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quarta-feira, 2 de julho de 2014

As origens elitistas e racistas do futebol, por Mário Rodrigues (o irmão de Nelson)

(Carlos Alberto, o “pó-de-arroz”)

Umas das razões pelas quais não concordo com o epíteto de “reacionário” que a direitosa adotou como verdade absoluta para se referir a Nelson Rodrigues (1912-1980), sem nunca tê-lo lido, é seu pioneirismo na denúncia ao racismo velado brasileiro. Amigo de Abdias do Nascimento (1914-2011), autor de Anjo Negro, uma tragédia sobre o racismo, Nelson questionava o mito da “democracia racial” e se indignava com o preconceito contra os negros em nosso País. “Nos Estados Unidos o negro é caçado a pauladas e incendiado com gasolina. Mas no Brasil é pior: ele é humilhado até as últimas consequências”, dizia. Vamos combinar que não tem absolutamente nada a ver com gente que defende que “não existe racismo no Brasil”.

O irmão de Nelson, Mário Rodrigues Filho (1908-1966), considerado um dos maiores jornalistas esportivos de todos os tempos (o Maracanã leva seu nome), também denunciou o racismo em um grande clássico, O Negro no Futebol Brasileiro. No livro, reeditado pela Mauad há dois anos, Mário Filho conta como, de esporte de ricos descendente de ingleses, o futebol se transformou na diversão de meninos pretos e pobres que se tornariam os grandes craques da bola até hoje. Malvistos pela torcida grã-fina, muitos atletas negros tentavam inclusive disfarçar a origem, alisando os cabelos e apelando à maquiagem para clarear a pele. Em 1921, o presidente Epitácio Pessoa “recomendou” que a seleção não convocasse negros, e até 1952 havia times no Brasil que não aceitavam “pessoas de cor”.

Mesmo na Inglaterra, onde surgiu, o futebol era jogado nas escolas frequentadas pela aristocracia. Suas regras foram feitas nestes colégios e só daí passaram a ser aplicadas no esporte que já se praticava nas ruas, pela classe operária. Rapidamente a burguesia agiria para transformá-lo em “ópio do povo”. Segundo Roberto Ramos em Futebol: Ideologia do Poder, “os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860. As massas do proletariado industrial começaram a interessar-se por este esporte. Os empresários ingleses aproveitaram a oportunidade. Fomentaram o seu desenvolvimento. O objetivo era claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe”.

Ou seja, a elite branca que ocupa os estádios brasileiros nesta Copa do Mundo era de fato a “dona da bola” no começo, tanto aqui como na terra natal do futebol. Charles Miller (nome da praça onde fica o Pacaembu), o filho de ingleses que teria trazido a primeira bola de futebol para o Brasil em 1894, apresentou o esporte à elite paulista. Os clubes de ingleses do Rio de Janeiro disputam com Miller a primazia: em 1874, 20 anos antes de Miller ter chegado com a tal bola, já haveria jogos de futebol na orla carioca. No princípio, existia uma separação oficial entre os times dos ricos e os dos pobres, mas do nome do jogo às posições dos atletas em campo, todos os termos eram em inglês. Mário Filho conta tudo.

Este DNA racista e elitista do futebol, a meu ver, pode explicar o porquê de tantos jogadores negros ainda serem alvo de preconceito. No esporte “bretão”, “branco”, os negros eram bem-vindos para jogar bola, mas não para frequentar as dependências e festas dos clubes que os contratavam, como ocorria com qualquer empregado. Não me parece muito diferente do que acontece atualmente: enquanto o jogador negro, regiamente pago, faz gols, é bem tratado e festejado. Basta cometer algum erro, porém, que a cor de sua pele vem à tona, como nos episódios recentes em que atletas foram insultados, chamados de “macacos”, e bananas foram atiradas no campo.

Vale a pena ler o livro de Mário Filho. Outra editora de São Paulo, a Ex Machina, lançou neste ano da Copa As Coisas Incríveis do Futebol: as Melhores Crônicas de Mário Filho. Imperdível para quem gosta de futebol ou não. Leia abaixo os trechos de O Negro no Futebol Brasileiro que compilei sobre os primórdios do esporte.

***
(O mulato Arthur Friedenreich)

O Negro no Futebol Brasileiro

Por Mário Rodrigues Filho,
O futebol importado, made in England, tinha de ser traduzido. E enquanto não se traduzisse e se abrasileirasse, quem gostasse dele precisava familiarizar-se com os nomes ingleses. De jogadores, de tudo. Em campo um jogador que se prezasse tinha de falar em inglês. Ou melhor: gritar em inglês.

O repertório do capitão do time, justamente quem gritava mais em campo, precisava ser vasto. Quando um jogador do seu time estava com a bola e outro corria para tomá-la, tinha de avisar: ‘man on you’. Quando o outro time atacava e ele precisava chamar seus jogadores lá na frente, a senha era: ‘come back forwards’. E havia ‘take you man’ e havia mais. Onze posições de jogadores num time: goalkeeper, fullback-right, fullback-left, halfbeck-right, center-half, halfback-left, winger-right, inside-right, center-forward, inside-left e winger-left.

O juiz era o referee, transformado em referi ou refe, o bandeirinha era o linesman, e por aí afora.

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Para alguém entrar no Fluminense tinha de ser, sem sombra de dúvida, de boa família. Se não, ficava de fora, feito os moleques do Retiro da Guanabara, célebre reduto de malandros e desordeiros.

Os moleques debruçavam-se na cerca de arame para ver os treinos, se a bola ia fora podiam correr atrás dela, dar um chute. Mas nada de demora. Se demorassem não levariam as malas dos jogadores, acabado o treino, até o bonde que passava na Rua das Laranjeiras.

(…)Não se tratava de só querer branco legítimo. Ninguém no Fluminense pensava em termos de cor, de raça. Se Joaquim Prado, winger-left do Paulistano, quer dizer, extrema-esquerda, preto, do ramo preto da família Prado, se transferisse para o Rio, seria recebido de braços abertos no Fluminense. Joaquim Prado era preto, mas era de família ilustre, rico, vivia nas melhores rodas.

