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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Um olhar sobre as mulheres negras e o ensino superior no Brasil


Se é factual que a política das cotas raciais colocou em outro patamar a discussão do acesso ao ensino superior pela população negra, também é verdade que há muito ainda a ser discutido.Desigualdades de gênero, para além das ditas inequidades raciais, marcam o acesso, permanência, fluxo e desempenho em todos os níveis da educação nacional. Sabendo que as mulheres negras são vítimas do preconceito tanto sexista quanto racista, vale a pena se debruçar sobre a situação dessa importante parcela da população no tocante o acesso ao ensino superior – etapa que se encontra ainda bastante elitizada e pouco acessível aos grupos de maior vulnerabilidade social.

É cabível retomar algumas sentenças que temos reiteradamente afirmado neste blog: (1) o Brasil é um país cuja população é composta de uma sutil maioria negra (pretos + pardos) e femininade, respectivamente, 50,74% e 51,03%, segundo o último Censo Demográfico do IBGE; (2) essa constatação não presta à função de exigir “privilégios” a determinados segmentos da população,senão de denunciar que são majoritários no país grupos considerados minoritários em termos de direitos, poder e reconhecimento; (3) as desigualdades de gênero e de cor/raça persistem emdiversas esferas da vida social, política e econômica (mercado de trabalho, violência, representação política etc). Com a educação, não é diferente. Ou é. Veremos

A educação pública no Brasil, a reflexo do próprio Estado brasileiro, não tem lá um passado muito agradável de se contar. Escolas segregadas por sexo marcaram os primórdios da escolarização no Império, a escravidão alijou da esfera educacional a população negra, o poder público comprometido com as oligarquias fez pouco caso da democratização do ensino, uma educação dual (intelectual para a elite, mecânica para pobres) atravessou o século passado inteiro. Pior, essas desigualdades deixaram marcas profundas no sistema educacional da atualidade. Ainda pior, as mudanças não têm sido sempre movidas pelos ventos mais promissores.

Em capítulo recentemente publicado no Dossiê Mulheres Negras do IPEA, Edilza Sotero (2014) nos recorda que o ensino superior no Brasil tem crescido sobretudo pelo setor privado. De fato, discutimos em texto anterior que são as faculdades particulares as principais responsáveis pela absorção de segmentos do povo brasileiro que nunca tiveram acesso a esse nível de ensino. Para além das políticas de cotas, outras medidas como o ProUni e o FIES tiveram impactos não apenas sociais, como também raciais e de gênero – isto deve ser explorado em um futuro texto. A expansão do sistema privado de ensino, portanto, acabou por cobrir uma lacuna do sistema público que, apesar do aumento no número de matrículas, ainda está muito aquém de atender as demandas dessa imensa população que o país abriga.

Essa realidade aponta, nas palavras da autora supracitada, para a presença de “relações hierárquicas reproduzidas no interior do sistema educacional” (p. 36), na medida em que a ampliação do acesso à educação se faria não de modo igualitário, e sim acompanhado por um processo de diferenciação de origem social em relação ao tipo de ensino/instituição frequentado pelos/as estudantes Brasil adentro. E, de fato, a persistência das desigualdades caracterizam mesmo os avanços que obtivemos nesse quesito nas últimas décadas. Pelo gráfico abaixo, notamos com facilidade que a expansão do ensino superior não exatamente solucionou disparidades históricas.

Evolução nas taxa líquida de escolarização, por sexo e cor/raça – Brasil, 1995 a 2009 (Elaborado por IPEA e extraído de Sotero, 2014)

Cabe destacar que a figura acima se refere às taxas de escolarização para estudantes do nível superior. A tal taxa líquida se refere à população matriculada no nível de ensino esperado para a sua idade – no caso, jovens de 18 a 24 anos que frequentam alguma instituição de ensino superior. Valores tão baixos para a população toda, em especial para mulheres e homens negros, sugerem que há muitos jovens nessa faixa etária que não estão estudando. Além disso, indicam que pode haver mulheres e homens negros mais velhos que, só agora, obtiveram acesso a alguma faculdade/universidade (estes, por sua vez, não estão contabilizados no gráfico porque não preenchem os quesito da taxa líquida de escolarização).

