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segunda-feira, 2 de março de 2015

Sem barganha na escolha de novo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias










Entidades defendem critérios para escolha de novo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias

por Conectas,
Mais de 100 entidades e figuras públicas exigem garantias de que a CDHM (Comissão de Direitos Humanos e Minorias) da Câmara dos Deputados não seja usada como moeda de troca e que seu novo presidente mantenha diálogo com a sociedade civil e respeite grupos minoritários.

Os crítérios mínimos apontados pelas organizações constam em nota pública [abaixo] entregue a todos os deputados antes da reunião de líderes partidários que vai definir as presidências das 21 comissões temáticas da Câmara. A reunião estava marcada para esta última quinta-feira (26), mas foi adiada para a próxima semana.

“Desde sua criação, em 1995, a CDHM tem sido o espaço por excelência dentro da Câmara dos Deputados para a garantia dos direitos fundamentais, de segmentos vulnerabilizados e das minorias, seja por meio da intensa escuta desses grupos, seja pela resistência contra matérias legislativas destinadas à supressão de seus direitos e da proposição de novos direitos a serem reconhecidos”, diz o documento.

A iniciativa tenta evitar a repetição do cenário que, em 2013, levou o pastor evangélico Marco Feliciano ao cargo. Ao longo de seu mandato, a CDHM fechou as portas para a participação popular e discutiu propostas notadamente discriminatórias – como é o caso do Projeto de Decreto Legislativo 234/2013, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), que autoriza a oferta de tratamentos psicológicos para a homossexualidade (conhecido popularmente como “projeto de cura gay”).

No ano seguinte, em 2014, a disputa pela CDHM foi marcada pela candidatura independente do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), conhecido por seu discurso avesso aos direitos humanos. Bolsonaro perdeu a presidência por apenas dois votos de diferença para Assis do Couto (PT-PR).

Na quinta-feira (25), a recriada Frente Parlamentar da Segurança Públlica, grupo que já conta com a adesão de mais de 200 deputados e atua na defesa de propostas como a redução da maioridade penal e a revogação do Estatuto do Desarmamento, sinalizou o interesse em assumir a presidência da Comissão.

“Não podemos deixar que a Comissão seja usada, mais uma vez, como barganha para atender interesses partidários e privados”, afirma Juana Kweitel, diretora da Conectas. “Esse é um espaço privilegiado para a discussão sobre direitos no Legislativo. A escolha da presidência precisa ser coerente com essa responsabilidade.”

Histórico

Criada em 1995, a CDHM é uma das 21 comissões temáticas da Câmara. Tem, entre as suas atribuições, a de “contribuir para a afirmação dos direitos humanos” e “parte do princípio de que toda a pessoa humana possui direitos básicos inalienáveis que devem ser protegidos pelo Estado e por toda a comunidade internacional”.

Na prática, o trabalho da comissão consiste em receber, avaliar e investigar denúncias de violações de direitos humanos, discutir e votar propostas relativas à sua área temática, fiscalizar e acompanhar a execução de programas governamentais, colaborar com entidades não-governamentais, realizar pesquisas e estudos relativos à situação de direitos humanos no Brasil e no mundo e cuidar dos assuntos referentes às minorias étnicas e sociais.

***

Nota Pública: Por uma presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) efetivamente engajada com a garantia dos direitos humanos e proteção das minorias

As organizações abaixo assinadas vêm, publicamente, requerer que a escolha da liderança da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados seja pautada no compromisso efetivo da nova ou do novo Presidente com a afirmação dos direitos humanos e observância concreta dos princípios de que toda pessoa humana possui direitos básicos inalienáveis que devem ser protegidos pelo Estado e por toda a comunidade nacional e internacional.

Desde sua criação, em 1995, a CDHM tem sido o espaço por excelência dentro da Câmara dos Deputados para a garantia dos direitos fundamentais, de segmentos vulnerabilizados e das minorias, seja por meio da intensa escuta desses grupos, seja pela resistência contra matérias legislativas destinadas à supressão de seus direitos e da proposição de novos direitos a serem reconhecidos. A ação da CDHM é fundamental na proteção integral de direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais, ambientais, sexuais e reprodutivos, além da redução das desigualdades e discriminações, do racismo e do sexismo.

Abertura para o diálogo constante com a sociedade civil

É indispensável que a nova Presidência da Comissão honre sua história de luta por direitos, pelo reconhecimento da diversidade e da tolerância neste país, por meio da manutenção de canais abertos e constantes de diálogo com a sociedade civil. Assim, far-se-á jus à melhor tradição da CDHM como espaço plural e de reconhecimento de identidades e lutas: pela igualdade racial e de gênero; pelos direitos e contra a discriminação contra brasileiros/as LGBT; pelos direitos das pessoas com deficiência; pela garantia dos direitos dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades tradicionais, agricultores familiares, camponeses, trabalhadores rurais sem terra e assentados da reforma agrária, pelo direito à terra e ao território e aos seus modos de vida; pelo direito à cidade, com garantia de mobilidade, segurança e moradia digna; pelos direitos sexuais e reprodutivos; pelo direito à memória e verdade; pelo direito a uma vida sem violência; pela liberdade e diversidade religiosa; pela liberdade de expressão e à diversidade e pluralidade na mídia; contra a criminalização de movimentos sociais e pela proteção de defensor/as de direitos humanos; pelo acesso à democratização da justiça; entre outros.

Proteção diuturna e negação do retrocesso de direitos de grupos minoritários

Faz-se imperioso compromisso genuíno da nova Presidência da CDHM com a permanência do reconhecimento da Comissão como espaço de reafirmação e defesa da plurietnicidade, multiculturalidade e diversidade religiosa existente no nosso Brasil, respeitando a luta histórica de milhares de brasileiros/as pelos direitos humanos, pela igualdade e não-discriminação (homens, mulheres, gays, lésbicas, negros/as, indígenas, ateus, praticantes das religiões de matriz africana, pessoas com deficiência, etc.). Nesse sentido, defendemos o rechaço ao retrocesso na proteção de direitos de grupos minoritários, principalmente quando fundamentadas em visão de mundo em desconformidade com a Laicidade do Estado Brasileiro, um dos princípios fundamentais esculpido na Constituição Federal de 1988. A possível implementação de um discurso de negação e não afirmação de direitos é um retrocesso e anacronismo na luta histórica em defesa dos Direitos Humanos no Brasil.

Diante dessas questões, requeremos que a decisão sobre a nova Presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias seja pautada pela história de luta por direitos no Brasil, de reconhecimento da diversidade e da tolerância.

Atenciosamente,

1. Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG
2. Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT
3. Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids – ABIA
4. Articulação do Movimento Estudantil de Relações Internacionais – AMERI
5. Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
6. Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB
7. Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – ANCED
8. Central Única dos Trabalhadores – CUT
9. Fórum Brasileiro de Segurança Pública
10. JusDH – Articulação Justiça e Direitos Humanos
11. Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca Brasil
12. Rede de Justiça Criminal
13. Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira
14. Rede Nacional de Defesa do Adolescente em Conflito com a Lei (RENADE)
15. Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos
16. Agentes de Pastoral Negros do Brasil-APNs
17. Artigo 19
18. Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo – Abraça
19. Associação de Servidores da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
20. Associação Nacional da Carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais – ANDEPS
21. Campanha Brasileira contra Minas Terrestres e Munições Cluster (CBMTMC)
22. CEDECA Interlagos
23. CEDECA Limeira
24. CEDECA Maria dos Anjos/RO
25. CEDECA MG
26. CEDECA Pe. Marcos Passerini
27. CEDECA Renascer
28. CEDECA Rio de Janeiro
29. CEDECA Sapopemba
30. CEDECA Sé
31. CEDECA Zumbi dos Palmares
32. Centro Acadêmico André da Rocha da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CAAR/UFRGS)
33. Centro Acadêmico XI de Agosto
34. Centro de Educação e Assessoramento Popular – CEAP
35. Centro de Educação em Direitos Humanos – UNIFESP/BS
36. Centro de Defesa dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes do Distrito Federal (CEDECADF)
37. Centro de Defesa dos Direitos Humanos Nenzinha Machado
38. Centro de Promoção da cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo – Imperatriz, MA
39. Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social – CENDHEC
40. Circo de Todo Mundo – MG
41. COLAB – Colaboratório de Desenvolvimento e Participação da USP
42. Coletivo Arrua
43. Coletivo Feminista Dandara
44. Coletivo Oxalá
45. Coletivo Político Quem
46. Comissão Pastoral da Terra
47. Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos do Piauí
48. COMULHER – Comunicação Mulher
49. Comunidade Bahá’í do Brasil
50. Conectas Direitos Humanos
51. Conselho Indigenista Missionário – Cimi
52. Conselho Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de Campinas
53. Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC
54. Dom da Terra – AfroLGBT
55. FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional
56. FIAN Brasil – Rede de Informação e Ação pelo Direito a se Alimentar
57. Fórum de Mulheres de Imperatriz
58. Fórum Paranaense das Religiões de Matrizes Africanas – FPRMA
59. Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares – GAJOP
60. Garantia de Luta Sapopemba
61. Geledés Instituto da Mulher Negra
62. Grupo Asa Branca de Criminologia da Universidade Católica de Pernambuco
63. Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos (GEVAC/UFSCar)
64. Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Segurança Pública e Administração da Justiça Penal (GPESC) da PUC-RS
65. Grupo Dignidade
66. Hip Hop Na Vila
67. IMAIS – Mulheres pela Equidade
68. Instituto Braços – Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Sergipe
69. Instituto de Estudos Socioeconômicos – Inesc
70. Instituto de Defensores de Direitos Humanos – DDH
71. Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos – IDDH
72. Instituto de Mulheres Negras do Amapá – IMENA
73. Instituto Igarapé
74. Instituto Migrações e Direitos Humanos – IMDH
75. Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC
76. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
77. Instituto EQUIT – Gênero, Economia e Cidadania Global
78. Justiça Global
79. Mariana Criola – Centro de Assessoria Popular
80. Movimento de Atingidos por Barragens – MAB
81. Movimento de Mulheres de Cabo Frio/RJ – MMCF
82. Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
83. Núcleo Especializado de Situação Carcerária da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
84. Observatório da População Infanto-juvenil em Contextos de Violência – OBIJUV/UFRN
85. Organização de Direitos Humanos – Projeto Legal4
86. Palco – Comparsaria Primeira de Talentos
87. Programa de Educação Tutorial – Educação Popular/UNIFESP/BS
88. Programa Interdepartamental de Práticas com Adolescentes e Jovens em Conflito com a Lei (PIPA) da UFRGS
89. Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH
90. Terra de Direitos
91. THEMIS – Gênero, Justiça e Direitos Humanos
92. Carlos Magno – Associação Brasileiras de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT
93. Carlos R. S. Milani – Professor-adjunto, IESP-UERJ
94. Daniel Bertolucci Torres
95. Eduardo Matarazzo Suplicy
96. Emilio Peluso Neder Meyer – Professor Adjunto I da FD/UFMG
97. Evorah Lusci Costa Cardoso
98. Francisco Nuncio Cerignoni – Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência – FCD
99. Gabriel Francisco da Silva – Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de
Brasília (UnB) e coordenador nacional da CBMTMC
100. Giancarlo Silkunas Vay (defensor público do estado de São Paulo e membro do
núcleo especializado da infância e juventude da Dpesp)
101. Gustavo Oliveira Vieira – Professor adjunto da Universidade Federal da Integração LatinoAmericana
(UNILA)
102. Jacqueline Sinhoretto – Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFSCar
103. Jonas Marques de Araujo Neto – COONAP – Cooperativa Trabalho Múltiplo de Apoio às Organizações de Auto Promoção
104. Leandro Guiraldeli
105. Marcelo Carneiro Novaes (defensor público do estado de São Paulo e membro do núcleo especializado de situação carcerária da Dpesp)
106. Maria Madalena Nobre – Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down
107. Natália Lima de Araújo
108. Padre Marcelo Monge – Diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
109. Regina Atalla – Vice-Presidente da RIADIS
110. Rogério Sotilli
111. Sônia Maria Pereira Nascimento – GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra
112. Terezinha de Oliveira Gonzaga – União de Mulheres de São Paulo
113. Vania Bogado de Souza Di Raimo
114. Vera Paiva – Conselho Federal de Psicologia

