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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O nosso fundamentalismo

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha. 
FABIO RODRIGUES POZZEBOM (AGÊNCIA BRASIL)

Perturbador não é o fato de o deputado Eduardo Cunha cultivar e encampar ideias reacionárias. Perturbador é constatar que Cunha não está sozinho nesta empreitada

No dia 1º de fevereiro Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi eleito presidente da Câmara dos Deputados, o que o coloca como segundo nome na linha de sucessão da Presidência da República em caso de ausência de Dilma Rousseff, logo após o vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP). O Brasil encontrava-se em plena função pré-carnavalesca, enquanto Cunha, articulador e líder do chamadoBlocão, que reúne metade dos parlamentares da Casa, trabalhava para trazer à pauta propostas que considera essenciais para o bom funcionamento da sociedade brasileira.

Dentre as prioridades de Cunha estão a votação do Estatuto da Família, de autoria do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), fiel da Assembleia de Deus, que define “família” como “união entre homem e mulher”, contrariando decisão do Supremo Tribunal Federal, que igualou os direitos dos casais homossexuais aos dos casais heterossexuais. Cunha também desarquivou dois projetos de sua autoria, um que institui o Dia do Orgulho Heterossexual e outro que penaliza a discriminação contra os heterossexuais. Fosse brincadeira, pensaria em farsa – mas, sendo sério, enxergo apenas cinismo.

Negar direitos aos casais homossexuais, em nome da defesa de valores familiares, é acreditar ainda que o sol gira em torno da Terra ou que as moscas nascem da carne em putrefação. A ideia tradicional de família está em crise em todos os lugares, é uma marca dos nossos tempos – e, ao invés de propor uma discussão honesta sobre como organizar essa nova realidade, preferimos inventar culpados e caçá-los. Incompetentes para nos adaptar a um mundo em mutação, aferramo-nos a um passado idealizado (e portanto falso) e negamos o presente concreto. Esse discurso, baseado em um moralismo fundamentalista, não combina com uma sociedade que se quer moderna e laica, e resulta numa espécie de autismo social. Nunca soube de nenhum heterossexual discriminado, onde quer que seja, por conta de sua orientação sexual – mas em 2013 foram assassinados 319 homossexuais, quase um por dia.

Outra cruzada de Cunha, dentro de sua lógica de preservação da família, é contra a legalização do aborto. Por sua iniciativa, tramitam na Câmara dos Deputados quatro projetos de lei que ampliam a repressão à prática do aborto: tipificando-a como crime hediondo, conceituando o início da vida na concepção (hoje a legislação compreende que a vida começa após a 22ª semana de gestação), prevendo a prisão de seis a vinte anos do médico que pratique a operação, e tornando crime a orientação de gestantes para o procedimento, com até dez anos de reclusão.

A proibição do aborto é mais uma face visível da nossa hipocrisia. Todos sabem que o aborto é praticado no Brasil, e de maneira intensiva – calcula-se em torno de 850 mil procedimentos clandestinos todo ano. A diferença é que as mulheres ricas de classe média vão a clínicas de alto padrão, com ameaça mínima para a saúde, enquanto as mulheres pobres recorrem a consultórios de fundo de quintal, a aborteiras ou lançam mão de expedientes domésticos, correndo sérios riscos, que resultam muitas vezes em esterilidade e, pior, em morte. Recusar-se a discutir o assunto é continuar condenando as mulheres, sejam ricas ou pobres, à marginalidade – e, em casos extremos, à morte.