As desigualdades de gênero, embora menores que as raciais, deixam a sua marca nessas taxas de escolarização, de forma que as mulheres negras têm alcançado maior escolarização se comparada aos homens negros. Reforçando essa tendência, as hierarquizações estão claras, para usar o termo relembrado por Sotero (2014), no sistema educacional. No gráfico abaixo, percebemos que o ensino superior brasileiro é composto majoritariamente por mulheres brancas, seguidas dos homens brancos e, só depois, pelas mulheres negras. É evidente que a questão socioeconômica tem um peso crucial aqui, ajudando a entender por que as desigualdades raciais, com todo o histórico processo de escurecimento da pobreza oupauperização dos negros. Porém, não são suficientes – tal como abordamos em outro texto.

Proporção de estudantes no ensino superior, por sexo e cor/raça – Brasil, 2003 e 2009 (Elaborado pelo IBGE e extraído de Sotero, 2014)

Por fim, realço que este texto foi apenas um leve apanhado que procurou caracterizar alguns aspectos das desigualdades de gênero e cor/raça, aproveitando a recente publicação do IPEA. Para continuar o debate sobre a Educação Básica (a base, afinal, para se entender as disparidades que os gráficos acima bem ilustraram), recomendamos a série de textos anteriormente publicada, a qual pode ser acessada pelo seguinte artigo: Desigualdades de gênero e cor/raça na Educação Básica no Brasil.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Dúvidas de como agir em casos de racismo? Saiba aqui o que fazer


Diariamente recebemos através das nossas redes sociais mensagens de pessoas perguntando de como agir em uma situação de racismo. Separamos algumas dicas para vocês:

Denunciar crimes de discriminação racial pela internet: A Policia Federal incentiva a denuncia de crimes de ódio, ou seja, qualquer tipo de intolerância ou preconceito (homofobia, xenofobia, antissemitismo, racismo) . Esses crimes podem ser denunciados pelo site da Policia Federal ou pelo e-mail denuncia.ddh@dpf.gov.br. Em casos de crimes de ódio na internet tire sempre print ou foto da pagina agressora, as imagens vão ser usadas como prova.

Disque Racismo: Com o objetivo de proteger os direitos da população negra, indígena, cigana, ribeirinha e quilombola o disque racismo também zela pelas matrizes de religiões africanas. As vitimas podem ligar para o numero 156 (opção7) de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Nos sábados, domingos e feriados, o horário de expediente é das 8.00 às 18.00. 

Denúncias em delegacias: A pessoa vitima de racismo deve fazer boletim de ocorrência na delegacia de área ou encaminhar-se ao DECRADI, no DHPP, ao lado da estação da Luz, sendo de extremamente importante a presença de testemunhas. Em caso de agressão física a vítima não deve trocar de roupa, limpar ferimentos e/ou lavar-se. Todos esses fatores servem como prova, em caso de agressão física o exame de corpo de delito é indispensável, na falta de uma testemunha gravações e videos também servem como indicio de prova.

Lidando com o racismo em outros países: Cada país tem formas distintas de lidar com o racismo, assim importante antes de viajar pesquisar sobre as leis do país que irá visitar e lembre-se sempre de ter provas contra o/os agressor/agressores.

No Brasil o crime de racismo passou a ser imprescritível e inafiançável a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, posteriormente houve mudança também no código penal, em 1989 promulgou-se a Lei 7.716/89, que trata dos crime se racismo e discriminação racial, bem como a introdução do parágrafo 3º no artigo 140 do Código penal, com a figura da “injuria qualificada”. Em todos os enquadramentos, em que pese nossa Constituição Federal prever no ADTC, ser o crime de racismo imprescritível e inafiançável, na prática não se opera a prisão, salvo em caso de flagrante delito. 


Saiba mais:


Fonte: Geledes

Genocídio da população negra: O que o nosso feminismo tem a ver com isso?


A todxs Cláudias, Amarildos, e muitos outros irmãos que não deixaremos ser esquecidos.