Faça amor, não faça Chapinha


O seu corpo conta a sua história. Cada arranhão, tatuagem, cicatriz ou cabelos grisalhos. Falando em cabelos…

por Alysson Augusto Do Ano-Zero,
Quando o seu cabelo está longe de ser aquele das propagandas de produtos de beleza, você passa a achar incômodo andar por aí usando o cabelo como veio ao mundo. Na verdade, esse problema costuma surgir na adolescência. É nessa época conturbada que aquela adolescente de cabelos longos e cheios de molinhas muda absurdamente o que pensava até então de seus cabelos, quando a dizem que um liso escorrido é tão mais lindo que aquele cacho que ela tanto se pegou, distraída, enrolando nos dedos.

Enquanto meninas são constantemente empurradas a aceitar o liso como o ideal, um dos problemas que surgem quando você tem cabelos grandes e enrolados, caso você seja um rapaz decidido a esticar seus cachos, é ser acusado de “desviante”, “boiola” ou qualquer coisa considerada anormal. Mesmo assim, em busca de aceitação, você passa a fazer da chapinha uma regra que inicia o seu dia-a-dia.

E os olhares à sua volta te ensinam a entender que, se você alisar tão bem a ponto de parecer liso natural, não haverá qualquer problema nisso. Afinal, além de evitar que suspeitem de você, você agora realmente acredita que a beleza de cabelos lisos supera, sem chance de dúvida, qualquer beleza daqueles cabelos que desde cedo te disseram serem “rebeldes”, “indisciplinados”, necessitados de “controle” ou que simplesmente precisam serem “domados”.

Quando você finalmente percebe que essa constante tentativa de ser outra pessoa é frustrada, você decide jogar tudo pro alto. Você passa a dizer a si mesma, a todos os julgamentos alheios e às propagandas que tentavam ditar como você deveria parecer: “DANE-SE!”. O formato dos fios que brotam do seu couro cabeludo, embora possam indicar traços da sua personalidade, não podem resumir quem você é.


E cabelos cacheados, crespos, ondulados ou pixaim são você, são parte dessa coisa complexa que você chama “eu”. Cultivar seus cabelos, independentemente do tamanho, forma, cor ou volume é aceitar a sua identidade neste mundo, reconhecer que você é uma pessoa tão especial a ponto de existir apenas uma de você, com detalhes próprios que somados formam a sua existência e, acima de tudo, a sua personalidade – alguém que se reconhece enquanto ser digno de respeito e de beleza neste mundo.

Você precisa perceber que sua identidade depende da aceitação de quem você realmente é, para finalmente entender melhor essa coisa chamada “liberdade”. A liberdade de ter a sua própria aparência, de se expressar de forma genuína e própria perante o mundo, de assumir a identidade que sua genética te deu e mostrar que a única vergonha que você deve ter na cara é a de um dia ter acreditado nas coisas ruins que diziam sobre as suas madeixas.

Se o seu corpo conta a sua história, seus cabelos são parte dela. E que tal contar uma história de amor? Ao contrário da chapinha que se vai, seus cabelos permanecem envolvendo carinhosamente o seu corpo até depois de sua morte. Ame os seus cabelos!

A Cor do Espaço Urbano


A partir da análise da configuração urbana do DF fica mais fácil entender como a desigualdade territorial age para a manutenção das desigualdades raciais brasileiras.

Munido de um estoque considerável de senso comum, custa ao brasileiro acreditar que sob certos aspectos a instituição de práticas racistas no Brasil se equipara à instituição de práticas racistas da sociedade norte- americana ou sul-africana: afinal, bombardeado desde sua infância pela ideologia da democracia racial, âmago da nossa noção de identidade nacional, este brasileiro, no ‘melhor espírito’ da Liberté – Egalité – Fraternité, poucas chances tem de se questionar quanto à ação de fatores raciais atuando na conformação da estrutura social brasileira, na estratificação social e conseqüente desigualdade.

Nesta perspectiva, onde os fatores raciais são desconsiderados, pois não podem ser aceitos no plano oficial de nossas práticas culturais apesar de reinarem no plano oficioso, e sob o pano de fundo de uma teoria economicista, este brasileiro entende a desigualdade social apenas pelo viés econômico, que abarca a população como um todo, independentemente do grupo racial a qual pertença, restaurando a segurança do nosso mito de origem — um país construído pela relação harmônica entre brancos, índios e negros—, mais que isso, lhe possibilita solidificar a naturalização das desigualdades raciais e da apropriação da riqueza nacional e das benesses do Estado pela população branca, sem o inconveniente de conflitos raciais explícitos.

Ao entrarmos no questionamento sobre as nossas cidades, sobre as desigualdades sociais desenhadas no território físico, os mesmos pressupostos são validados pelo senso comum e pelas teorias deterministas de fundo economicista: se por um lado a visão ortodoxa da ciência econômica quer levar a cabo as explicações sobre estratificação social, na mesma direção, a reboque neste processo, também encontramos uma linha de pensamento sobre a estruturação do espaço urbano como processo resultante do determinismo econômico a reger a ação dos indivíduos. Assim, as pesquisas sobre segregação sócio-espacial e desigualdade urbana têm se estruturado sob uma fundamentação determinista, onde a economia, ou melhor, o domínio do capital financeiro, os fatores de ordem econômica, diretamente e indiretamente, independente da realidade social e da localidade desta no globo terrestre (à luz de um processo econômico globalizado), é tomado como fundamento para o entendimento das questões espaciais intra-urbanas.


Deste discurso falacioso um ponto deve ser tomado por verídico, as ações e atores a agirem na conformação da nossa estrutura social são os mesmos a agirem na conformação do nosso espaço urbano. Espaço territorial e espaço social são elos indissociáveis de uma mesma corrente, elos que se validam um ao outro para se afirmarem e reforçar a própria estrutura. Desta forma, ao pensarmos as cidades brasileiras devemos pensar o seu papel frente ao nosso processo de formação socioeconômico, às nossas práticas culturais/ideológicas, às respostas dadas por este para a manutenção de um status quo que se inicia ainda no período colonial com o escravismo e chega aos dias de hoje, em uma sociedade de economia de mercado.

Aqui as desigualdades urbanas assumem um importante papel para a manutenção das desigualdades sociais no Brasil. A partir da análise da configuração urbana do Distrito Federal (DF) e da conformação histórica de seu espaço urbano fica mais claro falar em estruturação urbana da segregação racial, fica mais claro entender como a desigualdade territorial age para a manutenção das desigualdades raciais brasileiras.

O DF apresenta uma situação particular em termos de composição racial da população, negros e brancos assumem uma igualdade numérica: a população branca responde por 49,15% da população total e a população negra por 49,57% (PDAD-2004). Mas essa igualdade não implica em igual distribuição no espaço urbano, muito menos em apropriação de equipamentos públicos e serviços urbanos: Como podemos ver no mapa, a população negra se concentra nas regiões periféricas do DF ou em áreas de degradação sócio-ambiental mais próximas ao núcleo de trabalho e renda — Brasília. Essa concentração da população negra em áreas periféricas coincide diretamente com a distribuição da população de analfabetos, com a concentração de ocorrências policiais, de desemprego, de irregularidade fundiária, de habitações sub-normais, de menor oferta de serviços públicos (principalmente de saúde e educação), de equipamentos de lazer, entre outros. O que acaba por constituir uma intersecção de variáveis negativas sobre a população negra.


Assim temos nas Regiões Administrativas (RA) com maior concentração da população negra, como a Estrutural (66%), o Recanto das Emas (63%) e Brazlândia (64%), uma média de renda domiciliar mensal de R$ 790,50, enquanto as RA’s de maioria branca, como Lago Sul (85%), Lago Norte (70%) e Brasília (77%),uma renda de R$ 8408,00. Vale aqui ressaltar os extremos da distribuição de renda e da concentração de população negra: o Lago Sul apresenta uma renda de R$ 11.276,00 enquanto a Estrutural de R$ 499,00.

A exemplo do que ocorre com a distribuição da renda, ao nos depararmos com os dados que caracterizam a escolarização e a taxa de analfabetismo da população, a mesma condição de exclusão se repente: as RA’s com maior porcentagem de população nordestina, negra, com menor renda e maior porcentagem de população jovem, detém as piores posições nas taxas de escolarização. A população com nível superior completo está majoritariamente concentrada nas Regiões Administrativas com maior porcentagem de população branca. Já a população com 1º grau incompleto está majoritariamente concentrada nas Ra’s com maior porcentagem de população negra.