"Negar direitos aos casais homossexuais, em nome da defesa de valores familiares, é acreditar ainda que o sol gira em torno da Terra"

Perturbador não é o fato de o deputado Eduardo Cunha cultivar e encampar ideias reacionárias – que ele tem todo o direito de defender. Perturbador é constatar que Cunha não está sozinho nesta empreitada. Economista, 57 anos, começou sua trajetória pública como presidente da Telerj, no governo Collor, assumindo em seguida a presidência da companhia de habitação do Rio de Janeiro, no governo Garotinho. Radialista, ligado ao bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, elegeu-se em 1998 deputado estadual e a partir de 2002 deputado federal, com votações crescentes a cada nova legislatura – na última, foram 232 mil votos. Para conquistar a presidência da Câmara, no primeiro turno, recebeu 267 votos. Perturbador é isso: o deputado representa a opinião de uma parcela cada vez maior da população brasileira, que, renunciando a pensar, delega suas opiniões a homens como Eduardo Cunha, que, escudado num falacioso discurso religioso, defende sabe-se lá que interesses.

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Luiz Ruffato é escritor e jornalista.

Fonte: Elpais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nota da Comunidade de Mestre D'Armas, Planaltina - DF


Nota da Comunidade de Mestre D'Armas, Planaltina/DF

"Consternados manifestamos nossa dor e repúdio diante da morte de seis pessoas, ocorridas na madrugada deste domingo, 14/02, após colisão frontal entre dois veículos, ocorrida em Formosa (GO).

Cinco jovens, ao não pararem em uma abordagem policial, foram perseguidos entre Planaltina-DF e Formosa-GO por diversas viaturas da Polícia Militar do DF. Ao ocorrer a colisão, os policiais, conforme se vê em vídeo que circula na internet, retiraram os corpos dos jovens, amontoando-os e ofendendo-os, de forma covarde. Um policial, dizia ao garoto de 13 anos, que sobreviveu à colisão, contorcendo-se no chão, mas que veio a falecer depois: "não chora não, morre como homem". Se a PMDF tivesse cumprido seu papel de forma profissional, provavelmente mortes teriam sido evitadas.

Diversas viaturas perseguiram o automóvel com os garotos até a colisão, tendo os corpos sido retirados do carro, jogados e amontoados no chão como se lixo fossem, enquanto o sobrevivente que ainda se mexia, chorava e pedia socorro, e era desdenhosamente ofendido por um policial.

É preciso apurar a ação dos policiais militares do DF, pois o ato se configura em crime conforme previsto no art. 121, parágrafo 4º, do Código Penal brasileiro, que considera homicídio culposo e aumenta a pena no caso do agente em exercício da profissão que deixar de prestar imediato socorro à vítima.

Os jovens estudavam e trabalhavam, e a polícia não tem o direito de julgar e condenar, como ocorreu e como comprovam as imagens do citado vídeo. Mesmo com um dos jovens com passagem pela polícia, em qualquer circunstância a polícia não teria o direito de fazer o que fez. O fato mostra policiais despreparados para dar segurança à sociedade. 

Morreram, durante o acidente, além do motorista do outro carro, os seguintes jovens: Welington (13), Carlos Henrique (15), Caio Jonatas (17), Gabriel (17), e David Matos (18).

Por outro lado, chama a atenção a falta de equipamentos públicos relacionados à cultura, ao trabalho e ao lazer na região de Planaltina e em toda a periferia do DF. O que há de sobra para as crianças e jovens dessas regiões, tem sido a morte, a marginalidade e a falta de oportunidades que assegurem a formação de cidadãos que possuam a plena cidadania.

É preciso dar as condições adequadas para o desenvolvimento psicosocial e as oportunidades adequadas aos jovens residentes nas periferias, oferecendo essas condições. A Polícia Militar precisa ser preparada para respeitar a vida, a juventude e todo o povo, assim como é necessária a desmilitarização das polícias de todo o Brasil.

Basta de violência contra os jovens filhos de trabalhadores. A cada dia acontecem mais denúncias de assassinatos de jovens pobres, negros e residentes das periferias praticados por policiais.

Exigimos a imediata apuração e punição dos responsáveis pela barbárie que matou os jovens de Mestre D'Armas, Planaltina, DF.

Brasília (DF), 17 de fevereiro de 2015."