(…)Por isso, quem ia a São Paulo jogar um match de futebol, voltava encantado com Joaquim Prado, sem reparar até, que ele era preto.

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O que distinguia o Bangu do Botafogo, do Fluminense, era o operário. O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense, não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez, entre clube grande e pequeno, um, o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos.

***

(…)Os pretinhos, filhos da cozinheira, sabiam fazer bolas de meia, redondinhas, que saltavam.

Boas bolas, aquelas de meia, feitas pelos moleques. Podia se fazer com elas o que se quisesse. Até quebrar vridraças. Melhor do que as bolas de pelica dos meninos de boas famílias, muito leves, como balões de papel de seda, subindo com qualquer chutinho. As bolas de meia ficavam mais no chão. Quase presas ao pé, aperfeiçoando, nos moleques, o que se chamaria mais tarde, o domínio da bola. Da ‘esfera de couro’ de certos cronistas que não queriam escrever, em letras de forma, essa palavra tão corriqueira: bola.

Isso fazia quem era do remo, olhar mais por cima quem era do futebol. O futebol se vulgarizava, se alastrava como uma praga. Qualquer moleque, qualquer preto podia jogar futebol. No meio das ruas, nos terrenos baldios, onde se atirava lixo, nos capinzais. Basgtava arranjar uma bola de meia, de borracha, de couro. E fabricar um gol, com duas maletas de colégio, dois paletós bem dobrados, dois paralelepípedos, dois pedaços de pau.

Em todo canto um time, um clube. Time de garotos, de moleques, clubes de operários, de gente fina. Mas muito clube, clube demais.

No remo não havia esse perigo.

***

Valia a pena ser Fluminense, Botafogo, Flamengo, clube de brancos. Se aparecia um mulato, num deles, mesmo disfarçado, o branco pobre, o mulato, o preto da geral, eram os primeiros a reparar.

O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luís. Enquanto esteve no América, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no América, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças da arquibancada, parar um instante, levantar o braço, abrir a boca num hip, hip, hurrah.

Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.

Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caía em cima de Carlos Alberto:

– Pó de arroz! Pó de arroz!

A torcida do Fluminense procurava esquecer de que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino.

***

Friedenreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar se não fosse o cabelo. O cabelo farto mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meia hora, amansando o cabelo.

Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar. Friedenreich tinha de puxar o pente com força, para trás, com a mão livre segurar o cabelo. Senão ele não ficava colado na cabeça, como uma carapuça.

O pente, a mão não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse.

Levava tempo. Embora principiasse quando estava jogando o segundo time, só terminava quase na hora da saída do jogo do primeiro time. O juiz impaciente, ameaçando começar a partida sem Friedenreich, e Friedenreich lá dentro, no vestiário, a toalha amarrada na cabeça, esperando, ainda desconfiado de que não chegara a hora de tirar o turbante.

***

O Fluminense, cansado de perder campeonatos, tornou-se um pioneiro de profissionalismo. Com o profissionalismo, ele lutaria em igualdade de condições com os outros clubes. (…)E poderia formar um grande time, capaz de levantar campeonatos, indo buscar jogadores nos clubes pequenos, nos subúrbios, nos Estados, fosse onde fosse, brancos, mulatos e pretos.

Porque com o profissionalismo não fazia mal o Fluminense botar um mulato, um preto no time, contanto que fosse um grande jogador. Melhor branco. Mulato ou preto, só grande jogador.

(…)O preto jogava, ajudava o Fluminense a vencer, acabado o jogo, mudava de roupa, ia embora. Não havia perigo do preto frequentar a sede, aparecer numasoirée, num baile de gala do Fluminense. O jogador profissional, branco, mulato ou preto, era um empregado do clube. O clube pagava, toma lá, dá cá. O jogador ficava no seu lugar, mais no seu lugar do que nunca.

Naturalmente, entre o preto e o branco, o Fluminense tinha de preferir o branco. Se fosse possível um time só de brancos, melhor. E talvez fosse possível. Não faltava bom jogador branco. Se não fosse possível um time só de branco, botava-se um preto, dois, nada de abusar.

***

As vaias, o torcedor do Fluminense aguentava. Para isso tinha seu clássico ‘uh! uh!’. Não aguentava era o ‘pó-de-arroz’. Um grito de ‘pó-de-arroz’ partia de lá, um grito de ‘pó-de-carvão’ partia de cá. O torcedor do Fluminense dizendo que preferia ser ‘pó-de-arroz’ a ser ‘pó-de-carvão’. Podia preferir, mas se ofendia com aquele ‘pó-de-arroz’.

O torcedor do Flamengo, não, nem se importava com o ‘pó-de-carvão’. Orgulhava-se dos pretos que vestiam a camisa rubro-negra. Até mesmo dos que tinham sido escorraçados dos outros clubes, como Leônidas.

Ninguém queria Leônidas, o Flamengo queria.

Lei que mudou a história dos negros nos EUA completa 50 anos



Movimento por direitos civis teve a voz de líderes como Martin Luther King e Rosa Parks

Martin Luther King durante o famoso discurso "I Have a Dream" ("Eu tenho um sonho")Wikimedia Commons

O "não" dela mudou a história dos Estados Unidos. Rosa Parks, a mulher negra que se reergueu ao se sentar, a costureira de Montgomery que se negou em 1955 a ceder seu lugar no ônibus a um branco, é um dos símbolos do movimento que deixou a comunidade afro-americana dos Estados Unidos mais perto da igualdade.

Nesta quarta-feira, 2 de julho, a lei de Direitos Civis que proibiu a discriminação no país completa meio século. Foi uma das maiores conquistas do movimento cidadão por direitos através da legislação, a ação pacífica e a voz de líderes como Martin Luther King e Rosa Parks. 

Em Montgomery (Alabama), núcleo desse movimento histórico, o vigia do cemitério de Oakwood guarda até as cicatrizes silenciosas da história negra.

"Nessa região só há afro-americanos enterrados. (As cores) não podiam se misturar", explica diante das sepulturas mais rústicas, nas quais estão os corpos de escravos do século XIX e "cidadãos de segunda" do século XX.

