamados de “Cavalos Corredores” porque entravam na favela correndo, atirando e aterrorizando a comunidade.

A chacina, a segunda maior do Estado, ocorreu durante o segundo governo de Leonel Brizola. Alguns meses após o crime, 13 policiais militares foram expulsos da corporação. Na ocasião, oficiais chegaram a recorrer aos meios de comunicação, acusando a existência de um complô contra a corporação e negando a responsabilidade policial quanto aos extermínios.

Desde então, apenas seis dos 52 PMs acusados formalmente pela chacina foram condenados (dois cumprem pena e quatro estão soltos por habeas-corpus). Cinco morreram e um deles permanece foragido. Os outros foram absolvidos por falta de provas.

A chacina ganhou repercussão internacional. Entidades de Direitos Humanos acusaram a polícia brasileira por massacres consecutivos, e o governo, de impotência. A Anistia Internacional assumiu a escuta dos relatos de parentes de vítimas e elaborou um relatório sobre o caso.

Atualmente, o bairro Vigário Geral contém, aproximadamente, 35 mil habitantes. E mesmo que a comunidade passe uma imagem de tranquilidade, para os moradores, pouca coisa mudou.

Chacina do Cabula

Os nove policiais envolvidos na morte de 12 jovens, em fevereiro deste ano no bairro do Cabula, bairro de classe média baixa em Salvador. Os policiais foram absolvidos do crime de homicídio em decisão na primeira instância.

O processo corre em segredo de Justiça e a sentença será publicada no Diário Oficial. Os 12 rapazes foram mortos dias antes do Carnaval. Segundo a polícia, eles eram suspeitos de planejar um ataque a um caixa eletrônico e, ao serem surpreendidos, reagiram e acabaram mortos. Outros seis suspeitos foram feridos e um policial foi atingido por um tiro de raspão.

O caso ganhou repercussão dentro e fora do país e ficou conhecido como “chacina do Cabula”, já que todos os mortos eram negros e só dois tinham passagem pela polícia.Já os policiais alegaram legítima defesa e classificaram as mortes como “autos de resistência”.

Por iniciativa de entidades que militam na área de direitos humanos, o caso foi denunciado à Anistia Internacional e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Acontecimentos internacionais

No sábado de 18 de julho no Estado da Carolina do Sul centenas de pessoas participaram de atos a favor e contra a remoção da bandeira dos Estados Confederados em frente da Assembleia Legislativa. A bandeira em questão foi usada pelos Estados do sul do país que eram favoráveis ao sistema escravocrata durante a Guerra Civil no século XIX. A bandeira voltou a ser alvo de revoltadepois de aparecer em fotos do racista Dylann Roof, que matou no mês passado, 22 de junho, nove pessoas em uma igreja da comunidade negra na cidade de Charleston. Sobreviventes da chacina relataram à polícia que Roof proferiu insultos raciais durante o ataque, portanto trata-se de um crime de ódio racial. O genocídio de negros nos Estados Unidos chamou atenção inclusive da ONU que se pronunciou pedindo às autoridades que atuem para dar resposta à crescente onda de assassinatos de negros por civis e policiais brancos.

Para não ficar no esquecimento, além da chacina em Charleston, em 2015 tiveram outros casos de genocídio do povo negro, como a morte de Tony Terrel Robinson, 19 anos, morto por um policial branco. O caso aconteceu na véspera do aniversário de 50 anos da marcha pelos direitos civis dos negros em Selma no Alabama. Na Geórgia, um policial branco matou Anthony Hill, 27 anos, um homem desarmado que sofria de problemas mentais. Já na Carolina do Sul, Michael Slager, 33 anos, também foi morto por um policial branco que deu oito tiros pelas costas de Michael que estava desarmado. O racismo norte-americano é estrutural e institucional, e mesmo após seis décadas do início dos movimentos pelos Direitos Civis, o país ainda é marcado pela violência e tensão racial. “Nós não estamos curados do racismo”, afirmou Barack Obama, presidente americano, sobre a segregação que ainda paira no país. É nítida ainda a segregação racial nos bairros e guetos.

O massacre de Charleston é um exemplo que chocou o mundo, reabrindo o debate em torno do racismo, da legislação das armas e a remoção da bandeira confederada do Sul que, enfim, foi tirada no último dia 10 de julho..