Quando falamos do genocídio da população negra no Brasil, muitas vezes o assunto pode parecer uma pauta “geral” da sociedade, mas a verdade é que a luta pela preservação da vida e manutenção do povo negro mais do que nunca precisa ser uma pauta de nós feministas negras. Quando digo que o genocídio é da população negra e não o coloco de forma restrita apenas a juventude, embora reconheça que essa faixa etária é mais atingida por essa tragédia, o faço, pois cada vez que um jovem negro é morto pelo aparato social do Estado e seu braço armado uma mãe, uma irmã, uma companheira, uma comunidade morre também por dentro.

Quanto ao nosso feminismo negro, creio que este não pode perder a dimensão da importância da família, da vida em comunidade como pontos extremamente importantes para a população negra, já que é nesses espaços onde muitas vezes encontramos o único refúgio para almas e corações negros feridos pela total exclusão de outros setores da sociedade. É com essa perspectiva que afirmo que genocídio da população negra é sim uma pauta indispensável do nosso feminismo, embora o protagonismo nessa luta seja nosso como mulheres negras, essa luta não exclui a luta pela vida dos nossos homens negros, antes tenta incorporá-los a ela na tentativa de juntos combatermos o machismo também reproduzido por eles.

Quando falo do genocídio enxergo esse fenômeno como um último ponto de uma escala de dor que atinge mais diretamente os homens negros, e digo que de forma estratégica, mas que influi de forma direta em nossas vidas, como mulheres negras a possibilidade de estarmos em uma fila de visita no presídio ou reconhecendo o corpo de um irmão, amigo, pai, companheiro ou filho é aterrorizante e ao mesmo tempo real a cada dia que acordamos.

Somos irmãs, mães, companheiras de homens e mulheres de um povo que nasce com uma marca na pele que aumenta as chances de morrer precocemente.

Quando digo que o feminismo negro deve adotar como pauta o genocídio da população negra estou longe de transferir a nós mulheres toda a responsabilidade de preservação da vida e da cultura de nosso povo, acredito que se faz urgente o companheirismo e o fortalecimento dos irmãos negros a nossa luta diária. Acredito que assumirmos que esse genocídio é uma pauta geral e assim deve ser tratada é retirar do assunto à dimensão política dessa tragédia e a quem ela possa interessar, genocídio da população negra no Brasil tem gênero, raça e classe e sem assim não for percebido perdemos força contra o grande aparato estatal criado pra nos exterminar.

Reaja ou será morta, mulher negra essa luta é sua também!

Axé.

Imagem – Página Reaja ou será morto, Reaja ou será morta. Créditos: Fafá M. Araújo.Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.


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Nzinga Mbandi mestranda em Estudos Interdisciplinares em Genêro, Mulheres e Feminsmo-UFBA. Uma guerreira negra em busca da emancipação e empoderamento das mulheres até que todas sejamos livres.


Professor dá aula de “Revolução Francesa” para não ser linchado


Professor dá aula de “Revolução Francesa” para não ser linchado

SÃO PAULO — Confundido com um ladrão, um professor de História foi espancado por moradores da periferia de São Paulo e só conseguiu se livrar do linchamento quando, segundo ele, foi obrigado a dar uma aula sobre Revolução Francesa. Ainda assim, André Luiz Ribeiro, mulato de 27 anos, foi levado para a delegacia, onde ficou por dois dias, já que o dono do bar assaltado confirmou em depoimento que André seria o ladrão.

O professor contou que, socorrido por bombeiros, teve de falar sobre a Revolução Francesa para provar sua inocência. Os bombeiros informaram que não houve “desrespeito ou deboche”. André conta que estava correndo na última quarta-feira no bairro Balneário São José, quando um bar foi assaltado.

— Eu corro dez quilômetros todos os dias, estava de fone de ouvido, sem identificação porque moro por perto, e fui confundido com um dos três assaltantes. O dono do bar e o filho dele me acorrentaram. Vinte pessoas me cercaram e começaram a me bater.

O professor foi socorrido por bombeiros que passavam no local. Um deles, segundo Ribeiro, teria dito: “Se voce é professor de História, então dá uma aula sobre Revolução Francesa”.

