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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Consciência negra, para feministas brancas


Um dia, elas gritaram. Apontaram minha raça. Eu, em minha ignorância racista, me senti ofendida. Pensava não ter nada a ver com a discussão racial, exceto para defendê-las…

por Marília Moschkovich, 
Desde cedo entendi o que era o racismo. Filho de uma mãe um tanto racista, numa família racista de negros, mulatos e descendentes de espanhóis, meu pai — de pele bem branca, olhos azuis e cabelo bem cacheadinho — fazia questão de pontuar que todos eram iguais e se horrorizava com o racismo. Minha mãe, nascida de uma mistura de europeus diversos e indígenas, sempre reforçava atitudes anti-racistas e criticava abertamente indivíduos e comportamentos discriminatórios. Quando comecei a me envolver em movimentos sociais, na adolescência, descobri o movimento negro e suas mais do que legítimas reivindicações. Só recentemente, porém, depois de muitos anos de militância, compreendi que talvez meu papel principal, nessa luta, seja mais óbvio e muito mais difícil do que eu imaginava: me reconhecer branca.

Quando nascemos, nós, pessoas de pele e fenótipo socialmente lido como “brancos” (doravante aqui denominados apenas “brancos”, pra facilitar a leitura) somos ensinados que existem pessoas negras. Somos ensinados que têm a pele diferente da nossa. Em todas as formas de transmissão de cultura — escola, televisão, conversas em família, entre outros — a cor da nossa pele nunca é tratada como uma questão. É como se não tivéssemos cor. Nesse pensamento está baseada a expressão racista “pessoa de cor”, que pressupõe que nós brancos e brancas não temos cor.

Sem perceber, passamos a vida acreditando verdadeiramente nessa mentira. Quando conseguimos alguma coisa, não associamos a conquista à nossa identidade ou classificação racial, mas a um mérito individual que simplesmente não existe. Isso não quer dizer que nenhum de nós brancos sejamos bons no que fazemos, calma aí. Significa apenas que uma pessoa negra tão boa quanto, ou melhor, ficou de fora na seleção em que nós passamos. Por diversos motivos. Foi quando tomei contato com o feminismo negro de Patricia Hill Collins e Bell Hooks que tomei consciência (não, não é um trocadilho) desses motivos. Estes são alguns deles:
  • Eu nunca fui tratada por meus professores e professoras como um projeto de bandida, rainha de bateria ou faxineira; aprendi daí que a escola era mesmo o meu lugar.
  • Nunca precisei passar por processos dolorosos e tóxicos para adequar meu cabelo às exigências de qualquer empregador sob a ameaça de passar fome; aprendi daí que meu cabelo não precisa ser corrigido.
  • Fui tratada como mãe das crianças brancas de que cuidei como baby-sitter; aprendi daí que eu não precisava realizar nenhuma outra tarefa doméstica que não fosse cuidar das crianças.
  • Nas novelas, filmes, revistas e outras mídias que constroem o imaginário popular e as nossas identidades e anseios, sempre havia personagens como eu, brancas, que tinham sucesso profissional em diversas áreas; aprendi daí que eu podia ser o que quisesse.
  • Na escola e em todos os espaços públicos, especialmente naqueles em que frequentavam majoritariamente ou exclusivamente mulheres, sempre me senti confortável e incluída e sempre me deram a palavra; aprendi daí que eu podia e devia falar sempre que desejasse.
  • Em espaços domésticos, as pessoas que desempenhavam funções de serviço pesadas como empregada doméstica mensalista, muitas vezes mal pagas e em condições de vida deploráveis, não eram do meu bairro, não eram minhas vizinhas, não eram minhas parentes; aprendi que aquilo não era pra mim.
  • As revistas de moda e cabelo sempre tinham diversas sugestões e opções de maquiagem, penteados e cortes que se adaptavam facilmente aos meus tons de cabelo e pele, segundo as regras iluminadas dos editoriais; aprendi daí que eu sou normal, que eu sou a regra, o fiel da balança, o neutro pelo qual de deve medir os demais.

Construída nessa e em outras situações, minha identidade racial ficou escondida. Toda a sociedade me dizia que “raça” simplesmente não era uma questão que me tangia. O gênero sim, já que como mulher eu estava do lado oprimido. Sendo branca, então, eu realmente acreditava que não tinha nada a ver com a discussão racial, exceto para defender “elas”, as mulheres negras.

Daí que um dia elas gritaram. Apontaram minha raça e eu, em minha ignorância racista, que como sociedade acabamos por desenvolver de maneira doentia em todas as pessoas brancas deste país, me senti ofendida. Eu não gostava de ser lembrada de que era branca. Dizia inclusive que isso seria racismo. Era muito mais fácil acreditar que tudo que eu tinha conseguido tinha sido por mérito próprio. Que eu, mulher, não podia jamais ocupar o lugar de opressora nesta sociedade. Era o esquema perfeito: me colocava enquanto vítima e recusava deliberadamente a função de algoz. Conforto pouco é bobagem.

Depois de espernear, me lembrei de um debate sobre cotas na época do ensino médio. Eu era, então, contra as cotas raciais. Meu melhor amigo — também ligado à militância de movimentos sociais — me disse uma das coisas mais interessantes que eu já ouvi sobre políticas públicas: “Estou do lado dos fodidos, Marília. A gente tem que estar do lado dos fodidos”. Nós, que nem fodídos éramos. Ele, que tinha olhos azuis e sobrenome italiano.

Decidi ouvir o que as fodidas tinham a me dizer, pelo afeto que nutro por essa figura branca (sim, racista também isso). Botei o ego de lado. Pisei fora da zona de conforto, do meu esquema explicativo perfeito de mártir (existe feminino de mártir?). Escutei a Hill Collins. Reli Alice Walker. Fui atrás da Rosa Parks. Pesquisei Nina Simone. Me enfiei na história dos Panteras Negras. Assisti de novo Mississipi em Chamas, Uma Outra História Americana, tudo que eu tinha do Spike Lee. Me inscrevi em feeds de sites e blogs brasileiros sobre racismo e identidade racial – esses que antes eu sequer acessava, já que “não eram dirigidos a mim”, pela mesma visão limitada de quem acha que, sendo branco, não tem nada a ver com o dia da consciência negra. Peguei o Darcy Ribeiro da estante. Quase vomitei com a memória de tudo aquilo que meu cérebro havia, de forma traiçoeira, relegado “aos outros” quando aprendi na escola.

Não eram os outros. Era eu.

Nas páginas de Casa Grande e Senzala, eu era a moça na liteira. Eu era o personagem de Di Caprio em Django Livre, ou era também o branco salvador da pátria (ou pior, dos negros) interpretado por Chirstopher Waltz — ambos essencialmente racistas. Eu era a sinhá que eu tanto desprezava nas novelas de época. Eu era a imigrante italiana da novela, cujos descentes puderam acreditar no mito do mérito, já que sua cor de pele lhe dava contrato, trabalho assalariado, possibilidade concreta de compra de terras e direito de frequentar escolas, o que não era assegurado às populações negras na mesma época. Eu era, enfim, de volta ao século XXI, a moça que podia andar na rua sem ser abordada pela polícia. Que sabia que, a qualquer sinal de problema, chamar a polícia representava mais risco ao outro do que a mim mesma.

Era eu, a moça feminista que não entendia por que “tanto escarcéu” das feministas negras, já que eu não era racista. Que tinha o privilégio racial mais imenso e cruel de poder ignorar a própria racialidade, e fingir que o racismo não existe enquanto ele feria minhas convicções e meu conforto como militante.

Demorei meses, mas vocês têm um dia pra tentar: não dê parabéns a ninguém em 20 de Novembro, como pedimos que não nos deem rosas no dia 8 de Março. Use seu tempo para contribuir com a luta antirracista de maneira extremamente mais eficaz: reconheça-se branca, cale-se pela primeira vez na vida e escute o que as mulheres negras têm a dizer.

