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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Anistia Internacional chama de “discriminação” e “racismo envergonhado” ação de PM e shoppings contra ‘rolezinhos’






Informe exibido à entrada do JK Shopping comunica decisão da Justiça que barra evento "Rolezaum no Shoppim" (Foto: Taba Benedicto / Futura Press)

POR RODRIGO RODRIGUES,
São Paulo viveu mais um fim de semana de conflitos em virtude dos chamados “rolezinhos”, um encontro surpresa de jovens da periferia que geralmente acontecem em estacionamentos de shoppings, no intuito de promover um rápido show de funk, tomar cerveja e se divertir. 


De acordo com relatos publicados na imprensa nesta segunda (13), sem indícios de que se tratavam de criminosos, a PM revistava e coibia a entrada de alguns jovens nesse shopping, com ameaças do tipo “Vou te arrebentar se te ver por aqui de novo”.

Enquanto a barbárie acontecia em Itaquera, do outro lado da cidade, na Vila Olímpia, Zona Sul, o shopping JK Iguatemi ingressou com uma liminar na Justiça justamente para impedir a realização de outro evento chamado "Rolezaum no Shoppim", que aconteceria no mesmo sábado. O evento se tratava de uma piada criada por um professor indignado com a “fobia” dos shoppings contra os jovens da periferia. 

Sem entender a gozação, o shopping foi à Justiça e conseguiu uma liminar que punia em R$10 mil por dia quem resolvesse aparecer por lá. Policiais e seguranças armados na porta do shopping revistavam qualquer jovem que parecesse não se enquadrar no perfil dos freqüentadores, exigindo identificação para poder entrar, seja para comprar ou trabalhar.

O diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, Átila Roque, vê a reação da PM de São Paulo e dos shoppings claramente como uma “atitude discriminatória e ilegal, de acordo com a legislação brasileira”. 

Para Átila, a atitude da PM e do shopping JK Iguatemi mostra um “racismo envergonhado é que incomoda de forma tão desproporcional os donos e freqüentadores desses shoppings”.

Ele se diz absolutamente chocado com o grau de violência da PM na ação do shopping Itaquera e afirma mais uma vez estar preocupado com a escalada de violência das forças públicas contra os jovens. “Estamos de novo mostrando a natureza extremamente discriminatória que persiste na sociedade brasileira”, declara. 

A Anistia Internacional é uma das principais entidades de defesa dos Direitos Humanos no mundo. No Brasil tem sede no Rio de Janeiro. Confira a entrevista completa de Átila Roque, principal representante da entidade no País.

Além de ingressarem na Justiça, os shoppings estão convocando a PM e a Tropa de Choque para impedir a realização desses chamados “rolezinhos”. É a postura correta?

A forma como a classe média alta e a Polícia Militar tem reagido aos “rolezinhos” é claramente excessiva. Coloca em discussão a questão da segregação do espaço. Esses “rolezinhos” podem ser vistos por vários ângulos, mas o principal deles é uma espécie de bem humorado ato político contra a privação de direitos. Ele assusta aqueles que já se acostumaram de certa maneira com a geografia segregada das cidades brasileiras, onde cada um tem o seu lugar e onde cada um deve saber qual é o seu lugar. O que esses jovens estão fazendo é colocar esse “seu lugar” em discussão. 

A Polícia usou balas de borracha e gás de pimenta contra um grupo de jovens nesse fim de semana. A justificativa era a de tentar coibir saques e roubos antes que eles acontecessem. O que lhe parecesse essa atitude?

O que em geral se aceita é que para o negro jovem e pobre possa freqüentar um shopping de luxo, ele tem que estar ou com o uniforme de segurança ou de babá. Se ele não está vestido assim, está fora do "seu lugar". Não foi constatado nenhum ato de violência ou vandalismo por parte da maioria desses jovens. O que se tem até agora são jovens rindo, brincando, às vezes falando alto, coisa que é próprio dos jovens de qualquer classe social. É natural que eles sejam acompanhados por seguranças para evitar que haja qualquer bagunça. Agora, daí a querer cercear de forma agressiva, bloqueando a passagem com ajuda da polícia e a presença ostensiva do Choque, é uma forma clara de discriminação. Basta ver na internet vídeos que pipocam mostrando jovens brancos fazendo exatamente a mesma coisa, mas sem intervenção da PM. Se é branco e de classe média eles chamam de “flashmob”. Quando é negro e pobre vira ameaça de arrastão, como bem disseram alguns internautas hoje. 