No segregado sul do país, os negros nasciam em hospitais separados e eram enterrados em áreas diferentes, após uma vida em que não podiam estudar nas escolas para brancos, nem viajar em seus assentos, nem comer em seus restaurantes, nem usar o mesmo banheiro público.

Os pais de Linda Brown, uma menina de sete anos do Kansas, não entendiam por que sua filha precisava viajar diariamente até uma afastada escola para negros se dispunham de um centro público reputado em seu mesmo bairro. Era para brancos.

Os tribunais menores ignoraram várias queixas semelhantes no sul racista, mas o caso dos Brown chegou ao Supremo Tribunal e a máxima instância judicial lhes deu a razão: haver escolas só para brancos e outras só para negros era inconstitucional.

A decisão judicial de 1954 foi "um elo crítico para o movimento de direitos civis moderno", analisa seis décadas depois o professor Howard Robinson, do Centro Nacional para o estudo dos Direitos Civis, situado no Alabama, em entrevista à Agência Efe.

O Estado do sudeste dos Estados Unidos, com florestas frondosas e terra do personagem Forrest Gump, tinha nos anos 1950 uma das políticas mais discriminatórias contra os afro-americanos e liderou as queixas para obter a mudança.

Apenas quatro dias depois da histórica resolução judicial, uma ativista de Montgomery, Jo Ann Robinson, escreveu uma carta ao prefeito da cidade. Era 1954 e o movimento pela equidade já não tinha volta. 

A ativista pedia ao prefeito que acabasse com os ônibus urbanos segregados. Os negros, que representavam 75% dos usuários, precisavam pagar na parte dianteira, voltar a sair, subir pela porta traseira e sentar-se apenas nas áreas indicadas para as pessoas "de cor".

Rosa Parks não foi a primeira mulher de Montgomery a protestar, mas a que somou a determinação e a liderança necessárias para fazer história. "Foi uma catalisadora da mudança", conta à Efe Georgette Norman, diretora do museu dedicado à costureira "silenciosa e forte que não queria bustos nem homenagens".

"Ela era a pessoa que precisava começar o protesto, alguém de quem não se podia falar mal nem encontrar nenhuma falha que diminuísse a atenção ao assunto", avalia a diretora do centro, que fica na mesma calçada de Montgomery na qual Parks, em 1º de dezembro de 1955, foi obrigada a descer do ônibus e detida.

A comunidade soube que aquele era o momento e começou um boicote para que nenhum operário negro e nenhuma empregada fosse trabalhar de ônibus: pegavam um táxi ou caminhavam duas horas sob o sol.

"Estamos cansados de ficar segregados e humilhados. Não temos alternativa a não ser protestar", proclamou em uma igreja a seis ruas do "não" de Rosa Parks um pastor recém-chegado à cidade e que se tornou o líder do boicote. Era Martin Luther King Jr.

"Foi um sucesso e quase 50 mil pessoas se somaram ao boicote", explica à Efe Wanda Battle, cujos pais eram amigos do reverendo King e cujo trabalho hoje é guiar os visitantes na única igreja em que o líder negro professou como pastor.

"Para mim é como fechar o círculo". A greve, que durou 381 dias, culminou com uma resolução do Tribunal Supremo que ilegalizou os ônibus segregados na cidade e somou uma nova conquista na cruzada contra a segregação sulina.

Em pouco mais de uma década, os afro-americanos, através dos advogados da Associação Nacional para o Avanço de Gente de Cor (NAACP), conseguiram que a justiça desbancasse as escolas segregadas, além dos ônibus, e as estações, e os trabalhos reservados aos brancos.

Em 2 de julho de 1964, Lyndon B. Johnson, o vice-presidente que assumiu após o assassinado presidente Kennedy, sancionou a lei que acabou sobre o papel com a discriminação no espaço público dos Estados Unidos. Nas imagens da empresa, que completa meio século, logo atrás do líder, esboça um breve sorriso Martin Luther King.

Apesar da filosofia de não-violência, King enfrentou uma década muito conturbada e testemunhou como os grupos racistas se radicalizaram e dezenas de ativistas negros morreram assassinados.

O líder foi testemunha das grandes mudanças legislativas e premiado com o Nobel da Paz, mas também acabaria morto com um tiro em 1968, aos 39 anos. "Durante dias, o tempo e a respiração de todos nós pararam", lembra Wanda, que na época tinha 12 anos e brincava com os filhos do pastor.

"Mas o movimento segue vivo para lutar contra as injustiças", acrescenta, antes de começar a cantar uma das famosas canções da época que mudou Wanda e mudou todo o país. 

Fonte: R7

Homofobia – ódio dos homossexuais


Por:Regina Navarro Lins
Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana considera que a origem da homofobia é a tentativa de alguns homens de ocultar seu próprio desejo homossexual. A homossexualidade provoca preconceito e ódio.

Arthur, funcionário de loja de materiais esportivos, que atendi no consultório, contou-me a terrível experiência de ser discriminado por um dos clientes: “Sou e sempre fui gay, mas nunca tinha vivido algo parecido. Um homem entrou na loja e pediu a um vendedor para auxiliá-lo na compra de roupas de esquiar na neve. Esse vendedor estava ocupado e pediu que eu o atendesse. Quando me dirigi a ele, ouvi seus gritos dizendo que queria ser atendido por um homem e se recusava a ser atendido por um ‘viado’. Isso na frente de todos e de uma forma bem agressiva.”

Apesar de toda a liberação dos costumes, os gays ainda são hostilizados pela maior parte da sociedade, que associa masculinidade à heterossexualidade. Uma pesquisa sobre violência no estado de Nova York, EUA, concluiu que, entre todos os grupos minoritários, os homossexuais são objeto de maior hostilidade. Além dos insultos habituais, os ataques físicos são mais do que comuns.

Mas nem sempre foi assim. Na Grécia clássica, século V a.C., a homossexualidade era uma instituição e os gregos não se preocupavam em julgá-la. Em algumas cidades gregas, a homossexualidade aparece como uma prática necessária dos ritos de passagem da juventude cívica, num quadro regido pelas leis, mas se relacionando estreitamente com a masculinidade.