PS.: esse texto, como escrito a partir da experiência de gente branca, necessariamente apresentará alguns racismos sutis; peço desculpas de antemão por eles e espero que possa, no diálogo com minhas companheiras negras, corrigi-los em breve.

PS2.: escrever esse texto e provocar a discussão pública sobre privilégio racial branco não é um ato de heroísmo, nem de coragem: é o mínimo que precisa ser feito por pessoas brancas na luta antirracista.

PS3.: os dois vídeos abaixo colocam em cheque o privilégio racial que nós brancos fingimos não ver; divirtam-se.



Fonte: Carta Capital.

Dez considerações sobre o novo Congresso, que é a cara do Brasil



De acordo com estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o Congresso Nacional empossado, neste domingo, é conservador socialmente, atrasado do ponto de vista dos direitos humanos, temerário em questões ambientais, liberal economicamente e pulverizado partidariamente.

Por Leonardo Sakamoto Do blog do Sakamoto,
Sobre isso, reuni algumas considerações oriundas de debates que venho travando, por aqui, há algum tempo:

1) Parte dos mais votados fez sua carreira na mídia ou conseguiu entender a lógica da cobertura política e, produzindo factóides, surfando nessa lógica, mantendo-se constantemente em evidência em seus mandatos. Os três primeiros colocados para a eleição de deputado federal em São Paulo – Celso Russomanno (7,26% do total de votos), Tiririca (4,84%) e Marco Feliciano (1,90%) – bem como os três do Rio de Janeiro – Jair Bolsonaro (6,10%), Clarissa Garotinho (4,40%) e Eduardo Cunha (3,06%) – têm uma característica em comum: sabem se beneficiar da exposição midiática.

Discordo das avaliações de que eles foram os primeiros apenas por conta de suas pautas conservadoras. O conservadorismo está presente nas bancadas paulista e carioca (e não é de hoje), mas não é elemento suficiente para explicar essas expressivas votações. Até porque há outros representantes desse pensamento que foram candidatos, alguns deles com mais profundidade ou legitimidade em suas defesas, inclusive. Estes campeões de votos, em especial, souberam criar narrativas polêmicas que são um prato cheio para nós, jornalistas, ávidos por registrar e transmitir discursos que, por fugir do que acreditamos ser a forma tradicional de fazer política, chamam a atenção e produzem audiência.

2) Os movimentos sociais e organizações da sociedade civil de caráter mais progressista sempre empurraram o Congresso Nacional para que ele fosse menos conservador do que a população do país. Em outras palavras, a força da mobilização e da organização desses grupos na política nacional conseguia fazer com que esse descompasso acontecesse entre a representação política e a realidade.

Boa parte desse pessoal, contudo, contava com relações com o Partido dos Trabalhadores e, na minha opinião, enfraqueceram-se ao fazer parte de sua base de apoio por várias razões – do “vamos influenciar o programa”, passando pela “escolha do menos pior”, resvalando ao “é um governo ruim, mas é melhor que o outro” ao “cargo amigo”. Além disso, houve um afastamento dos militantes tradicionais desses movimentos sociais ou mesmo de partidos políticos com o distanciamento do governo federal com pautas tradicionais da esquerda e a caminhada em direção ao pragmatismo político exacerbado.

3) Há um intenso desgaste com a atuação média de representantes sindicais que estavam no Parlamento, independentemente de partido. Não é que o motor capital-trabalho tenha deixado de empurrar a História, muito pelo contrário – David Harvey que o diga. Mas uma parte das pessoas que clamam para si a autoridade de falar pelos trabalhadores há muito só falam por interesses corporativistas (na melhor das hipóteses) ou por si mesmas, na maioria das vezes. Muitos deles nem participaram de ações importantes, como a aprovação da PEC do Trabalho Escravo ou a campanha contra a ampliação da terceirização legal.

4) Empresários são sempre bem representados. Em sua maioria, podem financiar campanhas que estão cada vez mais caras. Dessa forma, há uma distorção de representatividade: não são necessariamente grupos ou ideias que possuem assento, mas o dinheiro. Se não garantirmos limites para o financiamento privado de campanha, a situação vai só piorar. De um lado, aumentando a dificuldade de eleição de quem não tem recursos e não quer sujar as mãos para se eleger e, do outro, gerando mais corrupção através de quem aceita se “endividar” com doadores de campanha. Nesse meio do caminho, surgem “petrolões” e “trensalões” que ajudam a garantir financiamentos dos próprios partidos ou de duas bases aliadas.

5) A violência é um problema real no Brasil. Dezenas de milhares são assassinados anualmente e muito pouco é investigado, menos ainda indiciado, uma pequena fração julgada e quase ninguém punido conforme a lei. Mas as narrativas da violência urbana, que já existiam, circulam com mais força graças não apenas às redes sociais, mas também a determinadas pessoas que se dizem jornalistas mas, na verdade, espalham o ódio e o terror (lembrando, é claro, que a mídia pode funcionar como partido político). A situação da segurança pública é péssima mas, acredite: não raro, a espiral do vale-tudo pela audiência do jornalismo faz ela parecer o rascunho do mapa do inferno.

Há soluções mais efetivas do que a redução da maioridade penal (usada para atacar a “causa” do problema quando, na verdade, nem resvala na “consequência”). Contudo, mandar a criançada para o xilindró é um discurso facilmente deglutível – tanto que pesquisas mostram 93% da população a favor dele. Usar e abusar desse discurso, bem como o da repressão policial, ajudou a elevar o número de pessoas eleitas que surfaram no medo da população, aumentando as bancadas da bala e da segurança pública.

6) O número de parlamentares evangélicos cresceu porque tinha que crescer mesmo. Havia uma sub-representação desses grupos, organizados em uma série de igrejas com pontos de vista diferentes. Eles não formam um movimento coeso como a Frente Parlamentar da Agropecuária (que cresceu junto com a força econômica do agronegócio no país). Pelo contrário: há gente que se detesta de ódio mortal entre eles. E, ao contrário do que pregam críticos inconsequentes, nem todos são reacionários. Muitos são bem progressistas, diga-se de passagem.

7) Há uma desmotivação muito grande com a democracia representativa tradicional. Isso vale tanto para jovens que estão cheios de gás para “mudar o mundo” quanto para militantes, ativistas e figuras proeminentes da esquerda brasileira. Pessoas que, em outras épocas, aceitariam candidatar-se ao Parlamento para serem puxadoras de votos. Hoje, muitas querem distância. Tem medo de pegar tétano se chegarem muito perto.

8) Há boas pessoas que fazem um bom trabalho, independente do partido, sejam elas conservadoras ou progressistas. Pessoas que estão no parlamento e já honram a função que exercem e outras entrando pela primeira vez, cheias de ideias. Essas pessoas terão trabalho para garantir direitos adquiridos com base em lutas sociais ao longo de décadas. Isso se conseguirem se fazerem ouvidas.

9) O Congresso é o reflexo da população no que diz respeito à visão de mundo e ação diante desse mundo. Talvez não daquilo que ela gostaria de ser, mas daquilo que ela efetivamente é. Como já disse antes, com o resultado dessas eleições, não é que o Congresso tenha ficado pior. Ele apenas está mais parecido com o Brasil.