Uma das grandes preocupações dos afro-americanos é inevitavelmente a violência policial. A quantidade de negros que morrem desarmados pela polícia é duas vezes maior que a de brancos. Assim como também é desproporcional o número de negros na prisão e condenados à morte.

Angela Davis em visita ao Brasil afirmou que nos Estados Unidos há mais pretos nos presídios do que nas Universidades. Portanto temos que avaliar como um país que reelegeu Barack Obama se mantêm extremamente racista. E pelo panorama atual americano, ainda existem muitos desafios para que o sonho de Martin Luther King se concretize.

Enquanto o Brasil começa a sentir o macarthismo tosco do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, equivalente “tropical” do senador estadunidense Joseph McCarthy (1908-1957), famoso pelo seu reacionarismo descomunal, os EUA de hoje ainda têm a atuação do grupo nazista Klu Klux Klan e uma metodologia policial branca que age com truculência contra negros.

Um negro chegou a ser baleado mortalmente só porque estava correndo e não atendeu a um chamado de um guarda. E agora, é o caso de uma mulher negra que, detida por desobedecer a regras de trânsito e de ter dito a um policial que ela tinha o direito de fumar dentro de seu próprio carro, apareceu morta por estrangulamento na sua cela no último dia 13 de julho.

Para piorar, antes de Sandra Bland, a mulher em questão, de apenas 28 anos, ser levada para a prisão, o policial que a deteve a tirou do carro, jogou-a no chão e ainda a ameaçou com uma arma de choque elétrico. O episódio chocou a sociedade mundial.

CPI

No Brasil, foi preciso instaurar uma CPI para provar para o Estado e obter o “reconhecimento” do mesmo, que o genocídio existe há anos, mesmo após várias chacinas e assassinatos ocorridos ao longo dos anos e com o consentimento estatal.

A relatora da CPI, deputada Rosângela Gomes, do PRB, usou os números do Mapa da Violência de 2014 para justificar a conclusão do relatório. Segundo o Mapa, mais de meio milhão de jovens foram assassinados em 10 anos, entre 2002 e 2012.

O relatório da CPI pretende instituir o Plano Nacional de Enfrentamento de Homicídios de Jovens, criar um Fundo para a Igualdade Racial e aprovar leis sobre o assunto em andamento no Congresso. Uma delas é a que acaba com o auto de resistência, tornando mais rígidas as regras para apuração de mortes e lesões causadas por policiais ou outros agentes do Estado.

O texto também recomenda reformas no sistema de segurança, inclusive com a criação de uma polícia estadual desmilitarizada.

O relatório final foi criticado por deputados ligados à área da segurança, como delegados e militares. Eles não aceitam usar o termo genocídio para definir a violência contra os jovens. E não aprovam as recomendações feitas para as instituições policiais. O deputado Major Olímpio, do PDT, criticou o relatório.

Mais de dois mil adolescentes e jovens de dez a 19 anos são assassinados todos os anos em oito capitais brasileiras. São elas: Belém, Fortaleza, Maceió, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo.

Segundo o estudo do Instituto Paulo Montenegro, a taxa de homicídios de jovens nos bairros mais pobres dessas capitais chega a 136 mortes para cada 100 mil habitantes. Enquanto, nas áreas mais ricas, a taxa tende a zero.

O representante do Unicef no Brasil, Gary Stahl, afirmou que os jovens mortos, em sua maioria, são homens, negros, com idade de 16 a 18 anos e moradores de periferias das grandes cidades. Para Gary Stahl, a adoção de serviços básicos é uma das alternativas para reduzir as desigualdades sociais e reverter a situação de violência contra essa população mais vulnerável

O que mudou, é que a repercussão do genocídio tomou uma proporção que não pode mais ser escondida, abafada, disfarçada, burlada ou jogada para debaixo do tapete, e o jeito foi reconhecer sua existência, e fazer de conta que , soluções e medidas serão criadas para a resolução.

Até quando? Até quando o negro vai ser exterminado, massacrado, tratado como objeto, tendo a sua vida banalizada, seja pelo sistema, por agentes de segurança ou por qualquer outro indivíduo? E as autoridades? Vão continuar em seus “tronos” ordenando: Matem-os! E decretando medidas de oficializar a morte, a chacina, o assassinato no país.

Exemplo disso é a aprovação da Redução da Maioridade Penal, que nada mais é, que oficializar o genocídio e extermínio do povo negro tendo o amparo da lei.