O governador de SP e as entidades públicas como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) se calaram até agora sobre esses fatos. Isso legitima essa discriminação mencionada por você?

A sociedade precisa aproveitar esse momento para discutir as características extremamente segregadas das cidades brasileiras. O racismo envergonhado é que incomoda de forma tão desproporcional os donos e freqüentadores desses shoppings. Simplesmente pela presença física do outro que não é igual ou não segue o ideal de normalidade que se convencionou para aquele local. Pra essa turma aquele é um local apenas reservado para um tipo de pessoa e classe social. Eu vejo expressão política e bem humorada desses jovens a favor da afirmação de direitos. Com uma certa provocação até, claro. Mas uma provocação muito criativa. 

Usar bala de borracha e gás de pimenta para proteger um shopping é uma atitude correta da Polícia Militar?

Não. Claramente excessiva. Mas infelizmente dentro da tradição das ações das forças de segurança no Brasil, que agem apenas para preservar a propriedade. Os shoppings, ainda que se tratem de espaços privados, são áreas de circulação pública. As pessoas entram no shopping para olhar, encontrar amigos, exercitar o olhar de desejo por algo que elas não podem ter e até comprar. É um espaço privado de circulação social. Quando se chama as forças de segurança para exercer uma restrição contra um certo perfil de pessoas – no caso o jovem, negro e pobre – isso é claramente uma atitude discriminatória e ilegal, de acordo com a legislação brasileira.

A polícia atuar sem nenhuma provocação, simplesmente para impedir o acesso, com base num preconceito ou numa pré concepção de que eles estariam ali para roubar ou saquear, é absolutamente inadequado. Eu li com grande espanto esse uso da força pela PM, com gás de borracha e pimenta contra esses jovens. Estamos de novo mostrando a natureza extremamente discriminatória que persiste na sociedade brasileira. 

Os atos de violência da PM de São Paulo foram o estopim para as manifestações públicas de junho do ano passado. A ação deles nesses “rolezinhos” é sinal de que não aprendemos nada com aqueles atos?

Acho que precisamos ainda aprender com o que vivemos em junho passado e tirar algumas lições. Lições de que hoje existe na sociedade brasileira um anseio legítimo por inclusão. É um anseio por políticas públicas e de acesso antes reservados a muito poucos. O Judiciário, o Estado e a Polícia precisam rapidamente se atualizarem para reconhecerem essas demandas como absolutamente legítimas. Aquele foi um momento que a sociedade veio demonstrar com bastante veemência que alguma coisa está fora do lugar. E que não é mais aceitável esse tipo de postura. 

Como aconteceu em junho passado, essa postura violenta na PM pode causar nova comoção na sociedade e levar as pessoas às ruas novamente?

Uma parte das manifestações diz respeito justamente a essa demanda por acesso, seja à Cultura, Territórios ou Espaços que se pretende reservar apenas para alguns. O “rolezinho” é apenas uma dessas demandas por acesso. É bom que a Polícia e o Estado compreendam isso, para não transformarem isso num fator de conflito e violência novamente.

Fonte: Terramagazine.

VETO A ROLEZINHO CONSAGRA O APARTHEID BRASILEIRO



A lei é clara. Define como como crime "recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador" e as penas de reclusão variam de um a três anos; foi exatamente isso o que aconteceu ontem no shopping JK Iguatemi, quando uma triagem, respaldada por liminar judicial, impediu a entrada de jovens da periferia; em Itaquera, na zona leste, jovens foram agredidos com balas de borracha e cassetetes; repressão aos "rolezinhos" explicita o quanto o Brasil ainda tem que avançar em matéria de igualdade; três jovens foram presos em São Paulo.