O amor por um jovem dotado de fascínio físico e intelectual aperfeiçoava o caráter tanto do amante como do amado. O Batalhão Sagrado de Tebas – quadro de tropas de choque era composto inteiramente de casais homossexuais.

Nos séculos 12 e 13, entretanto, começou na Europa uma repressão maciça da homossexualidade, como parte de uma campanha contra heresias de toda natureza, que evoluiu até o terror da Inquisição. Por conta das perseguições, ela se tornou perigosa e clandestina. No século 19, a atividade homossexual deixou de ser classificada como pecado e passou a ser considerada doença.

O tabu contra ela só diminuiu com o surgimento dos anticoncepcionais, na década de 1960. A dissociação entre o ato sexual e a reprodução, possibilitou aos homossexuais sair da clandestinidade, na medida em que as práticas homo e hétero, ambas visando ao prazer, se aproximaram. Apesar de, hoje, a homossexualidade não ser mais considerada doença, a discriminação continua.

A homofobia deriva de um tipo de pensamento que equipara diferença à inferioridade. E quem são os homofóbicos? Alguns estudos indicam que são pessoas conservadoras, rígidas, favoráveis à manutenção dos papéis sexuais tradicionais. Quando se considera, por exemplo, que um homem homossexual não é homem, fica clara a tentativa de preservação dos estereótipos masculinos e femininos, típicos das sociedades de dominação.

Na nossa sociedade, os meninos aprendem desde cedo que não devem ter qualquer tipo de contato físico com homem. As amizades masculinas são raras, se restringindo geralmente a encontros em grupo ou competições esportivas. O abraço entre dois homens é pouco frequente e o afeto é manifestado no máximo com aperto de mão ou tapinha nas costas.

Muitos pais não abraçam nem beijam seus filhos depois de uma determinada idade. É muito provável que esta restrição vise preservar o conceito ideal da sociedade do que seja “másculo”. A demonstração de afeto entre as mulheres é aceita por todo mundo e não parece despertar temores de que irá incentivar o lesbianismo.

A homofobia reforça a frágil heterossexualidade de muitos homens. Ela é, então, um mecanismo de defesa psíquica, uma estratégia para evitar o reconhecimento de uma parte inaceitável de si. Dirigir a própria agressividade contra os homossexuais é um modo de exteriorizar o conflito e torná-lo suportável. E pode ter também uma função social: um heterossexual exprime seus preconceitos contra os gays para ganhar a aprovação dos outros e assim aumentar a confiança em si mesmo.

Nada melhor para ilustrar a homofobia e a hipocrisia da sociedade em que vivemos — na qual a maioria das pessoas defende os direitos humanos — do que a frase de Leonardo Matlovich, soldado da Força Aérea Americana condecorado por sua atuação na Guerra do Vietnã e expulso da corporação em 1975 por homossexualidade:
“A Força Aérea me condecorou por matar dois homens no Vietnã e me expulsou por amar um.”

Por mais que se denuncie o absurdo que o ódio e a frequente agressão aos gays representam, a homofobia não deixará de existir num passe de mágica. Seu fim depende da queda dos valores patriarcais que, já em curso, vem trazendo nova reflexão sobre o amor e a sexualidade.

Caminhamos para uma sociedade de parceria, e se nela o desejo de adquirir poder sobre os outros não for preponderante, a homossexualidade deixará de ser tratada como anomalia, passando a ser aceita como tão normal e saudável quanto a heterossexualidade.

terça-feira, 1 de julho de 2014

II Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro


O Coletivo Das Lutas em parceria com a Campanha Reaja ou será morta! Reaja ou será morto!, apresenta a segunda vinheta para a mobilização e fortalecimento da II Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro. Nesta vinheta, Andréa Beatriz, militante da Campanha Reaja e da Ação Comunitária Quilombo Xis, apresenta as razões que permitem qualificar a ação dos governos como uma prática genocida e convida a tod@s a se mobilizarem contra esta prática na construção de uma alternativa coletiva e popular. Tendo como momento aglutinador a II Marcha que será realizada em várias cidades do Brasil.

Assista:



Contra o genocídio do povo negro nenhum passo atrás!!!

O que afasta as crianças e adolescentes negros da escola?

Costumo dizer: Quer saber como está o país? Quer saber qual o futuro do país? Olhe pra escola pública. Olhe! Como está a escola pública no Brasil? Como está prédio, as portas, a lousa, o banheiro da escola? Como estão os professores? Como é o clima, os perfis e os assuntos na sala dos professores? Como estão os funcionários da escola? Qual é o conteúdo e a forma das aulas? Como estão os alunos da escola, como é sua vida? Qual a relação deles com a escola e com os estudos? A resposta a isso nos mostra o retrato de um país.

Sou professor de escola pública, educador social, militante do movimento negro e do movimento de cursinhos comunitários. Minhas respostas para essas perguntas não são nada animadoras. As suas são?

Acredito que uma das ações que poderia dialogar – ainda que não resolva – mas que poderia de fato provocar mudanças importantes dentro das escolas públicas brasileiras, em especial aquelas localizadas nas regiões mais precárias e periféricas do país, seria a efetivação da Lei 10639 e 11645, que tratam do ensino da História da África, dos africanos, de seus descendentes e da população indígena.

Mas eu entendo. Há sérios e justos motivos – por parte das elites racistas brasileiras – para que isso não ocorra e para que a escola pública não mude.

A jornalista Juliana Gonçalves esmiúça elementos caros a esse debate, com o primor que lhe é peculiar. Vale muito a pena ler!


Além das vulnerabilidades sociais, a discriminação racial e falta de diálogo com o repertório da cultura negra colaboram para a evasão escolar
 
Do sexo masculino, jovem, negro e pobre. Esse é o perfil típico de um adolescente fora da escola. Pesquisas demonstram que uma das principais barreiras socioculturais enfrentadas por meninas e meninos brasileiros é a discriminação racial. Ao contabilizar todas as idades, fica nítida a desvantagem dos negros em relação à população branca no acesso, mas, principalmente, na permanência na escola.

Ao todo, estima-se que há mais de 3,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos que não frequentam a sala de aula, segundo informações obtidas nos microdados do Censo Demográfico de 2010 e compiladas em um recente estudo do Unicef (1).