As autoridades assumiram o papel de co-autores dos assassinatos, sendo que o real dever dos mesmos, é fornecer segurança, assegurar o direito de ir e vir do cidadão, protelar o direito à vida e à dignidade humana, de acordo com uma “Magna Carta”, chamada Constituição Federal.

Não vejo o povo negro representado de alguma forma, e muito menos do povo, algo que é contraditório, já que o poder emana do povo, e pelo certo deveria ser somente representado simbolicamente por uma instituição.

Mas aqueles que são eleitos para administrar tal poder, o centraliza, e o povo vira marionete, na maquete chamada sociedade.

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Referências:

Enquanto houver racismo para as mulheres negras o aborto sempre será inseguro, desumano e criminalizado


Abortei a escravidão

Sem te tocar
Lhe entreguei ao mar
Lhe dei liberdade 
Lhe entreguei ao mar
Para ser livre no ventre
Lhe entreguei ao mar
Serei sua ancestral
No seu retorno já Rei
Ventre negro
Ventre livre

por Emanuelle Goes*,
Práticas racistas estão na vida das mulheres negras e em qualquer situação na saúde, mesmo quando estamos diante de um cenário que por si só é desfavorável ainda consegue ser pior para as mulheres negras, neste caso estou falando do aborto, que quando inseguro e clandestino são as mulheres negras as mais atingidas.

Por outro lado, mesmo em um atendimento com mulheres em situação de abortamento onde supostamente nada se sabe sobre o tipo de aborto, se provocado ou espontâneo, são também as mulheres negras as mais punidas no atendimento desumanizado no serviço.

De acordo com a Norma Técnica para Atenção Humanizada ao Abortamento, (BRASIL, 2011, p.15):
A atenção humanizada às mulheres em abortamento merece abordagem ética e reflexão sobre os aspectos jurídicos, tendo como princípios norteadores a igualdade, a liberdade e a dignidade da pessoa humana, não se admitindo qualquer discriminação ou restrição ao acesso à assistência à saúde. Esses princípios incorporam o direito à assistência ao abortamento no marco ético e jurídico dos direitos sexuais e reprodutivos afirmados nos planos internacional e nacional de direitos humanos.
As mulheres com abortamento sofrem diversos problemas no acesso aos serviços de saúde, como dificuldade de vagas hospitalares com peregrinações na procura de um leito obstétrico e, chegando às unidades, estão expostas a situações de violência institucional e discriminações, conforme denúncias constantes dos movimentos de mulheres, em diversos lugares do país (AQUINO et al., 2012).

Um estudo realizado no Nordeste do Brasil (GRAVSUS.NE) apresentou em seu resultado como as mulheres em situação de abortamento tem dificuldade de acessar o serviço de saúde, no entanto ser de cor preta foi o único fator que, explicou a maior dificuldade, revelando dessa forma o racismo institucional.

Racismo institucional é qualquer sistema de desigualdade que se baseia em raça que pode ocorrer em instituições como órgãos públicos governamentais, corporações empresariais privadas e universidades (públicas e privadas) (SANTOS, 2001), “trata-se da falha coletiva de uma organização em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica”

De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Aborto (2010), são as negras as que mais realizam aborto em locais com pouca ou nenhuma higiene, insalubre e sem conhecimento médico, onde se utilizam sondas inapropriadas e outros apetrechos para provocar o abortamento. Alem disso são também as negras, de baixa escolaridade e com menos de 21 anos as que mais passam pelo processo sozinhas, sem o auxílio ou apoio de uma amiga, familiar ou profissional da saúde. (Leiam também o artigo Precisamos falar sobre o aborto de todas)

As experiências vividas para as mulheres negras no exercício do direito reprodutivo sempre teve a cor da pele como um diferencial, um olhar sobre a superfície parece que nós, mulheres negras, temos trajetórias similares com as mulheres brancas, mas não é verdade, tendo o racismo como estruturante e transversal na vida das mulheres negras faz com que o percurso seja outro, mesmo que estejamos em lutas com bandeiras comuns.

Com base no Feminismo Negro, usamos a Teoria do Feminismo Interseccional para explicar as vivencias singulares com os cruzamentos das opressões de raça e gênero e outras opressões correlatas. Pois, a interseccionalidade é uma associação de sistemas múltiplos de subordinação, sendo descrita de várias formas como discriminação composta, cargas múltiplas, ou como dupla ou tripla discriminação, que concentra problemas e busca capturar as consequências estruturais de dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação (Crenshaw, 2002).