10) Acompanho pautas que dizem respeito à defesa dos direitos humanos. E marcos legais que garantem dignidade aos mais pobres, como a que pune o trabalho escravo contemporâneo, estão por um fio para serem mudadas e reduzidas. Parlamentares já elencaram essas leis como “barreiras” a serem removidas nos próximos quatro anos para garantir o “progresso”. A base do governo e a oposição, que possuem excelentes quadros para discutir e defender o interesse coletivo, parecem estar mais preocupados com governabilidade e obstruções. Então, além da pressão via mobilização social, vai sobrar para Deus. Não sou pessoa de fé. Mas se ele existir, que nos ajude.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Mãe negra, criança negra: identidade e transformação


Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro

Bia Onça e seu filho, Malcolm Akins

Por Jarid Arraes,
Ana Beatriz da Silva, conhecida como Bia Onça, geógrafa, é mãe do pequeno Malcolm Akins, de quase três anos. O nome do filho, inspirado em um grande ícone da luta negra nos Estados Unidos – Malcolm X – também traz no registro o significado “valente, corajoso”, marcado pelo Akins de origem egípcia. A escolha do nome revela a maternidade politizada e consciente do seu papel transformador, que do próprio nome escolhido para o filho já começa a enfrentar os indícios de uma sociedade racista e eurocêntrica: Onça levou o filho bebê para ser vacinado no posto de saúde do seu bairro, entregou o cartão de vacinação da criança e esperou sua vez de ser chamada. No entanto, foi surpreendida com o deboche da enfermeira, que criticou o nome do menino na frente de todos. Apesar do ato não ter passado em branco, Onça deixa evidente que entendeu o episódio como um caso de racismo – e por isso não se calou.

O racismo, aliás, é um dos temas centrais para mães negras, sejam elas militantes de grupos ativistas ou não. Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro. Para as mulheres negras que entram na maternidade cheias de temores, há, de fato, muito com o que se preocupar. A segurança e o bem estar dos seus filhos estão sempre em jogo, não somente por todas as apreensões comuns aos pais, mas também porque a marca do racismo cria obstáculos políticos, sociais e culturais concretos, que podem prejudicar a vida das crianças de forma aguda. A começar pela sua identidade.

A criança que sabe de sua negritude

No Brasil, a cultura da negação racial é dominante e ainda muito presente na mentalidade da população. Por causa da herança racista que se perpetua desde o período da escravidão, os brasileiros ainda compreendem a miscigenação racial como uma forma de negar as diferenças raciais entre as pessoas; por isso, é comum que grupos inteiros se identifiquem como miscigenados, mestiços e misturados, mas não como pessoas negras. Na verdade, a identidade negra parece ser ignorada ao máximo por muitas pessoas, que recorrem a termos como “moreno”, “mulato” ou “cor de jambo”, entre muitos outros que evidenciam a dificuldade em se reconhecer negro.

Desse modo, pode ser complicado construir uma identidade racial segura quando não se possui bases e educação para compreender e discutir as questões raciais. Assim como qualquer outro valor que se deseja ensinar às crianças, o reconhecimento da própria identidade racial e o que isso significa é um dos papéis dos pais e mães que já passaram por processos similares. As crianças negras que crescem em famílias conscientes desses aspectos possuem mais chances de desenvolver uma percepção positiva de si, além de crescerem mais preparadas e fortalecidas contra o racismo.

Daniela da Silva, jornalista e servidora pública, tem uma filha de 8 anos, fruto de um relacionamento com um homem branco. Maria Antônia, sua filha, tem a pele mais clara que a da mãe e o cabelo liso; seria mais uma “morena”, caso não estivesse se desenvolvendo em um lar consciente e bem informado. “A construção da identidade negra foi feita pela minha mãe desde que eu me lembre. Por eu ser negra de pele clara, ela investiu muito para que não houvesse dúvidas em minha cabeça. Faço o mesmo com minha filha, pois além da pele clara, o cabelo é liso e o pai é branco”, explica Silva. “Conversamos, ouvimos música, falo de minha religião (sou de candomblé), não deixo assistir TV aberta, monitoro o que lê e escuta, sempre identificando os aspectos raciais e comentando coisas cotidianas como ‘olha, filha, nesse restaurante, que é caro, quase não tem gente negra’ ou no prédio que moramos, ou no avião. Com prazer, escuto ela responder, às vezes: ‘mas nós estamos aqui, né, mamãe?’”

“A construção da identidade negra foi feita pela minha mãe desde que eu me lembre. Por eu ser negra de pele clara, ela investiu muito para que não houvesse dúvidas em minha cabeça”, 
diz Daniela da Silva, mãe de Maria Antônia

Maria Antônia já se identifica como negra e convive com referências que fortalecem a sua identidade racial: “Vemos muitos filmes estrangeiros, principalmente americanos. Ela também vê séries e comento com ela ‘olha, essa menina parece você’. Nos EUA, mesmo as latinas se identificam como negras, então alimento essa audiência mais do que a de produções brasileiras, sem nenhuma culpa. Outra coisa que estimulo – a partir da iniciativa dela – é ser fã da Beyoncé, da Rihanna, negras claras como nós”.

Daniela Silva conta que a filha já desejou ter o cabelo crespo igual ao seu, quando era menor, mas depois que passou a conhecer mulheres negras de cabelos lisos, aceitou suas características e agora convive com a admiração que nutre pelos cabelos cacheados. “Outra coisa que ela ama é tomar sol, banho de mar, de piscina, para ficar comparando nosso tom de pele. ‘Estou quase igual a você, Mamãe’. Como temos uma relação amorosa e eu estou num processo contínuo de empoderamento, acho completamente natural e desejável que ela queira se parecer cada vez mais comigo”, declara.

Para mães como Mara Evaristo, a preocupação de fortalecer seus filhos contra o racismo é parte indissociável da identidade que as crianças constroem. Evaristo é Coordenadora do Núcleo de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte e Conselheira Municipal de promoção da Igualdade Racial e, por isso, já é a própria referência de engajamento político que os filhos podem olhar para se espelhar. No entanto, conta que apesar de ter inserido os filhos na agenda negra da cidade, possibilitando que entrassem em contato com manifestações culturais negras e políticas afirmativas, o conhecimento das crianças a respeito do racismo veio à medida que foram percebendo que recebiam tratamento diferente a depender da situação. “Essa fase sempre é dolorosa em qualquer idade”, lamenta Evaristo.

“Junto com a identificação do racismo, busquei possibilitar que aprendessem sobre a sua origem, sobre a humanidade e a história dos negros no Brasil. Hoje, filho e filha sabem que descendem de um povo guerreiro, de grande conhecimento e que lutou e luta muito para não se submeter a opressão”, conta. “Sabem também que a luta permanece porque compreendem o que o racismo é capaz de fazer com um continente como a África. E digo mais, sabem o que eu não sabia na idade deles, que o racismo é um monstro camaleão, com a capacidade de nos fazer assimilar sua genética rapidamente”.

A valorização dos símbolos de origem africana e a riqueza de material educativo que fale da África, por exemplo, são presentes na educação que essas mães oferecem aos seus filhos. Bia Onça fala com orgulho da atividades que desenvolve com Malcolm Akins e se alegra ao afirmar que o seu filho já demonstra se compreender como negro. “O nome dele já diz sua origem e da onde ele vem. E a todo o momento tentamos afirmar e reafirmar sua negritude, como estar sempre entre seus familiares e na creche, onde pontuamos sempre a sua origem e o que pensamos sobre o papel da criança negra neste espaço”, explica. “Tento a todo momento apresentar coisas da nossa corporeidade negra a ele e sinto que ele gosta e se identifica, como músicas, danças, livros e bonecas negras. Penso que devo, como responsável, apresentar todas as identidades a ele, todas possíveis, mas reforço a ele sua identidade negra”.

E por falar em boneca, felizmente o esforço pela concretização de uma educação plural e diversificada também levanta a conscientização sobre questões de gênero e o combate ao machismo. Bia Onça relata: “Ele chegou em casa apontando o que era coisa de menina, conversamos com ele e pontuamos na escola. E toda vez que ele vem com essa, ‘mamãe ou papai, é de menina?’, nós pontuamos que não é de menina e que é de menina e de menino. É uma coisa que deve ser trabalhada diariamente sempre. Para se ter uma ideia, ele vê objetos rosas e já associa a meninas. A escola tem infelizmente esse desserviço sobre a questão de gênero com os nossos pequenos e nós temos que pontuar”.