Assinam:
Sigenaldo Souza Alencar, pai e Neli Ribeiro, mãe - Carlos Henrique
Raimundo Neto Ribeiro, pai e Maria Lucia, mãe - Caio Jonatas
Juscelino E. de Matos, pai - David Matos
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Entidades:
ABL
Aquilomando DFE
Articulação Brasileira de Lésbicas – ABL
Cajueiro - Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude – GO 
Calles - Casa América Latina Liberdade e Solidariedade - ES
Cáritas Arquidiocesana de Brasília – DF 
Cebrapaz – DF
CFEMEA - DF
Central dos Movimentos Populares – CMP
Centro Acadêmico Carlos Mariguella – História UFF – Campos dos Goytacazes - RJ
Coletivo ArtSam
Coletivo Enegrecer
Coletivo de Entidades Negras – CEN
Coletivo Favela Potente - DF
Coletivo Mariachi
Coletivo Maria Perifa
Coletivo Negrada - ES
Coletivo da Secretaria de Mulheres do PT/DF
Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia – DF
Comitê Paraense de Solidariedade ao Povo Palestino - PA
Conselho Regional de Psicologia – DF
Cooperativa de Reciclagem do Coco verde – Coopercoco
CUCA – UFF -RJ
DCE Fernando Santa Cruz – UFF - RJ
DCE Universidade Católica de Brasília - DF
Diretório Acadêmico Allan Turing – Computação – UFF
Diretório Acadêmico Aurora de Afonso Costa – Enfermagem – UFF - RJ
Fórum Nacional da Juventude Negra -DF
Frente Feminista Periférica
Grupo Radicais Livres S/A – DF
Jornal O Miraculoso – DF 
Juventude Libre - DF
Juventude PT (Nacional)
Movimento Cultural Super Nova
Movimento D’ELLAS -RJ
Movimento de Mulheres Negras Capixabas - MNC - ES
Movimento de Olho na Justiça – MOJUS
MTST
Nação Hip Hop Brasil
Nosso Coletivo Negro - DF
Observatório Juventudes na Contemporaneidade – GO
O Campo
Pastoral da Juventude - DF
Pátria Latina
PCdoB 
Pretas Candangas - DF
Quilombo Estereótipo
Racionais MC's
Radicais Lires S - DF
Rede Nacional de Negras e Negros LGBT
Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde – RENAFRO
Refundação Comunista
Regular – GO
RUA - Juventude Anticapitalista - DF
Secretaria Agrária do PT - DF
Setorial de Direitos Humanos do PT – DF
Sobreviventes da Rua - DF
SINDSEP – DF (Seção de Base do Incra)
SINDSER - DF
UJS (Nacional)
UJS - DF
União de Negros pela Igualdade - Unegro
Vila dos Sonhos
+ Assinaturas de pessoas da Comunidade de Mestre D'Armas, que não reproduzimos aqui por ser muito longa.
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Para adesões, mande o nome da Entidades para: meninosdemestredarmas@gmail.com

Sobre crespo, a luta e a gratidão


Por Adriane Henderson, no Meninas Black Power,
Tenho andado pelas ruas e perdido as contas. Perdido as contas de quantos cabelos crespos vejo por aí. Crespos mesmo, do jeito que eles são em todo o seu embaraço, com todas as suas irregularidades, em toda multiplicidade de cor e texturas. Não “relaxados”, não “domados” como os querem os rótulos de xampu. Cabelos crespos que andam por aí a fazer reverências à cor da pele, aos largos narizes, às grandes bocas, aos largos e fortes quadris. Crespos que guardam memórias e vão por aí a encrespar também os que insistem em alisar o mundo. Tenho andado pelas ruas e sentido gratidão por cada homem, cada mulher preta que, com seu cabelo, me oferece também a sua história, sua resistência. E compartilha comigo uma dor que de tão cotidiana parece, por vezes, nosso lugar comum. Me oferecem, com seus crespos, a chance de saber-me bonita. Bonita, sim! E me oferecem, acima de tudo, as possibilidades de me identificar, de poder pensar: “talvez meu cabelo ficasse bem com esse corte”; “talvez meu cabelo fique bem com essa cor”.