Números como esse, colocam o Brasil no triste pódio da terceira maior taxa (24,3%) de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH. De acordo com dados coletados no ano passado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), 1 a cada 4 alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série.

Não é de se estranhar que neste quadro de evasão os mais excluídos da escola são aqueles historicamente excluídos de toda a sociedade. “A pobreza influencia muito as taxas de evasão, e a população negra e indígena são os grupos mais vilipendiados”, afirma Miriam Maria José dos Santos, Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda. Miriam enxerga que há avanços neste quadro conquistados graças aos Programas de Governos que estão ajudando a romper o ciclo da pobreza, porém, a melhora dos últimos dez anos nem de longe interferiu drasticamente na realidade pautada em anos de omissão.

Em vistas de colaborar positivamente neste quadro, em julho, o CEERT em parceria com a Petrobrás lançará projeto que visa contribuir para que o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e demais legislação sejam utilizados na promoção da igualdade racial e no enfrentamento do racismo na infância, especialmente no ambiente escolar, fortalecendo a atuação dos conselheiros tutelares e demais profissionais do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Trabalho infantil e violência

Dados do relatório “Crianças Fora da Escola 2012”, também da Unicef, apontam que mais de um milhão de crianças e adolescentes, entre 6 e 14 anos, encontram-se trabalhando no Brasil, dessas 34,60% são brancas e 64,78% negras. Nesse período de vida, o trabalho infantil é uma das principais causas do abandono escolar.

As meninas negras ainda hoje são conduzidas a repetir um padrão que tem base no sistema escravocrata do passado. Cedo, começam a trabalhar como faxineiras nas casas de terceiros. De acordo com dados de 2013, divulgados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 93% das crianças e dos adolescentes envolvidos em trabalho doméstico no Brasil são meninas negras.

Além do trabalho infantil, a violência é outro pilar que sustenta as desigualdades raciais na educação. Apontamentos do IPEA de 2013 dão conta de que a chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação aos brancos(2).

O perigo de uma escola não atrativa

A maior taxa de evasão escolar está na adolescência e, apesar da pobreza e violência criarem cenários propícios para o abandono, nenhum desses aspectos foi apontado pelos próprios estudantes como o principal causador. Entre os 15 e 17 anos,40% dos estudantes deixam de estudar por considerarem a escola desinteressante. Em segundo lugar, figura o trabalho precoce, com 27% (3).


Outros apontamentos contidos no estudo da Unicef, com base em questionários respondidos pelos dirigentes municipais de educação de todo o Brasil, revelam que nesta mesma faixa etária, 653,1 mil adolescentes brancos não estudavam, ante 1 milhão de negros.
O índice alto de evasão desse público pode ser explicado parcialmente por um sistema educativo que não contempla a cultura e a identidade dos estudantes negros. “Essa escola não atrativa ao estudante em termos de conteúdo, de recreação e de profissionais que não dialogam com a realidade precisa mudar”, considera a presidente da Conanda, ao destacar, por exemplo, a necessidade de pais, alunos e sociedade cobrar o trabalho do conteúdo da LDB alterada pela Lei 10639/03 que versa sobre a inclusão da história e cultura negra dentro da sala de aula.

Conselheiros Tutelares devem estar atentos ao recorte étnico-racial

O ECA deixa nítido que a escola tem a responsabilidade de reter o aluno porque dispõe de ferramentas para localizá-lo e trazê- lo de volta. “Para isso gestores e professores precisam realizar uma vigilância positiva, manter dialogo constante com a família e não esperar a evasão para agir”, conta Miriam. A escola já é obrigada a acionar o Conselho Tutelar em caso de faltas constantes e injustificadas. “A sociedade pode ajudar por meio do Disque 100, denunciando anonimamente crianças e jovens que não estão frequentando a escola”, sugere.
Com relação ao recorte étnico-racial, Miriam afirma que a maioria dos conselheiros tutelares não está encaminhando demandas para os conselhos de direitos da Secretaria de Educação que demostrem falhas nas políticas públicas direcionadas a negros e indígenas, ou seja, muitos não estão atentos ao recorte étnico-racial presentes nos dados de evasão.

“Quando os dados exemplificam que há exclusão de um público especifico do ambiente escolar, isso significa que a escola não está dialogando com esse público e o conselheiro tutelar deve levar essa percepção à Secretaria de Educação”, declara. Infelizmente, os conselhos tutelares não estão cumprindo esse papel ou por falta de formações que orientem neste sentido ou pela infraestrutura precária de trabalho que enfrentam.

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Referências

(1)”O enfrentamento da Exclusão Escolar no Brasil”, estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

(2)Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) “Participação, Democracia e Racismo?”de 2013.

(3)Pesquisa “Motivos da Evasão Escolar” – desenvolvida com base nos Suplementos da PNAD 2009.

Amor e Luta: A mulher negra que sempre fui e não sabia


Quem me conhece sabe das minhas dificuldades em escrever. Meu negócio é falar. Sempre tive muito receio em escrever sobre minha própria história, mesmo não sabendo o motivo. Porém, Maria Carolina de Jesus tem soprado veementemente em meu ouvido que o fizesse. Não sei se ficará bom, mas, faço e publicizo.

Vinha no ônibus lendo o livro da SPM\PR “Mulheres Negras Contam sua História” e o primeiro texto traz a redação de uma companheira que faz parte do sindicato das trabalhadoras domésticas da Bahia. E ela trazia que luta e escreve para que jovens tenham um futuro diferente e pautado na dignidade. Fechei o livro e caminhei sobre a linha da minha própria vida.

Sou baiana, de Eunapólis, todavia, cresci em Tailândia, no estado do PA. Tenho hoje 25 anos e tive todo o conforto que os meus pais podiam me ofertar na primeira infância. Meu pai, um homem branco de olhos claros e cabelos escorridos trabalhava como gerente de serraria e por isso, tínhamos uma vida confortável. Só que aos finais de semana sempre tinha um churrasco em casa e meus pais sempre terminavam brigando. Vi minha mãe lutando com o meu pai várias vezes e os gritos eram atordoantes. Não sei como, mas, o meu pai começou a frenquentar o AA, que momentos de alegria poderia ver em minha casa. Só que não! Foi ai que ele, o meu pai, descobriu os cabarés da cidade. E para encurtar a história, ele saiu de casa, minha mãe após 17 anos como dona de casa, foi trabalhar como doméstica. Foram as primeiras visitas das necessidades em nossa porta.