Ao se falar em irregularidade fundiária a mesma oposição é verificada, nas RA’s com maior proporção de população negra (citadas no parágrafo anterior) apresentam a média de 28,3% dos terrenos em situação de irregularidade fundiária, enquanto que as RA’s com maior concentração de população branca apresentam a média de 1.02% de terrenos em situação irregular.

Essas oposições entre os territórios de maior concentração de pessoas negras com os de maior concentração de população de cor branca se reflete em diversas variáveis pesquisadas. Em muito isso é devido à própria estruturação do espaço urbano do Distrito Federal constituído ainda na sua construção: Brasília, o Plano Piloto, estava destinada para a habitação da alta e média burocracia estatal que seria transferida do Rio de Janeiro, brancos em sua maioria, não estava previsto o assentamento dos milhares de nordestinos, negros em sua maioria, que iludidos pelo sonho do “Eldorado do Cerrado” vieram construir a capital do país.

Aos negros acabaram sendo destinadas as áreas distantes do núcleo destinado à população branca: áreas desestruturadas, com infra-estrutura urbana desigual, com menor possibilidade de acesso ao emprego, educação e lazer — áreas com baixíssima qualidade de vida urbana. Podemos falar em uma segregação planejada pelo Estado, onde nordestinos, negros, não cabiam.

E neste jogo oficioso, de constante solidificação da apropriação das vantagens sociais pelo grupamento social de cor branca, em detrimento da população negra, mais uma vez nordestinos e negros seriam colocados à margem do maravilhoso projeto de desenvolvimento da nação.

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Marcel Cláudio Sant’Ana, Mestre em Planejamento Urbano (UnB) e assessor técnico do Ministério das Cidades

Texto do site Jornal Ìrohìn


Fonte: Geledés.

Carta aberta ao governador Rui Costa, da Bahia, por Ana Maria Gonçalves


Por Ana Maria Gonçalves, no Blogueiras Negras

Caro Governador,

Mesmo no carnaval, há uma grande diferença entre vestir a camisa e se fantasiar. Penso nisso enquanto vejo várias fotos em que o senhor aparece, sorridente, com a camisa do Ilê Aiyê, bloco afro que, neste ano, homenageou a Jamaica.

Em uma das fotos dá para ver, na manga da sua camisa, referência à Rebelião de Morant Bay. Esta foi uma rebelião que se gerou a partir de 1864 e teve grande importância não apenas na história da Jamaica, mas também em intensas discussões na Inglaterra sobre como os povos, principalmente os negros ex-escravos ou descendentes de escravos, são tratados por seus governantes. É importante que o senhor conheça tal história e, como já percebemos ser bom em figuras de linguagem, faça a relação com o que vem acontecendo com os pobres e pretos da Bahia e seus governantes, tendo em mente um dos desdobramentos mais recentes: o caso do Cabula.

A escravidão na Jamaica foi abolida em 1834, prevendo mais quatro anos de trabalhos forçados, como uma espécie de ritual de passagem da escravidão para a liberdade. Oficialmente, ex-escravos podiam votar, mas um imposto de votação muito alto fez com que fossem excluídos do processo democrático. Nas eleições de 1864, apenas 2.000 negros estavam aptos a votar, em uma população de 436.000 pessoas, na qual havia uma proporção de 32 negros para 1 branco. Revoltados com esta situação e com a extrema pobreza na qual se encontravam, agravadas por epidemias de cólera e sarampo, pela perda de plantações próprias (para alguns poucos que tinham acesso à terra) provocada, entre outras coisas, por um longo período de seca, pela quebra da indústria açucareira, por rumores de que a escravidão seria restabelecida para balancear a economia jamaicana, os negros resolveram se mobilizar.

Sensibilizado com a situação, Dr. Edward Underhill, britânico secretário da Sociedade Missionária Batista, escreveu à rainha da Inglaterra (de quem a Jamaica era colônia), mas sua carta foi interceptada pelo governador Edward Eyre, que negou qualquer problema. Quando a resposta da Rainha Vitória chegou, perceptivelmente influenciada pelas palavras do governador, ela apenas dizia que os negros deveriam trabalhar mais, negando-se a ajudá-los. Um rico fazendeiro e político mestiço chamado George William Gordon (um dos rostos estampado na sua camisa, governador) começou a incentivar o povo a encontrar maneiras de se fazer ouvido, e seu apelo achou terreno fértil no diácono negro Paul Bogle (também na sua camisa, governador).

Em 7 de outubro de 1965, precisando trabalhar, um ex-escravo invadiu uma fazenda abandonada e foi mandado para a prisão, enfurecendo ainda mais o povo negro. Durante seu julgamento, a manifestação indignada de outro homem negro, James Geoghegon, e a violência com que a polícia tentou calá-lo e tirá-lo da Corte, levou a uma briga generalizada entre negros e policiais. Dois policiais foram atacados com paus e pedras, o que levou vários dos presentes ao julgamento, tendo ou não participado dos ataques, serem acusados e presos por tumulto, resistência à prisão e ataque à polícia. Entre eles, estava Paul Bogle, que conseguiu fugir.

Em 11 de outubro, no entanto, Paul Bogle voltou a Morant Bay e, com um grupo de manifestantes, foi recebido por uma milícia policial que abriu fogo e matou sete deles. Com seus mortos, os manifestantes recuaram, mas foram perseguidos pelas tropas enviadas pelo governador John Eyre, com a ordem de levarem Paul Bogley de volta a Morant Bay, a qualquer custo, para ser julgado. Sobre essa perseguição, um dos soldados depois se regozijou: “… nós matamos todos com quem cruzávamos… homem ou mulher ou criança”. A chacina resultou na morte de 439 jamaicanos negros e na captura e posterior execução de mais 354, sem julgamento. Entre estes últimos estava Paul Bogley (esse aí mesmo, da sua camisa), executado no mesmo dia em que foi capturado. Outros 600 negros (homens, mulheres e crianças) foram torturados e surrados, e milhares foram jogados nas cadeias, com penas longas e, de novo, sem qualquer julgamento. Gordon, aquele político que disse que o povo negro deveria arrumar um jeito de mostrar as reais condições em que viviam, e que, não se esqueça: estampa a sua camisa, também foi executado, depois de ser levado de Kingston até Morant Bay, para que sua morte pudesse acontecer nos tribunais de exceção, sob lei marcial.

O senhor pode procurar e repercussão e as mudanças que as atitudes do governador John Eyre provocaram na relação do governo inglês com a escravidão e o governo das colônias, governador, porque quero deixar essa história fresca na sua cabeça para que o senhor responda à pergunta: ao exibir, sorridente, os rostos de tantos heróis da luta contra a escravidão, a servidão e as injustiças sofridas pelo povo negro ao longo da História, o senhor estava vestindo a camisa ou se fantasiando? E tomo a liberdade de perguntar porque me lembro do senhor, há menos de um ano, na qualidade de deputado e candidato a governador, na aprovação do Estatuto da Igualdade Raciale Combate à Intolerância Religiosa do Estado da Bahia, celebrando entre os nossos, como se fosse um de nós: “Menino nascido e criado no bairro da Liberdade, periferia pobre da capital baiana onde vive o maior número de negros da América Latina, eu sei bem da importância desta nossa vitória.”

“Capital baiana onde vive o maior número de negros da América Latina”. Palavras suas, governador, que só fazem sentido se vierem acompanhadas do respeito à NOSSA história. E se o senhor acha que a história do povo negro da Jamaica não lhe diz respeito, tomemos então a história dos negros da Bahia. Não sem antes nos lembrarmos da frase que talvez o senhor tenha ouvido nos seus tempos de militância sindical: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. História que vai continuar se repetindo, se não prestarmos atenção a ela. E com maior intensidade a cada geração que a herda, porque ações e atitudes que tentam apenas mascará-la são construídas sobre escombros cada vez mais frágeis e contestáveis, exatamente porque ela, a História, se acumula e ganha peso.

Na sua camisa, governador, há também o rosto de Nanny dos Maroons, assim chamada por ter sido uma das mais importantes líderes quilombolas (conhecidos como maroons, na Jamaica) do século XVIII. Passando para a Bahia, talvez sua luta possa ser comparada à de Zeferina, mulher igualmente guerreira e líderança no Quilombo do Urubu. Pesquise um pouco, governador, e o senhor vai perceber que a Revolta do Urubu foi a revolta mais famosa organizada por um quilombo, e aconteceu em Salvador no ano de 1826. Silvia Maria Silva Barbosa, em “O poder de Zeferina no Quilombo do Urubu”, nos ensina que:“O poder de Zeferina tem feito parte da memória histórica de resistência da comunidade suburbana, que tem permitido salvaguardar essa história de luta enquanto referencial guerreiro de resgate da autoestima dessa população excluída economicamente, principalmente. E é nesta compreensão mítica de resistência negra que a guerreira Zeferina “renasce das cinzas”, conferindo poder de memória subversiva a cada ato de protesto e luta de libertação no bairro do atual quilombo e arredores baianos”.

Sabe onde ficava o Quilombo do Urubu, governador? No Cabula. O historiador João José Reis, ao falar sobre quilombos e rebeliões escravas, diz que “A própria existência do quilombo e sobretudo sua defesa militar e incursões em território inimigo podem ser consideradas revolta”. Analisando essa frase tendo em vista os acontecimentos atuais, ouso dizer que a existência de comunidades como o Cabula, no abandono em que se encontram por parte do poder público que nada mais faz do que criminalizar a pobreza que ele mesmo ajudou a construir ao longo dos anos, já pode ser considerada revolta. E resistência. E perpetuação desse poder mítico deixado por mulheres como Zeferina, não sendo passível de destruição porque está em cada mãe, esposa, avó, namorada, filha, amiga que sobrevive aos seus mortos; e é captado e sentido igual por quem tem sensibilidade e humanidade para tanto.