— Falei que a França era o local onde o antigo regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução. Falei por uns três minutos e perguntei se já estava bom. Aí me desacorrentaram, mas fui levado para a delegacia

The Guardian fala sobre racismo na Copa 2014 com análise da torcida brasileira nos estádios


Mas e se alguém te dissesse que o Brasil está longe de ser um país realmente multiétnico? – e que a Copa do Mundo evidencia isto de uma maneira muito simples?

Em um texto publicado na última terça-feira no jornal inglês The Guardian o repórter Felipe Araújo faz uma reflexão sobre a torcida brasileira na Copa do Mundo: “Cobrindo a Copa do Mundo como jornalista me encontrei participando de um jogo similar ao ‘Onde Está Wally?’, o problema é que a pergunta agora era mais séria: onde estão todos os negros? Passei por cinco cidades-sede até o momento e em todas elas a pergunta para a resposta estava distante de ser respondida – eu até perdi lances de gol enquanto procurava por negros nas torcidas”.

No texto, Felipe chega a algumas conclusões que são, infelizmente, ao mesmo tempo óbvias e estarrecedoras: “a resposta para este questionamento é óbvia e estarrecedora: “a maioria dos negros no Brasil são pobres. Diferente da África do Sul e dos Estados Unidos, não há uma classe média negra e, talvez ainda mais importante, não há uma classe política negra. Um ingresso para a Copa do Mundo tem seu preço fixado entre R$180 e R$1800, mas em um país onde o salário mínimo custa pouco mais de R$680 por mês, um ingresso para uma partida no Maracanã está longe do alcance popular”

Na publicação, Melo lembra que as partidas em que havia bastantes negros na torcida, eram partidas que envolviam países de origem africana – como Alemanha x Gana. O repórter lembra ainda que a questão racial no Brasil sempre foi mal resolvida e que o próprio astro da Seleção Brasileira, Neymar, já afirmou não ter sido vítima de racismo, “afinal, eu não sou negro, não é?”

O texto completo pode ser encontrado, em inglês, neste link.

Fonte: Brasil Post

quarta-feira, 2 de julho de 2014

É preciso educar-se sobre outro: a formulação de um segundo olhar acerca da condição social do negro


É comum vermos manifestações de descontentamento nas redes sociais, em sentindo contrário ao de minorias, a partir do momento que alguém se posiciona a favor de pessoas socialmente oprimidas. Até aí, nada de especial. Cada um tem o direito de pensar o que quiser acerca das inúmeras demandas políticas recorrentes em nosso país.

As dificuldades se iniciam quando os temas em pauta afetam – direta ou indiretamente – a vida de negros, índios, mulheres, gays e transexuais. Justamente por conta deste motivo, é que se torna de vital importância a reflexão consciente antes de rejeitar, logo de cara, os problemas suscitados pelos respectivos grupos.

Com frequência, assisto a multiplicação das “ondas de protesto” nas redes sociais cujos argumentos se assentam em convicções politicamente frágeis e filosoficamente pobres. As falas mais comuns têm o condão de deslegitimar questionamentos colocados em evidência por minorias; muitas vezes por meio do deboche e da banalização de ocorrências gravíssimas.

Declarações corriqueiras tais como “as feministas planejam dominar o mundo”; “negros veem racismo em tudo que é canto”; “deveríamos parar de falar da consciência negra e começarmos a focar na raça humana”; ou, ainda, o discurso da moda, que é aquele que denuncia a “instauração da famigerada ditadura gay” (entre várias outras afirmações de natureza semelhante) possuem o único objetivo de esvaziar o conteúdo político da atuação de gente estigmatizada pela sociedade e historicamente alijada de direitos.

Não se identifica, com pronunciamentos deste perfil, nenhum esforço no sentido de implementar ações destinadas a superação de desigualdades sociais. Muito pelo contrário. O que se verifica é tão somente a nítida intenção de desmantelar o trabalho conjunto de pessoas que reivindicam avanços políticos traduzidos em melhores condições de vida. A propositura de críticas intelectualmente desonestas visa apenas à desqualificação de demandas socialmente legítimas.