Viemos a primeira vez para o ES. Moramos em um barraco que quando ventava, balançava todo. Eu, minha mãe e meu irmão, nem dormíamos de medo. Como foram difíceis aqueles anos. Sobrevivemos na base de muito trabalho de minha mãe em um supermercado. Um dia o telefone toca na casa de uma tia. O meu pai depois de quase dois anos sente saudades e pede que voltássemos. Largamos o pouco que tínhamos e fomos estrada a fora de rodoviária em rodoviária até chegar ao Pará novamente.

Meu pai não morava mais em uma casa de uma vila de serraria. Agora ele tinha uma casa no melhor bairro da cidade. E como ela era linda e grande! Nada se parecia com o barraco que ameaçava cair no ES! Não durou uma semana para que o meu pai nos abandonasse com R$ 14, 00, um frango na geladeira e a promessa de voltar no fim de semana. Dia esse que após 13 anos não chegou… A partir daí vieram as complicações de fato. Minha mãe cai em depressão, temos todos os móveis levados pela loja que não foi paga, a ex que meu pai vivia e era a dona da casa, passa a nos ameaçar de despejo e o fazia com frequência com a presença da polícia e o advogado alegou a minha mãe que o macho dela só saiu de casa por incompetência dela e a fome fazia parte de todo esse cenário. Para aliviar as dores estomacais, cozinhávamos mamão verde com sal em um fogareiro caseiro para durar mais um dia. Minha mãe até tentou voltar trabalhar como doméstica, só que não tinha forças. Eu e meu irmão assumimos as rédeas. Ele com quinze anos e eu doze. Lembro de um dia que ele se escondeu debaixo da cama para não ir trabalhar durante a madrugada. Levou um tremenda surra. Ele ajudante de padeiro e eu ajudante de cozinha de beira de estrada de um posto de gasolina. Não podia mais freqüentar a escola. Por este trabalho receberia R$ 20,00 semanais, uma refeição diária (essa que era levada e partilhada com a família) e várias cantadas de homens nojentos. Às vezes a minha chefe me liberava mais cedo para eu acompanhar o grupo de evangelização da igreja que fazíamos parte e às vezes me deixava ir à escola. Como era triste essas idas a escola! Nessa época eu tinha SOMENTE um calçado cheio de prego e que me fazia andar quicando por conta disso. Isso quando não quebrava mais alguma parte dele no caminho. Para que este fato não acontecesse, ia descalça para a escola e no portão da escola o colocava e saia quicando pátio a fora. As roupas eram de doação, então, sempre maior do que meu número. Parecia que eu tinha uns 40 anos!

A casa foi tomada e precisamos nos mudar. Com a ajuda da família fomos morar com uma tia na Bahia. Que alivio! Minha mãe trabalhava em casa de família de segunda a segunda, dormindo no trampo por R$ 150, 00. Às vezes eu ia pra lá e pra ir aprendendo o ofício também. Eu e meu irmão já íamos pra escola novamente. Parti a vender bolo na rua com uma prima no horário vespertino. Nesse período o meu pai nos ligou uma única vez pra dizer que sentia saudades e nunca mais escutei a sua voz.

Como o dinheiro tava curto, mãe parte para a capital do ES para trabalhar na casa de família e logo depois caiu em depressão. Eu, com os meus quatorze anos, assumi a responsabilidade de tocar a história. Larguei os estudos, vim para cuidar dela e comecei a trabalhar como babá nos fins de semana. Depois fui contratada para ficar integralmente. Eu e minha patroa realizamos o acordo de me liberar para estudar em algum turno. No ano seguinte, após entrar em um projeto de indicação para uma escola da Prefeitura, pois, a escola pública do bairro nobre não me aceitou por alegar que eu era muito velha para a série e ainda queria estudar no turno diurno! Eu já tinha 15 anos e estava na 6ª serie. Ainda bem que não fui para essa escola. Fui para uma outra, onde os professores, logo no fim do primeiro bimestre me indicaram para um provão e adiantei uma série. Nem sabia o que estava acontecendo. Mas, o melhor ainda estar por vir. No último ano do fundamental realizei várias provas para escolas particulares. Sugestão de uma das professoras! Passei com louvor e bolsa em várias nas melhores escolas de Vitória. Pude escolher para onde queria ir e partir. Estudei e fui preparada para o vestibular. Mesmo sem saber para quê era isso. Continuava como babá e governanta de um apartamento e no início, com uma folga mensal.

Não me divertia, namorava ou qualquer coisa usual de uma jovem. Aliás, eu nem sabia o que era ser jovem. Não me sentia, não agia e nem imagina o que era ser isso na vida. Sempre saia com meus patrões para onde quer que fossem. Algumas vezes, as colegas de sala do fundamental me carregavam e como eu me sentia estranha perto delas. Elas tão vivas e intensas e eu assustada com o mundo. Um dia na escola de ensino médio uma garota perguntou se era verdade que eu trabalhava como babá e após confirmar, nunca mais falou comigo.

O meu cabelo vivia alisado e preso. Os meus cachos eram vergonha para mim… Era uma carga muito pesada. Em nada eu parecia com as meninas da escola. Sempre fiz amizade fácil e tava rodeada de gente, só que o meu forte era jogar com os meninos qualquer esporte que me colocasse a frente. Eu não me sentia pertencente a nada. Me sentia flutuante. Sem um espelho social para olhar e me enxergar.

Aos 20 anos no 3º ano do ensino médio, eu era a mais velha da turma. Vi uma matéria na TV com um grupo de assistentes sociais, pesquisei e realizei metade das provas nas faculdades particulares para tal profissão. Que fracasso! Até como suplente eu ficava ruim na classificação. Sai das cadeiras da frente e fui para a turma do fundão.