Parece uma bobagem quando você não viveu uma vida em que durante vinte e poucos anos seu cabelo não tem outro lugar se não o “cabelo ruim”; o que precisa “dar um jeito”; o que “tem volume de mais”; o que “não tem jeito”. Amarra! Prende! Tá feio assim! Alisa logo! Uma violência tão sutil quanto institucionalizada, praticada dentro de casa, entre os amigos e por aqueles que te querem bem. Hoje reverencio meus antepassados que com suor e sangue resistiram e ainda assim nos ofereceram alegria e beleza na música, na dança, nas artes, na mitologia. Tenho andando pelas ruas e reverenciado cada homem, cada mulher preta que com seu crespo exerce liberdade, por que essa só pode estar presente no gesto cotidiano, nunca foi institucional. Reverencio cada homem e cada mulher preta que com seu crespo segura a minha mão e me faz hoje afirmar com toda minha força: “sou negra ainda que tu me queiras morena”.

Papo sério: Representatividade importa


Quem me acompanha no twitter sabe o quanto a questão de igualdade racial é importante na minha vida. Ultimamente, vem sendo o assunto que eu mais exponho minha opinião e a Iris já tinha conversado comigo um tempo atrás, sobre a gente começar a fazer posts para empoderar os leitores do blog sobre algumas questões importantes da sociedade.

por Olívia Pilar do Literalmente Falando via Guest Post para o Portal Geledés,
Então hoje eu resolvi falar um pouco sobre a importância da representatividade, focando principalmente em pessoas negras e produções da televisão brasileira (basicamente você também pode usar esse texto para analisar filmes e livros, porque geralmente é sempre a mesma coisa).

E pra isso eu vou contar um pouco sobre eu mesma.

Em algum momento da minha vida, eu resolvi que deveria mudar meu cabelo. Eu não lembro quantos anos tinha, ainda era uma criança, mas isso com certeza foi motivado pelo fato de não encontrar uma atriz negra na televisão brasileira que me mostrasse que meu tom de pele e meu cabelo não eram inferiores aos cabelos lisos de pessoas brancas. Tem outros fatores, claro, mas esse teve um grande peso.

Então eu fiquei até os 22 anos transformando meu cabelo de todas as formas possíveis para deixá-lo parecido com o que eu achava que a sociedade considerava o “certo”. Afinal, como eu poderia assumir meu cabelo crespo se eu não via ninguém mais o fazendo? É claro que eu tinha exemplos na minha família, mas para uma criança, isso geralmente não é suficiente.

E foi só de uns dois anos pra cá que eu comecei finalmente a perceber como nós somos deixados de lado em todas as esferas da sociedade. Algumas pessoas irão dizer que eu estou me vitimizando, mas pare e se coloque no lugar de uma adolescente negra e de classe média: ela tem amigos brancos, estuda em escola particular e, quando assiste uma novela ou um seriado, só encontra um igual nas vestes de empregado. Como se existisse um lembrete dizendo que seu futuro é destinado somente aquilo.

E é por isso que a representatividade importa. Porque se você encontrar uma pessoa com o tom da sua pele em um papel de destaque, que não seja figurante, que não sirva só para dizer que não há pessoas de cor em uma produção, você se sentirá motivado a assumir o que você é.

Isso provavelmente é muito difícil de ser compreendido para quem nunca precisou questionar nada com relação aos meios de entretenimento. Afinal, desde sempre o personagem principal é branco. E agora vocês devem estar pensando “Mas teve as duas personagens da Tais Araujo que eram protagonistas”. Sim, teve. Mas em ambas as novelas existem muitas questões problemáticas. Uma delas se chama Da Cor do Pecado, que nos leva a pensar sobre todo aquele discurso da constante hipersexualização da mulher negra.