Mara Evaristo, com os filhos: “A agenda feminista, até bem pouco tempo atrás, pouco atendia ou respondia às demandas das mulheres negras”

Algo compartilhado também por Evaristo: “Em relação às questões de gênero, os desafios também são grandes. Sempre houve a necessidade de destacar que a agenda feminista, até bem pouco tempo atrás, pouco atendia ou respondia às demandas das mulheres negras. Vejo o movimento crescente e atual do feminismo negro com urgente e extremamente saudável, porque tem nos representado, tem nos dado voz e isso terá um impacto forte e positivo nas infâncias negras”.

Violência obstétrica e o machismo racista

Parte da vivência da criança negra consciente é de observações na própria família e de tomar conhecimento da experiência de vida dos parentes ao seu redor. O racismo e o machismo, portanto, estão presentes nas histórias contadas para a criança, que infelizmente percebe que essas histórias de violência começam até mesmo antes do seu nascimento.

Bia Onça conta que sua experiência com as escolhas pessoais e profissionais na maternidade foram tardias: “Fiquei grávida com 37 anos de idade, depois de 5 anos de relacionamento e de comum acordo com meu companheiro; logo, foi uma gravidez feliz, sem problemas de saúde, familiares e amigos por perto dando maior força, bebê saudável. Tivemos alguns problemas já nas últimas semanas com o parto, que seria normal, já que tive um pré-natal perfeito, (fiz dois pré-natais) no hospital público (de referência no Rio de Janeiro, para meu caso que tenho miomas) e no hospital particular, que foi mediano para ruim”.

No final da gravidez, o hospital público que a atendeu entrou em obra. “Minha obstetra, que sabia que eu tinha plano de saúde, me colocou de forma sincera as dificuldades que seria ter o filho naquelas condições naquele hospital e a mesma me indicou possibilidades de hospitais particulares com 34 semanas. E aí conseguimos um obstetra que fizesse meu parto, porém, em condições de datas fechadas, porque era carnaval e tinha o meu receio dos meus miomas e, no desespero, fechamos e tivemos nosso filho de cesárea”.

Sobre racismo, Bia Onça relata que passou por diversas situações durante sua gravidez. “Como sou magra e não apresentei muita barriga, dificilmente alguém me dava lugar no metrô, no ônibus, a ponto de um dia uma senhora dizer que eu aguentaria ficar de pé no metrô. Perguntei o porquê e ela disse que eu era negra e que gente da minha raça aguenta. Eu discuti e criei um constrangimento no metrô, penso que talvez ela não faça mais isso. E mais racismo; quando fui fazer uma das últimas ultrassonografias, num centro médico famoso e caro, aconteceu que eu e meu companheiro sentimos o constrangimento no atendimento e quando o médico nos chamou e começou a ultra, ele começou a questionar o preço e que talvez nós não tivéssemos dinheiro para pagar uma ultrassonografia (super moderna) que o centro médico oferecia”.

Ainda pior do que essa situação, foi o que Bia Onça passou na hora de ter seu filho. “Quando fui me internar no hospital particular, o atendimento do hospital, eu com meu companheiro, na hora de preencher a ficha a atendente pegou minha identidade e foi anotando, não perguntou nada que estava na ficha. Eu, num estado de apreensão para ter a criança, nem me liguei, mas meu companheiro ligado percebeu que ela na parte de colocar minha profissão colocou ‘do lar’. Daí, meu esposo questionou e pediu que a mesma fizesse outra ficha e questionamos se ela sempre faz isto com as mulheres negras que entravam no hospital. E na hora do parto, que foi tranquilo, até que a enfermeira no final da cesárea olha para minha cara (eu deitada aberta) e diz a seguinte frase: ‘É, Ana Beatriz, ano que vem você vai estar aqui de novo?’. Eu, só com meu olhar fulminante, respondi que não e outro enfermeiro viu a situação e disse: ‘Ela está com cara de que não volta no ano que vem, não, e de que não está gostando da sua pergunta’. Nós, mulheres negras, infelizmente vivemos essa situação”.

A marca da violência obstétrica e o tratamento racista dado às mulheres negras nos hospitais, sejam eles públicos ou particulares, é conhecimento comum das mães negras, que não poupam exemplos e reivindicações. A recente campanha do Ministério da Saúde, SUS Sem Racismo, trouxe algumas estatísticas oficiais que embasam os argumentos das mulheres negras: elas são atendidas, em média, por menos tempo do que as mulheres brancas e são 60% das vítimas de mortalidade materna no Brasil. Na pesquisa, ao contrário das 46,2% das mulheres brancas que foram acompanhadas durante o parto, apenas 27% das mulheres negras receberam o mesmo acompanhamento e, além disso, somente 62,5% das mulheres negras foram orientadas sobre a importância do aleitamento materno, contra 77% das mulheres brancas que receberam a mesma orientação.

“A mulher negra mais bem informada que engravida teme não ser bem atendida. Quando engravidei, já tinha conhecimento das estatísticas e dados sobre atendimento diferenciado, sobre a negação de anestesia, sobre a maior taxa de mortalidade. Tomei a decisão de – mesmo tendo o dinheiro do parto – ter minha filha no SUS por que eu já queria que fosse um parto normal e por que eu tenho esse direito, pago impostos, vivo num país que se diz democrático e se fosse preciso exigiria isso também”, conta Daniela da Silva.

“Eu tive a sorte pelo médico que acompanhou minha gestação e realizou o parto poder ser definido com dois adjetivos: profissional e ético” – afirma Mara Evaristo – “mas essa não é a regra e digo isso por ter ouvido narrativas de amigas, conhecidas negras e brancas que viveram a gravidez na mesma época que eu ou me contaram de suas vivências. Saber quem será o médico no dia do parto, como será a cirurgia, de que forma o corpo se transformará, ser apresentada à equipe de enfermeiros e anestesistas, conhecer a dinâmica do hospital, ter apoio nos momento de contração, fazer o enxoval, ter boa alimentação e ouvir do companheiro, dos amigos e da família que será um bebê lindo porque terá os seus olhos, a sua cor, o seu cabelo. Esse deveria ser o processo natural de qualquer gravidez, mas não é”.

Para além das estatísticas oficiais, dados do governo e argumentos das militantes, a experiência da mulher negra com sua gestação e seu parto pode fazer grande diferença na sua relação com seus filhos e com a maternidade. Por outro lado, a resiliência ainda é um dos atributos presentes nessa equação social. A ideia do sexo frágil, de fato, nunca foi um estereótipo que coube às mulheres negras e, em muitos casos, não se trata de uma escolha pela força, mas da única alternativa para garantir uma vida digna para si e para seus filhos.

Maternidade negra: uma constante transformação do mundo

A criança que conhece a história dos seus pais e reconhece a luta contra o racismo e por uma vida melhor também pode demonstrar, além da compreensão aguçada a respeito das questões sociais, um senso de proteção e de se sentir pertencido a um núcleo familiar repleto de cooperação e amor. Por isso, a construção da identidade e a referência da negritude fazem tanta diferença na forma como essa criança se relaciona com o mundo. Silva compartilha um exemplo: “Minha filha não sofre discriminação diretamente porque para a maioria dos brasileiros ela não é negra, é o que chamam de morena. Mas, um dia fui buscá-la na escola e uma menina falou meio descrente, pra mim: “Você é a mãe dela?” Minha filha veio na mesma hora e me abraçou: “É a minha mãe, sim! Por quê?” A menininha não falou mais nada. Foi engraçado. Fiquei orgulhosa da leoazinha. Mas, já contei para ela episódios em que eu fui discriminada, especialmente quando ela era bebê porque ela era muito clarinha… As pessoas pensavam que eu era a babá em algumas situações e até prestei queixa uma vez de uma mulher que me atendeu mal no serviço médico por achar que eu era babá”.