Pois bem. Dito isto, gostaria de explicar que o texto se destina a desenvolver a ideia da importância de educar-se sobre do outro. Em outras palavras, a intenção é apontar o quão relevante é – a partir da dimensão política – esforçar-se mentalmente para compreender as problemáticas concernentes às minorias (antes de se posicionar imediatamente contra o que é apresentado sem o mínimo de conhecimento do assunto).

Embora a reflexão se restrinja a temática do negro, o raciocínio análogo pode ser aplicado a outros segmentos sociais.

Primeiramente, quando se fala da condição social da população negra e, em específico, a correlação desta com o “entendimento” do educar-se sobre o outro, isto significa falar necessariamente de racismo; uma vez que o mesmo é a mola-mestra propulsora de todas as demais situações resultantes desta mentalidade negativa.

Racismo – para o senso comum – é apenas identificado em situações chocantes e extremas. Na maioria das vezes, só existente em casos de grande repercussão midiática, ou, melhor dizendo, aqueles que são bastante emblemáticos e nitidamente discriminatórios. Apenas quando se tem notícias de fatos com repercussão nacional é que as pessoas percebem que acontece algo de muito errado na sociedade.

A “sensibilidade coletiva” aflora no momento em que torcedor atira banana em jogador de futebol; quando mulher negra é algemada em ambiente de trabalho e é escoltada pela PM à delegacia, por conta de suposto “desacato à autoridade”. Sem falar que toda a confusão foi gerada, pelo menos, aparentemente, devido a desentendimentos quanto ao preço do cafezinho!

As pessoas só voltam à atenção para o racismo quando ator negro passa 16 dias preso por engano ou, ainda, com a notícia de que mulher negra e trabalhadora foi arrastada por carro da polícia militar.

Ou seja: apenas em situações extremas e absurdas a sociedade como um todo tem momentos de lucidez, conseguindo enxergar a gravidade dos problemas a que diariamente a população negra é submetida.

De resto, nos outros dias, sempre que o fato não ganha espaço nos grandes veículos de comunicação, o que impera é a invisibilidade. É por isso que quando alguém denuncia o problema, acontece a tal “enxurrada de protestos” já comentada.

É justamente neste ponto que se inscreve a necessidade de educar-se sobre o outro.

Isto porque fica difícil entender o mundo de outra pessoa – com todas as peculiaridades que permeiam a realidade alheia – se não há mínima informação acerca das questões em pauta.

Esta busca por conhecimento é de extrema relevância social. A abertura psíquica para realização do esforço intelectual para o entendimento das mazelas que atingem a outrem é o que viabilizará o processo educativo.

Cada um de nós possui dentro de si – de forma bem cristalina – a importância da manutenção de uma rotina de estudos associada às matérias ensinadas na escola; bem como dos assuntos relacionados às disciplinas ministradas na faculdade ou aos apontamentos destacados em cursos de capacitação profissional. O que raramente praticamos é a reprodução da mesma postura estudantil, agora, com foco nas questões sociais.

Educar-se sobre o outro é de fundamental importância. É no movimento da leitura, no esforço mental empregado ao considerar o mundo do ponto de vista “do mundo do seu interlocutor” que se consegue enxergar a realidade com os “óculos” do outro.

Não importa quem seja o interlocutor, o caminho cognitivo é o mesmo. Pode ser a mulher, o negro, o gay, o transexual, o índio ou qualquer outro grupo que milite pela conquista de direitos.

Somente quando nos dispomos intelectualmente a entender as demandas do próximo, a partir do seu lugar de fala, é que saímos da “zona rasa” da observação. Local este, por sua vez, perigoso e limitado dado a tendência à naturalização de problemas graves.

Este é o principal efeito resultante da ausência de educação política. Os obstáculos que “embaçam” a visão se derivam justamente da falta de instrução e de conscientização acerca da conjuntura social relativa às minorias, assim como das causas que levaram esses grupos a reivindicarem direitos e a criticarem determinados comportamentos.

Quando, de fato, aprendemos com o estudo do “universo” do outro, treinamos nossa mente para reconhecer atitudes e posicionamentos “estranhos” os quais passariam despercebidos ou seriam classificados como “naturais” se fôssemos desinformados.