247 - Em janeiro de 1989, ainda no governo do ex-presidente José Sarney, foi promulgada a Lei 7.716, que define os crimes de preconceito de raça ou de cor. O artigo quinto é claro e define como crime "recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador". As penas de reclusão variam de um a três anos.

Foi exatamente isso o que ocorreu ontem no shopping JK Iguatemi, do empresário Carlos Jereissati, quando seguranças do shopping fizeram uma triagem para definir quem poderia entrar e quem deveria ficar de fora – no segundo grupo, estariam todos aqueles que tivessem aparência de jovens da periferia, ou seja, pardos ou negros.

Cientes de que não poderiam discriminar clientes de forma tão explícita – até porque a lei 7.716 é clara e tem penas severas –, os donos do shopping só conseguiram fazer a triagem porque obtiveram uma liminar judicial. Ou seja: o preconceito foi respaldado pela Justiça. Temia-se que jovens da periferia realizassem no JK Iguatemi, Meca do luxo, em São Paulo, um "rolezinho" – manifestação que afirma a identidade desses jovens e tenta mostrar para a sociedade que não são invisíveis ou cidadãos de segunda classe. No entanto, com a liminar, a Justiça contribuiu para que fosse erguida, em São Paulo, a muralha do preconceito (leia mais aqui).

Diante disso, o blogueiro Eduardo Guimarães, colunista do 247, afirma que um direito constitucional dos jovens da chamada nova classe média foi violado (leia aqui). E o sociólogo Rudá Ricci compara o rolezinho ao movimento "occupy" – a diferença é que, desta vez, exercido por cidadãos da perifeira (leia aqui).

Tão grave quanto o ocorrido no JK Iguatemi foi o desfecho do "rolezinho" no shopping Itaquera, na zona leste de São Paulo. Lá, os jovens foram agredidos com cassetetes e balas de borracha pela polícia, sem que tivesse havido qualquer registro de violência.

No próximo sábado, dia 18, haverá um novo "rolezinho" no shopping Itaquera. No JK, a liminar ainda impede a entrada de todo e qualquer menor desacompanhado – a menos que convença os seguranças que não tem tipo de jovem da periferia. Ou seja: a justiça consagrou o apartheid brasileiro.

O que também comprova o atraso do País na promoção da igualdade. Em 11 de junho de 1963, quando negros eram impedidos de frequentar os mesmos estabelecimentos comerciais dos brancos, nos Estados Unidos, o então presidente John Kennedy fez um de seus mais importantes discursos. Disse o básico: que todos os cidadãos americanos, independente da cor ou da aparência, têm direito de frequentar os mesmos estabelecimentos. Assista:


Leia, ainda, reportagem da Agência Brasil sobre a prisão de três jovens em um "rolezinho" em São Paulo:

PM prende três pessoas após “rolezinho” em shopping na zona leste de São Paulo

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil
São Paulo – A Polícia Militar deteve três pessoas em uma ação para conter um tumulto na noite de ontem (11) no Shopping Metrô Itaquera. Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP), centenas de jovens promoveram quebra-quebra, furtos e roubos no centro comercial. O encontro foi um dos chamados rolezinhos, marcados para ocorrer em shoppings da Grande São Paulo. A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes contra os adolescentes.

De acordo com a SSP, uma loja de jogos eletrônicos teve as portas arrombadas e parte da mercadoria roubada por pessoas portando pedaços de madeira. Dois jovens, de 15 e 19 anos, foram detidos com pedaços de pau. No entanto, nada foi encontrado com eles.

Um adolescente de 16 anos foi detido, segundo a PM, com um celular roubado no bolso. Ele é suspeito de ser uma das 11 pessoas que agrediram dois irmãos com socos e chutes. O grupo roubou celulares, tênis e bonés das vítimas do lado de fora do shopping. O menor apreendido será encaminhado para a Vara da Infância e Juventude.