E na outra (Viver a Vida), do horário nobre, em um momento a personagem da Tais se humilha para pedir perdão. Isso nunca aconteceu com nenhuma outra personagem de uma novela nesse horário. Por que com a Tais é diferente? Porque ela é negra, ela deve se agachar e pedir perdão de joelhos a uma mulher branca?

Têm algumas novelas em que a Camila Pitanga também era considerada protagonista, mas agora parando para pensar… ela sempre fez um personagem mais de apoio ao homem galã do que dona de seus próprios passos. Tem também os personagens do Lázaro Ramos, claro. Lázaro é um colírio para a minha vida, mas ele realmente recebe o apoio que outros com menos talento recebem?

“Bem, eu tinha 9 anos quando Star Trek foi ao ar. Eu olhei para a televisão e saí correndo pela casa gritando: “Vem aqui, mãe, todo mundo, depressa, vem logo! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!”. Naquele exato momento eu soube que podia ser o que eu quisesse.” – Whoopi Goldberg

Agora pensando nos atuais seriados da TV Globo: quantos deles têm um personagem negro como protagonista? E quando eu digo protagonista eu quero dizer aquele que tem a história focada nele e é contada pelo seu ponto de vista. A resposta é: nenhum. Aliás, dá pra contar em uma mão quantos negros têm nesses seriados.

Sexo e as Nêgas é o que contém o maior número, mas mesmo assim a história é contada por um homem na visão de uma mulher branca. As quatro mulheres negras não são sequer protagonistas e donas de sua própria história em um seriado que, teoricamente, carrega indícios de que deveriam ser para elas.

Eu tenho muitas coisas para falar sobre esse assunto, mas acho que algumas vocês mesmos devem começar a refletir. Andando pelas ruas, quantos negros você encontra? Agora, assistindo a uma novela, quantos deles você conta nos dedos? Não é injusto? Não é errado que nós devemos nos contentar com 3 participantes negros do BBB contra uma maioria esmagadora de brancos? Não é errado que em Are You the One BR só tenha um participante negro? Não é errado que de todos os seriados da TV Globo, em nenhum um negro ou uma negra é protagonista?

Recentemente eu li o discurso do diretor-escritor do filme Dear White People (um dos melhores que eu já vi e que deveria ser indicado em escolas) no Spirit Awards e que ajuda a entender um pouco mais sobre a importância da representatividade:

“Eu comecei a escrever esse filme há uns 10 anos como um impulso porque eu não via realmente minha história na cultura. Eu não via eu mesmo refletido nos filmes que eu amava (…) Eu tentei me colocar na cultura. Isso pode ser difícil quando não tem realmente nada aqui dizendo que você pertence a ela (…) Se você não se vê na cultura, por favor, se coloque lá, porque nós precisamos de você. Nós precisamos ver o mundo pelos seus olhos”.

Então, se você não se vê nos livros, nos filmes, nas séries… comece a falar sobre isso. Comece a dizer o que pensa. Comece a lutar para que haja alguma mudança. Nós temos que parar de aceitar que somente a história do outro seja contada. E isso não é somente para negros, como eu, isso é para todo mundo que quer ver diversidade nos meios de entretenimento, de comunicação e de tudo mais.

Lembre-se: Selma is now.

Fonte: Geledés.

III REUNIÃO DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS 2015 - COMITÊ BRASÍLIA/DF



por Renata Parreira
Marcha das Mulheres contra o racismo, violência e o bem viver...na concentração esse coletivo de mulheres se fortalecem e se empoderam na partilha e na necessidade de marcharem em uma mesma direção.






Sátira ao projeto da criação do "Dia do Orgulho Hétero"


Afinal, por que o projeto da criação do "Dia do Orgulho Hétero", do deputado, ativista e militante do movimento hétero, Eduardo Cunha, é tão fundamental? 