Mães como Daniela Silva fazem um papel de transformação social que, infelizmente, falta como prática na sociedade. “Maria participa de reuniões do coletivo de mulheres negras que integro, o Pretas Candangas, onde tratamos do assunto. Ela fica jogando, ouvindo música, mas também ouve [os debates] quando quer. Já foi comigo ao Festival Latinidades, reuniões da AMNB, da Cojira, já viu entrevistas minhas falando de preconceito e discriminação. É um universo que ainda não a magoou frontalmente, mas ela sabe que é doloroso para a mãe”. Entre ondas conservadoras que pregam a preservação da família, há poucos exemplos como esse. Sua prática e seu papel de mãe não se encaixam em discursos hipócritas, porque produzem mudança social significativa e preparam pessoas como sua filha, Maria Antônia, que se tornam seres humanos capazes de construir valores melhores, de respeito e habilidade para viver em comunidade com toda a diversidade humana. “Recentemente, contei que a Mirian França foi presa por ser pobre e negra, mesmo sem que se apurasse corretamente a participação dela no episódio do Ceará”, conta Silva. “E ela [Maria Antônia] disse: “quem prendeu ela é que devia ser preso!’”.

E o exemplo é a melhor forma de ensinar. Mara Evaristo enfrentou o racismo que os filhos sofreram há cerca de 13 anos em um episódio de discriminação que ocorreu na escola e deixou frutos belíssimos, apesar da experiência dolorosa. “Buscamos o diálogo porque se tratavam de crianças; e junto com professoras e a direção desenvolvemos um projeto, que no primeiro ano durou dois meses. No segundo ano envolveu todo as turmas e no terceiro ano entrou para o PPP da instituição, ou seja, integrou todo o currículo alterando material pedagógico, dinâmicas cotidianas, relação com funcionários, os projetos realizados por todos os professores. Foi um período de dor, que nos tornou mais fortes e cientes dos desafios que uma família negra enfrentará na criação dos filhos”.

Os impactos de sua atitude permanecem vivos na subjetividade dos seus filhos, nas outras crianças que foram atingidas pelas intervenções e também em si mesma, como um incrível exemplo do potencial abrangente da maternidade negra. “Essa primeira experiência vivida em família, me fez estudar e desenvolver uma oficina de formação para os professores nomeada “Sonhos em Papel – Identidades em Construção”. Nessa oficina, eu apresentava pesquisas que mostravam como a criança pequena poderia construir uma identidade positiva e de que forma a educação poderia contribuir para isso. Esse momento definiu meu campo de atuação profissional até hoje”.

A receita desse potencial, felizmente, não é restrita. Silva aconselha outras mães que desejem auxiliar suas crianças no fortalecimento de suas identidades negras, sempre levando em consideração a responsabilidade que devem possuir para com as outras pessoas. “O principal na relação de mãe e filha é construir uma relação de sinceridade com as dificuldades, sejam financeiras, raciais, de gênero ou coisas do cotidiano. Mostrar que a vida é uma luta e que a da gente está muito boa comparando com a de outras pessoas. Falo a ela que a maioria das meninas negras não têm acesso ao que ela tem e que isso só acontece por que a mãe dela teve oportunidade, aproveitou e que a ama e por isso trabalha muito, para que ela tenha oportunidades também”.

“Em relação à religião, respeito que ela possa fazer outra escolha e não a obrigo a participar de tudo do candomblé. Ela não gosta de alguns rituais e adora outros, então levo nos que ela gosta. Quando vai, pergunta muito! Todos têm paciência no meu terreiro, no do meu avô – onde também vamos. E um dia feliz em minha vida foi quando ela pediu para participar do xirê pela primeira vez e vestir a roupa. Mas, ela chama de ‘sua religião, mamãe’ e sempre pede coisas a Deus, mas se precisar, acende velas e me pergunta a quem pedir e aí eu digo direitinho. Quando fica doente, pede que uma guia minha que faz descarrego cuide dela também. Fé, amor, autoestima e orgulho da ancestralidade… Prioridades aqui em casa”, conclui.

Para Evaristo, também é fundamental lembrar de todas as outras mulheres negras e mães que chegaram a dar suas vidas para que um texto como esse pudesse hoje existir. “Responder a essas perguntas me fez reviver dores e alegrias. Ser mãe é o melhor e maior presente que a vida me deu. Lembro do olhar das crianças, desde o primeiro dia na maternidade. Os olhos redondinhos do Luiz. Os olhos puxadinhos da Tainá. Os choros manhosos, os cheiros, as primeiras risadas. Os primeiros passos. O primeiro dia na escola. O lustra-móveis no chão para ajudar na limpeza da casa – foi difícil remover, mas rendeu boas risadas. As pipocas com filme, as pipas no ar, os sustos na avó. Compartilhar pequenos segredos. Correr, cantar, gritar, pular, dançar, brincar com os amigos. Eu sou grata a vida porque pude viver tudo isso”.

A verdade, no entanto, é que todas essas experiências não são suficientes para tranquilizar o coração. “O jornal, a mídia mostram cotidianamente que o Brasil é um país racista, sexista e intolerante, onde matar negros, mulheres e homossexuais continua sendo rotina. Sou solidária com todas as mães que perderam seus filhos e filhas tragicamente. Sou solidária aos filhos que perderam suas mães drasticamente. Eu sinto dor pelos filhos da Cláudia Silva Ferreira. Eu sinto dor pelos filhos cujas mães morreram nesse Brasil lutando por dignidade. Ainda assim, precisamos continuar. 2015 é Década dos Afrodescendentes e o ano da Marcha das Mulheres Negras. Que as nossas lutas cotidianas nos fortaleçam, que nos aproximem e que nos ombreiem de tal forma que vida plena e dignidade sejam pilares para nossos filhos”, finaliza Evaristo.

GOG responde ao Correio Braziliense.


Na última sexta-feira, 30 de janeiro de 2015, o Jornal Correio Braziliense publicou uma matéria intitulada “A farra dos cachês na gestão Agnelo Queiroz”, envolvendo o meu nome em uma denúncia de superfaturamento de cachê. Segundo a matéria eu recebi, por apenas um show, no ano de 2011, o valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais).

O texto me causou, para dizer o mínimo, grande estranheza e indignação. A primeira pergunta que surge é: por que o CB publica informações sem averiguação? Toda a documentação relacionada ao meu histórico de apresentações na Secretaria de Cultura pode ser facilmente acessado naquele órgão, de forma que a apuração seria muito simples, não apenas para jornalistas. Uma apuração mínima iria condizer com os princípio da ética e evitaria a mega-exposição negativa do meu nome e imagem, que não cometi nenhuma irregularidade!

Jamais recebi cem mil reais por uma apresentação, nem na Secretaria de Cultura e nem de qualquer outro contratante. Até gostaria de receber, desde que de forma lícita, penso que todo profissional partilha dessa vontade.
Conforme consta na descrição da nota de empenho, que compartilho abaixo, foram realizadas 8 (OITO) apresentações musicais em escolas públicas do Distrito Federal, no valor total de cem mil. Ou seja, o valor unitário verdadeiro foi de R$12.500,00 (Doze mil e quinhentos reais). E eu, responsável pela contratação das estruturas de som, pessoal, logística, alimentação e pagamento de impostos, ofereci ainda, em todas as escolas em questão, uma palestra de uma hora, colocando temas como juventude, violência e combate às drogas. Escolas estas onde o Estado muitas vezes não consegue chegar antes da tragédia, antes do crime e o CB para noticiá-las.