Minha rotina diária era trabalho e escola. Só! Mais nada! Da escola para o trabalho e do trabalho para a escola. Se me atrasava um pouco, o celular que ganhei para o trabalho, logo tocava. E mesmo com minha auto estima lá embaixo, passei no vestibular da Federal! Que dia mais feliz! A irmã de uma amiga ligou e eu sai atordoada pela rua tentado pegar um ônibus ou uma lan house para ver o meu nome classificado. Minha família fez tanta festa. Sem sabermos o que isso poderia significar, comemoramos!

UFES… o grande machado! Foi após romper com o espaço da universidade que as correntes foram cortadas. Depois de dois anos, num período que sai da casa que trabalhava e fui me sustentar sendo garçonete e voltar a casa da família, larguei o ofício de empregada doméstica e passei a ser bolsista de Extensão Universitária para receber R$ 360,00! Aos longos dos meus 22 anos eu pude me sentir jovem! Tinha tempo para pintar a universidade de povo. Logo fui fisgada pelo Movimento Negro e pude perceber o que era ser jovem, mulher e negra. Tomei consciência do que aconteceu e ocorre com os meus irmãos. Que quantas Neirieles estão limpando bunda de neném ou servindo mesas por ai sem perspectiva nenhuma de futuro. Que meu cabelo crespo é lindo e é como a música que gosto. Só serve com o volume alto! Foram 4 anos de muita peleja e aperto e diante disso, como ter outras mulheres negras, na mesma condição que você, faz com que o caminho fique mais suave. Compartilhamos as dores e alegrias daquela instituição. Individualmente a minha história poderia ser mais uma, porém, ela é o resultado do fruto de anos e anos da luta de meu povo. Devo isso a Aqualtune, a Carolina de Jesus, as Célias, Ivalnis, Zélias e Marias.

Hoje, fazendo parte do Fórum Estadual e Nacional da Juventude Negra e diante de toda a mobilização para o II ENJUNE, percebo que nós mulheres negras precisamos falar e escrever sobre a sua história para que outras jovens e mulheres se percebam como tais e se juntem a nós pelo fim das opressões.

Imagem destacada por Helga Weber, Flickr.Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

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Neiriele Marques nasceu na cidade de Eunápolis - BA, em 04 de novembro de 1988. Cresceu em Tailândia - PA, porém, é no Espírito Santo que vive nos últimos anos e onde descobri-se jovem, mulher e negra. É integrante do Coletivo de Mulheres Negras Aqualtune e uma das coordenadoras do Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo. Formou-se em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo e desenvolve atividades profissionais na área racial.

Conheça o homem que revolucionou o absorvente higiênico em vilarejos da Índia

Como a maioria dos homens adota a abordagem de avestruz quando se trata da menstruação feminina, as realizações de Arunachalam Muruganantham –- inventor de uma máquina que fabrica absorventes higiênicos baratos para mulheres da zona rural da Índia – são ainda mais notáveis.

Durante os anos que passou pesquisando, ele perdeu sua mulher, sua mãe se mudou para longe, enojada, e os outros moradores de seu povoado ficaram tão perturbados que lhe ofereceram uma escolha: ser amarrado de ponta-cabeça a uma árvore sagrada ou ser exilado. Mesmo assim, Muruganantham não desistiu.


Na Índia, a menstruação não é apenas um tema tabu. No caso das mulheres que vivem em vilarejos rurais, a menstruação atrapalha seriamente o ensino, porque as garotas ficam em casa, faltando às aulas e provas, durante os cinco ou seis dias de sua duração. Com isso, algumas meninas acabam nem se dando ao trabalho de ir à escola.

E há o impacto dela sobre os ganhos da família: quando as mulheres passam uma semana em cada quatro sem poder trabalhar, isso afeta o total recebido pela família. Enquanto estão menstruadas, as mulheres não podem ir ao templo nem preparar comida.

Então como o extraordinário Muruganantham, ou Muruga, como ele próprio se chama, se enquadra nesse contexto?

Filho de mãe solteira, nascido numa família pobre de Coimbatore, no sul da Índia, Muruga teve a ideia quando estava tentando impressionar sua mulher, com quem estava casado havia pouco tempo.

Falando ao HuffPost UK Lifestyle, ele contou: “No início de nossa vida de casados, a única hora em que eu conseguia falar com ela a sós era na hora do almoço, porque vivíamos com a família.”

“Um dia, na hora do almoço, eu a vi segurando alguma coisa escondida nas costas e perguntei ‘o que tem em sua mão, Shanti?’. Ela me deu um tapa no rosto e falou ‘não é de sua conta’. Então vi que era um trapo sujo.”

“Sou o filho mais velho de minha família e tenho duas irmãs mais jovens, então eu sabia o que era. Quando eu era criança, tínhamos uma privada aberta, sem telhado. De vez em quando eu encontrava panos manchados que me faziam fugir da privada. Eu vi a mesma coisa nas mãos de minha mulher e falei: ‘Por que você não compra absorventes descartáveis?’ Ela me disse que tinha que usar os panos porque absorventes descartáveis custam caro.”

Muruga decidiu comprar um pacote de absorventes como presente para sua mulher. Foi a uma farmácia comprar um pacote, e este lhe foi entregue embrulhado em muito jornal. “Era como se ele estivesse me dando um produto contrabandeado. Mesmo hoje, em cidades grandes como Mumbai e Déli, eles embrulham os absorventes e os tratam como se fossem alguma coisa que deve ficar escondida.”

Olhando para o absorvente higiênico, Muruga disse que ficou pasmo com o preço, em se tratando de algo que parecia tão feio. Um absorvente pesava menos que 14 gramas, mas era vendido a 40 vezes o preço do algodão cru. “Parecia um curativo grande. Eu sou filho de uma tecelã tradicional. Naquela época, em 1997/98, o algodão custava pouco.”

Muruga decidiu fabricar seus próprios absorventes. Comprou uma rede de algodão, a cortou em retângulos e a envolveu em tecido viscoso. Mas então surgiu o maior problema. Como ele poderia testar sua criação? “Eu precisava pesquisar algo que é extremamente tabu, numa região do mundo altamente conservadora. Uma mulher não fala desse assunto com seu marido, nem com sua mãe.”