Os rolezinhos, encontros marcados pelas redes sociais por jovens da periferia em centros comerciais, começaram no final do ano passado. Os primeiros foram organizados por cantores de funk em resposta a aprovação pela Câmara Municipal de um projeto de lei que proibia bailes do estilo musical nas ruas da capital paulista. A proposta foi vetada pelo prefeito Fernando Haddad no início de 2014. Os rolezinhos continuaram, no entanto, a serem organizados. A polícia tem reprimido os atos.

Para o sociólogo João Clemente Neto, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, as manifestações emshoppings estão ligadas à carência de locais para lazer e cultura. “Se você for em alguns lugares, mesmo nos bairros da classe média, você não encontra espaço para isso. Se você pegar a cidade de São Paulo, quantos milhões de jovens e adolescentes nós temos? E os espaços para livre manifestação são minúsculos”, ressaltou o professor, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Para Neto, os jovens optam por se manifestar nos shoppings pela visibilidade dos locais e pela mensagem que eles tentam passar. “Tudo que nós falamos de consumo, que ele quer ver e quer consumir, aparece noshopping. E, ao mesmo tempo, é uma forma de resistência, porque ali é o espaço do consumo. Então, quando você fala ali, é uma forma daquele grupo se reconhecer naquele espaço”, concluiu.

Fonte: Brasil247.

Cidinha da Silva conversa sobre Racismo no Brasil e Afetos Correlatos


Debate via chat, Amanhã (15), às 20h, a autora Cidinha da Silva conversa sobre o livro "Racismo no Brasil e Afetos Correlatos". Cadastro pelo site www.literatura.ning.com.

Fonte: Seppir.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Dez anos depois, política de cotas permite maior ingresso de negros na UnB

"Por ser negro, entrei pelas cotas para reafirmar a política. Desde a escravidão, jogaram os negros em um canto e não olharam para eles", diz Higor Faria, 23 anos, funcionário do Tesouro Nacional
Sistema de reserva de vagas será reavaliado pelo Centro de Ensino, Pesquisa e Extensão em março. Na última década, 18,5% dos formados são negros. Políticas afirmativas permitiram uma mudança importante: 41% dos alunos aprovados entre 2009 e 2013 são afrodescendentes

A Universidade de Brasília ganhou mais cor. Nos últimos quatro anos, o ingresso de alunos na UnB consolida uma tendência há muito almejada pela instituição de ensino: a maior presença de negros em sala de aula. Do total de aprovados no Programa de Avaliação Seriada (PAS) e no vestibular entre 2009 e 2013, 41% são negros. Essa mudança tem relação direta com a política de cotas raciais, adotada pela UnB desde 2004, e pela legislação federal que instituiu as cotas sociais em 2012.

Os 20% de vagas exclusivas para negros no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de 2014 têm chance de serem os últimos da história. As cotas de caráter racial, iniciativa de vanguarda da UnB, serão reavaliadas. A ação afirmativa completa 10 anos e o destino dela está nas mãos dos quase 70 integrantes do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). De 2004 até o ano passado, 18,5% dos estudantes que se formaram pela universidade são negros e ingressaram na instituição graças ao sistema.

Reparação histórica

O funcionário do Tesouro Nacional Higor Faria, 23 anos, entrou pelas cotas para negros em 2008. Na época, a política começava a ser consolidada e vigorava o senso comum de que o ingresso deles faria cair o nível de ensino da instituição. “Éramos bem estigmatizados. Por ser negro, entrei pelas cotas para reafirmar a política. Desde a escravidão, jogaram os negros em um canto e não olharam para eles. Estudei a vida inteira em escola privada. Não acho que a existência das cotas sociais elimine a existência da outra reserva”, afirmou.

As lições de Carolina e seu cabelo crespo na escola




Carolina tem 6 anos, ama seu cabelo crespo e dá dicas para meninas de como lidar com os comentários sobre seu cabelo na escola. Este vídeo é dedicado a todas as crianças do mundo.


Mas sobre cabelos crespos:
Fonte: Geledes.