No processo certamente constam, ainda, relatórios com textos, fotos e declarações dos diretores e responsáveis pela nossa recepção nas escolas, comprovando a execução do que foi contratado.

A primeira conclusão que se pode chegar é que, uma vez que o meu teto de cachê na Secult é de R$20.000,00(vinte mil reais), o valor de R$12.500,00 (Doze mil e quinhentos reais) está abaixo do que eu teria direito como recebimento.

Sou um prestador de serviços artísticos, na condição de cantor, poeta, apresentador, palestrante, e os meus contratantes são dos setores público e privado, ou seja, trabalho, legalmente, para quem me contrata. Sobre a oscilação no valor dos cachês, para cima ou para baixo, não há nada mais natural para o artista e sua produção, do que o direito a cobrar pelas apresentações com base no perfil do evento, do público, no formato de apresentação e até mesmo por se solidarizar mais com determinados projetos do que com outros, reduzindo preços quando achar por bem fazê-lo. Por fim, o teto para o meu cachê na Secretaria de Cultura foi estabelecido obedecendo uma série de condições que levam a uma determinada pontuação, critérios determinados pela própria Secretaria, nos quais comprovadamente eu me encaixo. Só para constar: consagração artística na mídia, em Brasília e no Brasil, tempo de carreira etc, lembrando que tenho trinta anos de carreira e um clipping considerável nos principais veículos nacionais.

E, assim, sigo sem compreender a imperícia de tão conceituado veículo de comunicação, ao tratar desta maneira um artista da cidade, filho dela, que se dedica todos os dias pela melhoria das nossas condições de vida social, cultural, política e que sempre que solicitado, esteve á disposição. Me pergunto, ainda, por que não entram em defesa da desburocratização das contratações artísticas ou por que não levantaram meu nome como um dos artistas da cidade que tem cachês pendentes de recebimento, ainda do ano de 2014, como outros tantos. Isso ajudaria bastante nesse momento de incertezas sobre as dívidas ainda pendentes, em vez de expor negativamente a minha imagem, a partir de fatos não apurados.

Resta-me, agradecer a solidariedade de grande parte da comunidade artística do DF e do Brasil, da minha assessoria e de amigos e amigas, e dizer que a MÍDIA não pode fazer ao seu bel prazer, “A farra dos Clichês!

Com o carinho e respeito de sempre,
GOG
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Nota: matéira do Coreio Brasiliense, disponibilizado dia 30 de janeiro de 2015.


Lélia Gonzalez - Uma mulher de luta


Dia 01 de fevereiro de 1935, nascia em Minas Geras Lélia Gonzalez.

Conheça mais sobre essa importante figura por meio de entrevista cedida ao Jornal MNU

Jornal MNU - Lélia, em que o Movimento Negro tem contribuído para a cidadania do negro brasileiro? Gostaríamos que você fizesse um balanço do movimento dos anos setenta até aqui.

Lélia Gonzalez - Eu acho que a contribuição foi muito positiva no sentido de que nós conseguimos sensibilizar a sociedade como um todo; levamos a questão negra para o conjunto da sociedade brasileira. Especialmente na área do poder político e nas áreas relativas à questão cultural. [...] E estou pensando, especificamente, nos afoxés e blocos afros pelo papel que eles têm tido de levar essa conscientização para dentro da comunidade negra, embora levem também para fora [...]. Uma coisa muito interessante de a gente observar e tem a ver com um mínimo de consciência de suas raízes, de suas origens culturais. Tanto que o pessoal diz que os negros da Bahia são bonitos. Quando as pessoas dizem isto, não percebem que elas estão se sensibilizando é por uma postura de alguém que sabe que ele é ele mesmo e não um outro, aquele outro determinado pelo poder do branco. E nisso, efetivamente, os blocos afros tiveram uma contribuição fundamental, a ponto de sensibilizarem grandes estrelas da música popular, que não podem deixar de falar nesses blocos afros. [...] Agora, no que diz respeito às questões político-ideológicas, a coisa é séria, a meu ver. O que a gente percebe é que o MNU cutucou a comunidade negra no sentido de ela dizer também qual é a dela, podendo até nem concordar com o MNU. Hoje, a gente verifica que "pintou" uma certa autonomia no que diz respeito a algumas entidades aí pelo Brasil, que articulam áreas de ação que não são, especificamente, aquelas que ficam numa política abstrata, genérica, mas áreas de ação no sentido concreto, dentro da comunidade. Para dar exemplo interessante, me recordo do momento da Constituinte, em Brasília, quando eu atuava enquanto mulher negra dentro do movimento de mulheres, no Conselho Nacional. Havia uma passagem de informações porque o Movimento Negro estava reunido lá para fazer suas propostas aos constituintes. E eu me recordo que, de repente, chegou uma mulher dizendo assim: "Olha, o Movimento Negro está reunido levantando uma questão incrível, a questão do crime inafiançável com relação à discriminação racial, a gente tem que trazer isso também para nós". Esse tipo de troca, de contribuição, que para mim era uma coisa abstrata que eu lia nas histórias, por exemplo, do Movimento de Mulheres, do Movimento Negro e do Movimento de Homossexuais nos EUA. E eu verificava uma anterioridade de Movimento Negro na colocação de uma série de questões para o Movimento Feminista que, por sua vez, passou para o Movimento Homossexual e, de repente, você constata isso a partir de sua experiência concreta. Eu acho que isso significa um avanço do Movimento Negro, uma contribuição extremamente positiva. Quer dizer, nós deixamos de ser invisíveis, a verdade é essa. Não dá mais para se ficar escamoteando a questão das relações raciais no Brasil, pois nós estamos aí, de uma forma ou de outra.

Jornal MNU - Nós estamos a dez anos do século XXI, com uma população negra em sua maioria analfabeta ou semianalfabeta, sem preparo profissional nenhum. Quais seriam as tarefas mais importantes do Movimento Negro para a próxima década, já de olho no século da automatização?

Lélia Gonzalez - [...] nós temos que estabelecer tarefas dentro de um campo concreto e rapidinho desenvolver uma militância muito ativa junto às próprias comunidades negras espalhadas pelo Brasil. Porque não estamos mais naquele tempo (claro, quando for necessário, tudo bem) de só ficar fazendo manifestaçãozinha de rua, não. Temos que nos voltar para dentro do quilombo e nos organizarmos melhor no sentido de dar um instrumental para esses que vão chegar e vão continuar o nosso trabalho. [...] Hoje a militância se diversifica, e ela é obrigada a se diversificar em face dos terríveis problemas que nós temos pela frente. O pessoal da área de informática dá cursos para o pessoal que não conhece, senta e conversa, mostra como é. Assim você instrumentaliza, por exemplo, o pessoal que vai trabalhar na área de educação. Recordo-me de um papo com Darcy Ribeiro, ele dizendo justamente essa coisa. Eu estava defendendo a oralidade, a cultura oral. E ele dizia que achava válido o que eu estava dizendo, mas que não era suficiente. Porque se não souber ler, dança. [...] Acho que o Movimento Negro tem que pensar seriamente essa questão. E sempre levantamos a questão da educação. [...]

Jornal MNU - A tarefa é muito grande, árdua e o sistema não está interessado. Como é que o Movimento Negro se articula, e com quem, para que esta tarefa mínima que é alfabetizar o povo se concretize. O fato de termos hoje governadores negros teria alguma influência, ainda que não tivessem sido eleitos por voto negro explícito?

Lélia Gonzalez - A questão dos governadores negros é muito importante. Eles têm um mínimo de poder para desenvolver esse tipo de tarefa, não há dúvida. Eu acho que o Movimento Negro tem que estar junto desses "caras", tem que pressionar. Eles não podem somente ficar lá dizendo: "Olha, sou o primeiro governador negro eleito". É importante que eles percebam a tarefa, a exigência ética que eles têm com relação a sua comunidade. E se é uma exigência ética, tem que ser política também, porque as duas coisas se articulam.