A História é um fio inquebrantável, governador, e por isso acho importante falar de rebeliões escravas. E repressão por parte das polícias. Outra rebelião importante a ser lembrada, e que também possui ligações com o Cabula, é a Rebelião Malê, cuja repressão foi uma das maiores já perpetradas pelo governo brasileiro, mas cuja repercussão, hoje sabemos, foi de suma importância para começar a se pensar sobre o fim da escravidão no Brasil. Imagine-se, governador, vivendo naquela época e sendo responsável pela segurança pública da capital baiana onde já vivia, talvez, o maior número de negros da América Latina. Depois, informe-se um pouco sobre o que foi essa rebelião e as ações tomadas contra os negros da Bahia, sendo eles participantes ou não, e responda daqui, da segurança concedida por décadas de distanciamento: o senhor estaria do lado dos que combatiam o status quo, ou dos que combatiam os que combatiam o status quo? Pergunto porque, ainda hoje, sendo quase unanimidade a condenação à escravidão, podemos ler lá no site da polícia que o senhor coordena: “(…) E assim tem feito a Polícia Militar da Bahia durante seus 181 anos de existência prestando relevantes serviços a (SIC) Nação e ao Estado baiano, quer seja através de inserções para conter rebeliões de escravos, como na Revolta dos Malês; (…)”. Analisando, à luz do que se conhece hoje – porque é hoje que o site ostenta tal informação -, que instituição governamental, a não ser uma que tenha sido criada para combater aquele tipo de situação e não tenha se livrado ainda dos ranços de nascença, se orgulharia, a ponto de colocar em sua apresentação institucional, o fato de ter combatido rebeliões escravas, autorizando que falemos em genocídio do povo negro? A sua polícia, governador. A polícia que o senhor coordena, a partir desta capital baiana onde vive o maior número de negros da América Latina, descendentes da escravidão. A sua polícia; sobre a qual o senhor declarou, em sua conta em uma rede social:“Segurança Pública é um dos temas que chamei p/ mim. Estarei ao lado dos cidadãos de bem q doam suas vidas a serviço da população baiana.“

Chame para si também, governador, a tarefa de entender a História que nos conduz à situação de insegurança pública que vivemos hoje. Um excelente ponto de partida é exatamente o contexto histórico e as reações a partir de rebeliões escravas como a dos Malês. Aqui, governador, valho-me do trabalho da socióloga, historiadora e professora de criminologia Vera Malaguti Batista, na palestra “Medo, violência e política de segurança”. Vale a pena assistir na totalidade, mas abaixo saliento alguns pontos importantes.

Vera Malaguti Batista parte da ideia de que precisamos entender que é o medo que produz as demandas por ordem e lei, e ele – o medo – sempre foi usado pela hegemonia conservadora para justificar políticas autoritárias e controle social. O discurso do medo sempre foi usado pelos colonizadores e passado adiante para os que governaram depois deles. No Brasil, com sua história violenta de extermínios e dominações, é assim desde sempre; e foi nas décadas posteriores à Independência que o discurso do medo se intensificou, com as várias rebeliões escravas que aconteciam país afora. Como inimigo a temer e, portanto, castigar e/ou eliminar, justificado pelo racismo científico, estava o africano, o negro da terra, o escravo, o fujão e desobediente, portador do caos e da desordem. É neste contexto, e com o objetivo de manter o status quo, ou seja, o regime escravocrata, que surge o Corpo de Polícia, mais tarde chamado de Polícia Militar. O medo de que os negros, em maioria numérica em algumas regiões, como Salvador, tomassem o poder, fez com que grandes esforços fossem concentrados na repressão das rebeliões. E é exatamente nesse momento que, com o governo fechando os olhos para o caráter político dessas manifestações, que os manifestantes e revoltosos começaram a ser criminalizados.

Outro momento em que a criminalização é reforçada, governador, e com o seu passado de sindicalista o senhor deve saber muito bem, é durante a ditadura, o grande momento da Polícia Militar que o senhor agora coordena. Assim como as rebeliões escravas, as manifestações e as greves, por exemplo, foram desinvestidas do seu caráter político e tratadas como questões de polícia, para que os “desviantes” pudessem ser perseguidos, torturados física e psicologicamente, presos, desaparecidos, mortos. Antes, infundia-se o medo para justificar a barbárie com quem se levantava contra a escravidão, depois, para legitimar a luta contra o comunismo, inimigo que agora passa a se chamar “guerra às drogas”. Os métodos são os mesmos, apenas o inimigo muda de nome, permitindo que também seja mantida a estrutura de controle social repressiva e conservadora que, na época da escravidão, publicava nos jornais “precisamos ter uma polícia que a nós inspire confiança e aos escravos infunda terror”, pedindo mais polícia e mais violência no controle dos “violentos”, sem ao menos tentar entender ou questionar contra o que eles se rebelaram, sendo, no caso, a escravidão, violência por si só.

O “nós” tratados aí acima refere-se à elite de sempre (civil ou militar), os que o senhor hoje já aprendeu a chamar de cidadãos de bem, mas também conhecidos como “humanos direitos”. O que sobra para os outros, que não fazem parte dessa elite, e que hoje habitam os quilombos transformados em favelas, senhor governador? Porque o bem só existe em contraponto ao mal, assim como o humano surge a partir da comparação com o não-humano. Um dos produtos mais insidiosos da criminalização da pobreza é a desqualificação jurídica do pobre e do negro (ele não precisa ser tratado como inocente até que se prove o contrário, porque sua cor e sua condição social são tidas como justificativas suficientes para sua condenação), fazendo com que sua palavra não tenha o mesmo peso da palavra que, sem provas, muitas vezes o condena. Exemplo disso: “prefiro acredita (SIC) na versão dos meus policiais”, dito pelo Secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, mesmo com suspeitas de que os policiais poderiam estar mentindo. E, em campanha eleitoral, o senhor disse que sabia haver na polícia elementos cujas palavras e atitudes não são confiáveis: “Infelizmente, têm alguns, como em toda profissão, que não honram a sua profissão e o seu trabalho e acabam se desviando, ou para o mundo do crime, ou para atitudes como essa que têm que ser fortemente reprimida e entregue essas pessoas à Justiça para que elas possam responder pelos seus crimes”.

Se há dúvida, se há duas ou mais versões sobre um mesmo fato, porque apenas uma delas deve ser levada em conta? Não seria o caso de, diante da mínima dúvida que seja, um agente público pago com dinheiro dos impostos tanto dos policiais “dele” como dos familiares dos mortos (usando argumento que o conservadorismo entende), abster-se de pender para um lado ou outro até o caso ser esclarecido? Acontece, governador, que outro produto dessa criminalização da pobreza e da cor, além da desqualificação jurídica, é a desumanização. Por isso causou tanta revolta (olha a palavra aí de novo, e aqui, por favor, revestida de todo o seu caráter político)a declaração que o senhor deu com tanta naturalidade, comparando o momento em que um policial deve decidir se atira para matar alguém com o momento em que um artilheiro deve decidir como vai chutar a bola para dentro de um gol. E, sendo ainda mais cruel, tudo aconteceu exatamente em uma área conhecida como “campo”, ou “campinho”, de chão batido, como desses de futebol de várzea. Se isso não é a banalização do desrespeito à vida humana, seja daquelas perdidas no campinho do Cabula, ou daqueles que as choram, podemos decretar a falência da humanidade. Nesse mesmo discurso, o senhor ainda usa o termo “famílias de bem“, como sendo aquelas que a sua PM deve respeitar. O que é uma “família do mal”, governador, partindo do pressuposto lógico de que a existência de uma depende da existência da outra? Se em uma família, um dos elementos cai no crime, a família inteira não precisa ser respeitada? Suas dores e seus lutos podem ser banalizados, tripudiados e comemorados através de figuras de linguagem? Dê uma olhada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em campanha (“Fernando Sodake: Tem como justificar essa forma como a polícia vem agindo? / Rui Costa: Olhe, eu diria que não tem justificativa. Nós temos que implementar, repito, a polícia cidadã, que respeite os direitos humanos”), e responda: quantas violações o senhor pode perceber, por parte do seu governo, no desenrolar e nas justificativas do acontecido no Cabula?

Quem cai na criminalidade, governador, leva consigo uma história que o empurra para lá e que, quase sempre, está relacionada à ausência do Estado e/ou a injustiças cometidas em seu nome. Tenho visto o senhor e outros agentes do seu governo falarem apenas em combate à violência sem que, em nenhum momento, falem também de tentar entender sua persistência ao longo da história. Analisando mais de 1.000 processos de jovens que foram parar no universo das drogas e se encontravam internados em FEBENS, FUNABENS etc…, nesse vídeo linkado acima, a professora Vera conta uma história que, para mim, ilustra muito bem o tipo de julgamento rápido que o senhor quer que seus policiais façam diante da decisão de condenar e eliminar uma vida. Primeiro, a questão da injustiça: quando um jovem branco, classe média (talvez o que o senhor chama de pertencente a uma família de bem) é pego com determinada quantidade de droga, é encaminhado para atendimento em casa, psicológico; e quando um jovem negro, pobre, morador de favela, é pego com a mesma quantidade, cai no sistema correcional ou prisional. Ela conta sobre um laudo de um desses meninos, preso já havia algum tempo, com a seguinte avaliação psicológica: “pelo brilho no seu olhar eu pude perceber como ele ainda desejava coisas que não se coadunam com a vida de um salário mínimo: guloseimas, roupa nova, garotas; e então, ele ainda está fascinado pelos ganhos fáceis”. E, segundo a professora Vera, “o garoto ganha mais dois anos só pelo brilho no olhar, porque – ela achava, pelo brilho no olhar – [que] ele ainda desejava todas aquelas coisas que qualquer garoto da idade dele também deseja“.

E se o brilho no olhar, governador, (ou aquele lampejo de pensamento, rápido, com frieza, como o senhor propõe), tão importante para o julgamento – a decisão na hora do gol – tivesse sido apenas um raio de sol que, acidentalmente, entrou pela janela? Ou o reflexo de lágrimas? Ou um tiquinho de esperança que, se posta em liberdade naquele momento, junto com o corpo que a carregava, teria mudado sua trajetória? Que tipo de polícia é enviada para o confronto com um grupo perigoso e articulado de assaltantes de banco, como foi divulgado por membros do seu governo, depois de informação obtida através do monitoramento do Serviço de Inteligência, sem analisar todas as possibilidades e despreparada para agir? A justificativa da ação em si já é prova mais do que suficiente do quanto ela foi falha. E do quanto a corporação também não está preparada para proteger as vidas de seus integrantes, tratando-os como os pelotões de soldados negros e escravos que foram mandados para a Guerra do Paraguai para servir de bucha de canhão.

Agir por reflexo; parece ser a única coisa que resta ao seu sistema de segurança pública. Reflexo. Quantos brilhos nos olhares o sistema prisional, correcional, policial e judiciário tem tratado de apagar, senhor governador? Quantos futuros esses julgamentos precipitados e carregados de racismo e preconceito tem evitado de existir, governador? Quantos jovens negros e pobres os “policiais do mal”, acobertados e incentivados por um sistema no qual nem eles acreditam ou podem confiar, empurraram para a criminalidade, junto com suas famílias e suas comunidades? Sim, porque quando alguém sofre uma violência ou uma injustiça, ela também afeta todos aqueles ao seu redor ligados por laços de afeto ou geográficos. “Se aconteceu logo ali, na porta ao lado, pode acontecer aqui”, pensam os vizinhos.