Liberdade, par perfeito da arte

(Foto: Divulgação)

O rapper Slim Rimografia aceitou participar do BBB14. Há casos de quem ocupou o espaço global para a “revolução”, como Ellen Oleria, a presidenta Dilma Roussef, a Cia Capulanas e as Meninas Black Power

Por Cidinha da Silva, no Geledes,
Cidinha da Silva lembra de personalidades que usaram o espaço “global” para a “revolução” . Outro artista do Rap nacional está numa programação global, Slim Rimografia, no BBB14. Parcela do público que o havia elevado ao céu revolucionário quer agora sepultá-lo no umbral dos vendidos ao capital.

Talvez só o rapper Thaíde, quando participou da minissérie Antonia, não tenha sido tão policiado. Não teve a mesma sorte Edi Rock no Caldeirão do Huck e mesmo Alessandro Buzo e seu quadro semanal em jornal local do meio dia, veiculado na maior cidade da América Latina, umas das cinco maiores do mundo, São Paulo.

A Cia Capulanas de Arte Negra, cuja proposta é atuar nas periferias da cidade e oferecer arte para quem mora nesses locais, experimentou explosão de público da quebrada pós divulgação no programa do Buzo. Até então, amigos, outros artistas, fãs de diversos pontos da cidade, expectadores de outros estados levavam entre duas e três horas no transporte público para lotar cada uma das apresentações de “Sangoma”.

Depois da passagem pelo telejornal, finalmente, os moradores do bairro São Luís, cenário de muitas lutas e músicas do Racionais MCs, sentiram-se motivados a conferir quem eram aquelas mulheres que havia vários finais de semana iniciavam uma apresentação artística cantando e dançando na laje de uma casa. Naquele sábado, a Cia Capulanas, a despeito do desgaste físico e emocional de um espetáculo denso e intenso, resolveu apresentar-se pela segunda vez, para atender a dezenas de pessoas que, em sua maioria, nunca haviam ido ao teatro.

Em contraposição aos artistas criticados o público cita o escritor paulista Eduardo, autor de “A guerra não declarada na visão de um favelado”, que recusou convite para entrevista no Programa do Jô. GOG, ícone da velha escola, também é lembrado, pois desdenhou do convite da Globo para cantar em eventos da Copa no Brasil e fundamentou a negativa: “não aceito o convite, não negocio com vocês, não me procurem mais, esqueçam o meu nome. Vocês patrocinam o apartheid brasileiro. Bando de racistas!”

Eu, mirando o mundo do Rap de fora, fico imaginando as reações destemperadas, até coléricas de alguns pares, agregados e coligados ao Rap nacional, quando vier a público o primeiro CD individual de Mano Brown com repertório dançante e romântico. Panela de pressão vai perder feio para a chiadeira da geral.

Arte e liberdade são sinônimas, caminham lado a dado, aquela depende desta. Artistas precisam ser livres para criar e para fazer circular seu discurso estético e político (a política da estética escolhida), nos canais que julgarem convenientes, para atingir o público desejado. Que venha o tempo em que sejam responsabilizados por suas escolhas, no caso de serem caminhos ruins, de provocarem danos, de referendarem atitudes e discursos arbitrários, conservadores, reacionários, mas, apenas por isso, que não sejam crucificados pelas patrulhinhas de juízo de valor, dor de cotovelo ou umbigo ferido.

Dia desses, em show da Ellen Oléria no DF, uma quilombola paranaense comentava sobre uma conversa de palco entre o Oceano-Oléria e GOG. Ele teria provocado o público ao proclamar que “a revolução não será televisionada”. Ellen, visionária e anos luz à frente dos clichês, teria dito: “enquanto eu estiver por lá, será televisionada, sim!”

Quando me informam que as Meninas Black Power mandaram muito bem no programa matinal para mulheres da Fátima Bernardes, sinto cheiro do novo. Quando a Presidenta Dilma e a Ministra Luiza Bairros arrebentam no “Esquenta”, o novo sorri outra vez. Quando Ellen canta “Testando”, música de sua autoria, para coroar a premiação da segunda edição do The Voice Brasil, não tenho dúvidas, o novo está arrombando portas. Enquanto nossa gente, como Ellen, a Presidenta, a Ministra, Cia Capulanas, as Meninas Black Power, entre outras, optarem pela ocupação do espaço global, pela globalização das mensagens que querem mandar ao mundo, o novo me arrebatará, mesmo descrente de revoluções.