Em relação ao negro, à medida que alguém decide educar-se a respeito da temática, esta pessoa passa a entender que o racismo vai além das atitudes chocantes, extremistas e truculentas. Estas, sim, são apenas a ponta do iceberg.

O educando entenderá, paulatinamente, que racismo é uma visão de mundo. Visão esta deletéria e com profundas raízes históricas; construída a partir de vivência social. Assim, percebendo que, por tratar-se de um tipo de mentalidade a qual orientará determinadas disposições comportamentais, quem se propõe a educar-se sobre o outro capacita seu intelecto para detectar quando esta maneira de pensar o mundo se manifesta em situações corriqueiramente consideradas naturais e insignificantes.

O fato de ser categorizada como banal não “apaga” as consequências reais na vida de quem sofre o resultado destas ações.

Neste ponto, a bagagem educacional a respeito do outro se torna imprescindível. O trabalho de reflexão ocasionado pela vontade de entender a demanda alheia é o que estimulará a identificação, ou melhor, a visualização da linha de raciocínio que conduziu seu interlocutor àquela conclusão ou ao questionamento “Y” ou “Z”.

O exercício de manter a abertura psíquica para o entendimento das questões alheias, informando-se a respeito da problematização de situações aparentemente normais é que terá o condão de propiciar a visão crítica. Até mesmo para discordância, caso seja esta a conclusão formulada. Afinal de contas, todos têm esse direito!

A diferença é que agora a crítica se calcará em argumentos conscientes e não mais em preconceitos do senso comum ou em divagações rasas e falaciosas.

Portanto, com base nos “episódios” citados, é possível ilustrar que os argumentos apresentados no início do texto de que “feministas planejam dominar o mundo”; “negros veem racismo em tudo que é canto”; além do “é preciso parar de falar da consciência negra e deve-se focar na raça humana” e, por fim, a famosa demonização da militância gay – com argumento proselitista de que vivemos sob a égide de uma “ditadura homossexual” – não mais dão conta de explicar toda a complexidade por trás das diversas ocorrências discriminatórias.

A ideia de que todos nós somos vistos, reconhecidos e tratados igualitariamente em uma sociedade hipotética, na qual o racismo inexiste, não consegue explicar com folga as situações enunciadas. Diariamente, por todo Brasil, anônimos vivenciam casos similares, sem que seu histórico de vida venha à tona por meio da divulgação midiática.

Educar-se sobre o outro é politizar-se. E politizar-se, nas palavras da historiadora Marjorie Chaves, “é uma escolha de vida, não tem volta”. Quando nos educamos sobre o ponto de vista do outro, estamos nos capacitando intelectualmente para nos posicionarmos de forma mais consciente e justa em face das demandas sociais que se apresentam. Tal maturidade crítica se faz urgente na atualidade, pois é a partir do real entendimento – tanto da dimensão subjetiva quanto da dimensão coletiva – da condição social do negro que se poderá combater o racismo com efetividade.

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É estudante de Direito; negra em construção; mulher em intenso processo de individuação; humanista por excelência e partidária inveterada de um mundo em que todas as pessoas, sem distinção, sejam respeitadas em sua plenitude de autonomia e escolha.

Relator da ONU pede que países redobrem esforços contra o racismo na Internet e mídias sociais


O relator especial da ONU sobre formas contemporâneas de racismo, Mutuma Ruteere, chamou a atenção para a questão do racismo na Internet e mídias sociais durante a apresentação do seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, na última quinta-feira (26).

“A Internet serve como um veículo formidável para o exercício da liberdade de expressão, mas também providencia uma plataforma poderosa para a rápida disseminação de ideias racistas, ideologias e incitação ao ódio”, alertou Ruteere.

O relator, que também sublinhou o crescimento de grupos e partidos políticos extremistas como uma ameaça para a democracia e os direitos humanos, apelou aos governos para que regulem com responsabilidade a Internet e as mídias sociais.

Ele também pediu aos provedores de serviços de Internet e plataformas de mídias sociais que criem e incluam nos termos de referência “políticas claras e transparentes referentes ao racismo, xenofobia e outros tipos de discurso que incitem o ódio”.

Acesse o relatório clicando AQUI.

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Fonte:Promad