Jornal MNU - Existem hoje no país algumas centenas de entidades negras. Pulverizamos ideias por esse Brasil afora, mas não conseguimos consolidar um programa mínimo não só para o próprio movimento, como para ser assumido por outros setores da sociedade. Como você avalia isso?

Lélia Gonzalez - Nos faltou exatamente esse instrumento de trabalho, uma reflexão crítica muito profunda no sentido dessa articulação aí. Eu acho que nos falta, eu falo isso através de uma vivência e experiência pessoal, um sentido de solidariedade enquanto movimento. [...] A gente percebe que existem algumas exigências éticas, para dentro do movimento, e que o Movimento Negro ainda não tomou consciência delas. Eu acho isso. Essa coisa da solidariedade é fundamental. Falo de uma perspectiva ética, evidentemente, mas estou apontando para o político. E essa solidariedade que vai permitir que você não se envolva com as formas de cooptação que vêm de fora. [...] Em termos de Movimento Negro do Brasil, a nossa proposta não é a mesma do Movimento Negro dos Estados Unidos. ... se nós somos maioria efetivamente, nós temos que lutar pelos nossos direitos, nós não temos que ficar no gueto [...] Nós temos as propostas mais democráticas. É da gente que tem que partir essas propostas de democracia, efetivamente. O sistema funciona justamente no sentido de alijar a maioria, basta você ver, por exemplo, o quadro da classe política: é a mesma coisa desde que o Brasil é Brasil. [...] O sistema tenta nos guetizar, evidentemente, mas nós não podemos aceitar isso, porque ele próprio se coloca pra todo mundo como uma coisa aberta, que não existe, aqui, discriminação racial, que todos são iguais perante a lei. Mas vamos ter que provar isso mesmo ... A questão da democracia tem muito mais a ver conosco, que somos excluídos, do que com os "caras" que estão no poder, que não estão a fim, evidentemente. E aí entra a questão dos governantes negros, que terão que provar a que vieram, com relação a sua própria comunidade. Eu vejo os feitores do sistema como uma questão muito complicada, porque eles são muito sofisticados. Eles estão à frente de instituições poderosas e você tem que estar muito atento para ver até que ponto você está no jogo. Mas você percebe que muitos companheiros ganham o jogo, se aliam aos feitores (como aconteceu na nossa história, para que não se pense que os feitores agiam sozinhos. Eles tinham seus cúmplices também), e contribuem para essa dispersão, essa falta de perspectiva, para a falta disso que você colocou, um programa mínimo de ação. Eu me lembro da Zezé Mota, por exemplo. Ela fez uma tentativa em sua área de criar aquele catálogo de atores negros. E o que aconteceu? Qual foi o suporte, o apoio que o Movimento Negro deu para a Zezé Mota? Nenhum. [...] E o trabalho dela acaba se transformando em trabalho isolado, e sozinho você não tem forças. [...] Porque no momento em que neguinho me atinge, não está atingindo a uma pessoinha que é a Lélia, está atingindo a mulher negra, é o movimento que está sendo atingido. [...] O feitor de hoje é o grande aliado que chega e bate nas suas costas etc. E que, de repente, está vivendo às custas de nossa comunidade, se dizendo um grande aliado que faz e acontece. [...]

Jornal MNU - Você aproximaria aí os conselhos criados já em diversos estados?

Lélia Gonzalez - Olha, com relação aos Conselhos, nem tanto. É uma arma de dois gumes. Minha experiência é com o Conselho de Direitos da Mulher, onde nós fomos parar num beco sem saída, porque o Conselho engoliu a gente. Mil propostas, todo mundo querendo trabalhar, fazer e acontecer, o maior entusiasmo. E, no entanto, bastou uma penada de um ministro da Justiça desses aí e acabou tudo. É isso que nós não podemos perder de vista. É claro que nós temos que ter as frentes de trabalho. Como tal, ela é provisória, absolutamente provisória e você não pode esperar grandes resultados dela. [...] São modos que o sistema cria para botar açúcar na boca da gente... E eu fico preocupada é com a disputa que se trava para participar dessas frentes. [...]

Jornal MNU - Fale um pouco sobre sua trajetória no movimento feminista.

Lélia Gonzalez - No meio do movimento das mulheres brancas, eu sou a criadora de caso, porque elas não conseguiram me cooptar. No interior do movimento havia um discurso estabelecido com relação às mulheres negras, um estereótipo. As mulheres negras são agressivas, são criadoras de caso, não dá para a gente dialogar com elas etc. E eu me enquadrei legal nessa perspectiva aí, porque para elas a mulher negra tinha que ser, antes de tudo, uma feminista de quatro costados, preocupada com as questões que elas estavam colocando. Agora, na própria fala, na postura, no gestual, você verificava que a questão racial era... Isso a gente já discutiu muito e a experiência mais positiva que eu tive foi num encontro no Bolívia promovido pela MUDAR (Mulheres por um Desenvolvimento Alternativo), uma entidade internacional que foi criada um pouco antes do encerramento da década da mulher em 1985. Foi ali, pela primeira vez, que eu encontrei um tipo de eco, uma maturidade por parte do movimento, no sentido de parar e refletir sobre as questões que a gente coloca enquanto mulher negra, a dimensão racial que está presente em tudo e você não pode fingir que ela não existe. Mas não há dúvida de que existe um setor do movimento de mulheres que está preocupado com a questão racial. O que eu percebo é que o nosso cultural nos dá elementos muito fortes no sentido da nossa organização enquanto mulheres negras. Uma história que rolou e gera uma grande luta interna com o homem negro, uma questão muito séria dentro do Movimento Negro, um ressentimento muito grande das mulheres diz respeito à sexualidade, porque muitos homens negros preferem as mulheres brancas. Isso é verdade, não dá para você ficar escondendo o sol com a peneira. Eles internalizaram o valor branco como supremo como todos nós, só que a gente está tentando sair dessa. Até algumas lideranças dentro do Movimento Negro só transam com mulheres brancas e isto é uma forma de reprodução do esquema racista, sem sombra de dúvidas. Dentro da proposta do feminismo que a gente está tentando colocar, me parece fundamental não perder de vista a relação homem negro/mulher negra. Não é só a gente se olhar enquanto mulher negra, mas nos vermos na relação com o homem negro, e ele com a gente. Porque tem que ser uma coisa dinâmica, sobretudo porque fazemos parte de uma comunidade que é discriminada pela dimensão racial. E me parece que as respostas de parte a parte, até o momento, não são satisfatórias. De um lado nós temos uma postura muito machista de parte do homem negro, e eu vejo que a sua procura da mulher branca passa por aí. Pela nossa experiência histórica, juntos (homem negro/mulher negra), a gente se conhece muito bem, há toda uma cumplicidade no que diz respeito ao enfrentamento de uma série de questões. Mas no caso da mulher branca, ela não vivencia essa experiência da discriminação racial. Então acontece que, muitas vezes, os homens negros vão exercer seu machismo junto às mulheres brancas. De certa forma, o homem negro atualiza sua rivalidade com o homem branco na disputa da mulher branca. Ele tem, portanto, uma afirmação muito grande como macho e se acha então o rei da cocada branca. E a mulher negra fica jogada pra escanteio. O ressentimento surge por aí. Acontece que os dois são muito carentes, há uma profunda carência de parte a parte. Na medida em que, no interior do movimento, nós mulheres constatamos isso, a coisa assume uma dimensão tão forte que, muitas vezes, nos leva a assumir as mesmas posturas do movimento feminista branco. Nós não podemos reproduzir mecanicamente as propostas de um movimento feminista ocidental judaico-cristão etc.

Jornal MNU - Quais são essas propostas?