Hoje, principalmente com quase todos andando com câmeras em celulares, quase nada do que acontece nas comunidades passa sem registro. Ações violentas, arbitrárias e injustas do Estado (sim, o Estado é responsável por sua polícia, agindo ela em conformidade com as leis ou não, a mando dele ou às escondidas) circulam de tela em tela, e só não chegam até nós por causa da barreira do medo erguida por aqueles mesmos que tratam de difundi-lo. Lembra-se, governador: é o medo, e não o respeito ou a autoridade, que funciona como controlador social nos dias de hoje. E porque quem deveria estar zelando pela segurança de todos prefere acreditar sempre “nos seus policiais” que, por sua vez, se valem do silêncio do medo e de leis de exceção, como os autos de resistência, essas provas ficam por lá, alimentando a revolta, a sensação de insegurança, invisibilidade e injustiça, que assassinam ainda no nascedouro qualquer possibilidade de brilho no olhar que poderia levar crianças e jovens a sonharem com o que todas as outras crianças e jovens “do bem” são incentivados a sonhar: estudo, trabalho, família, tranquilidade, cidadania. E mesmo depois de mortos, governador, o Estado continua seu serviço de matar também suas reputações, como se isso justificasse a ilegalidade da pena capital e inconstitucional. No caso do Cabula, o Estado “informou” a imprensa que eram todos bandidos, que “informou” a população que a periculosidade de 12 bandidos havia sido tirada de circulação, junto com suas armas, munições e condição de indesejáveis; população que, por sua vez, aplaude o Estado e pede mais Estado, mais violência, mais ação, mais exibição de corpos e de armas.

Este vídeo ilustra bem o tipo de mídia mentirosa e ardilosa que, a partir de informações fornecidas pelo Estado, alimenta o medo e a sanha da população. Uma das jornalistas faz a chamada: “Doze bandidos foram mortos em um tiroteio com a polícia quando se preparavam para assaltar um banco em Salvador.” E a outra complementa: “Segundo a polícia, a quadrilha com 30 homens armados e vestidos com roupa do exército, planejava roubar o banco na madrugada desta sexta-feira, quando PMs chegaram e foram recebidos a tiros. (No filme ilustrativo, homens armados e fardados atacam a polícia, em frente a uma agência bancária). No intenso tiroteio, 12 criminosos foram mortos e quatro ficaram feridos; entre elas, um sargento da polícia militar”. “Doze bandidos”, os “criminosos”, governador, sendo que apenas um deles tinha ficha criminal. É neste tipo de manipulação informativa que o seu governo (e os anteriores) se apoia para justificar e implementar uma política de segurança pública intrusiva e violenta. Investir em segurança pública, na atual conjuntura de uma sistema viciado, não deveria deixar de passar por investir em transparência. A transparência, governador, e não o medo, fará a polícia (e, consequentemente o Estado que a controla) ser respeitada e eficaz, em vez de apenas temida. É Kant quem diz que “todas as ações relativas ao direito de outros homens, cuja máxima não é suscetível de se tornar pública, são injustas”.

E quando falamos em transparência, principalmente em uma área tão cara a todos nós, como segurança pública, há que se encarar com honestidade e coragem os graves problemas que há muito nos deixam – Estado, inclusive – reféns da militarização. Para além desse episódio do Cabula, é necessário, governador, que se coloque em pauta, urgente, com participação popular, o fim dos autos de resistência, o fim da polícia militar, a discriminação das drogas, o sistema carcerário ineficiente, a formação humanista de uma polícia que não confunda autoridade com humilhação e violência, inclusive dentro de seus modelos hierárquicos. É preciso que a polícia se reinvente a partir de suas bases, fora dos gabinetes, levando em conta as necessidades de quem realmente tem ido para as ruas, mal treinado, mal pago, amedrontado, desestimulado, doente e invisível aos olhos de seus superiores. O senhor disse, governador, que os policiais envolvidos nas mortes do Cabula não seriam afastados de seus cargos, a não ser que aparecessem provas contra eles. Não é e não deve ser considerado normal que alguém envolvido em uma situação onde há perda de tantas vidas, e aqui não há que se distinguir entre civis e policiais, esteja apto a voltar ao trabalho no dia seguinte. Haverá algo de errado com esses policiais se não sentirem o trauma, assim como também haverá algo de errado se o sentirem. Não há saída fácil; não há vitórias nas e nem é saudável a comemoração das perdas, independente de que lado elas se deem. Há acompanhamento psicológico?, ou, melhor ainda, há estímulo e liberdade para que o policial procure acompanhamento psicológico para tratar tanto os traumas que geram insensibilidade quanto os que podem gerar ansiedade, crises de pânico, dores, culpas, medos, silêncios, violência? É preciso também que lhes sejam dadas condições e segurança para que ajudem no trabalho de denúncia, sejam seus pares ou de seus superiores, de policiais que agem na ilegalidade e contaminam toda uma corporação.

O tenente-coronel Adilson Paes de Souza, em sua dissertação “A educação em direitos humanos na polícia militar“, os chama de Super-homens e traça um perfil bem abrangente:

“Eles são pessoas idealistas. São bons trabalhadores, são dedicados ao serviço e querem o bem da sociedade. Seu maior desejo é servi-la, é dar-lhe proteção e afastá-la do perigo. Aparentemente são pessoas iguais às outras. Têm família, pai, mãe, esposa e filhos. São dotados de um estrito senso de honra que deve ser observado, com rigor, em todos os momentos. Na Polícia Militar são respeitados. Muitos são tidos como bons exemplos. São condecorados e recebem tratamento diferenciado. São, pois, reverenciados.

Como todo super-herói que conhecemos, eles apresentam contradições, desilusões e, frente a uma realidade que desconheciam e com a qual não sabem lidar adequadamente, como será demonstrado em seguida, desenvolvem um código de conduta próprio. Não acreditam mais nas instituições, se veem em constante guerra com os denominados agressores da sociedade. Cada dia de serviço é um dia de batalha.

Diante desse quadro, eles evocam para si poderes que outras pessoas não possuem. A partir de um dado momento, movidos pelo sentimento de revolta com a situação deparada, eles personificam todos os órgãos do Estado responsáveis pela aplicação da Justiça. Como heróis anônimos buscam fazer justiça com suas próprias mãos de acordo com critérios estabelecidos.

Eles assumem, num só corpo, as atribuições conferidas aos juízes, promotores de justiça e advogados. As audiências de julgamento e a sentença, de morte, são instantâneas.

Eles estão em uma guerra e, nesse contexto, instala-se a lógica da eliminação do inimigo no campo de batalha. Confundem justiça com vingança e esse sentimento norteia suas ações.

(…) Ao final, reproduzindo o mesmo quadro que os levou a agir dessa maneira, eles assumem o papel dos delinquentes que combatem e atuam com a mesma impunidade que, um dia, lhes causou a revolta.”

Na referida dissertação, há quatro depoimentos desses policiais “super-heróis homicidas”, que valem muito a pena ler. Uma delas, apesar de bastante longa, colo aí abaixo, porque acredito que este tipo de experiência pode ajudar a pensar em como o Estado também é responsável pela produção de policiais homicidas, e que poderia ser interessante o uso de experiências e de depoimentos como este na prevenção e conscientização de mais “super-heróis homicidas”.

“1 – Por que ingressou na Polícia Militar?

Sou de origem de família nordestina. A honra era mais importante que qualquer outra coisa. Na hora do jantar todos se reuniam. Meu pai, policial militar aposentado, contava histórias da época em que estava no serviço ativo e sempre falava que os Oficiais eram homens importantes, com muita autoridade. O que eles mandavam fazer era feito.

Ao completar dezoito anos de idade, e uma vez que estava terminando o ensino de segundo grau, comecei a me preocupar sobre o meu futuro e sobre a escolha de uma profissão. Foi aí que recordei o que meu pai sempre comentava sobre a autoridade exercida pelos policiais militares. Inscrevi-me e, no primeiro concurso, fui aprovado e iniciei o curso de formação.

2 – O que aconteceu depois?

Concluí o curso com êxito. No dia da formatura sentia uma imensa felicidade, pois havia realizado um sonho.

Fui designado para trabalhar numa Unidade da Polícia Militar situada na periferia da cidade de São Paulo.

Comecei a ver uma realidade que não conhecia, favelas, meninas estupradas, pessoas pobres vítimas de roubo, o que causou revolta. Cada vez mais fiquei revoltado com o contexto que estava tomando conhecimento naquele momento, na área onde trabalhava.

3 – Como era o serviço?

Movido pela revolta com a situação com que me deparei, comecei a trabalhar além do horário normal. Trabalhava muito além das oito horas diárias. Só depois que tudo aconteceu, percebi que era um erro e que meu comandante deveria ter-me impedido de continuar nessa rotina. Infelizmente meu comandante foi omisso.

Comecei a prender todo mundo. Daí percebi uma outra realidade que também não conhecia. Muitas pessoas presas por mim e conduzidas ao Distrito Policial eram soltas.

Numa ocasião, prendi duas pessoas em flagrante delito, por terem praticado roubo a um supermercado. Isso aconteceu pela manhã.

A ocorrência foi apresentada no Distrito Policial, mas na mesma data, à noite, deparei com essas duas pessoas livres, andando normalmente pelas ruas de um bairro. Estranhando a situação realizei a abordagem em ambos, quando um deles disse que tudo estava certo e que a quantia em dinheiro destinada a mim, estava com o delegado de polícia na respectiva Delegacia, uma vez que houve acordo para liberação deles.

Nesse momento percebi que a corrupção existente nos Distritos Policiais da área, onde trabalhava, gerava a impunidade dos delinquentes.

4 – O que aconteceu em seguida?

Em seguida passei a frequentar velórios de policiais militares mortos em serviço.

Certa vez, uma situação ocorrida num velório causou-me revolta. Foi quando houve a condecoração e a promoção, por ato de bravura, de um cabo morto em serviço.

Para mim não havia sentido algum prestar homenagens e honrarias a alguém morto, isso deveria ser feito em vida. A partir desse exato momento tomei o lugar de Deus. O que significava que evoquei a condição de juiz supremo para mim. Eu é quem decidia quem deveria morrer.