Assista:

Fonte: Põe Na Roda.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Meninos negros na escola: poder, racismo e masculinidade


Parte deste texto foi originalmente publicada na resenha intitulada “Diferentes e desiguais”,publicada por Adriano Senkevics na revista Em Aberto, v. 27, n. 92, p. 191-196, 2014. Para acessar o artigo original, clique aqui. Se preferir acessar o número completo da revista, clique aqui. Abaixo, apresento uma versão modificada do texto original, apenas com o intuito de publicação no blog Ensaios de Gênero.

Há variadas formas de se abordar a questão das diferenças – de gênero, cor/ raça, idade, origem, etc. – na escola. Uma delas, bastante em voga na atualidade, tende a enfatizar o aspecto multicultural que usualmente caracteriza a sociedade brasileira. Celebra-se nossa tão falada diversidade, porém, nem sempre tal abordagem mostra-se suficientemente capaz de apreender as disparidades de acesso ao poder que permeiam as relações sociais. Ao invés de encerrar o debate na diversidade cultural, é preferível tomá-lo como um ponto de partida para questionar o acesso diferenciado a bens simbólicos e materiais pelo conjunto da população e, em particular, pelo alunado.

Foi com esse intuito que Marília Carvalho organizou a obra Diferenças e desigualdades na escola, publicada em 2012. Composto por sete capítulos, o segundo deles, intitulado Formas de ser menino negro: articulações entre gênero, raça e educação escolar, de autoria de Andréia Rezende e Marília Carvalho, é fruto do trabalho de conclusão de curso da primeira autora e traz importantes reflexões sobre as relações de gênero e as desigualdades educacionais, com ênfase nos meninos e especial atenção para as articulações entre gênero e outras categorias sociais, tais como cor/raça e classe. Neste texto, discuto algumas contribuições desse capítulo.

O ponto de partida das autoras é a constatação, devidamente caracterizada por Fúlvia Rosemberge Nina Madsen (2011), de que as desigualdades de gênero na escolarização têm beneficiado as mulheres desde as últimas décadas. Sabe-se que as trajetórias escolares das garotas são menos acidentadas que a de seus pares masculinos. Além disso, são os meninos que ostentam maiores taxas de reprovação e evasão, assim como menores taxas de conclusão dos ensinos fundamental e médio. Não basta, contudo, descrever essas diferenças entre os sexos sem lançar mão de uma análise de gênero que procure investigar o contexto sociocultural que produz e mantém tais disparidades. Nesse sentido, o primeiro passo adotado por Rezende e Carvalho é levantar a seguinte questão: “quem são os meninos que fracassam na escola?”.

Uma importante pista é articular as desigualdades de gênero com as desigualdades de cor/raça, dado que as relações raciais estão imbricadas com hierarquias entre populações percebidas e classificadas como brancas, negras ou indígenas (Guimarães, 2009), no contexto brasileiro. Reconhecendo que são os meninos negros provenientes de camadas pobres da população as principais vítimas do fracasso escolar, as autoras objetivam discutir a construção das masculinidades em meninos negros e a relação que eles estabelecem com o processo de escolarização.

Capa da revista Em Aberta, volume 27, número 92, 2014, 
em que foi publicada a resenha que serviu de base para esse post.

Por masculinidades, adota-se o arcabouço teórico desenvolvido pela australiana Raewyn Connell (2005), para quem a masculinidade é uma configuração de práticas em torno da posição que os homens ocupam nas relações de gênero, isto é, práticas que os constroem enquanto homens (ou meninos, no caso) dentro de uma estrutura que atribui significados distintos àquilo que se entende como masculino ou feminino. Fala-se, evidentemente, das relações de poder que constituem o gênero. As autoras, assim, partem de um referencial teórico atual e lançam-se aos desafios de compreender como as masculinidades não dependem unicamente das relações de gênero, mas são também interpeladas por outras categorias como cor/raça e classe social, visto que a produção do fracasso escolar incide, ao mesmo tempo e num mesmo sujeito, majoritariamente, sobre meninos negros e pobres. Essas categorias não se somam como num colar de contas. Pelo contrário, elas se cruzam, se modificam, se recriam.