Lélia Gonzalez - A questão da sexualidade tem que ser discutida num nível mais amplo e não no nível do orgasmo, pura e simplesmente. Estou propondo um orgasmo muito maior, um prazer e uma felicidade muito maiores. [...] Precisamos assumir uma posição mais equilibrada em termos dessa relação homem/mulher, por que eu não sou mulher sozinha, eu sou mulher com um homem, e é nessa relação que eu vou afirmar a minha "mulheridade", numa relação de troca com o homem, se não a gente dança. E esses valores da cultura africana estão lá esquecidos no inconsciente da gente, e têm muito a contribuir no sentido do equilíbrio da relação homem/mulher. [...]

Jornal MNU - Quando falamos, há pouco, de ética e Movimento Negro, ficaram no ar algumas avaliações da militância que você poderia retomar agora para concluir.

Lélia Gonzalez - A questão ética no interior do Movimento Negro e também uma outra questão que se encaixa aí, a da perspectiva histórica. Uma consciência histórica que, de repente, a gente perde, na medida em que nós jogamos com tal intensidade para dentro do movimento, pensando como nossa contribuição é divina e maravilhosa (e aí entra a questão do narcisismo, que é preciso também exorcizar), a gente acha que vai resolver todas as questões numa vidinha que é a nossa vida. [...] A perspectiva é a de que a gente abra alguns caminhos e a gente tem que ter aí consciência da nossa temporalidade, ou seja, a gente vem e passa, vem e passa no sentido de passar mesmo e passa também a nossa experiência para quem está chegando. Aí é que me parece que os africanos podem nos ensinar muito. Precisamos ter a paciência revolucionária para verificarmos o seguinte: olha, sabe, não queira abraçar o mundo com pernas e braços, porque não dá jeito e, a partir daí, você tem consciência histórica da temporalidade, do processo, o que vai te permitir ter muito mais tranquilidade no que diz respeito a tua inserção no movimento. Você adquire uma sabedoria. Você verifica sua temporalidade, seu tempo de inserção, o que você pode fazer, e tem a humildade de dizer: eu posso dar essa contribuição e darei com todo o carinho, mas eu não sou o único, não sou o salvador da pátria. [...] Graças a essa visão distorcida da realidade, tem ocorrido lutas internas terríveis, cobranças absurdas. [...] E o que acontece, muitas vezes, é que você sacrifica sua existência pessoal em função do movimento e temos verificado quantos companheiros se perderam no meio do caminho. Perderam-se por falta de clareza política, evidentemente, mas também porque jogaram de uma forma tal que, pare eles, a construção de sua própria vida era um negócio tão secundário porque eles estavam apostando única e exclusivamente no movimento. [...] Você tem que ter um equilíbrio. Eu vejo meu próprio caso, eu fui muito assim, é uma autocrítica o que eu estou fazendo também. Eu achava que tinha que estar em todas, me jogando loucamente, e meu projeto pessoal se perdeu muito, agora que eu estou catando os pedaços para poder seguir minha existência enquanto pessoinha que sou. [...] A questão da militância tem que ter esse sentido e aí nós temos que aprender com os nossos antigos, os africanos, esse sentido da sabedoria, esse sentido de saber a hora em que você vai interferir e como você vai interferir, fora desse lance individualista. É importante distinguir o seguinte: projeto pessoal não quer dizer individualismo, não. [...] Agora, no Movimento Negro você não vai crescer se misturar isso. Se misturou, dançou. Você vira fanático, que ninguém aguenta, que ninguém suporta. Acho que isso é fundamental e vai lhe permitir essa reflexão e ainda lhe permitir não cair na sedução da cooptação. [...]

UNB lança curso online grátis de nível superior



A Universidade de Brasília - UnB lança curso online grátis de nível superior. A UnB é a primeira universidade federal a oferecer um programa do gênero no Brasil Elaborado em parceria com o portal Veduca, o Mooc de Bioenergética é o primeiro do País na área de Ciências da Saúde e está disponível online gratuitamente.


Já o Mooc da UnB foi criado para suprir uma falta de cursos online na área de Biológicas. “Um curso como esse é básico, por exemplo, para qualquer médico. Hoje o perfil de quem faz Mooc é o aluno de Exatas e poucos são de Ciências da Saúde, exatamente porque ainda há falta de cursos online nessa área”, explica Souza.


Qualquer interessado pode se inscrever no site do Veduca para cursar o Mooc de Bioenergética. As aulas são grátis e não há limite de prazo para se inscrever e até para concluir o curso – é o aluno quem organiza o tempo de estudo.

Os vídeos disponíveis foram gravados no segundo semestre do ano passado, em aulas dadas pelo professor Fernando Fortes de Valencia, da UnB, aos alunos de Ciências Biológicas de licenciatura e bacharelado da instituição. Dividido em 14 aulas (com 1h20 e separadas em quatro partes, em média) o Mooc oferece fóruns de discussão, testes online e debates com o professor.

No fim do curso, que em média leva três meses para ser concluído, haverá uma prova presencial e distribuição de certificado para quem for aprovado.



Em caso de dúvida, entre em contato – contato@veduca.com.br

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Fonte: Estadão

Extermínio de crianças no Brasil


Uma das mais avançadas Universidades do mundo, Harvard, concluiu que crianças negligenciadas em abrigos apresentam problemas de desenvolvimento no cérebro, o que leva à redução da capacidade linguística e mental. Segundo a pesquisa o cuidado infantil não se resume apenas em “trocar fraldas” ou “alimentar” as crianças. O desenvolvimento cerebral de bebês e crianças pequenas depende de estímulos de seus pais ou cuidadores. Quando são abandonadas e lhes falta o estímulo afetivo, este desenvolvimento é prejudicado. No Brasil há, segundo o CNJ, 80 mil crianças abandonadas em abrigos que não são fiscalizados.

Por Siro Darlan no Jornal do Brasil,
Na adolescência, algumas dessas crianças abandonadas praticam infrações para sobreviver sem suas famílias. Logo são apreendidas e jogadas nas instituições totalitárias pela Justiça, para, em tese serem ressocializadas. Quanta ironia, se nunca foram sequer socializadas!Esses jovens, ao contrário do que acontece com os adultos, não passam por exames de sanidade mental para saber se têm capacidade cognitiva para serem “punidas” como autores de atos infracionais. Os profissionais de saúde mental desconhecem e abandonam a sua própria sorte, ou azar, essa parcela de brasileiros, que nasceram para serem eliminados.

Era o que faltava. Mas não falta mais. Pesquisa do próprio Governo Federal, da UNICEF e do Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-UERJ) aponta que de 2013 a 2019 a sociedade brasileira terá assassinado 42 mil jovens, sendo que 2,96 vezes maior o número de jovens negros que os brancos e 11,92 maior o número de jovens do sexo masculino, se comparado ao das mulheres negras. Nem o regime fascista alemão, que muito policiais apregoam livremente como ideário de suas corporações, foi tão eficaz no quesito extermínio dos indesejáveis.

Para alcançar esse desiderato, o governo municipal contribui com sua costumeira negligência mantendo crianças e adolescentes abandonados em suas pocilgas que insistem em chamar de abrigos e mantém absolutamente inoperantes os 17 Conselhos Tutelares, onde a necessidade aponta para 66 Conselhos Tutelares com equipes técnicas e bons equipamentos para a proteção integral da infância.

O governo do Estado dá sua contribuição fechando os poucos Centros Sociais existentes, treinando sua polícia para cassar crianças e proibir que acessem áreas de lazer público e mantendo em funcionamento Casas Permanentes de Torturas destinada a transformar jovens carentes de respeito aos seus direitos fundamentais em perigosos e bem treinados marginais revoltados com a falta de respeito à dignidade da pessoa humana nas instalações do governo estadual.

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* Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Coordenador Rio da Associação Juízes para a Democracia.



Fonte: Geledés