Eu era juiz, promotor, advogado. Levava a vítima para um matagal, concedia-lhe um minuto para oração e o sentenciava à morte.

5 – Por que matava?

Primeiro porque me sentia investido de autoridade para tal, no sentido de que podia fazer de tudo. Segundo, devido à impunidade. Eu prendia as pessoas que, uma vez conduzidas ao Distrito Policial, eram soltas. Muitas vezes mediante o pagamento de propinas aos membros da Polícia Civil. Terceiro, a revolta e o ódio que sentia pela situação que deparava no dia-a-dia do meu serviço até então (extrema pobreza, violência de todo tipo, miséria etc). Quarto, a revolta com a morte de Policiais Militares, como se fosse alguém da minha família. Revolta, inclusive com a própria instituição que dava valor ao policial somente naquele momento.

6 – O que aconteceu então?

Matar alguém se tornou um vício. Contudo, não percebi que, com o tempo, o que enxergava de errado no outro não enxergava em mim mesmo. Não enxergava a impunidade em mim mesmo, diante dos atos que praticava.

Acabei sendo preso pela prática de homicídio.

7 – Como foi esse fato?

Fui preso, acusado e condenado pela prática de homicídio a tiros e facadas. O fato ocorreu num matagal e os corpos foram lá deixados sem serem enterrados, para serem localizados.

No auge da prática do ato senti que estava cheio de ódio e acabei descarregando tudo sobre o corpo da vítima. Tinha um sentimento de ódio generalizado, de tudo.

8 – Qual foi sua pena?

Fui condenado a bem mais de vinte anos de reclusão.

9 – O que sentiu na prisão?

Fui preso durante as investigações no antigo Serviço Reservado da Polícia Militar, atual Corregedoria, sendo mantido numa sala fechada, vestindo somente roupas íntimas. O colchão sujo de urina e de fezes. A alimentação era resto de comida de outras pessoas. Sofri tortura psicológica.

Como não me alimentava fiquei doente. Conduziram-me ao Hospital da Polícia Militar, onde permaneci internado no Setor de Psiquiatria, na época denominado Primeira Enfermaria. Lá me trataram como uma pessoa com distúrbio mental e prescreveram medicação indicada para tal quadro, o que me dopou.

Lá presenciei uma pessoa internada sendo brutalmente espancada por enfermeiros da repartição. O motivo? O paciente era Oficial e os enfermeiros eram praças. No dia seguinte foi dada a versão de que o paciente apresentou um surto psicótico durante a noite, tendo apresentado um comportamento violento e se auto-lesionado, até ser contido, inclusive, com o uso de medicação pesada para tal.

Quando fui recolhido ao Presídio Militar, logo no primeiro momento na cela senti que não era aquele super-homem que podia fazer tudo. Percebi que era prisioneiro dos meus próprios desejos e da minha própria consciência e que, logo de pronto, mesmo possuindo graduação em cursos de nível superior, realizados fora da corporação, a partir daquele momento, passaria a efetuar faxina nos banheiros do presídio. Daí tive consciência de que havia tido muitas oportunidades, mas que as havia desperdiçado.

A sensação é de que o mundo acabou e que não havia mais razão para existir. Queria me fazer de forte perante os outros, principalmente durante as visitas.

Também senti ódio porque muitos policiais militares, companheiros de serviço na Unidade que trabalhava, visitavam-me, não por solidariedade e para prestar apoio, mas sim para saber se eu os havia delatado em virtude de outras ocorrências. Senti-me, nesse momento, abandonado e que os referidos policiais militares não estavam preocupados comigo e nem com minha família.

Fui condenado no primeiro julgamento e pude aguardar novo julgamento em liberdade. Nesse período trabalhei no serviço administrativo da Polícia Militar. Aí percebi a existência de uma outra realidade na corporação. Lá as pessoas trabalhavam tranquilas, havia horário para a realização de atividades físicas e recreativas duas vezes por semana. Era uma outra Polícia, diferente da que conhecera até então.

10 – Quais foram as consequências do erro cometido?

A primeira foi o sofrimento da família. Muitos de meus familiares ficaram doentes física e psicologicamente. A segunda, a perda de função, uma vez que fui expulso da Polícia Militar. Um sonho se despedaçou. A terceira, a discriminação que minha esposa e meus filhos passaram a sofrer. A quarta, o sofrimento pela ausência do pai e do marido, no seio da família, em datas específicas (Natal, aniversários, formatura de escola etc). A quinta foi que minha esposa tentou suicídio. A sexta, a cobrança da família por ter me abandonado. A sétima, a sensação de abandono e rejeição que senti.

11 – Na sua percepção, por que um policial militar pratica homicídio?

Primeiro por ser uma questão cultural, baseada na questão de honra herdada da família, por exemplo.

A isso se adiciona o ambiente em que o policial militar trabalha, favorecendo o sentimento de se perceber como super-herói e, em razão disso, tudo pode fazer e nada vai acontecer.

12 – No seu ponto de vista, há a possibilidade de ser realizado um trabalho preventivo?

Sim. Primeiro a realização de acompanhamento psicológico. Não só em ocorrências graves, como é realizado atualmente, mas sim no dia-a-dia do policial militar.

Baseado na minha experiência, não sentia mais compaixão, não chorava mais. Nada mais me abalava. Perdi o sentimento. Eu mesmo constatei que a pessoa endurece aos poucos e não percebe.

Daí a necessidade de acompanhamento psicológico constante, dada a característica do trabalho policial-militar. Mesmo que ele não solicite, pois pode estar afetado psicologicamente e não perceber tal condição.

Segundo, os Comandantes de Unidade precisam estar realmente presentes e preocupados com o serviço, e prestar atenção ao comportamento adotado pelos policiais subordinados. No meu caso, os comandantes foram omissos, quando não estimulavam o comportamento nocivo através da concessão de condecorações e de honrarias.

Terceiro, o combate à impunidade. Em meu caso, nunca nenhum superior fez qualquer menção ou adotou qualquer atitude para que eu parasse de praticar os atos que pratiquei.

Quarto, a realização de um trabalho de conscientização de valores, por meio da instrução e do diálogo constantes.

Não podemos esquecer que o homem deve ser entendido em sua integralidade, pois ele é constituído de espírito, alma e corpo, e se não houver um equilíbrio nestas três áreas, em algum momento haverá problema.

Na parte do corpo – a preocupação com hábitos alimentares, com higiene, com a saúde e com a prevenção de doenças.

Na parte da alma – entra a psicologia (mente, livre arbítrio e emoções), na fisiologia fala-se do cérebro.

Na parte do espírito – comunhão com Deus, criador de todas as coisas, a palavra religião em sua essência “religar o que foi desligado”, o homem sem Deus andará em próprios desejos, em suas próprias vontades, e as consequências serão drásticas, no entanto. Todo homem precisa saber: Quem ele é? Por que ele existe? E qual seu propósito?

Tudo isso para que o policial militar não se sinta um super-homem pelo fato de usar farda e portar arma. Para que ele seja e se perceba como uma pessoa normal, que se emociona, que sente dor, medo e compaixão.”

E tudo em que o senhor pensa, governador, é colocar mais policiais armados nas ruas (o BOPE, inclusive!), sem mexer nessa estrutura doente e falida, capaz de produzir mortos e homicidas em quantidades assustadoras, sem nunca ter que parar para se repensar? Capaz de, há décadas, manter a mesma mentalidade que projeta para fora de si o inimigo que de fato é, chamando-o, quando lhe convém, de quilombola, escravo fujão, rebelado, macumbeiro, capoeirista, comunista, bandido, delinquente, criminoso, traficante?

Um pouco de informação sobre o que aconteceu em Bogotá, na Colômbia, também pode dar mais ideias dos efeitos de implantação de uma programa de redução de violência chamado “Cultura Cidadã”, por ser exatamente focado em mudanças culturais que promovem a segurança do cidadão, entre os quais se inclui a polícia. O seu programa se chama “Polícia Cidadã” , que, já, de saída e no próprio nome, exclui o não-policial. Na edição 182 da Revista IHU On-Line, entre várias outras entrevistas que poderiam te interessar, há a de Antanas Mockus Sivickas, na época candidato a presidente da Colômbia e ex-prefeito, duas vezes, de Bogotá. Há várias alternativas à segurança pública belicista e militarizada, senhor governador, sendo que as mais eficazes são aquelas em que, na formação de Conselhos de Segurança, a polícia é apenas uma das vozes a serem ouvidas, e as vozes da população nunca deixam de ser ouvidas.

Dentre essas vozes, por exemplo, em Salvador, estão os integrantes da ação Reaja ou será morta! Reaja ou será morto!, criada em 2005 para denunciar e combater o genocídio do povo negro, e que o senhor se negou a receber no último dia 06 de fevereiro. Já acompanhei o pessoal da Reaja! em visitas à cadeia da Mata Escura, na grande passeata de agosto do ano passado, contra o genocídio do povo negro, na caminhada em memória dos mortos no Cabula, no último dia 11/02, até o campo onde aconteceu a chacina, e vejo que eles ocupam espaços que, ou o Estado deveria estar ocupando, ou que não seria necessário ocuparem se o Estado fizesse sua parte. Assim se apresentam: “A Campanha Reaja ou será mort@ é uma articulação de movimentos e comunidades de negros e negras da capital e do interior do estado da Bahia, articulada nacionalmente e com organizações que lutam contra a brutalidade policial, pela causa antiprisional e pela reparação aos familiares de vítimas do Estado (execuções sumárias e extrajudiciais) e dos esquadrões da morte, milícias e grupos de extermínio”. Ainda, segundo um de seus principais articuladores, Hamilton Borges, que sempre tem seu nome circulando de maneira ameaçadora em listas de policiais, “a Reaja é um grupo duro, que vive nas esquinas, nos becos, nas vilas e prisões, e nossas demandas de cuidado incluem alimentar pessoas, buscar remédios, proteger da policia que mata, fazer manifestações, levantar barracos, chorar junto – porque não damos conta, enterrar menino com dinheiro cotizado pro caixão”.