Para Bairros (1995), a experiência da opressão sexista é dada pela posição que as mulheres ocupam numa matriz de dominação, na qual a raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos, pois se configuram mutuamente, formando um mosaico, que só pode ser entendido em sua multidimensionalidade, uma vez que, do ponto de vista feminista, não existe uma identidade única; a experiência de ser mulher se constitui como tal de forma social e historicamente determinada.

Alguns pontos podem ser demarcados aqui, para explicitar essa trajetória das mulheres negras em relação ao aborto.

Na escravidão as mulheres negras realizavam aborto para não ver os seus filhos na escravidão, em outro momento elas eram obrigadas a abortar, que como amas-de-leite tinham que dá exclusividade em amamentar o filho do seu opressor. Muitas mulheres escravas recusavam-se a trazer crianças ao mundo do trabalho forçado interminável, onde as correntes, os chicotes e o abuso sexual das mulheres eram as únicas condições de vida a ser ofertada (Davis, 1981).

Posteriormente, outras situações adversas por conta das desigualdades raciais, as mulheres negras continuavam a abortar por não ter condições de ofertar uma vida digna aos seus filhos. Segundo Angela Davis (1981) quando as mulheres negras e latinas realizavam aborto grande parte das histórias que contavam não eram sobre o seu desejo de se verem livre da gestação, mas as condições precárias que as demoviam de trazer novas vidas ao mundo.

Para assegurar o trabalho por muitas vezes como empregada domestica ou dentro do trabalho informal sem nenhum direito as mulheres também recorrem ao aborto inseguro para a manutenção do seu trabalho, neste caso são as negras que representam o maior contingente neste tipo de trabalho, relembro aqui os casos de Jandira Magdalena dos Santos e Elizângela Barbosa temiam em perder em seus empregos, com isso a realização do aborto tinha como garantia a permanência do trabalho e elas ao realizarem o aborto inseguro e clandestino tiveram suas vidas ceifadas precocemente, vejam o artigo“Aborto e machismo no mercado de trabalho” de Jarid Arraes.

A pesquisa recente realizada pelo IBGE (2013) demonstrou que o aborto tem cor e renda,no Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes maior que o de mulheres com superior completo (5%). Entre as mulheres pretas, o índice de aborto provocado (3,5% das mulheres) é o dobro daquele verificado entre as brancas (1,7% das mulheres).

Os processos singulares vivenciados pelas mulheres negras vão delinear caminhos distintos e neste sentido o campo da saúde reprodutiva evidencia nitidamente essas diferenças experienciadas pelas mulheres segundo a sua pertença racial como direitos, autonomia, tomadas de decisões e escolhas reprodutivas, e para as mulheres negras segue um conjunto de fatores estruturado pelo racismo, daí a necessidade de assegurarmos as singularidades que conformam as mulheres dentro do processo coletivo no reconhecimento do sujeito e de sua historia.

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Referencias:
  • AQUINO, Estela M. L. et al . Qualidade da atenção ao aborto no Sistema Único de Saúde do Nordeste brasileiro: o que dizem as mulheres?. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 7, jul. 2012. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232012000700015&lng=pt&nrm=iso
  • BAIRROS, Luiza. Nossos Feminismos revisitados. Estudos Feministas. vol.3, n.2, p.458-463. 1995.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção Humanizada ao Abortamento: norma técnica. Brasília, 2011.
  • Carmichael, S. e Hamilton, C. Black power: the politics of liberation in America. New York, Vintage, 1967, p. 4
  • CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, vol.10, n.1, p.171-188. 2002.
  • Davis, Angela. (1981), Women, race and class. Nova York, Vintage Books.

  • Helio Santos (2001). A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso. Senac. p. 109 - 110. 


*Blogueira, Enfermeira, Militante do Movimento de Mulheres Negras, Pesquisadora em Saúde das Mulheres Negras, Doutoranda em Saude Pública ISC/UFBA


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

COISA DE PRETO - 4° Edição


4° Edição chegando!!!
Encontro de artistas e afro empreendedores 
Contato:
coisadepreto@gmail.com

SERVIÇO
Data: 04/10 - Domingo
Hora: a partir das 11hrs
Local: Bar Raizes
SCLRN 408 - Bloco D - Loja 40 - Asa Norte, Brasília/DF