Para essa pesquisa, em particular, Rezende e Carvalho entrevistaram quatro meninos negros de oito anos de idade – ficticiamente chamados de Flávio, Reinaldo, Ícaro e Lauro – e suas professoras Priscila e Meire. Os rapazes foram entrevistados em 2006, quando se encontravam na 2ª série do ensino fundamental de uma escola pública do município de São Paulo. Nas entrevistas, gravadas, que foram realizadas em duplas, os alunos foram indagados acerca dos significados de ser menino e menina, de ser bom ou mau aluno e de ser negro, com o intuito de perceber como e em quais aspectos eles se diferiam ou se aproximavam entre si.

O primeiro aspecto digno de nota é justamente a classificação racial dessas crianças. Um incômodo com as categorias “preto” e “negro”, imbuídas de preconceitos já internalizados pelos meninos, os levaram a preferir o termo “moreno”. Concluem as autoras que esse termo aponta para um afastamento da negritude em prol de um pretenso branqueamento. Dado que a classificação racial é um processo subjetivo, que mistura elementos fenotípicos (tais como a tonalidade da pele e o tipo de cabelo) com um olhar acerca dessas diferenças que é inevitavelmente social, é esperado que a cor/raça com a qual o sujeito se identifique extrapole as usuais categorias apresentadas.

Ainda, as autoras remontam a estudos, como os de Carvalho (2009), que demonstram a assimetria entre os atributos utilizados para avaliar um menino ou uma menina. Delas, espera-se obediência, dedicação e esforço; deles, iniciativa e participação, ainda que sejam “bagunceiros”. A disciplina, em si, não costuma ser cobrada dos meninos, haja vista que as representações de masculinidades das professoras as incentivam a aceitar alguma dose de insubordinação como traço masculino. O mesmo não se pode dizer das meninas, cujo sucesso escolar é visto menos como fruto de seu talento e mais como recompensa pela sua dedicação.

Ainda há muito para se entender o que acontece dentro das escolas para que determinadores segmentos sociais sejam mais ou menos beneficiados em sua trajetória escolar.

O que a pesquisa de Rezende e Carvalho traz de mais inovador é revelar o caráter racial por trás de tais asserções. Na página 63, as autoras ousam ao afirmar que esses critérios mais frouxos para a avaliação dos meninos não incidem igualmente sobre brancos e negros. Dos segundos, esperar-se-ia uma dose maior de submissão e agrado – aqui entendidos como alternativa para que os meninos negros fossem reconhecidos na sala de aula como “bons alunos” e recebessem elogios das docentes.

A essa disparidade, acrescenta-se o estereótipo de delinquente usualmente atribuído aos meninos de pele escura: qualquer atitude menos dócil e mais agressiva, por parte deles, poderia ser interpretada como sinal de transgressão social, precursor de uma masculinidade violenta e amedrontadora. Em seguida, as autoras ilustram como os meninos lidavam com as dificuldades de aprendizado e como enxergavam o binarismo de gênero (menino vs. menina) na sala de aula.

Encaminhando-nos para a conclusão, pontua-se que o principal mérito do capítulo reside em sua abordagem corajosa de embrenhar-se em um tema delicado e complexo, sobretudo em virtude da ausência de um corpo sólido de pesquisas a cruzarem gênero, cor/raça e outras categorias. Suas limitações não se pode deixar de mencionar, e estas são evidenciadas pela necessidade constante de as autoras buscarem apoio na literatura internacional (que, apesar de enriquecer o trabalho, fala de outro contexto) e pela elaboração de conclusões um tanto quanto amplas, tendo em vista que o número pequeno de sujeitos entrevistados – coerente com um trabalho de conclusão de curso, diga-se de passagem – e as dificuldades do objeto de pesquisa não lhes permitiram formulações mais assertivas.

Fonte: Geledés.