Desde que começou sua atuação em Salvador, e principalmente em seguida a cada denúncia, demanda e/ou atuação, membros da Reaja! e das comunidades que atendem e protegem têm sofridos as mais diversas intimidações, como vigia ostensiva, abordagens, invasões e tentativas de invasões de domicílio a partir de supostas denúncias anônimas e sem os devidos mandatos, ameaças de morte via telefonemas ou nas redes sociais. Anteriormente, os militantes da Reaja! já protocolaram pedidos de proteção para os quais nunca obtiveram resposta. Neste caso do Cabula não tem sido diferente. Na carta que eles queriam entregar ao senhor pedem a retirada das tropas policiais militares que ocupavam a comunidade, intimidando e infringindo terror psicológico, investigação das intimidações e ameaças sofridas por militantes da Reaja!, que têm se manifestado pacificamente e em conjunto com organismos locais e internacionais de direito, proteção imediata às testemunhas, perícia técnica correta e transparente, afastamento preventivo dos policiais envolvidos na ação, início de um debate acerca do controle externo da atividade policial com a participação da sociedade e, não menos importante, uma retratação pública do governo pelas opiniões oficiais precipitadas e baseadas em uma única versão dos fatos, pré-investigação, o que influencia também o pré-julgamento da opinião pública e a sociedade civil. É pedir demais, governador, frente aos anos de ameaças, invisibilidade, luta, apoio a famílias destruídas e clamor por justiça? É pedir algo que, aliás, vá além da justiça pura e simples?

Atenciosamente,

Ana Maria Gonçalves, escritora, autora de Um defeito de cor.

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Destaque: Ato em memória da chacina do Cabula, 11 de fevereiro de 2015

Mulheres negras, racismo e a (não) garantia dos direitos reprodutivos*

por Emanuelle F. Goes, Hanna Moore e Juliana Figueiredo,
A garantia do direito reprodutivo e a sua efetivação é um horizonte a ser alcançado, pois na atualidade as mulheres ainda sofrem violação desse direito que são garantidos em documentos e tratados internacionais no que ser refere aos direitos das mulheres e aos direitos reprodutivos.

De acordo com Ventura (2010) os Direitos Reprodutivos: “são constituídos por princípios e normas de direitos humanos que garantem o exercício individual, livre e responsável, da sexualidade e da reprodução humana. E, portanto, o direito subjetivo de toda pessoas decidir sobre o numero de filhos e os intervalos entre nascimentos, ter acesso aos meios necessários para o exercício livre de sua autonomia reprodutiva, sem sofrer discriminação, coerção, violência ou restrição de qualquer natureza”.

Foto: A Capulanas Cia. de Arte Negra

Já a Saúde Reprodutiva é definida como (UNFPA, 2008): "A saúde reprodutiva é o estado de bem-estar físico, mental e social em todos os aspectos relacionados ao sistema reprodutivo, às suas funções e aos seus processos. Envolve a capacidade de desfrutar de uma vida sexual satisfatória e sem riscos, bem como a liberdade de mulheres e homens, jovens e adultos, decidirem se querem ou não ter filhos, o número de filhos que desejam e em que momento da vida gostariam de tê-los". 

No entanto, o que ainda se observa em varias partes do mundo, são as mulheres com os seus direitos violados nas mais diversas dimensões desde a falta de informação do direito, do insucesso da aplicação do direito até a violação propriamente dita por conta do sexismo, do racismo e outras tantas formas de opressões correlatas.

Porem, apesar de estamos falando em direito reprodutiva no seu conceito amplo, vamos aqui nos debruçar sobre o aspecto da esterilização das mulheres, especificamente das mulheres negras. A esterilização é um método contraceptivo definitivo que pode ser realizado em mulheres ou homens por meio de uma intervenção cirúrgica. Já a esterilização forçada ou de coerção é quando é quando a mulher é submetida a tal procedimento sem conhecimento prévio ou autorização ou então quando é coagida para a realização do procedimento ao procedimento.

No Brasil a esterilização forçada juntamente com a esterilização em massa tinha por finalidade diminuir o contingente populacional de negros e pobres no País. Como no Brasil o racismo é estruturante e sistêmico, se utilizou também da esterilização, sobre a égide da eugenia, para a eliminação dos degenerados, indesejáveis e inferiores onde há intenção era que por meio da esterilização em massa das mulheres negras diminuiria o percentual de negros/as no País.

Desde a segunda metade do século XX, na década de 60 um novo elemento seria posto à disposição de racistas eugenistas, as novas tecnologias de controle da fecundidade. Através da interferência nos ciclos hormonais das mulheres, esses métodos abriram novas perspectivas para controle compulsório da fecundidade das mulheres negras, indígenas e asiáticas, para além da esterilização cirúrgica já à disposição (STEPAN, 2005) (WERNECK, 2004).

De acordo com o Population Council, em 1990, 69,2% das mulheres brasileiras utilizavam algum método contraceptivo e que deste total 43,9% já estavam esterilizadas. Em 1991, no nordeste do Brasil a esterilização já havia sido feita em 62,9% das mulheres que usavam algum método contraceptivo (ROLAND, 1995). Com isso o movimento de mulheres negras inicia, sob a forma de denúncia, o combate ao genocídio da população negra e à usurpação da liberdade reprodutiva das mulheres.

Essa luta vai resultar na criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI), instaurada pelo Congresso Nacional Brasileiro, no ano de 1991. A CPI da Esterilização constatou que houve prestação inadequada dos serviços oferecidos pelas instituições privadas financiadoras de métodos contraceptivos inclusive os irreversíveis, sendo expandida principalmente, nas regiões mais pobres do país. Mas em 1996, por meio da recomendação da CPI, foi aprovada a lei especifica (Lei 9.263/96) que regulamenta o acesso à esterilização feminina (VENTURA, 2010).

A partir da década de 1990 o movimento de mulheres negras e o movimento negro iniciaram uma agenda incisiva na saúde pública, acompanhando o processo da saúde reprodutiva das mulheres negras. Pois de acordo com o Comitê de fiscalização da Convenção Racial, da ONU, são as mulheres negras mais vulneráveis à esterilização força da e abusos sexuais, inclusive por conta da permanecia no mercado de trabalho principalmente no trabalho doméstico.

A intersecção de raça e gênero conforma as mulheres negras uma situação de opressão e vulnerabilidades, apresentando experiência e trajetória de vida que diferencia das mulheres brancas, por exemplo, pois, o racismo é estruturante no que se refere às condições de vida da população negra, sendo a mulher negra um sujeito que sofre o racismo com o agravamento do sexismo e outras opressões correlatas.

A partir desta reflexão vamos apresentar dois casos denunciados por organizações pelos direitos das mulheres nas diversas mídias, sobretudo nas redes sociais, em que mulheres negras em diferentes contextos vivenciam violações dos direitos reprodutivos por meio da esterilização forçada ou de coação na Califórnia (Estados Unidos da America) e em Nairóbi (Quênia).

Mulheres negras presidiárias esterilizadas na Califórnia


A complexidade das violações dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres negras torna-se maior no contexto das mulheres negras em situação de prisão. As violações ligadas às prisões femininas permanecem obscurecidas pela a invisibilidade social da prisão (DAVIS, 2001). E no contexto de Califórnia o estado que tem mais prisões dos Estados Unidos, e que tem uma historia longa em relação esterilização carrega uma complexidade profunda. Essa complexidade consiste de atos como o complexo industrial da prisão, o movimento eugenista, leis do estado da Califórnia e embutido em tudo isso, racismo como fator principal. Alem de ser o líder na construção de prisões no país, Califórnia também foi o líder do movimento eugenista do País, tanto que os líderes do movimento eugenista da Califórnia foi consultado pela Alemanha nazista na década de 1930 para desenvolver o processo eugenista na Alemanha. (JOHNSON, 2013a)

O complexo industrial das prisões dos Estados Unidos se conecta a privatização das prisões, com empresas e políticas. ‘’A proliferação de prisões e prisioneiros está mais claramente ligada a estruturas e ideologias políticas e econômicas maiores que a conduta criminal individual e os esforços para conter a criminalidade’’. Em 1995 o orçamento para as prisões era maior do que educação no estado do Califórnia (DAVIS, 2001). Com o crescimento das prisões, a guerra contra drogas também aumentou, e as comunidades negras e latinas eram as mais impactadas pela essa mudança de paradigma.

Para entender porque o sistema prisional está ligado inerentemente ao racismo, nos Estados Unidos os negros chegam há 14% da população americana e são mais de 80% da população prisional. E o Racismo no sistema prisional não pode ser desconectado das questões de gênero, as mulheres negras estão mais afetadas dentro desse sistema e são mais propensas de estarem no sistema prisional dos EUA, elas compõem a maior parte da população de prisões das mulheres. Estatisticamente uma mulher negra nos Estado Unidos tem oito vezes mais chance de estar na prisão do que uma mulher branca (DAVIS, 2001). O racismo funciona como uma barreira estrutural pesa mais na produção da subordinação e na carga das opressões (CRENSHAW, 2002). "Mulheres negras formam o maior percentual em população prisional (48%), e 35% nos centros de detenção federais, mesmo que sejam apenas aproximadamente 13% da população em geral (DAVIS, 2001)’’.

A história de esterilização na Califórnia vem de muitos anos, no estado tinha leis de esterilização obrigatória, pois o liderado pelo movimento eugenista com a ideologia da supremacia branca e a inferioridade das outras raças. A lei foi criada no inicio do século XX, grupos minoritários, os pobres, os deficientes, os doentes mentais e os criminosos foram apontados como inferiores e esterilizados para evitar a sua propagação de seus genes (JOHNSON, 2013a).

Esse movimento e suas ações eram tão fortes que entre 1909 e 1964 aproximadamente 20.000 homens e mulheres foram esterilizados no Estado da Califórnia, esse movimento ganhou atenção internacional e em 1903, a Alemanha Nazista consultou para adotar as práticas de esterilização (JOHNSON, 2013b). “Posteriormente, essa lei foi ampliada concedendo aos médicos dos asilos e prisões a autoridade de “Asexualizar” os doentes ou presos, pois tal medida iria melhorar sua condição moral, físico e mental” (STERN, 2005). 

Por causa da base nas ciências, a política de esterilização permaneceu no Estado da Califórnia durante muitos anos.

O estado da Califórnia não considerava esterilização como uma punição, mas com uma estratégia de saúde publica (STERN, 2005), como o movimento eugenista propunha a esterilização como uma ferramenta para fortalecer o estado.

É nesse contexto do complexo industrial da prisão e as raízes da esterilização baseada no movimento eugenista, onde identificamos as violações contra mulheres negras em situação de prisão na Califórnia. As violações, ou seja, a violência contra mulheres negras na prisão se manifesta em varias formas: “negligência médica, o abuso sexual, a falta do controle reprodutivo, a perda dos direitos dos pais, a negação dos direitos legais, e os efeitos devastadores de isolamento” (DAVIS, 2001). A invisibilidade de estar na prisão além da invisibilidade de ser negra e mulher, abrindo espaço para as violações.