Ele pediu feedback à sua mulher, e foi apenas então que entendeu que as mulheres menstruam mensalmente, e não em dias fixos. “Ela me disse que eu teria que esperar para que ela pudesse me dar o feedback. Até então eu não sabia disso. Na realidade, 99% dos homens não sabem o que acontece com o corpo da mulher.”

O feedback não foi ótimo. Shanthi disse que a criação de Muruga era “desagradável” e que ia voltar a usar os panos. Quando Muruga abordou suas irmãs, elas se recusaram a lhe dar um retorno, e então ele sofreu um terceiro golpe.

Horrorizada com seus experimentos, sua família lhe disse que, se ele continuasse a fazer o que estava fazendo, ela se negaria a alimentá-lo.

Mas Muruga levou suas pesquisas adiante em segredo. Ele sabia que o uso dos panos pelas mulheres não era uma opção viável, mas a maioria das mulheres do país continuava a usá-los. De acordo com o The Times of India, apenas 12% de 355 milhões de mulheres que menstruam usam absorventes higiênicos. Para a BBC, que publicou uma matéria sobre Muruga, as consequências para a saúde são sérias.

“As mulheres que usam panos com frequência têm vergonha de deixar que sequem ao sol. Com isso, os panos não são desinfetados. Aproximadamente 70% das doenças reprodutivas na Índia são causadas por falta de higiene menstrual. Isso também pode afetar a mortalidade materna.”

Muruga voltou sua atenção às mulheres de uma faculdade de medicina, calculando que elas teriam menos reservas se fossem abordadas. Foi e voltou de bicicleta – 40 km de ida e outros 40 de volta – para buscar as folhas de feedback delas, mas acabou por descobrir que elas estavam falsificando as respostas. “Encontrei três delas ocupadíssimas preenchendo as folhas das outras.”


O único recurso que lhe restou, disse Muruga, foi experimentar o absorvente, ele próprio. Embora seja admirável e provavelmente faça de Muruga o único homem no mundo a usar um absorvente higiênico para pesquisar um produto para facilitar a vida das mulheres, essa decisão lhe criaria problemas de todos os tipos.

“A questão era: onde eu ia conseguir um útero? Então fabriquei um útero com uma bexiga de futebol, o enchi de sangue de animal e fiz um furinho. Usei o falso útero em todo lugar, enquanto andava a pé ou de bicicleta, debaixo do meu ‘dhoti’ (um pano amarrado em volta do corpo, como um sarongue).”

Muruga estava usando métodos altamente incomuns, e, num povoado pequeno, esse fato não passou despercebido. Na verdade, as pessoas pensaram que ele tivesse enlouquecido. Ele lavava seus panos no poço comunitário, e as pessoas começaram a comentar. “Num povoado pequeno e ortodoxo, a maior ocupação da maioria das pessoas é olhar para o que as outras estão fazendo.”

Os boatos se espalharam, e, depois de ouvir uma fofoca de que Muruga estaria tendo um caso com as moças da faculdade de medicina, Shanthi fez as malas e disse que ia fazer uma visita a seus pais. Ela não voltou.

Depois que ela partiu, Muruga teve sua próxima grande ideia. Em lugar de usar um útero improvisado, ele examinaria absorventes higiênicos usados e veria como funcionavam. “Achei que era pouco natural usar o absorvente em mim, mas o fato de tê-lo usado me levou a respeitar as mulheres, por enxergar a coisa desde a perspectiva delas. Desafio qualquer homem a fazer o mesmo.”

Ele já sabia que o algodão não funcionava. Não absorvia o líquido muito bem, e, mesmo quando absorvia, o líquido acabava filtrando para fora.

Mas como ter acesso a absorventes usados? “Mesmo que você estivesse no Reino Unido, se pedisse um absorvente interno usado, a mulher chamaria a polícia.”

Ele encontrou algumas voluntárias que concordaram em deixar seus absorventes usados numa lata de lixo especial, onde ele os buscaria. Amarrando um lenço no rosto para afastar o cheiro, Muruga fez seus experimentos.

Para sua mãe, a gota d’água foi quando ela viu uma fila de absorventes usados secando ao sol –a técnica de Muruga para reduzir o cheiro.

Convencido que seu filho estava sob o domínio de alguém que estava fazendo magia negra, ela fez as malas. Depois que ela partiu, os moradores do vilarejo o cercaram. “Eles acharam que eu era um pervertido, então a solução que propuseram foi me amarrar a uma árvore sagrada, de cabeça para baixo. Me deram a opção de deixar o vilarejo. Foi o que eu fiz.”

Muruga foi dividir um quarto pequeno com cinco pessoas. Com a ajuda de um professor universitário, começou a pesquisar os materiais usados. Então descobriu que a resposta era usar celulose, e não algodão.

Seu principal problema era que as máquinas que decompõem a celulose custavam milhares de libras. A única opção viável seria construir sua própria máquina. Depois de quatro anos e meio, ele conseguiu.


Hoje Muruga tem 250 máquinas, e, apesar da hesitação inicial, as máquinas foram adotadas em 1.300 vilarejos espalhados pela Índia. São operadas e vendidas por mulheres, de modo que há menos estigma associado à compra de uma delas.

Depois que Muruga mostrou sua máquina ao Instituto Indiano de Tecnologia, o IIT, em Chennai, o instituto o candidatou a um prêmio de inovação nacional. Ele ganhou o concurso e recebeu o prêmio das mãos do então presidente da Índia, Pratibha Patil.


Mas seu maior motivo de orgulho foi ajudar as garotas de um vilarejo tribal a frequentar a escola, depois de séculos, porque elas não precisavam mais ficar em casa quando estavam menstruadas.

E uma notícia ainda melhor: sua mulher voltou para ele. Questionado sobre o que motivou tamanha paixão por um projeto que se estendeu por 15 anos e que buscou especificamente empoderar as mulheres, Muruga respondeu:

“Fui criado por mãe solteira. Eu vi como minha mãe lutou para me criar, então eu quis fazer isto para ajudar outras mulheres a ganhar a vida para sustentar suas famílias.”

E então ele diz algo tão comovente que é poderoso: Se você empodera uma mãe, empodera um país.”

Fonte: Brasilpost