Fonte: Revista Forum.

Racismo: Sistema Operacional Brasileiro


por Ricardo Andrade,
O racismo no Brasil funciona como um sistema, ou seja um conjunto de elementos interligados, que atua de forma precisa, no sentido de manter a segregação e a distância social, que impede o desenvolvimento da nação. 

O primeiro sistema sócio político implantado no Brasil foi o sistema escravocrata e dele se originou os pilares que estruturaram as bases da nossa sociedade. Daí pra frente, tudo que acontece a nossa volta está correlacionado a esse sistema, que atua na manutenção da pirâmide social. O racismo está presente em tudo. Podemos dizer que o racismo está para a sociedade brasileira tal e qual o Windows está para um computador pessoal. 

Quando ligamos o PC, é o Sistema operacional Windows que nos recebe, nos direciona e nos conduz a todos os programas, acessórios e ferramentas existentes na máquina. É o Sistema que nos permite ou não desenvolver as ações que queremos. Se nossa intenção ao ligar o PC for escrever um texto, será o Windows que nos direcionará ao world e disponibilizará as ferramentas de digitação e formatação. Caso nossa intenção seja a elaboração de uma tabela, será o sistema Windows que nos conduzirá ao Excel e as suas funções. É o Windows que nos faz navegar por todo o conteúdo de um PC. É esse sistema que abre e fecha os programas. É o sistema que liga e desliga a máquina e, se por acaso tentarmos executar alguma ação, que não esteja em sintonia coma sua programação original, o sistema para, a máquina trava e, se essa intervenção acontecer de forma que drible a capacidade de gestão desse sistema, ele reinicia, para que a sua função original seja mantida: A função de proporcionar a operação da máquina exclusivamente para aquilo que ele foi programado. 

Com a nação brasileira é assim também que as coisas funcionam! É o Sistema Operacional Racismo que determinou e dita às regras do funcionamento do Estado Brasileiro. É o racismo que seleciona quem deve ou não concluir os estudos. É o sistema racismo que aponta os que devem morrer, os que devem se aposentar, entre outras definições. O racismo determina quanto de recurso será alocado na educação e na saúde. É o sistema operacional racismo que determina a intensidade da luz que se coloca nos postes dos bairros populares. Determina ainda, o horário e a frequência da coleta do lixo. É o racismo que especifica a política de segurança e a política alimentar. É o racismo que elege a imensa maioria dos representantes legislativos. É o racismo que versa sobre o judiciário, que pauta a política carcerária. O racismo está presente também no processo de formação intelectual e profissional das polícias, advogados, médicos... 

Assim como o Windows, o racismo está presente em tudo, ele incide sobre os partidos políticos, sobre as religiões, sindicatos, associações. Não há nada que passe despercebido pelo racismo. Caso haja alguma ação, que vá de encontro ao racismo, imediatamente os elementos de defesa se manifestam, a máquina para. Logo, logo algum jurista formado pelo racismo encontra inconstitucionalidade em programas como cotas, bolsa família e outras ações afirmativas. Quando vamos de encontro a esse sistema a mensagem de -“uma ameaça foi identificada”-, é disparada e, os responsáveis pela manutenção desse sistema logo tomam as providencias necessárias. Se formos às ruas denunciar o estado, o sistema aciona o antivírus (policia) para destruir os focos de resistência. Quando insistimos em ações que nos tragam vantagem e combata o racismo, a máquina estatal para e o sistema se reinicia. Projetos de leis são engavetados ou voltam para serem redigidos no sentido de contemplar o sistema e seu status quo. Precisamos sair do sistema para combatê-lo. Precisamos de uma nova matriz que nos permita navegar pelo estado sem ser dirigido por seu sistema.

Fonte: Folha Popular.