Ser mulher negra no EUA já tem seus diretos estão limitados, no sentido que legalmente têm direitos, mas na realidade é que esses direitos não estão sendo respeitados ou efetivados. Agora quando uma mulher negra entra no sistema prisional, como prisioneira, oficialmente e legalmente seus direitos que tinha antes ‘teoricamente’ serão retirados. Atualmente a esterilização é ilegal pela a lei, o Estado proibiu a prática em 1979 (JOHNSON, 2013b), mas as violações ainda acontecem. Entre 2006 e 2010 quase 150 mulheres era esterilizada nas prisões feminina da Califórnia sem a autorização do estado (JOHNSON, 2013a).

O contexto dessas esterilizações ilegais nas prisões é um ato de coerção. Num relatório feito pelo o centro de jornalismo investigativo na Califórnia em 2012, que fez várias entrevistas com mulheres que foram esterilizadas, esse fato foi relevado. Numa entrevista com uma mulher negra detenta que foi coagida para fazer esterilização disse que ela estava grávida e na hora para de dar á luz, uma momento emocionante e vulnerável, pois, era quando o medico da prisão sugeriu a esterilização para ela (JOHNSON, 2013b). 

Numa entrevista com o medico numa das prisões feminina da Califórnia, ele justificou os esterilizações dizendo que, “as esterilizações está bem mas barato do que quanto o Estado iria gastar no “welfare” (serviços sociais), para as crianças não desejadas” (JOHNSON, 2013a). Isso faz parte do mito Americano que reproduz o preconceito racial que mulheres negras só têm crianças para receber dinheiro do estado (HANCOCK, 2004).

Esterilizações coagidas ou forçadas ilegalmente das mulheres negras nas prisões feminina da Califórnia continuam atrás do véu da burocracia, uma historia de eugenia e práticas do racismo institucional. As violações estão sendo reveladas por organizações aliadas as mulheres na situação de prisão, no entanto o poder do sistema prisional requer mais pressão para garantir as mulheres negras o direito reprodutivo, direito humano e o direito a vida da população negra. Pois, “Qualquer imposição sobre os direitos reprodutivos é uma injustiça contra o bem-estar dos agregados familiares -. Dos direitos das mulheres, crianças e netos, ou a promessa do futuro” (DAVIS, 2001).

Mulheres Negras com HIV são esterilizadas em Nairobi


Antes de falar sobre o tema, cabe caracterizar o local onde são praticados os atos que infringem os direitos humanos, no que diz respeito o direito à vida, à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação etc. Todos merecem estes direitos, sem distinção de raça/cor/etnia, gênero, orientação sexual, cultura, religião, origem social, de território ou lugar.

Toda pessoa com HIV e AIDS tem direito à continuação de sua vida civil, profissional, sexual e afetiva. Nenhuma ação poderá restringir seus direitos completos à cidadania. Até os meados de 1993, cerca de quatro quintos de todas as pessoas já infetadas pelo HIV viviam em países em desenvolvimento, onde a infecção estava sendo transmitida principalmente na relação heterossexual, e a quantidade de novos casos estava aumentando mais rapidamente entre as mulheres.

No Quênia, mulheres com HIV e AIDS são vítimas do Estado e de alguns profissionais de saúde. Práticas de esterilização são realizadas sem o consentimento livre, completo e informado da mulher, simplesmente por serem portadoras do vírus HIV e/ou por possuírem a doença (AIDS). Tal procedimento foi reconhecido por organismos internacionais, regionais e nacionais de direitos humanos como uma violação dos direitos humanos, e como uma forma de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, bem como uma forma de violência contra as mulheres.

De acordo com a Pesquisa Indicador de AIDS no Quênia 2007, uma em cada dez grávidas no país tem HIV. Crianças com menos de 15 anos representam 16% das pessoas contaminadas; a grande maioria foi infectada pela mãe. Entretanto, o risco de contaminação da mãe para o bebê pode ser reduzido a zero através do uso de antirretrovirais durante a gravidez e o parto, além da adoção da cesariana (APUBLICA).

No relatório realizado pela ONG Iniciativa Africana de Mídia e Gênero, estão detalhados 40 casos de mulheres do Quênia que foram esterilizadas de maneira forçada porque eram soropositivas.

Existem relatos de mulheres que demonstram a perversidade cometida quando estas foram parir ou quando precisaram realizar algum procedimento cirúrgico no aparelho reprodutor feminino, por exemplo.

Quando a esterilização foi realizada no momento do parto, há um caso de uma mulher que descobriu no pré-natal que tinha HIV, por esse motivo os médicos lhe disseram que a maneira mais segura de ter o bebê sem transmitir o vírus seria realizando uma cirurgia cesárea. Durante a cesariana, sem que a mulher soubesse ou desse seu consentimento, foi esterilizada.

Além do caso supracitado, que a mulher não tinha conhecimento sobre o que seria realizado, existem mulheres que mesmo se recusando em realizar o procedimento, negando-se inclusive a assinar, a esterilização foi realizada. Se não bastasse a esterilização sem consentimento, as mulheres também são vítimas de outros tipos de violência, a exemplo a psicológica, quando são referidos à elas por profissionais de saúde que é um crime mulheres com HIV ter filhos. Além da justificativa de terem sido esterilizadas por possuírem HIV e/ou AIDS, outras ridículas lhes são apresentadas, como não ter marido ou não possuir fonte de renda para sobreviver e educar os filhos.

A fala que segue, relata o caso de uma mulher que foi esterilizada em um outro momento, que não o parto: "Me disseram que eu precisava de uma cirurgia no meu útero para me livrar de câncer. Foi durante a recuperação pós-cirúrgica quando eu soube que eu tinha sido esterilizada ".

Em resposta às violações constantes dos direitos humanos contra as mulheres que vivem com oHIV, a rede Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV (ICW global), criada por e para as mulheres que vivem com o HIV, liderou uma campanha global contra as violações sistemáticas dosdireitos humanos das mulheres soropositivas, afim de documentar e analisar os casos relatados, apoiar os sobreviventes e a mobilização das comunidades, as organizações da sociedade civil e decisões políticospara falar contra essas violações dos direitos humanos.

Na Namíbia, a ICW Global, juntamente com a Namíbia Rede de Saúde das Mulheres, apoiaramdezoito sobreviventes de esterilização forçada ou coagida a abrirem processos contra o Governo. Estas duas organizações denunciaram a violação do direito de estar livre de tratamento cruel, desumano e degradante, o direito à igualdade e o direito de ser livre de discriminação, entre outros. Até o momento três dos casos foram ouvidas no tribunal, com a decisão reconhecendo que as mulheres não consentiram a esterilização e ordenando compensação (THE GLOBAL COALITION ON WOMEN AND AIDS).

Esterilizações forçadas ou coagidas são fundadas em equívocos, inclusive sobre a transmissão doHIV, e que as mulheres infectadas não são capazes de cuidar e educar seus filhos. Esses equívocos sãomotivados pelo estigma e pela discriminação a cerca da infecção pelo HIV e da doença. Enquanto isso, as mulheres soropositivas continuam a ter os seus direitos reprodutivos violados.

Considerações

Os casos apresentados demonstram a dificuldade do exercício dos direitos reprodutivos por conta de uma sociedade que é estruturada pelo racismo e o pelo sexismo.

Para que as mulheres negras efetivarem o livre exercício do direito reprodutivo é necessário que outros campos do direito também sejam garantidos como a igualdade de gênero e de raça assim como assim como ao racismo, o sexismo e todas as formas de opressão compreendendo as mulheres negras nos diversos contextos culturais e locais.

De acordo com o documento sobre População e Desenvolvimento, Cairo (1994) a saúde reprodutiva é um direito humano e um elemento fundamental da igualdade de gênero.

Se as lutas por garantias de direitos não contemplar as mulheres e as suas interseccionalidades estarão distante de efetivar direitos e de reivindicar agendas legitimas, pois a dimensão das trajetórias e experiências vividas deve ser contemplada na agenda tanto no campo da política e quanto do direito.

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Referencias

APUBLICA. Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Quênia: mulheres soropositivas são esterilizadas sem saber. 17 de setembro de 2012. Disponível em: http://apublica.org/2012/09/quenia-mulheres-soropositivas-sao-esterilizadas-sem-saber/. Acesso em: 08 de outubro de 2014.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, vol.10, n.1, p.171-188. 2002.
DAVIS, C. S. Race, Gender and the prison industrial complex California and Beyond. Meridians. (2001).

HANCOCK, A.-M. The Politics of Disgust: The Public Identity of the Welfare Queen. New York: NYU Press. (2004).

JOHNSON, C. California was sterilizing its female prisoners as late as 2010. The Guardian. (2013a).
_____. Female Inmates Steralized in California Prisons without approval. Center for Investigative Reporting. (2013b).

ROLAND, Edna. Direitos Reprodutivos e Racismo no Brasil. Revista Estudos Feministas, n. 506, ano. 3. Rio de Janeiro, 1995.

STEPAN, Nancy L. A hora da Eugenia: raça, gênero e nação na America Latina. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2005.

STERN, Alexandra Minna P. Sterilized in the name of public health. American Journal of Public Health. (2005).

THE GLOBAL COALITION ON WOMEN AND AIDS. ICW in Focus: Forced sterilization of women living with HIV must stop now. 12 de maio de 2014. Disponível em: http://www.womenandaids.net/news-and-media-centre/latest-news/in-focus--forced-sterilization-of-women-living-wit.aspx. Acesso em: 08 de outubro de 2014.

UNFPA. FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A POPULAÇÃO. Saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres adultas, adolescentes e jovens vivendo com HIV e AIDS: subsídios para gestores, profissionais de saúde e ativistas, Brasília, 2008.

VENTURA, Mirian. Direitos Reprodutivos no Brasil. 3. Ed. Brasília, UNFPA, 2010.

WERNECK, Jurema. O Belo ou o Puro?: Racismo, eugenia e novas (bio)tecnologias. In: Rotania, A. A & Werneck, J. (Org). Sob o Signo das Bios: vozes críticas da sociedade civil. Vol. 1. R.J.: E-papers Serviços Editoriais, 2004.

* Trabalho apresentado nos Anais do 18º Encontro da REDOR